INTRODUÇÃO À ZOOLOGIA

Depois de um Projeto Julie & Julia e um Projeto Ana Maria Braga (!), e outros menos conhecidos, eu, com a coragem que Deus me deu, lanço o PROJETO ZOOLOGIA. Aqui, de frente para o computador nessa manhã de sábado, preparo-me para lançar mais uma categoria no blog. Ao fazer isso firmo uma espécie de pacto com meus visitantes, não sem um certo temor, é verdade, já que a tarefa é esmagadora: discorrer, com riqueza de detalhes, sobre toda a zoologia. Traçaremos uma trajetória que vai desde os protozoários, ainda no reino protista, até os mamíferos, sem porém nos esquecermos que, como vimos em Burgess Shale e a Reforma Darwinista, esse tipo de visão é apenas um dentre muitos outros possíveis, não querendo de modo algum colocarmos alguns filos como melhores em qualquer sentido que outro. Como uma sistemática, de qualquer modo, se torna necessária e escolhemos essa.

Apesar do trabalho monstruoso que tenho pela frente, sei que conseguirei ir até o fim depois que essa introdução estiver publicada afinal, promessa é dívida. Mas haveria motivos ocultos para isso?

Bem, vários. Em primeiro lugar, com toda sinceridade e humildade, é pela paixão que eu nutro pelo conhecimento e, pelo orgulho de saber que, afinal, estou contribuindo para a difusão da ciência. Depois, é uma espécie de homenagem à zoologia, essa matéria que tanto me cativou na faculdade. Se eu dissesse apenas isso, porém, estaria sendo parcial. Faço isso também porque é um meio de difundir meu blog e também porque estou estudando pra uma prova de mestrado no fim do ano e passar tudo pra cá é uma forma maravilhosa de reforçar o que eu aprendi.

Finalmente, tudo o que vocês lerem, ou quase tudo, foi tirado de dois livros excelentes. O primeiro é Zoologia dos Invertebrados, de Robert D. Barnes & Edward E. Ruppert.  Infelizmente usei a sexta edição, embora a mais nova já estivesse presente na biblioteca. O motivo para isso é a presença de introduções em cada capítulo que explicam os “princípios e padrões emergentes”, coisa que foi suprimida na edição posterior. Caso alguém saiba de qualquer novidade quanto ao que foi escrito, por favor avise que será de muita utilidade.

O segundo livro é A Vida dos Vertebrados, de F. Harvey Pough, Christine M. Janis e John B. Heiser; quarta edição, 2008.

Quando o pensamento de fazer isso me veio a cabeça, logo me preocupei com a questão da legalidade do processo, pois sou bem ignorante nessa área. Consultei então um amigo advogado que me explicou que, desde que eu não use transcrições literais como se fossem minhas e forneça a fonte para meus leitores, não há risco de levar um processo por plágio da editora. Então as informações completas dos livros constarão no final de cada postagem. Deixo claro, porém,  que o que vocês irão ler trata-se de um resumo, uma orientação, sendo indispensável, de todo modo, a consulta direta no livro ou outras fontes realmente científicas para um estudo mais aprofundado. Não foi meu objetivo fazer textos que prendam a atenção do leitor do início ao fim, mas sim tentar passar a riqueza animal do nosso planeta e fornecer material para uma pesquisa preliminar por quem quer que se interesse pelo tema.  Além do mais, não estarei preso somente ao livro, usando também (mas em muito menos quantidade) outras fontes, científicas ou não, ou mesmo minhas próprias idéias e experiências. O leitor, porém, não se preocupe, eu sempre avisarei quando o que estiver lendo saiu da minha mente instável ou de outros livros ou sites com menos rigor científico. O importante é que todas as fontes estarão bem explícitas para a segurança do leitor e sua decisão de se põe crédito ao que lê ou não. Quanto as imagens, não são também de Zoologia dos invertebrados (exceto poucas exceções), mas capturadas de forma aleatória na internet, razão pela qual não estarão identificadas quanto a sua origem, a não ser em casos especiais em que eu julgue isso necessário ou interessante.

 

01 – Introdução

 

 

Embora tenhamos a impressão de que os vertebrados são muito numerosos porque convivemos com cães, gatos, aves, peixes ou répteis, de todas as espécies catalogadas atualmente, 95% são de animais invertebrados. Ou seja, você pode esquecer aquele aforismo de que o Cenozóico é a Era dos mamíferos, na verdade são os invertebrados que dominam o planeta Terra. Na verdade, a própria divisão do Reino Animal em vertebrados e invertebrados é artificial, produto do velho desejo humano em atribuir importância à própria espécie. Se tivéssemos olhos protraídos e carregássemos conchas das costas provavelmente classificaríamos o mundo vivo em moluscos e não-moluscos; qualquer outra sistemática do tipo soaria tão artificial quanto a nossa.

Voltando as nossas estatísticas, é importante ressaltar que 85% de todos os animais são artrópodos, sendo que apenas de coleópteros estão classificadas 300.000 espécies. Homo sapiens? Faz-me rir. O mundo pertence aos seres rastejantes, gosmentos, de carapaças duras, que produzem sons capazes de arrepiar a espinha de muita gente. Mas é um mundo maravilhoso se deixarmos de lado nossos preconceitos e olharmos atentamente as mais extraordinárias formas de vida que pululam no jardim de nossa casa. Estudando-os, percebemos a artificialidade de nossas classificações ao ver a morfologia, às diferenças estruturais e de adaptação, além das origens filogenéticas. Os seres não obedecem a padrões certinhos como querem nossos cladogramas ou nossa necessidade inata por padrões simetria. Porém, é óbvio que torna-se necessário uma sistemática para que nossa compreensão do mundo vivo seja possível, e Barnes & Ruppert adotaram à que eu passo à vocês nesse blog, deixando claro que ela não reflete uma verdade absoluta entre os especialistas, se é que existe algo do gênero no mundo real. Portanto, é possível alterar a sequência de alguns filos sem prejuízo para a compreensão ou para a zoologia, discussões ainda ocorrem em todo canto do mundo, muitas delas poderemos ter contato aqui.

 

Principais Ambientes Aquáticos

Marinho

 

Hoje acredita-se que, bem antes do primeiro registro fóssil, nos mares primitivos do Arqueozóico, o primeiro ser vivo tenha surgido. Em consequência dessa origem, praticamente todos os filos de invertebrados possuem representantes marinhos e alguns estão vivendo totalmente nesse ambiente.

Embora a salinidade apresente uma uniformidade nos oceanos, algo em torno de3,4 a3,6% dependendo da latitude, existe uma diferença enorme quanto à luz e temperatura, o que promove um arranjo irregular dos seres vivos.

Nas margens continentais estendem-se as plataformas, cuja largura pode variar muito e que descem a uma profundidade de 150 a 200 metros para dentro do mar, até despencarem num declive continental até profundidades que variam de3.000 a5.000 metros.

Sobre essas plataformas dizemos que existe a zona nerítica, enquanto em mar aberto temos a zona oceânica. A região onde se formam as ondas é chamada zona intertidal.  Mais acima, na praia, temos a zona supratidal, enquanto mais abaixo, logo além de onde as ondas se formam temos a zona subtidal. Os declives da plataforma formam a zona batial e as grandes planícies abissais, mais famosas, recebem o nome de zona abissal.

Assim, temos uma classificação do ambiente marinho horizontal, mas veremos que os animais variam enormemente na coluna d’água, ou seja, verticalmente, uma distribuiçãi influenciada principalmente pela quantidade de luz. O sol lança seus raios por até 200 metrospara dentro dos oceanos, dependendo da turbidez da água em casa lugar. Um ser humano a essa profundidade, porém, dificilmente enxergaria alguma coisa. Essa zona fótica é suficiente para que os processos fotossintéticos ainda sejam realizados. Logo abaixo, porém, na zona afótica, a escuridão impera e os seres autótrofos desaparecem, dando lugar aos carnívoros predadores ou consumidores de detritos que descem da superfície.

Os animais se dividem basicamente em pelágicos (que nadam) e bentônicos (ficam fixos no fundo). Muitas espécies pequenas, conhecidas como fauna intersticial, se especializaram em viver entre os grãos de areia, tanto no fundo dos oceanos quanto nas praias. Obviamente a facilidade do estudo em regiões rasas nos fez conhecer um número maior de espécies dessas regiões, mas certamente ainda existe uma quantidade imensa de seres vivos desconhecidos aos seres humanos.

 

Água Doce e Estuário

 

Os lagos também são divididos em zonas horizontais e verticais, porém o tamanho reduzido os torna ecologicamente muito diferentes dos oceanos.

Enquanto nos mares a água fica mais densa com a diminuição da temperatura, a água doce alcança sua maior densidade aos 4ºC. Isso faz com que nos meses quentes a água fria permaneça no fundo, enquanto a superfície permanece quente. A água do fundo é estagnada e sem oxigênio, comportando uma variedade e quantidade limitada de organismos.

Nas regiões tropicais ocorre um fluxo anual de água ou essas são totalmente estagnadas.

 

A junção dos rios com os oceanos não ocorre de modo abrupto mas gradual, formando um estuário conhecido como estuário. É afetado por ondas (de onde se origina o nome aestus, onda) e, claro, pela salinidade do mar, ainda que a concentração seja consideravelmente menor. A maioria dos animais marinhos não sobrevive, tampouco os de água doce. Previsivelmente, ocorre uma restrição e uma especiação nessa área de transição.

Nas regiões tropicais temos ainda os mangues, constituído de árvores que se adaptaram a viver em regiões constantemente alagadas e salinas. Desenvolveram raízes especiais (pneumatóforos) que se projetam acima da linha d’água. Do mesmo modo, a diversidade animal pode ser grande.

 

Plâncton, Produção Primária e Cadeias Alimentares

 

Plantas e animais microscópicos, tanto nos oceanos quando em água doce, formam o plâncton. O fitoplâncton é formado por diatomáceas e outras algas, enquanto o zooplâncton constituí-se de um enorme número de animais.

Enquanto estudava no Barnes, lembrava-me de um dos mais empolgantes traillers de ficção-científica que já li, a história apocalíptica O Cardume (também publicado com o nome O Quinto Dia), do escritor alemão Frank Schätzing:

“Na realidade, não eram os tubarões, baleias e polvos gigantes que dominavam o mar, mas multidões de minúsculos seres microscópicos. Em um litro de água superficial, dezenas de bilhões de vírus se moviam numa grande confusão, um bilhão de bactérias, cinco milhões de animais unicelulares e uma milhão de algas. Até mesmo amostras de água de profundidades além de seis mil metros, escuras e inóspitas, ainda apresentavam milhões de vírus e bactérias. Não havia a menor possibilidade de controlar esse caos. Quanto mais as pesquisas avançavam no cosmo do minúsculo, mais confuso ele se tornava. Água do mar? O que seria isso? Um olhar mais atento através do microscópio de fluorescência faria concluir que se trataria de uma espécie de gel ralo. Uma rede de macromoléculas atravessava cada gota como pontes pênseis. Inúmeras bactérias encontravam seu nicho ecológico entre feixes de fios, pelezinha e filmes transparentes. Bastava um mililitro para medir dois quilômetros de moléculas de DNA estendidas,310 quilômetrosde proteínas e5.600 quilômetrosde polissacarídeos.” (O CARDUME, p. 664)

O plâncton de água doce é mais limitado em número de espécies, o marinho alcança maior densidade onde existe mais luz e incidência de nutrientes, tendo importância primária na cadeia alimentar. Os nutrientes inorgânicos são mais abundantes nas regiões rasas, onde ocorre uma mistura maior da água com o sedimento.

O plâncton é amarelo, mas essa cor se mistura ao azul da água e transforma-se em verde ou cinza, por isso águas ricas em plâncton apresentam essas cores. Contrariamente, as de baixa produção são límpidas e azuis, pois a luz penetra com facilidade até as camadas mais profundas – para felicidade dos mergulhadores profissionais ou amadores.

 

Lindando Com a Diversidade

 

Como eu expressei meus sentimentos diante dos planos em colocar toda a zoologia no blog, Barnes comenta rapidamente que para o estudante que almeja estudar os invertebrados pela primeira vez, pode se sentir diante de uma tarefa esmagadora.

Cada grupo tem projetos estruturais próprios, podendo ser encontrados cerca de 30 designes básicos entre os animais multicelulares.

Uma maneira de facilitar nossa compreensão é através dos “princípios e padrões emergentes”, caracteres evolutivos de adaptação que unem grandes filos e tornam nossa compreensão mais fácil quando estudados separadamente, como faremos no início de cada capítulo.

Alguns desses princípios são primários, ou seja, seriam encontrados no ancestral comum e repassados a todos os indivíduos presentes no grupo estudado. Outros podem ser secundários ou convergentes, ou seja, surgiram por evolução convergente. O importante é que perceber esses padrões vai nos dar uma compreensão evolutiva dos meandros que a vida utilizou para adaptar cada organismo ao seu meio.

 

 

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