Burgess Shale e a Reforma Darwinista

No Sexto período da faculdade, tivemos que ler um livro e resumi-lo, além de construir um comentário pessoal no final do relatório. O nome é Vida Maravilhosa, de Stephen Jay Gould, que trata da evolução da vida no planeta Terra e de como alguns invertebrados inocentes do Cambriano mudaram nossa maneira de enxergá-la.

Eis o livro da vez.

Como o assunto é interessantíssimo, resolvi enxugar o máximo possível meus escritos originais e postá-los aqui no blog, para proveito de quem quer que se interesse. Boa leitura!

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A Iconografia de uma Expectativa


Burgess Shale, encravado nas geladas montanhas rochosas canadenses.

Encontrados nas Montanhas Rochosas canadenses, os fósseis de Burgess Shale constituem talvez os mais importantes do mundo, já que permitiram estudar um dos eventos mais obscuros envolvendo a vida na Terra: a explosão cambriana.

Tais preciosidades científicas foram descobertas por um dos maiores paleontólogos americanos, Charles Walcott, que os interpretou de forma equivocada, posicionando-os em um período de tempo muito mais recente, até que décadas depois Harry Whittington publicou uma série de trabalhos que mudaram nosso modo de ver a evolução.

Os animais escavados eram tão estranhos que se fez necessário criar filos diferentes para eles. Além de representantes de todos os quatro grandes grupos de artrópodes (trilobitos, crustáceos, quelicerados e unirremes) existem de 20 a 30 espécies que não podem ser colocadas dentro de nenhum filo existente nos dias de hoje.

Graças a eles sabemos hoje que a vida evolui através de extinções massivas seguidas de diferenciação dos sobreviventes, e não por uma caminhada segura e cada vez mais alta, em direção a um progresso ininterrupto.

Ao mesmo tempo, sabemos que o chamado “darwinismo social” se estendeu como uma praga entre os céticos radicais, causando desde pequenos erros racistas em publicações científicas até holocaustos inteiros.

“A marcha do progresso é a representação canônica da evolução – aquela imagem imediatamente captada e visceralmente compreendida por todos.” Até mesmo a palavra evolução se tornou sinônimo de progresso.

Esse tipo de figura está de tal modo enraizado no nosso modo de pensar que é difícil acreditar que não corresponda a verdade.

Pior ainda quando a imagem se presta a piadas criativas sobre o futuro do homem em geral...

...Ou de certas personalidades mais específicas. A própria palavra "evolução" virou sinônimo de "progresso."

A figura de uma árvore que se expande a partir do tronco para visualizar a evolução e a diversificação dos seres vivos também não é muito apropriada quando pensamos em homoplasias ou na transferência lateral de genes por vírus nos vegetais. Talvez fosse mais apropriado pensarmos numa árvore em que os galhos voltam a se fundir vez por outra.

Do mesmo modo, a metáfora de uma árvore de diversidade crescente, os mamíferos ocupando o topo, serviram para reforçar a mesma idéia por mais de um século.

Esse novo tipo de visão esbarra até mesmo no nosso conceito de lugar na evolução. Deixamos de ocupar o topo da árvore para figurarmos num canto miserável qualquer da periferia.

A árvore sugeria uma evolução previsível, que ia do simples ao mais complexo, a humanidade no auge. Hoje sabemos que a maioria das criaturas “simples” não são ancestrais do homem, mas ramos laterais independentes.

Os fósseis de Burgess, por sua idade extremamente avançada no registro geológico, deveriam apresentar simplicidade anatômica sendo, provavelmente, formas primitivas convivendo com animais modernos ou mesmo ancestrais de seres que conhecemos hoje. Mas isso não se deu.

Whittington e seus colegas descobriram que essas criaturas eram muito mais ricas em suas variações anatômicas do que é encontrado em nossos dias na natureza. A amplitude dessa variação foi diminuindo logo após o surto inicial, através de sucessivas extinções, com uma posterior diversificação contida nos planos básicos sobreviventes.

Muito embora o número de espécies hoje seja maior do que em qualquer época conhecida, essa variedade é baseada numa pequena amostra de tudo o que já viveu sobre a Terra.

Toda a biodiversidade vivente hoje se irradiou de uma parcela ínfima de ancestrais que tiveram a sorte (?) de viver o suficiente para deixar descendentes.

Mas, a cada grande extinção, estariam os sobreviventes melhor equipados por terem sobrevivido ao desafio? Ou foi o simples acaso que os escolheu?

“Muitos grupos podem triunfar ou desaparecer por razões que nada tem a ver com o que serve de base para o êxito darwiniano em tempos normais.”

A evolução da vida seguiu um caminho único influenciado por bilhões de pequenos acasos que jamais voltariam a se repetir caso voltássemos no tempo e mudássemos um pequeno detalhe no inicio de tudo. Nem o homem ou qualquer outra espécie está viva hoje pode ser o ápice da evolução, somos apenas os escolhidos temporários de um meio ambiente que de quando em quando devasta grandes grupos biológicos.

Mas,“a rejeição da escada e do cone não nos joga nos braços do seu presumível oposto – o puro acaso.(…) Embora possamos compreender que o velho determinismo não pode mais ser aceito, achamos que nossa única alternativa está no desespero da pura casualidade. (p. 51)”

É o que na história recebe o nome de contingência, o poder do acaso  mesmo nos mínimos detalhes e que influenciarão os eventos futuros num nível cada vez maior por toda a eternidade.

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Algumas Informações Sobre Burgess Shale


O aparecimento repentino de vida complexa no registro fóssil continua um mistério para a ciência moderna.

No inicio da Era Paleozóica, por exemplo, temos o súbito aparecimento de animais com partes duras. Os fósseis de Burgess Shale, por sua vez, datam de um tempo um pouco depois da grande explosão, cerca de 50 milhões de anos após o evento.

Enigmaticamente, o registro fóssil do Pré-Cambriano não contém registro de animais com características morfológicas parecidas com os que vêm logo a seguir, por isso o apropriado nome “explosão cambriana”, pois é como se todos os organismos mais complexos houvessem surgidos de repente sobre a Terra.

Por muito tempo, a ausência de fósseis no período anterior fez com que alguns criacionistas argumentassem que essa era a prova de que os organismos foram criados repentinamente por Deus. Seja como for, o assunto incomodava Darwin que, “sempre honesto ao expor as dificuldades encontradas por suas teorias”, dedicou uma parte de A Origem das Espécies ao estudo desse mistério. Ele usou a irregularidade do registro fóssil como argumento para a falta de evidência de vida anterior ao Cambriano.

Existem, é claro, aqueles que vêem nisso o dedo de Deus.

De fato, só nas últimas décadas foram encontrados fósseis do Pré-Cambriano, mas são tão diferentes que não se pode traçar uma linha evolutiva contínua até seus descendentes, e o problema da diversificação explosiva permanece o mesmo, agora mais inquietante.

Pelo que sabemos, nos primeiro 2,4 bilhões de anos a vida permaneceu unicelular e procarionte. E mesmo quando ela surge, o tempo decorrido entre elas e os primeiros seres unicelulares é maior que o da explosão até nossos dias. A imperfeição do registro fóssil é algo que incomoda os evolucionistas, principalmente pela falta de partes moles preservadas. Isso é especialmente ruim porque a maioria dos animais não tem partes duras. Como conseqüência, grande parte do que sabemos sobre o passado vem de “locais de veio”, ou seja, grandes concentrações fósseis provocadas por condições especiais como sedimentação abrupta do ecossistema, ausência de oxigênio no local da deposição ou mesmo os tipos de bactérias responsáveis pela decomposição.

Burgess Shale é um desses veios, mas apresentando uma gama de variações anatômicas muito além da que existe hoje, uma característica exclusiva da primeira explosão de vida multicelular. Nos 500 milhões de anos subseqüentes, nenhum outro filo surgiria na Terra. Os cientistas se perguntam como tal variedade pode ter sido possível num período tão curto.

A descoberta desse rico veio fossilífero deve-se ao empenho e à paixão de um grande geólogo, Charles D. Walcott.

O espírito aventureiro levou Walcott à uma das maiores descobertas da história da ciência, porém os valores sociais da época o deixaram cego quanto à magnitude do que descobriu.

Nos últimos dias de agosto de 1909 ele encontrou as primeiras rochas e prosseguiu até o dia 7 de setembro, quando a neve o impediu de prosseguir, ainda que ele tenha muito provavelmente conseguido encontrar os leitos principais já nessa primeira temporada.

Na década de 1930, Percy Raymond, um professor de Harvard reabriu a pedreira, coletando mais espécimes. Foram basicamente esses espécimes que serviram de estudo sobre a fauna de Burgess Shale, pelo menos até a interpretação revolucionária conduzida  na década de 1960.

Nos verões de 1966 e 1967 vários cientistas usaram dinamite e helicópteros para extrair uma quantidade absurda de material, ainda que Whittington tenha espirituosamente observado que a maior revolução tenha sido a caneta com ponta de feltro, possibilitando marcar o fóssil logo após sua extração.

Em 1981 e 1982, Des Collins, sem permissão para explorar mais uma vez o sítio, escavou nas regiões circundantes e encontrou 12 novos veios, com espécies inéditas.

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A Reconstrução de Burgess Shale

Burgess Shale e um de seus fósseis: Patrimônio da Ciência.

Apesar da importância das escavações de Whittington em 66 e 67, foram os velhos fósseis de Walcott que melhor serviram para formar a idéia revolucionária que Burgess proporcionou.

Podemos dizer resumidamente que quatro pessoas estiveram envolvidas diretamente na reinterpretação dos organismos:

Harry Whittington – iniciador do projeto e catedrático de geologia de Cambridge.

Simon Conway Morris, David Bruton e Derek Briggs – estudantes de pós-graduação.

Burgess, como se fosse mesmo um presente divino forjado no Cambriano, tem ainda a qualidade de fornecer fósseis tridimensionais, mesmo que numa minoria. Esses exemplares foram vitais para Whittington revelar estruturas anatômicas dos animais.

A sedimentação da lama podia ocorrer de forma abrupta, encerrando o organismo inteiro de uma só vez. Embora a grande maioria dos fósseis seja realmente muito comprimida, uma parcela deles não é, e basta que se retire cuidadosamente (as vezes grão por grão de areia) os folhelhos que constituem a rocha, adentrando o organismo quase como se ele tivesse acabado de morrer.

Whittington iniciou seus estudos com o gênero mais abundante de Burgess Shale, Marella. Até então, desde os tempos de Walcott essa criatura havia sido classificada dentro da classe Trilobita. Mas um especialista amigo de Whittington percebeu diferenças significativas com os trilobitas e contestou a antiga classificação, ainda que achasse que ele pertencesse ao grupo dos artrópodes. Até Whittington aparecer todos os cientistas fizeram isso, mesmo aqueles que não concordavam totalmente com Walcott. Parte dessa inércia se deve a idéia tradicionalista de que os fósseis representavam estágios primitivos de grupos viventes mais complexos. Chegou-se a fazer uma união taxonômica com base na semelhança dos apêndices quando as diferenças abrigaram a retirar Marella na classe Trilobita.

Marella

Whittington, cauteloso e sistemático, afirmou que a aparência geral do corpo de Marella deixava de existir quando olhada mais de perto. Apenas as estruturas básicas eram similares. O número de seguimentos nas pernas, principalmente, serviam para enfatizar a dúvida.

Em 1971 Harry estava preso à idéia de que os organismos de Burgess tinham que ser primitivos, fossem membros não especializados de grupos grandes ou mesmo ancestrais com características de vários grupos e que podiam ser considerados os pais de todos eles.

Hesitante, ele classificou Marella como um grupo próximo dos trilobitas, mesmo sentindo que alguma coisa estava errada.

A monografia de Yohoia, publicada em 1974 avançou um passo na direção da grande transformação que viria a seguir. Até então, Marella havia lhe dado uma conclusão correta: aquele organismo não podia ser enquadrado em nenhum grupo conhecido de artrópodes. Porém, ainda faltavam as bases conceituais para uma mudança definitiva.

Yohoia.

A bizarrice mais explícita é o grande par de apêndices presos à cabeça, usados para agarrar a presa com quatro espinhos poderosos em cada um. Tal estrutura confundiu Whittington, pois são totalmente únicas entre os artrópodes. Cauteloso, mesmo assim ele não propôs nenhuma teoria formal, mas acrescentou um ponto de interrogação após classificá-lo como Trilobitoidea.

Coisas ainda mais estranhas viriam pela frente, diante das quais Marella e Yohoia pareceriam meras excentricidades. Embora esses dois organismos tivessem preparado Whittington para a peculiaridade da fauna de Burgess, ele definitivamente teve uma surpresa ao de deparar com Opabinia.

Desde Walcott, em 1912, não havia a menor dúvida quanto à natureza artrópode desse animal. Embora os fósseis fossem raros, Walcott descreveu o gênero antes de todos os artrópodes de Burgess. O corpo alongado e cheio de segmentos o fez crer que aquele animal tinha grandes chances de ser o ancestral dos anelídeos, o que faria dele o artrópode mais antigo do sítio.

Opabinia.

O pequeno animal, tímido e empoeirado nas gavetas, praticamente pedia para ser submetido às mais novas técnicas da paleontologia: dissecação através da rocha para observar estruturas internas, e Whittington o fez. Ele pretendia encontrar os frágeis e hipotéticos  apêndices da cabeça de Opabinia, esmagados e escondidos sob a carapaça, mas não encontrou nada. Opabinia não era um artrópode, na verdade não era nada que alguém pudesse especificar.

Em sua monografia, Whittington enumerou 6 características que excluíam Opabinia do grupo de artrópodes:

1 – Cinco olhos sobre a cabeça.

2 – O focinho frontal não é uma probóscide nem se originou de uma fusão de antenas.

3 – O intestino faz uma estranha curva em forma de U na cabeça, produzindo uma boca voltada para trás.

4 – A porção principal do tórax constitui-se de 15 segmentos.

5- A disposição das brânquias sobre os lóbulos não seguem nenhum padrão convencional.

6 – os três últimos seguimentos formam uma estranha cauda voltada para cima e para fora.

Whittington chegou a essas conclusões depois de muito esforço envolvendo várias técnicas, desde a observação incansável de espécimes conservadas em várias posições até o novíssimo método de dissecação com broca de dentista, lâmina por lâmina.

Embora Yohoia e Marella tivessem causado certo frisson, eles continuavam artrópodes, ainda que isolados dentro do filo. Opabinia, porém, foi a descoberta definitiva, a passagem para outro nível de compreensão da vida.

Ele sabia que tudo isso bem podia ser apenas a ponta do iceberg. Depois de selecionar novos gêneros que ele mesmo estudaria, dividiu os outros artrópodes em três grupos, cara um conduzido por um colaborador.

Simon Morris, um jovem esquisito e anti-social parecia um dos alunos menos indicados para enfrentar os vermes, um grupo diversificado que havia sido classificado como tal unicamente por terem simetria bilateral e corpo alongado. Ele tinha diante de si cerca de 8 mil espécimes da coleção de Walcott guardados nas gavetas do Instituto Smithsoniano. Morris vasculhou os armários buscando sistematicamente os espécimes mais bizarros:

Nectocaris – A cabeça desse animal assemelha-se a de um artrópode, com um ou dois pares de apêndices curtos mas provavelmente não articulados. Na parte posterior, há uma carapaça oval achatada, bivalve.

Nectocaris numa bela aquarela.

As semelhanças com os artrópodes param por aí. O corpo alongado, constituídos por cerca de 40 segmentos não apresenta nenhum apêndice articulado, sugerindo mais um parentesco com os cordados que com os artrópodes.

Odontogriphus – Animal alongado, ovóide, bastante achatado e possivelmente de consistência gelatinosa. Atrás da região frontal o corpo é marcado por uma série de linhas transversais que Morris julgou serem anéis e não divisões reais do corpo. Ventralmente, uma boca circular é rodeada por algum tipo de estrutura alimentar.

Odontogriphus

Hallucigenia – Para muitos esse é o mais estranho personagem de Burgess. Sua simetria bilateral é a única característica que faz Hallucigenia algo parecido como o que os biólogos estão acostumados. Quando foi descoberto, nem se sabia que lado era ventral ou dorsal ou posterior e anterior.

Hallucigenia, com ares de extraterrestre.

Hallucigenia possui uma cabeça bulbosa numa extremidade mal preservada em todos os espécimes. Isso faz com que faz com que alguns estudiosos considerem o animal parte de um organismo ainda maior, que se desprendeu. De toda forma, nem se sabe se esta é mesmo a região cefálica.

Sete pares de espinhos não articulados ligam-se aos lados do tronco, ventralmente, enquanto por cima sete tentáculos com pontas bifurcadas se dispõem em fila. O modo como esse animal podia se movimentar intrigou e gerou discussões entre os estudiosos de Burgess. Conway Morris conjecturou que os espinhos serviam para firmar o animal num substrato lodoso, movendo-se pouco e devagar com a ajuda de músculos especiais.

Os tentáculos também trouxeram problemas e, junto com eles, hipóteses. Morris julgou que os tubos eram ocos e ligavam-se a um tubo digestório estendido através do corpo. Talvez nem existisse boca, os tentáculos capturavam os alimentos e os engoliam.

Os trabalhos continuaram com Derek Briggs, o outro acadêmico recrutado para ser responsável pelos artrópodes bivalves.

Branchiocaris, dono de uma carapaça bivalve que cobria não apenas a cabeça mas também dois terços do corpo. Este, por sua vez, apresenta 46 segmentos, afinalando na parte posterior e terminando num telso bifurcado.

Branchiocaris.

Como a cabeça de todos os crustáceos é o resultado da fusão de cinco seguimentos originais, isso origina cinco pares de apêndices bem dispostos, e era isso o que Briggs esperava encontrar. Porém, não foi o que aconteceu. Ele encontrou apenas dois pares na região de cima e nada mais. Branchiocaris não era um crustáceo. O grupo que mais prometia comportar-se de acordo como script também revelou disparidades insuspeitas.

Harry havia aceitado a nova forma de ver a evolução, e os estudos que vieram a seguir só reforçaram isso. Sua próxima monografia já se iniciou com essa nova visão.

Aysheaia, descrito pela primeira vez por Walcott como um verme anelídeo logo mostrou os costumeiros sinais de divergência com esse grupo. Primeiramente o gênero foi aproximado dos onicóforos (um grupo de organismos que reúnem características de anelídeos e artrópodes.). Assim, se Aysheaia fosse um onicóforo do Cambriano seria uma criatura “extremamente importante do ponto de vista evolutivo”, uma vez que poderia fornecer informações valiosíssimas de como artrópodes e anelídeos divergiram de um ancestral comum.

Aysheaia.

O animal possuía um corpo cilíndrico, organizado em anéis e com dez pares de membros. Só essas características serviriam para encaixar Aysheaia dos onicóforos mas Whittington logo encontrou diferenças significativas como ausência de mandíbulas e o término abrupto do corpo após o último par de membros, e por isso considerou o gênero dentro de um grupo à parte.

Gould, por sua vez, sem lançar suspeitas sobre os méritos das pesquisas de Whittington, acha que ele se precipitou em separar Aysheaia dos onicóforos, pois os caracteres diagnósticos discrepantes são demasiadamente superficiais diante das semelhanças. As mandíbulas, por exemplo, nos diz ele, podem simplesmente terem evoluído numa época posterior. No entanto, acrescenta Gould, isso demonstra que Whittington havia aceitado completamente a nova forma de enxergar a evolução.

Enquanto isso, Briggs continuava seus estudos com os artrópodes bivalves.

Odaria, o maior dos artrópodes, era representado por 29 espécimes.

Na frente da cabeça desse animal havia um par de olhos, os maiores de todo o sítio. Contudo, só havia outra estrutura apoiada na região cefálica, um par de apêndices curtos logo atrás da boca. A ausência de outras estruturas já bastariam para deixar Odaria em um grupo separado dentro dos artrópodes, mas a má preservação da cabeça em todos os fósseis impediu resultados conclusivos.

Odaria, o quarto à direita.

O corpo, quase todo coberto por uma carapaça, possuía cerca de 45 segmentos dotados com membros birremes. Entretanto a carapaça não era achatada mas tubular e os membros não tinham comprimento para se protraírem. A cauda, definitivamente esquisita e única, dividia-se em três pontas como numa hélice. Briggs considerou que a locomoção do animal era estranha: ele nadava de costas, utilizando a cauda como hélice e a carapaça como câmara de filtragem, com os apêndices servindo para separar o alimento da água. Nas palavras de Briggs, “uma funcionalidade única entre os artrópodes”, e pronto, lá se criava mais um grupo.

Em 1981 David Bruton, outro mestrando de Whittington, publicou a monografia sobre Sidneya. Walcott havia considerado o gênero como o maior de Burgess, hipotetizando ainda que um apêndice espinhoso encontrado separadamente fosse ligado à cabeça da criatura.

Sidneyia.

Colocada originalmente dentre os merostomados (límulus e euripiterídeos fósseis), Bruton mostrou o quando isso era impróprio pois os caracteres apresentados para a classificação eram plesiomórficos.

“Os tempos de Burgess foram uma época de experimentação, uma era de tal flexibilidade evolutiva, de tamanha potencialidade na incorporação e rearranjo aleatório de características encontradas nos artrópodes que quase qualquer combinação potencial poderia ser tentada (e aniquilada).”

O paleontólogo Des Collins, impedido de escavar em Burgess, procurou consolo em sítios vizinhos, e acabou encontrando. Alem de espécies idênticas ao do parque, houve descobertas inéditas.

Sanctacaris tem uma carapaça na cabeça bulbosa, que se estende lateralmente e forma uma projeção de cada lado da cabeça. O corpo é segmentado e o telso largo e achatado. O que mais surpreende, no entanto, são os poderosos apêndices na boca usados para agarrar as presas, próprios dos quelicerados. Mas as divisões do corpo, a ausência de quelíceras verdadeiras e a posição do ânus o afastavam filogeneticamente, fazendo de Sanctacaris um grupo-irmão.

O portentoso Sanctacaris, animal extraordinário.

E finalmente, depois de muita confusão, temos o grande Anomalocaris, descoberto em sítios antes mesmo de Burgess Shale virar notícia. A monografia final foi publicada em 1985 por Whittington e Briggs.

E o maior de todos os carnívoros dos tempos de Burgess: O belíssimo Anomalocaris.

Uma cabeça oval grande com olhos apoiados em pedúnculos curtos e uma boca ventral circular. O corpo alongado possuía abas laterais que ele utilizava em seu modo de vida pelágico, devendo em muitos pontos lembrar o movimento de uma raia.

A segmentação do corpo e dos apêndices orais é a única coisa que lembra um artrópode. A boca circular, ao que parece sempre semi-aberta, é diferente de tudo o que existe no filo Arthropoda, e mesmo o par de apêndices, apesar de articulados, parecem ter outra origem.

Apesar dos “experimentos” de Burgess, encontramos lá também vários filos modernos. Gould insiste nesse ponto. Ele achava que, além de representantes dos quatro principais grupos de artrópodes, há indícios de pelo menos vinte novos designes únicos dentro do filo e pelo menos oito filos novos. Paralelamente, as estatísticas indicam que pelo menos metade das criaturas de Burgess ainda esperam por descrição nos armários do museu onde estão guardadas.

Em 1986 Morris publicou um vasto trabalho sobre a ecologia de Burgess.

A ecologia de Burgess se mostrou muito mais complexa do que os cientistas acreditavam ser possível.

Pela quantidade excessiva de algas ele concluiu que o ambiente era um mar raso e quente. A maioria dos animais ocupava nichos bem definidos, numa teia bem mais intrincada do que até então se julgava possível na época. Morris concluiu que, ao contrário do que se supunha, a vida marinha havia alcançado um grau de complexidade tão elevado quanto à de hoje. Isso serviu inclusive como prova de que a ecologia de Burgess havia alcançado estabilidade, ou seja, apesar de muito diferente, deu certo por um tempo relativamente longo.

Enquanto os trabalhos se irradiavam (infelizmente não com a velocidade ideal, visto que as monografias não tem grande popularidade nem mídia) mais fósseis foram descobertos em várias partes do mundo. Seres parecidos foram descobertos em camadas mais antigas, do Cambriano Inferior. Isso causou estardalhaço porque permitiu concluir que o fenômeno da disparidade ocorreu mesmo durante a explosão propriamente dita. Os organismos de Burgess já eram descendentes estabilizados de ancestrais que continuam misteriosos até os dias de hoje.

Gould chega a uma bifurcação principal, que constitui o início de uma conclusão. Como pôde haver tal disparidade num período tão curto de tempo? E porque essa mesma diversidade sofreu um grau tão massivo de destruição?

Para explicar a origem dessa fauna absurda, existem três teorias principais:

1 – O mundo vazio de vida no Pré-Cambriano permitiu uma gama muito variada de formas para os primeiros seres vivos do planeta. A medida em que os grupos e espécies se estabeleciam em seus nichos, havia menos espaço para o surgimento de outros. “A diversidade é auto-reguladora”, uma teoria em conformidade com o pensamento de Darwin.

Gould admite que as oportunidades naquela época realmente nunca mais se repetiram. Mais que isso, reconheceu que sempre após uma extinção em massa há um período de posterior variabilidade. No entanto, ele acha estranho que desde então não se tenha produzido um único filo novo.

2 – Uma outra teoria sustenta que o material genético perca sua potencialidade a medida em que o tempo transcorre e os seres vivos se reproduzem. É como se os primeiros organismos, mais próximos da fonte, da “energia vital” pudessem escolher uma maior variedade de genes, mas ficassem à mercê desses mesmos genes após as escolhas, não sendo permitido, para o bem ou para o mal, voltar atrás. Criações boas originavam organismos bem sucedidos, as que não tinham tanta plasticidade ao meio levavam a um beco sem saída evolutivo.

3 – Por fim, usando uma analogia já utilizada por outros autores, Gould nos apresenta sua teoria favorita, a de que “a diversificação inicial e posterior fechamento” é uma propriedade inerente aos sistemas biológicos. Se encararmos o mundo vivo com a metáfora de uma região montanhosa, fica mais fácil visualizar isso.

Imagine que cada pico representa um nicho ecológico favorável, pronto para receber quem vier primeiro. No início, quando não existe competição entre as espécies e o mundo está bem despovoado, é possível para um organismo dar saltos evolutivos considerados arriscados e mesmo assim aterrissar numa montanha vazia. No entanto, a medida em que o mundo se povoa, as chances de um salto em falso aumentam, pois não há tantos lugares disponíveis como antes. Saltar tão longe e errar significa extinção na certa, as excentricidades anatômicas só são possíveis num mundo onde pouca coisa já foi testada e aprovada.

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A Visão de Walcott e a Natureza da História


Gould inicia o capítulo 4 com uma biografia detalhada de Walcott, enfatizando pontos de sua personalidade que supostamente tenham sido responsáveis por sua adesão ao modelo de diversidade do cone de diversidade crescente e a idéia de que a evolução segue um caminho de progresso.

Sério, tradicionalista e totalmente pertencente ao seu tempo, Walcott era partidário dos bons costumes e possivelmente de todas as teorias racistas muito em voga na época.

Gould nos lembra que o conservadorismo e o puritanismo norte-americano criou um verdadeiro movimento anti-evolução, algo que pudemos observar mesmo agora, em tempos mais recentes.

A época de Walcott foi uma época de crise religiosa e ele, como homem tradicional, tentava buscar respostas que fizessem com que ciência e crença pudessem caminhar juntas. Ele via Deus através do “caráter ordenado, previsível e progressivo da história da vida.” A evolução, para ele, conduzia ao progresso, e como não ver um plano divino nisso?

A árvore da vida na forma de um cone crescente a partir da base se tornava cada vez mais popular e também subjetiva, já que os autores colocavam os animais em suas posições acima ou abaixo de acordo com seus próprios critérios racistas.

Gould afirma que Darwin percebeu o efeito do acaso nos detalhes, enquanto as leis evolutivas só traçariam um plano básico de estruturas. Darwin disse que “os detalhes estão situados na esfera da contingência, a qual não é direcionada pelas leis que estabelecem os canais ao longo dos quais se processa a evolução.”

O fato é que os homens continuavam modificando as pesquisas de modo a se encaixarem em seus padrões.  O principal impedimento ao avanço da ciência sempre foi a influência subjetiva que os estudiosos aplicam em seus estudos, na maior parte das vezes de forma inconsciente.

5

Mundos Possíveis: O Poder da “Simples História


Gould utiliza o capítulo 5 como fechamento para a nova idéia proporcionada por Burgess Shale de como a vida seguiu sua trilha através de bilhões de anos de evolução.  Quando Darwin escreveu A Origem das Espécies, nos diz ele, ao falar sobre “melhor adaptado” ele quis dizer “mais adequado a um ambiente sujeito a alterações.” E são essas mudanças repentinas a causa primordial das guinadas evolutivas percebidas nos registro geológico. Gould argumenta que Burgess Shale foi o insight que faltava a essa nova visão da vida.

Por fim, ele nos brinda com exemplos, trilhando caminhos hipotéticos que a vida poderia ter seguido se as espécies sobreviventes no passado tivessem perecido.


COMENTÁRIO PESSOAL:


Antes de começarmos, devo esclarecer o que entendo por comentário pessoal: Ao contrário de um resumo, onde colocamos a idéia do autor de modo sucinto e imparcial, um comentário nos dá a liberdade de expressarmos nossas opiniões e tudo aquilo que o livro nos fez pensar, por mais disparatado que seja – e a psicanálise que me defenda.

Por exemplo, quando alguém sai do cinema e comenta o filme com a pessoa ao lado, está não apenas dizendo sobre o que ocorreu na história, mas impregnando as ações dos personagens e a narrativa com suas próprias vivências e especulações, muitas vezes apontando falhas ou dando um final diferente para a história. Assim, se tivéssemos a ousadia de tentar juntar todas as opiniões e idéias que emergem de um livro, por mais banal que seja, perceberíamos logo que as possibilidades são quase infinitas, e nisso reside a beleza da literatura.

Humildemente, devo dizer que tive o privilégio de nascer com o dom da prolixidade, então, para que meus textos não se tornem ninhos de marfagarfos impenetráveis, tenho que comumente recorrer a alguns estratagemas. Nesse comentário, decidi dividir tudo em tópicos. Se a qualidade do texto é lá discutível, pelo menos temos a vantagem de uma leitura com mais clareza. Primeiro, dividirei meu comentário em duas partes básicas: Na primeira delas farei uma discussão mais objetiva, salientando os pontos mais importantes que achei. Depois, tentarei discutir outras idéias que me foram evocadas enquanto eu prosseguia na leitura, mas já pendendo mais para o lado da filosofia. Essa divisão tem dois motivos: Primeiro, comunicar ao meu professor que eu realmente levei a leitura a sério e, segundo, é uma tentativa de não fazer meu comentário parecer pedante ou, pior ainda, árido e inútil.

Então, começo dizendo que adorei o livro. E digo isso com a propriedade de quem se viu duplamente resistente em iniciar a leitura. Por um lado já havia tentado ler dois outros livros do autor sem sucesso, por outro estava desde o terceiro período ouvindo colegas de faculdade me dizerem que Gould iria destruir minhas convicções evolucionistas.

O maior de todos os cientistas, Charles Darwin. (Obrigado Thalita por ter scaneado pra mim e obrigado a Sue por ter enviado esse postal direto do Museu Nacional de Londes).

De modo que comecei com um frio na barriga, defensivamente, esperando a cada parágrafo encontrar sentenças que batessem de frente com tudo o que eu acreditava. (Certamente essa atitude de pré-concepção foi a responsável pela segunda parte do meu comentário, mas não consigo saber se ela me deixou mais atento a pequenas contradições ou mais cego às explanações de Gould).

De qualquer forma, a leitura prosseguia e eu não achava nada fora de propósito ou estranho ao que eu tinha aprendido.

Não foi de uma hora para a outra, mas percebi que eu tive o privilégio de crescer durante a década de 90, onde as descobertas de Whittington estavam bem assentadas e (talvez surpreendentemente) tiveram a chance de chegar até a mim.

Naturalmente não tomei conhecimento delas através dos livros escolares do ginásio, nem de modo tão coeso e didático. Fui uma criança, como a maioria, que passou boa parte do tempo com os olhos grudados na televisão. Mas além de desenhos animados e filmes, eu não apenas assistia como gravava muitos documentários da TV Escola. E eram bons documentários. Naquela época, nunca tinha ouvido falar em Burgess Shale, Whittington, Morris ou mesmo Gould, mas garanto que as idéias deles estavam lá, nas entrelinhas. Lembro-me perfeitamente de um documentário chamado O Elo Cósmico (que inclusive dá nome a uma de minhas postagens) onde ouvi pela primeira vez um paleontólogo falar que não é possível dizer que o cérebro de um ser humano é melhor que o cérebro de um lagarto, por exemplo.

Todas essas idéias envolvendo a evolução das espécies, tempos geológicos diante dos quais parecemos formigas, grandes ou pequenos fatores casuais sem os quais não estaríamos aqui, tudo isso fermentando no cérebro instável e meio derretido pela puberdade de um adolescente impressionável me estarreceu como poucas coisas na vida. Gould me levou de volta a uma época de descobertas, de questionamentos, de desamparo, de revolta contra as instituições, mesmo que tudo isso apenas no plano intelectual. Uma época em que queremos saber de tudo, e instantaneamente.

Não sei se por ter lido em algum lugar, se intuitivamente, mas já naquela época percebi que a metáfora de uma árvore para representar a evolução não condizia bem com a verdade. A partir de então passei a imaginá-la como um líquen sobre uma rocha, irradiando-se em todas as direções; mas com nenhuma parte “acima” ou “abaixo” de outra. Porém, lendo Vida Maravilhosa percebi que essa nova imagem também não é de todo certa, pois continua passando a idéia de diversidade crescente. Penso agora que um líquen desgastado, com rombos e rasgos deve servir melhor.

Gostei muito, no capítulo 1, quando Gould fala longamente sobre a velha iconografia mostrando a evolução do Homo Sapiens – um primata minúsculo e corcunda que vai ficando progressivamente mais ereto, até chegar, de preferência, no David de Michelangelo.

Eu já tinha lido em alguma revista que grande parte dos hominídeos ali representados nem de longe eram ancestrais de nossa espécie. Mas coincidentemente foi um outro livro de Gould, A Falsa Medida do Homem,  que assentou em mim a falácia de tal representação, além de me dar uma base muito boa para compreender os detalhes das teorias evolucionistas racistas do início do século XX.

Vida Maravilhosa serviu para consolidar minhas idéias, me dar muito conhecimento sobre o sítio paleontológico mais importante do mundo e soerguer várias outras questões (mais ou menos filosóficas) que abordo agora, com muita humildade, na segunda parte do meu comentário.

1 – As Contradições (?) de Gould:

Gould.

Considero o capítulo 4 o mais interessante de todos, pois é onde Gould alerta para o subjetivismo e as idéias pré-concebidas na ciência, um assunto que sempre me interessou. Porém, em alguns parágrafos, achei que ele próprio foi contraditório ou tendencioso.

Por exemplo, na página 297 chegamos a um subcapítulo interessante, onde Gould evoca um Walcott seguidor de Darwin. Primeiramente ele nos diz que tal condição de discípulo

“implicaria uma firme crença na importância da peculiaridade e do oportunismo nos caminhos evolutivos e uma profunda concepção de que a história da vida trata de adaptação a ambientes locais variáveis e não de progresso em termos gerais. (p. 297)”

Ninguém poderia ter explicitado de forma melhor.

Mas logo depois Gould afirma que Darwin foi “um homem complexo”, atormentado por uma dúvida capital em sua teoria. Ao mesmo tempo em que não queria julgar nenhuma espécie superior à outra, vivia no contexto de um clima político inverso, o auge da Inglaterra imperialista, o que o levou a escrever algumas vezes que

“os organismos que viveram em cada uma de suas sucessivas fases da história do planeta superaram seus predecessores na corrida pela vida e, neste sentido, ocupam uma posição mais elevada na escala da natureza. (p. 298)”

Desde então, nos diz Gould, as flutuações na sociedade nos fazem pender para o lado do pensamento darwiniano que mais se adéqua a nossos interesses e ideologias.

Em minha opinião Gould hipertrofiou o dilema de Darwin, pois acho bastante arriscado dizer que o velho cientista se dividiu “meio-a-meio”.

A despeito de cartas pessoais que tenha mandando ou mesmo comentários anotados por terceiros, creio que a imensa bibliografia deixada por Darwin mostra claramente que ele estava mais pendido para a idéia de não-progresso. Enquanto trabalhava no rascunho de A Origem das Espécies, ele chegou a rabiscar na orelha do manuscrito: “Nunca dizer que uma espécie é melhor que outra.”

Já na página 298, temos um 3º parágrafo bem grande, mas muito importante, onde Gould nos diz o seguinte:

“Darwin tem sido o principal guru científico há mais de cem anos e, como as duas visões são genuinamente parte de seu pensamento, sucessivas gerações tem propendido a abraçar o lado que mais se coaduna com as verdades ou reformas que desejam apoiar. Em nossa época, tão próximos do “progresso” de Hiroshima e atormentada pelos perigos da industrialização e do armamentismo, tendemos a encarar como ficção social a nítida adesão de Darwin à idéia de que as modificaões representam ao mesmo tempo progresso e adaptação ao ambiente local. Na geração de Walcott, porém, e em especial para um homem notavelmente bem sucedido e com fortes inclinações tradicionalistas, a adesão de Darwin à noção de que o progresso era uma qualidade inerente ao curso normal da história da vida transformou-se no elemento central de um credo evolucionista. Walcott considerava-se darwinista, expressando através desse posicionamento sua firme convicção de que a seleção natural assegurava a sobrevivência dos organismos e um progressivo aperfeiçoamento das formas de vida, numa possível trajetória rumo ao surgimento da consciência”.

Gostaria que o leitor prestasse bastante atenção à contradição que esse parágrafo encerra: Primeiro, Gould diz que Darwin foi influenciado pelo seu meio social a acreditar que a evolução levava ao progresso.

Mas depois, curiosamente, não responsabilizou essa mesma influência para com Walcott, dizendo que para ele a culpa foi um dilema altamente específico de um grande cientista, já morto e enterrado fazia tempo. Será que Walcott acreditou mesmo na idéia de progresso por ter tomado conhecimento de cartas que Darwin enviou a amigos durante a vida? Ou ele terá sido influenciado por um meio ainda mais agressivo daquele vivido por Darwin?

Porque o cientista inglês viveu na Inglaterra imperialista, sim, mas dizer apenas isso é se contentar com meia verdade. Havia algo de podre no reino de sua majestade, a rainha Vitória, e já cheirava mal há algum tempo. No ano de 1939, o país parecia caminhar em direção a anarquia. Evolucionistas malthusianos que viam a vida caminhando para a melhoria das raças denunciavam a decrepitude mantida por um estado anacrônico: asilo para pobres (que se multiplicavam como ratos, manchando a raça humana), privilégios clericais e exploração dos salariados. O socialismo queria derrubar o casamento, a igreja oficial e o capitalismo. A matéria era tudo o que existia, misticismo e religião deviam ser varridos da mente humana. As classes mais abastadas encolhem-se, temendo a desagregação de todos os privilégios.

No século XIX, a inglaterra era percorrida por um frisson de instabilidades.

Pelo menos para os mais esclarecidos, esse foi um período turbulento tanto intelectual, como politicamente. A Inglaterra imperialista parecia forte vista de fora, mas quem andava pelas ruas percebia o tremor que lhe percorria as entranhas.

Darwin não queria sua teoria usada para o tipo de propaganda rebelde que os ateus evolucionistas bravejavam nas sarjetas da Europa, mas acabou que aconteceu isso mesmo, ainda que ele tenha esperando 20 anos para ver se o clima amainava um pouco.

Na verdade o burburinho ganhou força até a época de Walcott, culminando no clímax enlouquecer da teoria ariana nazista.

Achei muito estranho Gould não ter falado sobre um dos fenômenos mais importantes para a biologia histórica ocorridos na história moderna: o darwinismo social.

Infelizmente, é possível sim relacionar essas duas personalidades.

Enquanto Hitler mal havia saído das fraudas, biólogos racistas já perambulavam pelos grandes centros europeus ou viajam longamente até as colônias africanas, percorrendo campos de concentrações que quase ninguém ouviu falar. As atrocidades da Ilha Shark foram esquecidas, mas todos se horrorizam com Auschwitz, sem ao menos suspeitar que as conseqüências nazistas foram preparadas com décadas de antecedência, em que os Estados Unidos da América foram os principais financiadores disso tudo.

Gould prefere salientar o episódio que se contrapunha a isso, e muito superficialmente nos lembra que o conservadorismo e o puritanismo dos norte-americanos criaram uma verdadeira guerra anti-evolução, algo que podemos observar mesmo agora, em tempos recentes.

Continuando, temos uma discretíssima nota de rodapé, na página 354, onde Gould admite algo interessante.

Acredito que ele era um homem não apenas brilhante mas muito honesto, e uma força inconsciente o fazia lembrar o leitor que as suas próprias idéias eram possíveis em um plano teórico. Vejam só:

“Não é possível saber se as formas que fracassaram desapareceram em episódios de extinção em massa ou aos poucos. A primeira situação seria um forte indício em favor da existência de um substancial componente de casualidade da dizimação. Embora não tenhamos a resposta para essa questão, em princípio a solução pode ser obtida.”

Vou repetir: “Embora não tenhamos a resposta para essa questão, em princípio a solução pode ser obtida.” “Em princípio.”

Achei que ele também não explorou um assunto muito interessante e perfeitamente cabível no assunto do livro, que diz respeito a diversidade de vida na Terra. Apesar de nenhum filo ter se originado desde o Cambriano, é interessante que hoje exista um número muito maior de espécies do que em qualquer outra época, ou seja, levando-se em conta o número de espécies, o cone de diversidade crescente se encaixa perfeitamente bem. Ao que parece Gould se contentou com a explicação de que o registro fóssil é impreciso, apesar de ter alfinetado Darwin e Walcott quando ambos recorreram a esse argumento falho.

Por fim, quase no fim do livro Gould escreve um confuso e estranho parágrafo:

“Eu mesmo não acredito que o verdadeiro acaso predomine nas extinções em massa. (…) penso que a maioria dos sobreviventes escapa da morte por razões específicas, muitas vezes por um complexo conjunto de causas, mas também desconfio que, na grande maioria dos casos, os traços que aumentam a sobrevivência durante uma extinção o fazem de maneiras que são incidentais e que não guardam qualquer relação com as razões pelas quais ele originalmente evoluíram. (p. 359)”

Com todo o respeito, mas não parece uma atitude de quem quer ficar em cima do muro? Diante desse parágrafo, compreendo porque alguns evolucionistas consideram as idéias de Gould como uma retificação importante, mas versam sobre algo que já era conhecido e defendido como certo pelos cientistas até ao momento.

Além do mais, Gould mesmo afirma que Darwin percebeu o efeito do acaso nos detalhes, enquanto as leis evolutivas só traçariam um plano a nível básico de estruturas. Darwin disse que “os detalhes estão situados na esfera da contingência, a qual não é direcionada pelas leis que estabelecem os canais ao longo dos quais se processa a evolução.”

Resumindo tudo, a evolução linear de Darwin funciona em tempos de calma, como um paciente construtor de castelos de cartas. Porém, inevitavelmente ocorrem fenômenos da natureza imprevisíveis e inescapáveis que jogam tudo abaixo e mudam as regras do jogo momentaneamente.

2 – As Razões de Gould e a Natureza da Ciência

O principal impedimento ao avanço da ciência é a influência subjetiva que os estudiosos lhe aplicam.

“Nós temos consciência de que nossas predisposições, valores sociais e atitudes psicologias desempenham importante papel na descoberta. Todavia, não devemos nos deixar levar pelo extremo oposto, representado pelo completo cinismo – o ponto de vista de que os indícios objetivos não desempenham nenhum papel, de que as percepções da verdade são inteiramente relativas e de que as conclusões científicas são apenas uma outra modalidade de preferência estética. (p. 281)”

Assim nos diz Gould no início do capítulo 4. E concordo com ele em parte. Mas dentro da ciência, arrisco dizer que talvez apenas a matemática possa gozar do privilégio de estar mais próxima da Verdade, enquanto todas as outras áreas são tão subjetivas quanto qualquer tipo de olhar sobre o universo. Para quem concorda comigo temos do nosso lado ninguém menos que Albert Einstein, quando ele nos diz que

“a ciência, considerada como um projeto que se realiza progressivamente, é tão subjetiva e está tão condicionada psicologicamente quanto qualquer outra empresa humana.”

Hoje existe até uma Ciência da Ciência, ou melhor, uma Sociologia da Ciência, que busca exatamente perceber como as flutuações sociais condicionam os caminhos que os estudiosos e especialistas trilham através da história. Temos até várias interpretações interessantes como a de que, por exemplo, para entender a ciência moderna é necessário ver que ela faz parte do capitalismo, e tem por objetivo garantir seu crescimento e sua continuidade.

É uma maneira revolucionária de ver as coisas.

Por exemplo, há quem veja na oposição entre a Igreja Católica e Galileu como uma manifestação do conflito entre o feudalismo medieval e o capitalismo nascente; atribuir ao sistema de Newton a função de justificar a nova ordem burguesa, etc.

Galileu tenta persuadir um clérico da Igreja: Personificações do embate entre dois mundos.

O início do século XX, marcado por escolas teóricas reducionistas como o positivismo, foi também época de revolução desses preceitos. Aliás, podemos dizer que o positivismo foi apenas o fechamento de toda uma cultura centrada no cientificismo do século XIX.

As primeiras décadas do século passado foram, sobretudo, marcadas pelo ferro quente da dúvida existencial. Foi o tempo da relatividade de Einstein, de Heisenberg e suas incertezas, da bomba H.

Quem tá com Einstein levanta a mão! Apesar da sandalinha...

Gould viveu numa época de decantação dessas idéias, e principalmente durante o surgimento de uma teoria que tinha pretensões de explicar todos os fenômenos do universo: o Caos.

Filha da física quântica, ela contrapôs toda a ciência newtoniana e a arredou para um lado, ocupando um lugar que, se tão importante quanto, tinha o privilégio de atrair mais atenção pelo simples fato de ser novidade. E deveríamos acreditar na sociologia da ciência quando ela nos diz que são os fenômenos sociais que criam os cientistas, porque a Teoria do Caos parecia explicar o estranho mundo do século XX de forma muito mais satisfatória.

Fractais estão sendo usados para explicar a teoria do caos.

Podemos enxergar outras formas de ruptura em outros setores sociais? É evidente que sim. Temos nesse mesmo palco a batalha entre Jung e Freud; o socialismo emergente na outra ponta do mundo com a Revolução Russa de 1917; o alastramento tortuoso mas inexorável da democracia na Europa.

Tanta bipolaridade nos deu de brinde duas guerras mundiais e a conseqüente condensação do pensamento de que o mundo não segue nenhum caminho previsível, nenhuma “marcha para o progresso”.

No ramo das ciências biológicas, podemos distinguir o fim da idéia de que a natureza é uma fonte inesgotável de riqueza e energia. Vida Maravilhosa foi escrito logo após o movimento hippie das décadas de 60 e 70, onde as gerações mais jovens olhavam com temor crescente uma natureza que cada vez mais se tornava uma entidade frágil, à beira do “colapso atômico.”

O movimento hippie foi o prelúdio leve de uma histeria que tomou conta dos nossos dias.

É irresistível extrapolarmos a época de Gould e analisar nossos próprios dias, onde aquela preocupação meio zen proclamada ao som de Beatles foi rapidamente transformada no terror dantesco de uma onda ecológica sem precedentes.

Eu gosto muito de estudar história, principalmente os grandes fenômenos coletivos. Percebo que a nova histeria derramada sobre o ocidente parece-se muito com aquela da caça-as-bruxas, com a diferença de que não temos mais o Diabo como epicentro patológico. Hoje o vilão é hollywoodianamente muito superior, tanto em audiência quanto financeiramente. Para quem não sabe ainda de quem estou falando basta ligar a TV: Lá está ele, o insuperável, o medonho, o impiedoso Aquecimento Global.

Olhando assim, poderíamos quase dizer que era previsível.

Num mundo onde torres desabam, metrôs explodem e nem nosso xodó ocidental, o neoliberalismo, consegue escapar aos caos reinante, não poderíamos esperar algo menos portentoso. Se John Lennon e Carl Marx previam o fim do modo burguês ocidental, nós, cidadãos do século XXI, não mais nos conformamos com tal mesquinhez. Hoje é preciso que cada espécie da Terra, desde o menor micróbio até a mais pesada baleia azul esteja não só potencialmente ameaçados, mas irreversivelmente ligados a um destino apocalíptico.

Nesse ponto meu texto deve estar parecendo confuso e fora de rumo. Falar de ciência já é difícil e prepotente de minha parte, falar da sociologia da ciência e querer um texto cristalino pode ser um desejo risível.

Mas depois de tudo isso, é possível acreditar numa ciência mais verdadeira, que esteja satisfatoriamente independente dessas forças sociais? Não seria ela apenas mais uma forma de “preferência estética”?

3 – Sobre o Acaso: Implicações Existenciais e Especulações Teórico-Científicas.

Interessante que o tema mais central do livro foi também o menos discutido de todos, certamente porque Vida Maravilhosa tem um enfoque biológico, e não filosófico. Mesmo assim Stephen Gould, como bom escritor que é, provoca no leitor todas as questões existenciais advindas com a idéia de que nossas vidas se devam a uma seqüência quase infinita de pequenos acasos ocorrida em bilhões de anos de evolução sobre este planeta. É a metáfora incansavelmente repetida do replay: Mude alguma coisa aparentemente insignificante num momento passado e você terá uma história da vida na Terra totalmente diferente, talvez quem sabe com seres de aparência reptiliana usando cartolas e indo ao teatro.

Para nos cativar, Gould utiliza recursos altamente simpáticos como, por exemplo, o filme De Volta Para o Futuro, assistido por quem foi jovem nos anos oitenta ou, como eu, cresceu com os olhos vidrados em Sessão da Tarde enquanto se empanturrava com tigeladas de Sucrilhos Kelloggs.

Filmes bacanas para convencer o leitor.

Se Vida Maravilhosa tivesse sido escrito mais recentemente, talvez ele tivesse citado o moderninho Efeito Borboleta ou, quem sabe, Alta Frequência, o qual assisto agora enquanto trabalho nesse texto. Em um sentido um pouco mais estrito temos o onírico Vanilla Sky ou mesmo Mach Point, onde pequenos detalhes mudam drasticamente o destino de seus personagens.

Só achei que, se em vários parágrafos Gould quis despertar em nós questões metafísicas a respeito de nossa existência nesse planeta não apenas como espécie, mas como indivíduos, tal discussão poderia ter tomado um caminho mais largo, apontando diversas possibilidades filosóficas. Mas entendo que tal abertura iria desviar o caminho de um livro que toma um assunto por si extenso, além de poder incutir no leitor idéias que o deixariam reticente por todas as outras centenas de páginas onde Gould expões suas idéias. Querem ver?

À maneira de Gould, poderia citar também alguns filmes, ainda que no final queira chegar à conclusão contrária.  Linha do Tempo retrata a força do destino quando um grupo de arqueólogos volta à Idade Média e, em sua inocência, teme causar reviravoltas na história da humanidade, sem saberem que tal coisa é impossível. Para a criançada, adolescentes e simpatizantes temos Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, onde todas as conseqüências de uma viagem ao passado já estavam presentes antes mesmo do primeiro replay.

Mas o meu preferido mesmo é A Máquina do Tempo, que apesar de anos-luz em qualidade do livro homônimo, escrito pelo mestre da ficção-científica H. G. Wells, traz algum divertimento e serve muito bem para ilustrar o ponto de vista inverso (além de decorar uma parede do meu quarto com um pôster amarronzado estilo século XIX).

O filme é interessante, vale a pena.

Gould usou alguns filmes mais ou menos conhecidos para ilustrar uma opinião que não parece sofrer qualquer tipo de dúvida: o caráter altamente importante do Acaso na vida de todos nós. Felizmente pudemos ver quais os motivos do próprio Gould em abraçar esse elemento tão especulativo de maneira tão tranqüila.

Como Gould, também partilho da percepção de que os cientistas das ciências exatas gozam de um status mais elevado no meio acadêmico, enquanto os estudiosos das ciências biológicas e, mais especificamente, os paleontólogos cheguem a ser comparados a meros “colecionadores de selos.”

Entretanto, por ironia, devo recorrer aos físicos agora.

Começo dizendo que viagens no tempo são possíveis, Einstein descobriu isso há quase um século quando escreveu sobre o que seria conhecido mais tarde como o “paradoxo dos gêmeos”.

O tempo passa diferente dependendo da velocidade do sujeito experimental. Coloque alguém dentro de um foguete, faça esse foguete disparar a uma velocidade altíssima, de preferência próxima a da luz, e quando a pessoa retornar para a Terra observa-se o estranho fato: Enquanto para o viajante do foguete passaram-se poucas horas aqui na Terra passaram-se anos e décadas, e isso qualquer reprise de Planeta dos Macacos ensina.

Os físicos de hoje calculam que 24 horas dentro de um foguete viajando a 99% da velocidade da luz equivalem a 1000 anos terrestres. Obviamente, a descoberta de Einstein foi uma revolução. A física quântica relegou o tempo newtoniano a uma mera característica variável; no estranho universo recém-descoberto tudo acontece ao mesmo tempo.

Tomemos na imaginação que um desses foguetes exista hoje, e que nosso Viajante do Tempo faça um tour pelo universo até que aqui, na tranqüila Terra, tenha se passado 1000 anos. (A despeito do que alguns ambientalistas do Greenpeace possam dizer, tenho certeza de que ainda estaremos aqui como espécie, e não vai ser nenhum aquecimentozinho global prepotente que vai nos refrear, mas isso também é outra história.) O importante é que quando se passarem 24 horas no relógio do viajante, ele poderá descer e encontrar a Terra lá pelo ano 3000.

Observação importante: A teoria de Einstein foi recentemente provada usando-se cronômetros de altíssima precisão e aviões supersônicos. Fácil perceber que o futuro existe, só não temos como chegar lá ainda.

Aí vem a pergunta que não quer calar: Será que o nosso viajante conseguiria voltar no tempo e mudar alguma coisa hoje para que uma desgraça futura não aconteça como em De Volta Para o Futuro? Ou ele pode lutar o quanto quiser para mudar a história que não fará nada além de trocar pequenos detalhes que no fim darão o mesmo resultado à maneira de A Máquina do Tempo? Nossa própria idéia de tempo linear fica abalada com essas novas teorias quânticas.

Nesse último filme, nosso professor viaja para muito longe no futuro, em busca de uma resposta, e a encontra proferida pelos lábios pálidos do Morlok-mor: “Você só inventou a máquina do tempo porque perdeu sua noiva. Se ela não tivesse morrido sua máquina nunca existiria. Então como poderia voltar no passado para salvá-la?”

Do mesmo modo, os físicos argumentam que eu não poderia voltar ao passado e impedir que meus pais se encontrassem porque desse modo eu não nasceria e, naturalmente, não poderia voltar no tempo para influenciar nada.

Num universo imutável, onde tudo segue uma regra preestabelecida, esbarramos, claro, na idéia de um “fazedor de regras”, alguma entidade que tenha organizado o universo de acordo com seus preceitos. Deus.

4 – A Teoria do Caos e o Desespero Niilista: Porque Deus Não Está Morto.

Sei o quanto é impróprio citar Deus num ensaio científico, ainda que esse comentário seja mesmo altamente pessoal. Queria apenas mostrar o quanto é precário apoiar-se numa idéia altamente filosófica quanto o Acaso para discorrer sobre um assunto científico. Percebem o que acabei de fazer nessas poucas linhas? Usando alguns filmes e duas teorias científicas criei embasamento para uma ideologia criacionista. O leitor mais atento poderia redargüir com razão que falei sobre leis físicas, enquanto Gould discorreu sobre leis biológicas, mas no fundo isso não faz diferença. Os céticos usarão as leis biológicas como evidência para a inexistência de Deus, os crentes encontram na física quântica exatamente o argumento contrário.

Como já falei aqui, quando eu estava no início da adolescência e comecei a estudar evolução, tive pensamentos perturbadores e fiquei um tempo sem acreditar em Deus. Depois, tentei seguir o conselho de Pauster, que dizia que ao “abrir a porta do oratório fechava a do laboratório, e vice-versa.” Porém essa filosofia nunca me causou muito conforto.

Bem, hoje eu não sou criacionista no sentido fanático do termo, mas tenho sim minhas crenças de que a humanidade e todos os seus indivíduos estão aqui por algum motivo. Também não sou kardecista, mas não acredito nesse Acaso total que Gould tenta me convencer. Pra ser sincero acho até meio divertido, lembrou-me o cínico e carismático matemático de Jurassic Park, Ian Malcon: “Uma borboleta bate as asas em Pequim e no Central Park chove ao invés de fazer sol”.

Creio que o caos sempre é aplicado como causa de algum fenômeno quando a mente humana não está apta a enxergar qualquer tipo de harmonia.

Algumas pessoas renegam a idéia de Deus depois de observar as sequências geológicas, os grandes hecatombes planetários e extinções de genealogias inteiras. Ainda que Gould não expresse o niilismo prepotente de Richard Dawkins, percebo que ele tenta o tempo todo nos persuadir de que não houve qualquer tipo de plano na evolução, e de que a humanidade é um mero produto de um número quase infinito de pequenos acasos.

Muitas pessoas, inclusive os puritanos fanáticos citados por Gould não conseguem encontrar um meio termo que os faça ficarem confortáveis com suas crenças e por isso preferem não acreditar na evolução. Travam verdadeiras batalhas e não conseguem ouvir os argumentos dos cientistas, talvez por medo de perderem sua fé.

Sinceramente, não vejo motivo para tal pânico. Poderia trazer para cá a opinião de uma personagem criada por Frank Schätzing no excelente romance de ficção científica O Cardume. Ali temos uma astrônoma em busca de vida extraterrestre chamada Samantha Crowe. Segundo ela

“a partir de um certo subnível ou metanível, o ser humano não é mais capaz de reconhecer inteligência como tal. Apenas compreende como inteligência o que estiver no âmbito de suas próprias atitudes. Alem desses limites, como no microcosmo, por exemplo, simplesmente não a perceberia. Da mesma forma, numa inteligência mais desenvolvida, numa mente muito superior, apenas veria o caos, porque não conseguiria acompanhar seu raciocínio complexo. Decisões tomadas por uma tal inteligência  permaneceriam incompreensíveis para ele, uma vez que seus parâmetros vão alem da sua capacidade de assimilação intelectual. Um cachorro também vê no homem apenas o poder ao qual ele se subordina, não a mente. O comportamento humano parece-lhe não ter sentido, porque as nossas atitudes baseiam-se em pensamentos que exigem demais de sua percepção. Por outro lado, nós não conseguiríamos perceber Deus, caso ele exista, como inteligência, porque seu pensamento provavelmente se basearia numa totalidade de idéias cuja complexidade vai muito alem de nossa capacidade. Consequentemente, Deus é caótico para nós e, portanto, dificilmente faria nosso time de futebol ganhar ou impedir guerras. Um ser desses estaria além do último limite da capacidade humana de compreender.(…). ( p. 819.)”

Desse modo, até o criacionista mais light poderia encostar a cabeça no travesseiro e dormir tranqüilo, mesmo após 380 páginas de cientificismo cético.

Talvez eu seja criticado no futuro por colegas de profissão, mas vejo certa beleza poética nessa vontade incontrolável que o homem tem de se sentir o produto final da evolução. Depois de tudo o que falei sobre as teorias racistas, sei perfeitamente o quanto dizer isso pode ser arriscado, mas estou convicto de que todos os holocaustos biológicos foram erros de uma espécie ainda em sua adolescência evolutiva. Porque, afinal, essa sensação de desamparo não foi provocada por nenhuma religião instituída ou governo totalitário, ela provém do profundo sentimento de solidão que o homem sente no cosmos. Os instintos e nosso corpo animal ainda nos ligam ao mundo natural de forma muito forte, mas essa mesma natureza nos afastou quando trabalhou em nós a coisa mais sofisticada do universo conhecido: a Consciência.

dono de uma carapaça bivalve cobria não apenas a cabeça desse animal mas dois terços do corpo. Este apresenta 46 segmentos, afinalando na parte posterior e terminando num telso bifurcado.

A Selva do Seu Jardim

” Os insetos de um jardim geralmente são observados à distância de uma vassourada ou através de uma nuvem de inseticida. Vencida a natural aversão a eles, no entanto, mesmo uma dona de casa pode, com as lentes de uma máquina fotográfica, descobrir um mundo de cores e formas fantásticas – um imenso zoológico de pequenos seres parecidos com os habitantes dos filmes de ficção científica.” Assim disse Roberto Muylaert Tinoco, no início de uma reportagem antiga que eu tenho aqui em casa, com nome homônimo a essa postagem, porém nao tenho informações sobre data ou meso qual a revista. Posso dizer que é bem antiga, deve ser 92 ou 93.

A fase de estudante de graduação é excelente, e não estou falando dos flertes nem dos churrascos à beira de piscinas, apesar disso também contar, é claro. Enquanto somos estudantes, mesmo com um caminho já traçado, nos sentimos livres pra estudar sobre qualquer tema, ainda não amarrados por qualquer especialidade. Já falei aqui no blog o que eu penso sobre a especialização, e enfatizo que as vezes os biólogos esquecem que são biólogos, tem continuamente diante de si um mundo vasto e não devem perder a oportunidade de se maravilhar com esse mundo.

Graças ao estágio que estou fazendo, tenho agora a minha disposição algumas câmeras especiais que me permitem tirar fotos que realmente acho muito interessantes, nao por qualquer tipo de preferência estética, mas simplesmente porque elevam os pequenos seres à um nível dificilmente percebidos por nós, humanos. Gostaria de compartilhar essas imagens com vocês agora.

Um dia no campo:



+ 18




Dia perfeito




Um dia de estágio:

Dois orthopteros que merecem destaque

Extraordinárias máquinas da natureza...

Hemiptero

Na ponta do dedo.

Diptero

Eu sou mesmo o único a achar as moscas bonitas?

Um dia na casa-de-vegetação





Estranhas frutas amazônicas? Nada, são ovos de bicho-pau.


Lagarta



Sabe aquele pernilongo chato?

Tudo bem que esse é dos grandes, meu colega de trabalho Tiago Resende encontrou e trouxe da casa dele, impressionado com as antenas.

Borboleta:

Uma folha simples:

Pseudo-escorpiões:








Vários:

Essa é uma das fotos que mais gosto, principalmente porque não tinha a menor esperança de que fosse ficar boa quando tirei.

Coleoptera.

Formiga doceira, gênero solenopsis.

Líquen.

Conseguem ver o pequeno inseto sorvendo a seiva da árvore?

Mundos Dentro de Mundos

“Ele olhou sua alma através de um microscópio. O que  parecia irregular eram belas Constelações: então acrescentou à consciência mundos ocultos dentro de outros mundos.” Coleridge, Anotações, citados por Jung em Sonhos, Memórias e Reflexões.

Tenho tido a oportunidade de trabalhar com uma câmera especial, acoplada em uma lupa bastante potente, que permite observar coisas absolutamente invisíveis a olho nu. Observando variados objetos com ela, percebi que a beleza se entranha até bem fundo na matéria, de uma maneira diferente e mágica…quase quântica.

Estou aceitando sujestões de objetos a serm fotografados, só nao podem ser muito grandes pois não cabem debaixo da lupa.

Um dos cadernos personalizados por mim:

Figuras auto-adesivas do biscoito Danix:

Johnny Bravo

Adesivo colado na contra-capa do caderno. Tamanho: 9 mm

Alguém hipnotizado por aí?

Por fim:

O tamanho desse "fim"? 9 mm


Uma História do Dragão – Introdução

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Quando estudava no infantil e pré,   rabiscava com freqüência nos meus cadernos figuras de dragões vermelhos soltando fogo pelas narinas e provocando pânico numa população de homenzinhos rabiscados de qualquer maneira entre as tarefas que a professora passava. Na minha inocência, acreditava piamente que tais seres realmente haviam existido numa época indeterminada, onde haviam cavaleiros e castelos. Hoje, desconfio seriamente que foi através desse primeiro fascínio que nasceu minha paixão pelos dinossauros. Acho que, após saber que os dragões não passavam de lenda, transferi meu interesse por seres mais palpaveis, ainda que estejam bem mortos desde a era Mesozóica. Deixei de desenhar dragões.

Muitos anos depois, no único período que cursei na psicologia,  redescobri a magia das histórias surreais dos contos de fadas, e então, mais tarde ainda, o dragão de repente surgiu de novo, nas páginas empolgantes de um livro.

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Lembro-me perfeitamente da tarde modorrenta em que eu assistia Mulheres Apaixonadas em Vale a Pena Ver de Novo (sic), entediado e  com vontade de ler alguma coisa mais específica e profunda, aquele tipo de livro denso e talvez até difícil em que as vezes sentimos necessidade de mergulhar. Fui até a biblioteca municipal da minha cidade e vasculhei as prateleiras, até que na mais baixa delas, bem escondido, estavam dois exemplares de As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso, de Vládimir Propp.

Vladímir Propp, o escritor russo que tanto me influenciou nos últimos tempos.

Vladímir Propp, o escritor russo que tanto me influenciou nos últimos tempos.

É realmente difícil falarmos daquilo que gostamos muito, sempre parece faltar um pouco, sempre parece que não passaremos a idéia exata daquilo que sentimos. Raízes Históricas foi com certeza um dos melhores livros que já li na vida, e o segundo que peguei pra reler com mais rapidez.

Olha ai o exemplar que eu usei. (o pé não era pra ter saído)

Olha ai o exemplar que eu usei. (o pé não era pra ter saído)

Não há muito o que dizer sobre a estrutura do livro, o nome já diz tudo. Resumidamente, Propp nos mostra como os antigos ritos das sociedades primitivas, principalmente da pré-história, trouxeram elementos do inconsciente que acabaram por moldar nossas histórias de contos de fadas. Pra dar um gostinho, vejam os principais capítulos:

Cap. 1 – Premissas

Cap. 2 – O início do Conto

Cap. 3 – A Floresta Encantada

Cap. 4 – A Casa Grande

Cap. 5 – As Dádivas Mágicas

Cap. 6 – A travessia

Cap. 7 – À beira do Rio de Fogo

I – O dragão no conto

II – O dragão engolidor

III – O herói no tonel

IV – O Dragão raptor

V – O dragão e o reino dos mortos

Cap. 8 – Além das Terras dos Confins

Cap. 9 – A Noiva

Cap. 10 – O conto Como Um Todo

Naturalmente, gostei muitíssimo da parte em que ele fala sobre o dragão, já que essa criatura mexe com a minha cabeça desde que me entendo por gente.

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Por razões de comodidade, dividi os capítulos dessa postagem de acordo com os subcapítulos de Propp e cheguei a criar uma categoria só para eles, tal a profusão do tema e o tamanho total do texto.

Tudo explicado,ouçamos o que Propp tem a nos dizer:

01 – O Dragão Engolidor

- O engolimento e a regurgitação rituais

Talvez a função principal do dragão seja o combate que este tem com o herói. Os materiais indicam que o motivo do combate se originou do motivo do engolimento, e se sobrepôs a ele de modo natural. Cabe-nos, portanto, analisar a forma arcaica do dragão, o dragão engolidor.

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Onde encontramos a regurgitação de um indivíduo? Já vimos aqui no blog que no ritual de iniciação o indivíduo era simbolicamente devorado e regurgitado. Ao atravessar a garganta do animal totêmico, ele penetrava do mundo do além e adquiria poderes mágicos.

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-Significado e bases históricas desse rito

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Propp observa que o estudo do rito em si nada ajuda para sua compreensão. “A chave é dada pelos mitos que o acompanham.” Já observamos os motivos desse tipo de ritual, e esses motivos nos trazem também informações sobre a base sócio-econômica das sociedades que o utilizavam.

Tornar-se um bom caçador é importante em uma tribo que ainda não conhece a agricultura. “A base intelectiva é pré-histórica. Funda-se que o alimento proporciona a comunhão em essência com o animal totêmico, para transformar-se nele e assim entrar no clã totêmico, é preciso ser comido por esse animal.”

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O mito e o rito não são perfeitamente complementares. Quando o mito surge, o rito já perdeu pelo menos parte de seu significado. O mito possuiu elementos tardios de incompreensão ou modificação.

A medida em que a sociedade evolui, as dádivas concedidas pelo animal totêmico (o dragão) mudam. Numa sociedade agrária, tornar-se um bom caçador já não é assim tão importante. As dádivas lentamente transferem-se para duas capacidades mágicas muito específicas mas que surgem de maneira insistente em várias culturas: “a faculdade de curar e a de entender a linguagem dos animais.” Similarmente, com a evolução da agricultura, no interior do dragão passam a ser encontrados legumes e cereais importantes na alimentação.

Em alguns casos, o engolimento pelo animal passou a ser substituído pelo engolimento pela água. Porém, indícios de que a passagem para o mundo subterrâneo ainda estava lá revelam-se na presença de vermes e répteis dentro do rio ou lago, seres comumente relacionados ao outro mundo.

Os mitos enfatizam a relação entre herói e dragão criando relações de parentesco entre eles, ou interligando-os num destino fatal. O grande caçador passa a ser descendente de linhagens draconianas, assim como o grande xamã ou feiticeiro.

Percebam que até aqui, o dragão é representado como um ser benfazejo, doador. Na verdade, esse é o primeiro estágio do dragão.

-A linguagem dos pássaros

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Não sabemos exatamente se durante o rito podia-se, ao mesmo tempo em que se era devorado pelo animal totêmico, também comer um pedaço desse animal. Enquanto a sociedade evoluía, esvaí-se o cunho mágico de certas artes, mas permaneciam para aquelas que o homem ainda não tinha domínio. Ele continua a adquirir o poder de entender não apenas os pássaros, que possuem um significado mais sagrado em todas as culturas, mas também a dos peixes, das serpentes, dos lagartos e de praticamente todos os animais da floresta.

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-Os diamantes

É bastante comum o herói encontrar diamantes e pedras preciosas incrustadas na cabeça do dragão ou sob seu poder. Pedras que muitas vezes o monstro dá de presente ao herói.

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O fascínio que as cores vivas ou o formato geométrico dos cristais exercia sobre a mente dos povos primitivos lhes impregnou de um caráter mágico. O dourado do ouro ou o brilho dos diamantes passaram a figurar como lugar comum no mundo do além, na terra do dragão. No meu post aqui no blog chamado Joãozinho, Maria e o Ritual de Iniciação vimos rapidamente que um tesouro é encontrado na casa da bruxa. A sociedade capitalista que viria depois imprimiu a esse acontecimento um caráter mais racional, já que as riquezas ajudaram o pobre camponês a sair da miséria.

O dragão passou a guardar os tesouros incalculáveis que esperavam pelo herói no outro

O dragão passou a guardar os tesouros incalculáveis que esperavam pelo herói no outro mundo.

No rito de iniciação, simulava-se que cristais e diamantes eram introduzidos no corpo do iniciado. Do mesmo modo, Propp coloca em ligação com isso outros fenômenos típicos dos contos de fada: o túmulo de vidro que guarda a Bela Adormecida e outros personagens, a montanha ou o palácio de cristal habitados pelo dragão, etc…

02 – O Engolidor-transportador

03 - transportador

Depois de engolido pelo dragão, o herói é transportado em seu ventre para outro país, onde é regurgitado ou sai por suas próprias forças. Nesse estágio vemos o início do combate com o dragão, pois o monstro é por vezes morto pelo herói.

Com a perda do sentido benéfico do engolimento, o dragão torna-se algoz.

Com a perda do sentido benéfico do engolimento, o dragão torna-se algoz.

Muitas vezes, percebemos que o motivo do engolimento foi apenas levemente distorcido, o dragão não mais carrega o herói em seu ventre, mas nas costas. Nesses casos, percebemos ainda a grande carga persistente do dragão benfazejo.

Porém, traços do antigo dragão benfazejo ainda persistem.

Traços do antigo dragão benfazejo ainda persistem.

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Propp salienta que o mito se desenvolveu quando houve, paralelamente, um avanço nas noções de espaço, em culturas que começavam a se comunicar umas com as outras e que, pelo intercâmbio, estreavam as rotas comerciais.

É uma bela imagem...

É uma bela imagem...

O país dos mortos deixou de ter uma entrada na floresta que circundava a tribo e passou a ser um lugar além das montanhas, ou do mar. Esse tipo de mito passou a surgir principalmente entre os povos costeiros, que criaram histórias sobre homens transportados para alto mar nas entranhas de peixes.

“A floresta – explica Propp – foi substituída pelo mar. Isso significa que a caça das florestas deixou de representar a única fonte de subsistência e que os ritos correspondentes perderam o sentido.”

Começa-se a desvanecer a idéia de que o ventre do engolidor portava o engolido de qualidades mágicas. O engolimento, por conseqüência, deixava de representar algo bom para se tornar seu oposto, e o dragão doador transforma-se em vilão, a quem o herói tenta matar de todas as formas. Como dissemos, é o início do combate.

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-A luta com o peixe como primeira etapa do combate com o dragão

Leviatã: forma arcaica do dragão

Leviatã: forma arcaica do dragão

Os primeiros navegantes perdiam o sono ao imaginar que tipo de criaturas hostis o mar guardava.

Os primeiros navegantes perdiam o sono ao imaginar que tipo de criaturas hostis o mar guardava.


Ilustrando, temos Jonas e a Baleia. Nesse caso, a utilização de uma baleia para representar o animal totêmico deve-se ao seu tamanho excessivo, uma maneira de comunicar seu poder de engolir.

O profeta Jonas exemplifica nossa primeira fase.

O profeta Jonas exemplifica nossa primeira fase de ruptura.

Não teria sido por sua permanência no interior da baleia que Jonas adquiriu seus poderes proféticos?

Ainda que a forma arcaica remeta a um período mais primitivo, o comportamento predatório indica o início do combate.

Ainda que a forma arcaica remeta a um período mais primitivo, o comportamento predatório indica o início do combate.

A regurgitação voluntária por parte do dragão desaparece aos poucos, mas o engolimento persiste. Naturalmente, isso significa que o herói passa a ter que lutar bravamente para deixar as entranhas do engolidor. Comumente ele faz isso tentando provocar dor no animal.

Muitas vezes, narra-se a perda de cabelo do herói ao deixar as entranhas do monstro, atribuindo isso ao calor imenso que fazia lá dentro. Interessante lembrarmos que, também durante o rito, não apenas o cozimento mas também o corte dos cabelos eram provocados no iniciado.

O mar é a entrada para o outro mundo, o peixe a comunicação.

O mar é a entrada para o outro mundo, o peixe a comunicação.

Nos povos marítimos então, que estrearam essa nova visão do mundo do além, temos a concepção do engolidor-transportador como um ser aquático, e essa é uma atribuição que impregnará a imagem do dragão até os dias atuais, ainda que a forma mude constantemente.

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O herói não é mais aquele que é engolido, mas o que mata o engolidor. Num primeiro estágio, é preciso ainda penetrar no ventre do inimigo para ferir-lhe mortalmente, mas logo isso se torna desnecessário. Entretanto, por longo tempo ainda notamos os resquícios do engolimento por outras formas de luta que, mesmo assim, objetivam acertar o monstro na boca, sue ponto fraco. “Esse é um passo a mais na evolução do assunto. (…) Para vencer o dragão, ainda é preciso lançar alguma coisa em sua goela, porém não mais obrigatoriamente um indivíduo. Agora são jogadas pedras quentes (…) E finalmente resta apenas o combate com o dragão (…) nas formas que nos são conhecidas.”

Alguém se lembra da história de David e Golias?

Pedras são as armas de David, que deve acertá-las no crânio do gigante.

Pedras são as armas de David, que deve acertá-las no crânio do gigante.

Tudo bem, a imagem é um das minhas preferidas, mas o herói ali de sunga verde não está a cara do Carl Sagan?

Tudo bem, a imagem é um das minhas preferidas, mas o herói ali de sunga verde não está a cara do Carl Sagan?

Com as rotas comerciais em ascensão, introduz-se um novo momento: o transporte do engolido no estômago do engolidor. Surgem motivações utilitárias de fator racional: os órgãos do engolidor passam a servir de alimento. Os mitos tornam-se mais rebuscados com motivos heróicos que acabam tendo sentido inverso ao original: o herói penetra no ventre do engolidor não para servir-se do que lá encontra, mas para matar esse engolidor e livrar seu povo da tirania draconiana.

Ao se tornar vilão, o dragão serve ao lado negro das histórias.

Ao se tornar vilão, o dragão serve ao lado negro das histórias.

Posteriormente, o engolidor é morto por objetos mágicos que, quando atirados em sua boca, o fazem morrer por dentro.

No filme Reino de Fogo, o protagonista atira flechas flamejantes na garganta do dragão para exterminá-lo.

No filme Reino de Fogo, o protagonista atira flechas flamejantes na garganta do dragão para exterminá-lo.

Aqui, claro, devo abrir um parênteses ao relacionar esse motivo àquele do filme também já tratado no blog, O Labirinto do Fauno, quando Ofélia, para matar um sapo monstruosos que vivia no subterrâneo de uma velha figueira, dá-lhe de comer três pedras mágicas, que o levam a morte.

03 – O Herói no Tonel

     Pica-pau desce as Cataratas do Niágara num barril: A estilização crescente e a perda de contato com o rito fez com que o dragão ganhasse sua primeira forma "não-animal."

Pica-pau desce as Cataratas do Niágara num barril: A estilização crescente e a perda de contato com o rito fez com que o dragão ganhasse sua primeira forma "não-animal."

-O barco usado para o transporte

O motivo do herói no tonel provém do motivo do herói dentro do peixe. Poderíamos generalizar as histórias com esse tipo de motivo com as seguintes características: um rei, por algum motivo qualquer manda executar um recém-nascido a quem, por compaixão do carrasco, é colocado dentro de um cesto ou bote e lançado ao mar. Mesmo correndo todos os riscos, ele sobrevive e é educado no exílio, de onde retorna mais tarde para cumprir seu destino.

Sem medo de parecer teórico demais, Propp diz que o tonel, por ser de madeira, remete ao culto das árvores. Sabemos que o motivo do engolimento e da regurgitação relacionava-se a animais totêmicos, mas também as árvores o podiam ser. O que interessa nesse caso seria mais a madeira de que é feito o barco do que o próprio meio de transporte utilizado.

Baobá, árvore sagrada para muitos africanos.

Baobá, árvore sagrada para muitos africanos.

Propp nos diz que provavelmente essa é a origem da lenda de Noé, que subiu num gigantesco navio de madeira e de onde saiu como ancestral da humanidade.

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Ao que parece, a permanência obrigatória (e diga-se de passagem já não voluntária) dentro desse nicho é condição essencial para amadurecimento e poder.

Aqui, faço uma nova pausa para analisarmos dois filmes interessantes onde temos esse motivo.

Um deles, uma superprodução da Disney, é O Príncipe do Egito, que conta a história de Moisés em sua luta para libertar o povo hebreu.

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No filme, temos logo no início a sequência de cenas que mostram o pequeno bebê predestinado abandonado no Nilo dentro de um cesto, que vai parar nas mãos da família real.

Moisés, que passou pela provação do cesto flutuante ainda bebê.

Moisés, o futuro profeta que passou pela provação do cesto flutuante ainda bebê.

Outro filme, bastante diferente, é Madagascar 2. Também no início, nos é mostrada a origem do personagem Alex, encerrado dentro de um caixote de madeira que, caindo no mar, o leva até os Estados Unidos.

O tonel leva o herói: arquétipo pré-histórico presente em filme da Disney.

O tonel leva o herói: arquétipo pré-histórico presente em filme da Disney.

O confinamento e a travessia do mar como condição para se tornar herói.

O confinamento e a travessia do mar como condição para se tornar herói.

Esse filme é bastante interessante por um detalhe: Alex chega lá comendo um peixe.

Propp já nos disse que não se sabe se o neófito comia um pedaço do animal totêmico enquanto estava no interior desse animal, porém o jovem Alex estava segurando um peixe quando foi descoberto no Novo Mundo, dando a entender que se alimentou disso durante a travessia.

Imagens inocentes detentoras de forte carga numinosa.

Imagens inocentes detentoras de forte carga numinosa.

A pergunta é: Se os produtores do filme tem todas as probabilidades de nunca terem ouvido falar de Vladímir Propp e se Alex comendo um peixe foi uma idéia que emergiu do inconsciente de alguém da produção, é possível tratar esse motivo como sendo mesmo arquetípico e, ao mesmo tempo, defender e endossar a tese de que o neófito comia sim um pedaço do animal totêmico durante o rito de iniciação? Não sou nenhum profissional, longe disso, mas para mim, a emerção de um conteúdo arquetípico contemporâneo é forte indício de que tal conteúdo era extravasado e praticado em sociedades que se guiavam pelo inconsciente.

04 – O Dragão Raptor

02 - morfologia

– O aspecto externo do dragão

Até aqui, ouvimos muito sobre o dragão mas percebemos que ele ainda não tem a forma com a qual estamos acostumados. Isso se deve ao fato de sua morfologia ser bem tardia, num momento da história humana em que o contato íntimo com os animais e com a natureza de forma geral começou a se perder. Nos povos realmente primitivos ele não existe. “O dragão é uma junção mecânica de vários animais (…), aparece ao mesmo tempo em que os deuses antropomórficos.”

O ingresso na era da artificialidade pouco a pouco afastou o homem da natureza, enquanto sua visão dos deuses tornava-se progressivamente antropomórfica.

O ingresso na era da artificialidade pouco a pouco afastou o homem da natureza, enquanto sua visão dos deuses tornava-se progressivamente antropomórfica.

Primitivamente, quando alguém morria, transformava-se em serpente, lagarto ou pássaro, mas a perda de contato com esses seres faz com que a crença degenere. Da mesma forma que os animais lentamente se transformam em humano, como no caso dos deuses antropomórficos do panteão egípcio, os animais começam também a se transformarem e a se fundirem. Surgem criaturas híbridas de aspecto fantástico, entre elas o dragão.

Esfinge, a terrível criatura híbrida que testava os homens com enigmas impossíveis.

Esfinge, a terrível criatura híbrida que testava os homens com enigmas impossíveis.

Minotauro, outro ser híbrido que parece ter um gosto especial por carne humana.

Minotauro, outro ser híbrido que parece ter um gosto especial por carne humana.

Basicamente, vemos nele traços de serpente e pássaro, os dois animais mais usados para representar a alma.

Os arquétipos da psiquê humana dotaram o dragão com aspectos outrora sagrados.

Os arquétipos da psiquê humana dotaram o dragão com aspectos outrora sagrados.

No inicio, o morto podia transformar-se em qualquer animal, mas com o advento das noções de espaço, que levam o país dos mortos a transferir-se para além do horizonte, ou, num evento semelhante, para debaixo da terra, ocorre uma limitação no tipo de animal que o morto pode transformar-se. Pássaro para as culturas marítimas que viam o Mundo do Além pra lá do horizonte, serpentes ou outros répteis para os que acreditavam que a terra dos mortos ficava no subsolo.

Réptil e ave fundem-se na figura do dragão.

Na América Central pré-colombiana a junção entre ave e réptil não podia ser mais explícita do que a representada na serpente emplumada.

Quetzalcoatl, deus asteca na América Central pré-colombiana nos mostra junção entre ave e réptil na forma de uma serpente emplumada. Os astecas acreditavam que a alma dos mortos transformavam-se num belo pássaro que voava para o sol, reino dos mortos, o que está em conformidade com a condição social que eles alcançaram.

A multiplicidade das cabeças é outra coisa interessante.

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Ela é uma representação da capacidade de engolir, quanto mais cabeças mais terrível e poderoso. Nas palavras de Propp, esses povos “expressavam qualidade através de quantidade”, similarmente ao que pretendiam ao enfatizar o tamanho gigantesco do peixe engolidor.

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O dragão raptor surgiu através da crença de que o morto, transformado em animal, perambulava pelo mundo dos vivos atrás de vítimas que carregaria consigo para o país dos mortos. Essas crenças, que nos podem parecer estranhas, foram mais comuns do que pensamos. Em muitas culturas, ver um determinado tipo de animal em determinadas situações (como durante uma gravidez) é mau presságio.

- O dragão e a princesa

Com a agricultura enchendo o estômago, a fome sexual passa a primeiro plano.

Com a agricultura enchendo o estômago, a fome sexual passa a primeiro plano.


Aos mortos, de qualquer forma, eram atribuídos alguns instintos bem conhecidos dos vivos: a fome e o instinto sexual.

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No início, quando conseguir alimento era prioridade, a fome exerceu um papel essencial na representação dos mortos, e como motivo principal para seus atos nefastos. Porém, com o avanço das sociedades e com a diminuição progressiva da preocupação com alimento, a fome sexual passou também para primeiro plano. Temos aí o surgimento do dragão raptor, que seqüestra a princesa e a leva para seu castelo. Em muitos contos ele não a devora, mas pretende sim desposá-la: “O dragão apoderou-se da princesa e levou-a para seu covil, mas não a devorou. Como era muito bela, tornou-se sua mulher.”

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Em alguns casos, o próprio dragão se transforma em príncipe e desposa a princesa, como no conto A Bela e a Fera.

Ainda que eu não seja fã, a série de filmes Sherek pode nos mostrar isso de forma divertida. O dragão, nesse caso benfazejo por razões humorísticas, se apaixona e se casa com o Burro, com o qual tem filhos híbridos. Quando o dragão é mostrado pela primeira vez, temos não apenas o rio de fogo mas também a posse de tesouros, tudo relacionado com o mundo do além, como estamos vendo.

05 – O Dragão Aquático

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- A natureza aquática do dragão

A arcaica função de guardião das águas está ligada primeiramente à serpente e depois ao dragão. Esse tipo de mitologia está presente nas culturas mais primitivas, como os aborígenes da Austrália. Ainda que, logicamente, tal idéia possua sua pré-história, Propp confessa que não existem materiais a esse respeito. Apenas é possível inferir com segurança que a serpente detentora das águas e o dragão engolidor fundem-se na mesma criatura.

O dragão serpentiforme, detentor das águas, aqui claramente delineado (talvez inconscientemente) pelas mãos do artista.

O dragão serpentiforme, detentor das águas, aqui claramente delineado (talvez inconscientemente) pelas mãos do artista.

Como vimos, primeiramente esse tipo de ser era benfazejo, nas culturas agrícolas ele passa a ser o deus da fertilidade da terra e até mesmo do homem. Mas, quando surge a estratificação social características do Estado, com seus deuses antropomórficos, sedentarismo e pecuária regular, as coisas mudam para o dragão. Os novos deuses passam a persegui-lo.

A forma serpentiforme é mais explícita nas criaturas marinhas, pois é a serpente que detem o elemento água.

A forma enguiliforme é mais explícita nas criaturas marinhas, pois é a serpente que detem o elemento água.

Na China, o dragão também é um ser fundamentalmente aquático, ele mora num palácio de cristal que pode ser visto em determinadas condições climáticas, nos arredores de Pequim.

Na China temos os exemplares mais bem definidos desse tipo de dragão.

Na China temos os exemplares mais bem definidos desse tipo de dragão.

Como desculpa para o início do combate, temos um abuso por parte dessa criatura mágica que guarda as águas. Por capricho, ele causa secas ou inundações.

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-Os tributos ao dragão

Nas histórias, nossas belas e frágeis mocinhas tem sofrido desde o início do tempos.

Nas histórias, nossas belas e frágeis mocinhas tem sofrido desde o início do tempos ou, pelo menos, desde que o dragão se tornou mau.


Já falamos sobre o instinto sexual do dragão, sua capacidade de controlar a água e a agricultura incipiente que o homem dominava num estágio posterior ao tribal. É interessante como essas coisas se relacionaram no imaginário humano, dando origem aos muito comuns rituais de oferendas e sacrifícios à água e aos deuses que habitavam nela.

No filme Madagascar 2 temos outra cena muito interessante, quando eles oferecem à girafa em sacrifício à divindade de um vulcão para que o lago seco voltasse a encher.

Liderados pelo fanático rei Julian, a comunidade de animais se prepara para lançar à lava ums dos personagens principais.

Liderados pelo fanático rei Julian, a comunidade de animais se prepara para lançar à lava um dos personagens principais.

Enquanto assistia ao filme, e nessa cena em particular, minha prima observou uma coisa e disse: Engraçado, a girafa está parecendo uma noiva.

A girafa macho Melman, vestida de maneira apropriada e cômica.

A girafa macho Melman, vestida de maneira apropriada e cômica.

Naquele momento tive um estalo e me lembrei da parte do livro em que Propp fala sobre esses tipos de sacrifícios, em geral envolvendo uma jovem:

“Vestiam uma jovem de noiva, enfeitavam-na com flores, friccionavam seu corpo com ungüentos aromáticos e levavam-na até a margem, onde a deixavam sobre um rochedo ou pedra sagrada, e então um crocodilo a carregava para as águas do rio e o povo ficava plenamente convicto de que ela se tornara efetivamente a mulher do crocodilo, considerando que, se não fosse virgem, o crocodilo a devolveria.”

Os maias também enfeitavam belas jovens e as atiravam em um lago, para que a colheita de milho fosse farta. Na América Central, até hoje os índios acreditam que a seca só termina se alguém morrer afogado.

Sacrifício maia em adoração ao sol.

Sacrifício maia em adoração ao sol.

No entanto, cabe dizer que as sociedades em que ocorriam tais sacrifícios estavam ainda num nível muito primitivo de técnica agrícola. À medida que essa se aperfeiçoava, os laços familiares, a religião e a organização social se intensificavam, criando forte empatia com os sacrificados, principalmente com os parentes mais próximos. Aos poucos, a atenção foi desviada para as vítimas, e os executores ganharam aura de vilões.

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Por isso, no conto, geralmente o herói é aquele que salva a vítima do sacrifício. Na época em que o rito era vivo, seria provavelmente linchado por tal ato, mas como sabemos, o conto representa uma narrativa tardia e desligada às crenças originais.

Em geral, as histórias desse tipo seguem as mesmas linhas básicas, como no filme Coração de Cavaleiro: uma jovem é oferecida em sacrifício para o dragão que ameaça a aldeia, mas eis que surge um príncipe à cavalo, liberta a jovem, mata a besta fera e se casa com a princesa. Nesses casos, o dragão é sempre um ser aquático. Nesse filme, no momento do sacrifício, o dragão (falsamente) agonizante desaba num lago, de onde ressurge tranquilamente depois. É um filme divertido, bem feito e legal de se ver, com várias características contidas no livro de Propp.

Cena de Coração de Cavaleiro, onde temos o típico dragão aquático.

Cena de Coração de Cavaleiro, onde temos o típico dragão aquático.

06 – O Dragão e o Reino dos Mortos

O dragão guarda a fronteira para o outro mundo, onde o herói tenta penetrar

O dragão guarda a fronteira para o outro mundo, onde o herói tenta penetrar

- O dragão-guardião

Vimos repetidamente que a crença fundamental quanto ao rito de iniciação é que enquanto ele se processava o neófito descia ao reino dos mortos, de onde voltava com poderes mágicos. Quando essa idéia perdeu-se no tempo, a descida ao mundo dos mortos virou sinônimo da descida ao inferno e a viagem que o neófito fazia era pré-requisito para sua heroificação.

Por vezes, antes do combate há um diálogo entre dragão e herói, frequentemente caracterizado por torca de ofensas.

Por vezes, antes do combate há um diálogo entre dragão e herói, frequentemente caracterizado por torca de ofensas.

Entendemos mais claramente também, porque o dragão vive sempre perto de um reservatório de água, porque ele a vigia. É que com a concepção de um mundo dos mortos no horizonte além mar nascida com os povos marítimos, a água virou sinônimo de passagem para esse outro mundo. O dragão, que anteriormente era um ser benfazejo que carregava no estômago o neófito para esse reino, transformou-se em inimigo da humanidade, e como tal impede a passagem do herói em seu processo de aquisição de poder. Posteriormente, em conformidade com a própria evolução social, veremos que água guardada pelo monstro torna-se lava fervente.

Subterrâneo e ao mesmo tempo ígneo,  naturezas aparentemente distintas se fundem na figura híbrida do dragão.

Subterrâneo e ao mesmo tempo ígneo, naturezas aparentemente distintas se fundem na figura híbrida do dragão.

Mesmo o dragão da montanha não está ligado à montanha e sim às cavernas, onde sempre existe um reservatório de água. Isso é bem explicito no filme A Lenda de Beowulf. O filme mostra um dragão dourado, ígneo, solar, mas que habita uma caverna onde há um reservatório de água. Existem ainda elementos ainda mais específicos que enriquecem sua interpretação como o parentesco entre o dragão e o herói (a criatura é filha do antigo rei) e a mãe do dragão, representada pela versão digital de Angelina Jolie. Reparando-se bem, dá pra perceber que a caverna onde os vilões moram é o interior de algum tipo de criatura, pois estão claramente visíveis no teto e nas paredes vértebras e costelas. Sem falar nas riquezas materiais do mundo dos mortos espalhadas pelo chão e na água.

Em outro momento, temos ainda serpentes marinhas que atacam o herói, tudo enfim em conformidade com o que estamos analisando aqui.

Então, temos aqui uma bifurcação na imagem do dragão: ele pode tanto tornar-se um ser celeste, que vive no alto de montanhas ou, pelo contrário, adentrar a terra e se tornar o guardião de um reino subterrâneo, o dragão ctoniano.

Com a expansão da noção de espaço, o Reino do Além deixa de ter lugar na floresta e se torna mais inacessível, no mundo subterrâneo

Com a expansão da noção de espaço, o Reino do Além deixa de ter lugar na floresta e se torna mais inacessível, no mundo subterrâneo

No primeiro filme da consagrada trilogia O Senhor dos Anéis, a Sociedade do Um Anel esbarra com uma terrível criatura nas profundezas cavadas pelos anões.

Pernas pra que te quero! Gandalf e sua trupe dão o que tem pra fugir do temível Balrog nos pátios das Minas de Moria.

Pernas pra que te quero! Gandalf e sua trupe dão o que tem pra fugir do temível Balrog nos pátios das Minas de Moria.

Nesse caso, temos um avanço mais na morfologia do dragão, que apresenta-se não apenas como um ser das profundezas mas, igualmente, como criatura ígnea, solar.

Balrog em sua magestade ígnea.

Balrog em sua magestade ígnea.

Propp estabelece uma seqüência simplificada da evolução de nosso personagem central:

1) O engolidor permanece no mesmo lugar na floresta - entre povos isolados e que vivem em círculos fechados.

1) O engolidor permanece no mesmo lugar na floresta - entre povos isolados e que vivem em círculos fechados.

 2) O engolidor atravesse grandes extensões aquáticas (entre povos que atingiram níveis de cultura mais elevado, que conhecem os transportes e não vivem apenas da caça).

2) O engolidor atravesse grandes extensões aquáticas (entre povos que atingiram níveis de cultura mais elevado, que conhecem os transportes e não vivem apenas da caça).

3) O engolidor vive sob a terra (agricultura primitiva).

3) O engolidor vive sob a terra (agricultura primitiva).

4) O engolidor vive no céu (agricultura desenvolvida, formação do Estado).

4) O engolidor vive no céu (agricultura desenvolvida, formação do Estado).

-Cérbero

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A idéia do reservatório de água, seja rio ou lago ou mar, como passagem para o reino dos mortos conservou-se bastante sólida na Grécia, lar de Cérbero. O cão monstruoso, com três cabeças, vive na desembocadura do Aqueronte. De suas bocas pinga uma saliva envenenada, ele tem um dardo na ponta da cauda, os pêlos das costas são serpentes. Para atravessar a passagem,um enviado dos deuses que faz o papel sempre importante de auxiliar mágico do herói (nesse caso Heracles), atira-lhe um bolo com soporífero, que o faz dormir.

Smegal, exemplo de auxiliar mágico, sempre presente no conto maravilhoso e que acaba por ter papel fundamental no desfecho da trama. Em Senhor dos Anéis, é ele o responsável indireto pela destruição do anel.

Smegal, exemplo de auxiliar mágico, sempre presente no conto maravilhoso e que acaba por ter papel fundamental no desfecho da trama. Em Senhor dos Anéis, é ele o responsável indireto pela destruição do anel.

Portanto, claro que não mais é preciso atravessar a garganta do monstro, mas apenas atirar-lhe algo. “Deve-se ver nisso um ato de substituição.” Do mesmo modo, a semelhança com o cão é uma licença poética dos gregos para reforçar sua função de guardião.

A forma canina enfatiza o papel de guardião, enquanto a multiplicidade de cabeças revela sua natureza engolidora.

A forma canina assinala o papel de guardião, enquanto a multiplicidade de cabeças enfatiza sua natureza engolidora.

-A transferência do dragão para o céu

Aqui, o artista foi um pouco mais longe, talvez inspirado pela cultura celta dotou o dragão com asas de fada.

Aqui, o artista foi um pouco mais longe e talvez inspirado pela cultura celta dotou o dragão com asas de fada.

Apesar da dificuldade em se estabelecer um momento preciso em que o engolidor é transferido para a montanha ou para o céu, Propp nos diz que “os povos que conhecem o dragão solar são sempre mais cultos que os povos que o ignoram.”

O Egito Antigo nos fornece os materiais mais exuberantes nessa matéria.

Com as cores do fogo, o dragão montanhês, solar.

Com as cores do fogo, o dragão montanhês, solar.

O engolido deixa de ser o herói para ser o sol, e o combate visa agora retomar nossa estrela mais próxima e fazê-la brilhar novamente. Em alguns lugares, o próprio dragão se torna o sol. De gestor das águas terrestres ele passa a ser gestor das águas celestes. É quem comanda as monções indianas, por exemplo. Como terceira conseqüência, ele passa a guardar o portão para o reino dos mortos nos países em que essa concepção é muito desenvolvida. E, finalmente, tudo o que cerca o dragão, e até mesmo a própria criatura, toma a cor e a natureza do fogo. Também o reservatório de água que ele guarda passa a se tornar de fogo.

Comumente, o próprio dragão é feito de fogo.

Comumente, o próprio dragão é feito de fogo.

- Psicostasia (pesagem da alma)

O engolimento não apenas se tornou algo terrível, também foi usado como forma de punição para os pecados.

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A partir da VI dinastia egípcia surge a pesagem do coração como forma de condenar ou não a alma do morto. Numa balança era colocada uma pena ou uma estatueta de um deus. O devorador era representado como um ser híbrido com cabeça de crocodilo, corpo de leão e traseiro de hipopótamo, ou simplesmente como um cão.

No Antigo Egito, a pesagemd da alma servia como forma de averiguar inocência ou inculpação do morto.

No Antigo Egito, a pesagem da alma servia como forma de averiguar inocência ou inculpação do morto.

-A relação do dragão com o nascimento

Ainda que originalmente ligado à morte, o dragão liga-se também ao herói pelo nascimento. Apesar de nunca se encontrarem antes do combate, o dragão sabe da existência do herói, sabe ate mesmo que morrerá por ele.

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Propp nos lembra que sair do ventre do animal era considerado um segundo nascimento, o nascimento do homem feito forjado no mundo dos mortos com dádivas mágicas.

-A morte do dragão pelo dragão

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Casos de combates entre dragões são interessantes e peculiares, de regiões onde o dragão se tornou uma criatura má, mas o dragão benfazejo não foi completamente esquecido. Evidentemente, a contradição das naturezas cria o combate.

Reminescências do dragão benfazejo criam condições propícias para o surgimento desse tipo de combate.

Reminescências do dragão benfazejo criam condições propícias para o surgimento desse tipo de combate.

“O benfazejo dragão engolidor, mais arcaico, e o apavorante dragão engolidor, mais tardio, encontram-se aqui frente a frente, como inimigos.”

Dragões chineses, serpentiformes, muito ligados ao reino aquático.

Dragões chineses, serpentiformes, muito ligados ao reino aquático lutam entre si.

Na coroa do faraó figurava uma serpente, que o protegeria da criatura mítica em sua jornada pelo mundo dos mortos. Moisés mandou que se exibissem dragões de cobre para afastar os verdadeiros que rodeavam seu povo no céu.

A serpente na coroa do faraó: amuleto da sorte.

A serpente na coroa do faraó: amuleto da sorte.

Ao que parece, no Egito o dragão benfazejo resistiu no folclore popular, apesar da religião oficial tê-lo rejeitado totalmente. Depois, quando o governo entrou em decadência, a antiga idéia voltou a se incorporar no seio da religião do alto clero.