Livros de 2009

(253) A GALÁXIA DE GUTENBERG – Marshall McLuham (26/01/09)

Há livros que precisam ser relidos, seja porque o momento não foi oportuno ou, como foi o caso desse exemplo, porque não tive conhecimentos suficiente para absorvê-lo devidamente: A Galáxia de Gutenberg desceu quadrado. Achei a leitura muito interessante, porém densa e abstrata. O que não me impediu de tirar algum proveito, aliás o livro está todo sublinhado a lápis.

No geral, o autor discorre sobre a relação do ser humano com a palavra escrita, e como esses dois elementos se auto-modificaram. Não foi apenas nossa cognição que permitiu o uso da linguagem, esta também mudou nossa cognição e, portanto, nossa maneira de enxergar o mundo, “porque o alfabeto não pode ser apenas assimilado, ele chega para modificar, liquidar ou reduzir.” P.82

Por exemplo, no filme O Nome da Rosa, vemos os monges copistas imersos em seus trabalhos no mais absoluto silêncio, e geralmente é assim mesmo que imaginamos, mas na verdade havia um murmúrio constante nesses lugares, porque na Idade Média a assimilação de um manuscrito ocorria de forma diversa do que a tipografia possibilitou:

“Quando um copista moderno levanta os olhos do manuscrito que tem à sua frente a fim de escrever, leva em seu espírito uma reminescência visual do que viu. O que o escriba medieval levava consigo era uma lembrança auditiva e, provavelmente, em muitos casos, a lembrança de uma só palavra de cada vez. (…) Ler em silêncio era uma aberração tão incomum que Santo Agostinho chegou a falar dela em suas Confissões 5,3, sobre a capacidade de Ambrósio quanto a isso: “Mas quando ele lia seus olhos deslizavam pelas páginas e seu coração procurava o sentido, mas a voz e a língua ficavam em repouso.” (p.136)

“À medida que a prensa tipográfica de Gutenberg foi enchendo o mundo, apagava-se a voz humana. Os homens começaram a ler em silencio e passivamente como consumidores. A arquitetura e a escultura secaram também.” P.337

Outra observação interessante:

“É necessário compreender que as pessoas não-alfabetizadas se identificam muito mais intimamente com o mundo em que vivem do que as alfabetizadas. Quanto mais alfabetizadas, tanto mais tendem as pessoas a ficar desligadas do mundo em que vivem.” P.116

Uma citação de um tal Aretino na página 265:

“Que outros se preocupem com o estilo e deste modo deixem de ser eles próprios. Sem mestre, sem modelo, sem guia, sem artifício, vou trabalhar e ganhar a minha vida, o meu bem estar e a minha fama. De que mais necessito? Com uma pena de ganso e umas folhas de papel eu me rio do universo.”

Mas, sem dúvida alguma, a que mais gostei foi essa:

“O espírito liberal e altamente letrado e individualista sente-se atormentado pela pressão para que se torne coletivamente orientado. O liberal alfabetizado está convencido de que todos os verdadeiros valores são particulares, pessoais, individuais.” P.219

“O processo civilizatório é essencialmente condicionante”

(254) O Senhor dos Anéis – J. R. R. Tolkien (30/01/09)

(255) O GENE EGOÍSTA – Richard Dawkins (04/03/09)

Richard Dawnkins, com sua prosa envolvente, discorre sobre uma teoria interessante, a de que os organismos não passam de autômatos para que os genes possam sobreviver ao longo das eras. Com a perspicácia que lhe é própria, Dawkins dá inúmeros exemplos (o que torna o livro até um pouco maçante em certo momento) para comprovar suas idéias, que aliás estão longe de terem larga aceitação na comunidade científica (Ernst Mayr, por exemplo, ataca esse rebaixamento que Dawkins dá aos organismos lembrando que a seleção natural age justamente sobre os corpos, e não sobre os genes; ao que parece, o próprio Dawkins teve que se ratificar sobre esse assunto). No fim do livro, o autor apresenta uma idéia ainda mais audaciosa e polêmica, que para alguns chega as raias do ridículo, a de que o mundo das próprias idéias é guiado por leis semelhantes à da seleção natural, ou seja, idéias  “melhores” se propagam mais facilmente através dos cérebros e tem melhores chances de seguirem adiante. Desnecessário dizer que tal idéia lhe deu ainda mais críticas.

Ainda assim, considero Richard leitura essencial para o biólogo atual, principalmente para aqueles (como eu) que às vezes se exasperam com a insistência irritante de Gould em cutucar Darwin.

(256) BLECAUTE – Marcelo R. Paiva (06/03/09)

Embora só tenha lido dois livros dele (o outro é Feliz Ano Velho), posso dizer que gosto da maneira como Marcelo Rubens Paiva escreve. É uma leitura jovem, desprendida, informal, leve. Ao mesmo tempo, é profunda, com personagens emocionais cheios de conflitos internos e fragilidades. Estaria eu exagerando ao compará-lo a Salinger?

Neste livro, um grupo de jovens paulistanos faz uma excursão até uma caverna, mas quando estão lá um riacho que guarda a entrada sobe e eles ficam três ou quatro dias presos, incomunicáveis com o mundo externo. Porém, é quando retornam à civilização que começa a verdadeira aventura, o drama bizarro já repetido em outras histórias, mas que mesmo assim Rubens descreve com originalidade. Abismados, os personagens descobrem que todas as pessoas do mundo estão paralisadas, petrificadas, viraram estátuas. No mercado, nos pontos de ônibus, dentro dos carros, nas calçadas. Lá estão elas, paradas em um momento qualquer, pegas totalmente desprevenidas por algum fenômeno catastrófico e inavisado (mais uma palavra de minha criação). Aos poucos, o mundo lentamente se esquece dos homens e a natureza retorna para tomar o que é seu por direito.

O melhor de tudo é que a trama se passa em São Paulo, algo muito raro para histórias desse gênero. Vemos a Avenida Paulista tomada por prédios em ruína, ouvimos os cães dentro dos milhares de apartamentos latindo por socorro, animais selvagens na Praça da Sé…  Há também circunstâncias que permanecem tão inexplicáveis para nós quanto para os personagens, como o barulho parecido com o de um caça que cortou o céu e a visão de uma velha rindo de escárnio através da porta de um elevador.

Melhor que Eu Sou A Lenda.

(257) A Longa História – Reinaldo S. Neves (22/05/09)

(258) A GUERRA DOS MUNDOS – H. G. Wells (27/05/09)

Não tem jeito, ninguém escreveu ficção-científica como o precursor, o pai do gênero. Eu estava pensando muito nesse livro desde que havia assistido o filme de Tom Cruise em 2005, e finalmente o encontrei, meio escondido numa prateleira da Saraiva. E era uma edição linda.

Uma coisa interessante é que a história não é atemporal. Eu tentei lê-lo imaginando tudo no presente, mas o século XIX está vivo demais nas páginas para se abstrair dele, o que torna a coisa bastante romântica, devo dizer. A história se inicia entre os cenários da Inglaterra rural e chega a Londres sherlockiana. Achei interessante que o narrador da história se impressiona com a lentidão com que as informações foram passadas, principalmente para os moradores da capital, que perceberam tarde demais a gravidade da invasão alienígena.

O livro é muito bom, e embora alguns cenários soem um pouco piegas, Wells conseguiu transmitir a sensação de suspense que vemos atualmente nos melhores filmes do gênero.

(259) A Cabana – William P. Young (25/06/09)

(260) Eu Sou a Lenda – Richard Matheson (27/06/09)

(261) 1984 – George Orwell (29/06/09)

(262) As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso (repeteco, ver livro 245, de 2008) – Vladimir Propp (11/07/09)

(263) Identidades Alienígenas – Richard L. Thompson (16/07/09)

(264) O Fim da Evolução – Peter Ward (03/09/09)

(265) VIDA MARAVILHOSA – Stephen Jay Gould (22/10/09)

Continuando o pensamento que iniciei em O Gene Egoísta logo acima, Stephen J. Gould e Richard Dawkins sempre travaram discussões no meio científico quando o assunto era evolução, especialidade de ambos. Esses dois personagens ilustram bem as contradições humanas que dificilmente enxergamos em personagens fictícios, sempre bons ou maus dependendo das circunstâncias. Quero deixar bem claro que estas são opiniões minhas, mas vejo as coisas assim:

Dawkins é depreciado por muitos, pois tem fama de arrogante e pretencioso. Seus olhos de rapina e porte altivo de fato demonstram certo egocentrismo e inflexibilidade. Mesmo assim, ele é um defensor ferrenho de Charles Darwin, que é visto por muitos como ligeiramente ultrapassado. Gould tem um jeito bonachão e simpático, seus livros tem títulos despretenciosos e a leitura é aparentemente mais simples (embora Richard escreva maravilhosamente). Mesmo assim, ele vive a cutucar Darwin em vários pontos.

Gould em uma versão animada para Os Simpsons

Não me entendam mal, eu gosto do Gould (alguns amigos afirmam acidamente que eu gosto de todo mundo). De fato, Richard Dawkins tem pontos que incomodam, como sua mania de defender o ateísmo e praticamente chamar todos os crentes de idiotas, vítimas de algum delírio cerebral genético. Mas na minha opinião Gould também gostava do estrelato, algo que não fica tão evidente diante de seu rostinho de bom moço. Estou tomando como base este livro, Vida Maravilhosa.

O livro é ótimo, leitura obrigatória para quem gosta de evolução. Um resumo completo pode ser visto aqui. Basicamente, Gould defende uma visão não progressista da evolução da vida na Terra. A idéia de que algumas espécies são mais evoluídas (e, portanto, melhores) ficou muito arraigada na psique humana, talvez por culpa de representarmos as filogenias na forma de uma árvore, e por nossa concepção de que o que está em cima é melhor. Longe de ser uma inofensiva guerra de acadêmicos, isso causou efeitos catastróficos diante de uma visão racista das “raças” humanas, levando desde as esterilizações em massa dos EUA até o Holocausto hitleriano.

Mas o que Gould fez foi pegar um pequeno detalhe da teoria de Darwin e, justamente por ser um detalhe, acusar seu autor de não explicá-lo suficientemente, hipoteticamente porque não acreditava muito nele. Acertadamente, Gould descreve o ambiente vitoriano de Darwin, onde a evolução já era muito discutida e a lei do mais forte estava em debate. O clima reacendia a progresso (e decadência), com todas as contradições do colonialismo, da industrialização e de Malthus. Porém, Darwin tinha tanta consciência de que seu livro seria inevitavelmente usado para justificar muitas injustiças que esperou 20 anos para publicá-lo e ainda conservamos um manuscrito para A Origem das Espécies onde ele escreveu na orelha de uma página: “Nunca dizer que uma espécie é melhor que outra.”

O livro de Gould é muito valioso para quem quer estudar evolução de um modo mais profundo, porque trata de um detalhe de suma importância, que foi bastante esquecido por décadas. Mas, sinceramente, não parece que Gould gostava de fazer uma tempestade num copo d’água? Para mim, ele não parece menos agressivo do que Dawkins.

(266) O SEGREDO – Rhonda Byrne (28/10/09)

Falar desse livro é um risco, como em todo assunto polêmico, embora eu não tenha motivos para temer injúrias de uma coisa tão distante quanto minha reputação.

Não vi o documentário, mas muita gente me disse que é um lixo. Quanto ao livro, certamente acredito nele, para horror de alguns chegados meus que se mantém atrás das linhas conservadoras.

Não tem problema, eu gosto mesmo de estudar misticismo, pelo menos é o assunto que mais me faz sentir aquilo que as pessoas costumam chamar de Fé.

A idéia de que a força de vontade é capaz de mover montanhas está presente desde antes do Antigo Testamento. Acredito que O Segredo é a síntese moderna dessa idéia, colocada em pratos limpos, disponível a quem quiser se servir de um jeito moderno e prático.

Que Lei é essa, não sei dizer. O que sei é que Jung já falava sobre sincronicidade, e antes dele Jesus disse Pedi e receberei, e antes dele os textos védicos já apontavam para uma natureza mutável a serviço do homem. Sei que a fé tem um poder extraordinário, capaz de curar câncer. Sei que nosso cérebro acredita no que dizemos para ele, e que sabendo “blefar” bem conseguimos praticamente tudo.

Além disso, a mistura de ciência e misticismo parece ser uma tendência mundial, como tenho percebido em certos pontos isolados, mas que tem feito sucesso. Em Avatar, os cientistas se tornaram crentes provando haver uma Força em Pandora que interconecta todos os seres, e para onde eles vão depois da morte física; em Sherlock Holmes, o primeiro da atual franquia, vemos um ocultista usar de métodos científicos para evocar forças maléficas. No último livro de Dan Brown, O Símbolo Perdido, uma cientista noética parece prestes a provar a existência do mundo espiritual.

Estaremos presenciando os efeitos da Era de Aquário?

(267) SOLIDÃO – Anthony Stor (09/11/09)

Solidão, essa incompreendida.

Sou um cara tímido, e sempre fui, assim tenho experiência para dizer, e desabafar, o quanto sofrem os solitários. Algumas pessoas acham que a solidão é que nos faz sofrer, mas pelo menos no meu caso, o sofrimento maior vinha do esforço conjunto das outras pessoas para me tirar da solidão.

De momo geral somos muito idiotas na adolescência. Eu me sentia bem em ficar sozinho, mas com todos dizendo que o normal era se divertir em bando, saía de vez em quando e tentava buscar prazer em festas e badalações, mas era justamente no meio da galera que eu ficava deprimido! Caso de internação, talvez? Só bem mais tarde, já na faculdade, uma professora de psicologia me fez ver que cada um é cada um, e que não existem tabelas ou rótulos para humanos. Mesmo assim, não me arrependo de ter sido tão influenciável na adolescência. Além de inevitável, eu sempre sentia uma inspiração para escrever quando me sentia desajustado, e botava pra fora batendo vigorosamente na minha máquina de escrever, que ainda hoje uso.

Mas quisera ter lido Solidão nessa época, seria de muito conforto para minhas angústias, como é sempre bom para todo adolescente perceber que não está sozinho em suas neuroses.

Anthony Storr defende os solitários, e por isso já ganhou minha simpatia. Segundo ele, muitos gênios e artistas de talento eram desajustados sociais, que preferiam viver no isolamento.

Analisando solitários de todos os tempos, ele revela que “a capacidade imaginativa tende a se tornar particularmente desenvolvida nos indivíduos talentosos que passaram infância relativamente solitária” p.149

Em várias partes me lembrei de mim mesmo, e em muitos momentos ri, porque parecia estar ouvindo uma descrição quase irônica do meu desenvolvimento. Por exemplo, na página 160 Anthony diz que “na vida adulta, a criança atenta, excessivamente ansiosa, torna-se ouvinte para quem os outros se voltam, mas que não forma relacionamentos recíprocos em termos de igualdade no que diz respeito à auto-revelação mútua”.

Embora hoje eu me considere uma criatura relativamente sociável, meu gosto pela solidão não diminuiu com o tempo, pelo contrário, a cada dia sinto mais prazer nos momentos em que fico sozinho. Isso é muito difícil para outras pessoas aceitarem, principalmente minha namorada. Aliás, se existe alguém que nunca está nos planos de um solitário, principalmente se for meio nerd, é a namorada ou namorado. Já tenho dois anos e meio de namoro e me acostumei tanto com a solidão que às vezes sinto uma espécie de fissão: olho para minha namorada e penso que o Ricardo que está com ela não é o verdadeiro, que existem dois Ricardos, o que está com ela é de alguma forma artificial, enquanto o verdadeiro jamais poderá ter o prazer de uma companhia humana. Sinto como se ele estivesse lá no fundo, esperando a solidão para emergir.

Storr explica que muitas crianças solitárias sentem a necessidade de ficarem sozinhas para expressarem seu eu verdadeiro, já que na companhia dos pais sentem a imposição de serem quem eles esperam que ela seja. Será que isso aconteceu comigo?

Ainda pretendo fazer um resumo completo desse livro e postá-lo no blog, mas me falta tempo.

(268) A Incrível Viagem de Shackleton – Alfred Lansing (22/11/09)

Excelente livro para quem gosta de aventura. Totalmente baseado em fatos reais, narra uma viagem para a Antártica que quase terminou em tragédia depois que o navio de exploradores encalhou e foi destruído por uma placa de gelo e seus tripulantes tiveram que viajar a pé por quase seis meses sobre o continente gelado, enfrentando situações extremas de sobrevivência.  Isso em 1914! Alfred Lansing reconstruiu a aventura épica baseado nos diários e relatos dos sobreviventes, de modo que a narrativa está cheia de detalhes, tanto da aventura em si quanto dos homens que participaram dela, seus medos e ansiedades.

Em algumas partes, o medo se tornava um terror paralisante, como num momento onde todos estavam sobre uma placa de gelo que se partiu. Sem saber a extensão dos danos, não havia modo de imaginar se o centro de gravidade havia mudado com a rachadura e se no instante seguinte todos seriam atirados ao mar gélido numa inclinação abrupta:

“Devido a seu tamanho, o iceberg onde estavam andava mais lentamente do que o resto do banco, que se chocava contra ele e o golpeava de todos os lados, enquanto vagas imensas o minavam, desgastando suas beiradas. Periodicamente, fragmentos se soltavam de um dos lados e outros eram arrancados por fragmentos de banquisa atirados contra o iceberg pelo mar. A cada impacto, o iceberg estremecia assustadoramente.

Era precisamente a situação que Shackleton temia desde que o balanço do mar surgira no Acampamento Paciência. O iceberg se desfazia debaixo de seus pés e podia partir-se ou virar de cabeça para baixo a qualquer momento. Apesar disso, lançar os barcos ao mar teria sido uma loucura. Seriam despedaçados em questão de minutos.

A cena exercia sobre eles um tipo de satisfação horrenda. Os homens observavam, tensos e ao mesmo tempo conscientes de que no momento seguinte poderiam ser atirados ao mar e esmagados, se afogar ou então flutuar até que a centelha da vida se enregelasse em seus corpos. Ainda assim, a grandeza do espetáculo que contemplavam era inegável.

Ao vê-lo, muitos tentaram traduzir seus sentimentos por escrito, mas não conseguiram achar as palavras adequadas.” P.194

Há também momentos engraçados, como a tentativa de aplacar o desejo de fumar queimando o solado das botas nos cachimbos ou, pior ainda, quanto aos roncos dos companheiros que não deixavam ninguém dormir:

“Wild inventou um truque engenhoso para a cura dos roncadores crônicos. Lees, que perturba constantemente a paz do nosso sono com seu violento ronco habitual, foi o primeiro a ser submetido à experiência. Um cabo é amarrado a seu braço e passa por uma série de ilhoses por cima das camas até perto [de Wild]. Quando o ronco perturba os homens que estão dormindo, eles puxam vigorosamente o cabo – como fariam para deter um bonde. Pode ser que funcione para frear bondes, mas Lees é incorrigível e mar reage a nossos repelões. Alguém já sugeriu que o cabo fosse amarrado em torno do seu pescoço. Tenho certeza de que não faltaria quem se dispusesse a puxar com toda a força.” (p.264)

(269) Planeta Sem Retorno – Paul Anderson (05/12/09)

(270) O SÍMBOLO PERDIDO – Dan Brown (28/12/09)

Não achei a história melhor do que O Código Da Vinci ou mesmo Anjos e Demônios, talvez por meu desinteresse quanto à maçonaria. Mesmo assim o livro prende da primeira à última página. Além disso, é inegável que Robert Langdon aparece aqui em seu apogeu, sem dúvida Dan Brown teve dessa vez a consciência de que o estaria mostrando ao mundo e fez questão de caprichar, mas sem exageros. Sem dúvida, está entre meus personagens favoritos.

Desenhos

Atualização (19/10/2014): estou com um blog só para meus desenhos, acessem: http://riccardoilustra.wordpress.com/.

 

Numa quarta-feira, 02 de junho de 2010, às vésperas de terminar o sétimo período, haveria uma pequena palestra na sala de apresentação das monografias. O ilustre palestrante, que tinha vindo de longe, era o ilustrador científico Álvaro Nunes . Oficialmente ele falaria das 20:30h até as 21:00h e como eu não tinha aulas as quartas, pensei seriamente em não ir, já que a faculdade não é apenas longe da minha casa, mas em outra cidade. Depois, pensei que um pequeno sacrifício poderia realmente ser muito importante para minha vida profissional e decidi que iria. Além do mais, ia ficar em casa fazendo o que? Assistindo TV? Decidi também levar alguns desenhos meus (não tenho a pretensão de denominá-los ilustrações) para o caso de surgir a oportunidade de mostrar a ele.

O Dr. Álvaro se mostrou um homem muito tranqüilo, culto e politizado, entrelaçando assuntos muito variados. Ele disse que o meio ambiente ia além do mundo natural, é também o lugar onde vivemos, nossas cidades. Segundo ele, é muito importante que nós, biólogos, compreendêssemos isso. Do mesmo modo, a ilustração científica deveria servir a um propósito maior que seu objetivo imediato. Como qualquer obra produzida por um cientista, deveria ter como função ajudar no desenvolvimento do mundo.

Após essa curta introdução, mostrou algumas de suas ilustrações. Realmente, na grande maioria era difícil acreditar que estávamos diante de algo feito à mão, e não de uma fotografia de alta resolução.

No fim da palestra, preparei-me para ir até lá, temeroso do que ele poderia achar dos meus desenhos. Eu mesmo julgava pouquíssimos desenhos bons, e depois de ver todas aquelas aquarelas impressionantes, achei que havia boas possibilidades de estar prestes a sofrer uma humilhação.

Enquanto ele guardava suas coisas, fui até a mesa e cumprimentei-o, falando do intuito de mostrar minhas próprias ilustrações. Ele ficou feliz com o interesse e pude ver em seus olhos que estava sendo sincero em sua curiosidade para saber o que eu carregava comigo. Fiz muitas ressalvas dizendo que achava a maioria dos desenhos dali uma porcaria, que eu era muito jovem quando os fiz, etc. Curiosamente, quando salientei que nunca tinha feito um curso, ele riu e disse “Que bom! Feliz aqueles que não tiveram mestres e não herdaram seus vícios”.

O grande Álvaro Nunes folheou minha humilde pastinha várias vezes. Desprezou todos os desenhos que não tinham cunho científico (como o Coringa do Batmam e um elfo de flecha e tudo, que eu me recuso a exibir aqui). Nada pude fazer senão concordar que eram um lixo. Na maioria dos outros desenhos ele disse perceber muito de “farra”, como aquele de um Protoceratops atacando um Velociraptor que eu fiz no início da adolescência. Apontou meu desenho do Oviraptor como tendência a algo de qualidade. Também gostou do Dsugrapteus e principalmente do coleóptero (Cerambix cedro).

Enquanto olhava, disse ter visto trabalhos maravilhosos de arte paleontológica no Museu de História Natural de Nova York, inclusive um aluno seu havia acabado de ganhar um prêmio lá.

Dirigindo-se a mim, disse que é preciso focar um tema. Quando perguntei de que modo eu posso começar a trabalhar com isso, ele sintetizou com firmeza: “Apareça! Divulgue seu trabalho.”

Agradeci, apertando sua mão. Saí de lá tão eufórico que me esqueci completamente que tinha que ter me encontrado com meu professor de monografia.

A publicação de desenhos na internet é complicada, por conta da falta de controle que temos sobre nosso trabalho. Além do mais, meus desenhos são inspirados em desenhos de outros. As fontes que eu me lembrar, certamente citarei, mas creio que nos mais antigos isso será impossível. Depois de um tempo, decidi que as vantagens compensam as desvantagens e aqui estou eu, quase dois anos depois do meu encontro com o Dr. Álvaro, seguindo seu conselho, tentando aparecer.

Quem sabe eu não consigo uma proposta de trabalho?

No final de 2011, um amigo me emprestou um livro chamado DINOSSAUROS, de Paul Barrett, com ilustrações impecáveis de Raul Martín (pesquisem no google). Os seguintes desenhos foram feitos olhando os originais, uma pequena amostra das maravilhas artísticas que há no livro.

Lambeosaurus. Não sei o que é mais engraçado, o fato do dinossauro parecer míope ou a foto ter ficado ligeiramente fora de foco.

Pelecanimimus. Simpático não?

Tyranosaurus.

Protoceratops

Coelophysis

Dilophosaurus. É o meu preferido do Jurássico.

Pachycephalosaurus e um crânio fóssil.

Gostei desse.

Um Oviraptor (se bem que, ultimamente, há controvérsias se ele comia mesmo ovos (e principalmente se os roubava)). Gostei do desenho mas a luz na hora de tirar a foto não ajudou.

Aqui, um Alosaurus tirado da internet em 2010 que acabou se transformando num fracasso total.

Após um hiato de alguns anos sem produzir nada que prestasse, fiz esse coleóptero, Cerambyx cerdo, em 2007, um dos desenhos que o Dr. Nunes gostou. Vou tentar me lembrar onde olhei para dar os créditos do modelo original.

Esse desenho ainda me dá orgulho. É um Dsugaripterus. O original, todo colorido, pode ser conferido na saudosa coleção da Globo Dinossauros! Descubra os Gigantes do Mundo Pré-Histórico, mas precisamente na página 342, edição nº15.

Em 2003, fiz esse desenho, que me deu muito orgulho da época. Foi onde o Dr. Nunes identificou muita “farra”. Hoje vejo tantos defeitos que me custou postá-lo aqui. Ele pode ser visto na capa do nº 18 da coleção Dinossauros!…

Aqui, um Diplodocus tenta escapar de um Alosaurus faminto.  É com muita vergonha que eu admito que comecei esse trabalho em 2002 e até hoje não o concluí!

Obviamente o desenho original é muito, mas muito melhor que esse que eu fiz, e pode ser visto, em todo o seu esplendor, ocupando as duas páginas centrais da coleção Dinossauros!, nº12, pag. 274-275.

Fico devendo uma imagem total melhor. Não consegui melhorar a luz, e o reflexo me irritou tanto que eu desisti.

Incompleto. Preguiça.

A pata traseira foi interessante, acho que consegui passar a textura real.

Essa pele deu um trabalho do cão.

Aqui o detalhamento já está bem melhor. Mesmo assim, achei a composição confusa, não soube lidar muito bem com os sombreados.

Um Velociraptor, dinossauro preferido. O original pode ser conferido na mesma coleção já citada que fez sucesso na década de 1990, no nº 03, p. 53.

Os traços ainda eram muito toscos, os contornos estavam fortes demais.

Aqui, um Saurornithoides. O original também pode ser visto na mesma coleção, nº 49, primeira página.

Meu Reino

Quando fui buscar na internet as teorias sobre o ato de colecionar, pensei logo em Freud, pois isso me faria parecer um cara cult. Mas suspeitei que o pai da psicanálise teria algo de escabroso para revelar, como é próprio de sua mente obsessivamente paternalista. E minhas previsões se confirmaram. O colecionador, assim como o avarento, era vítima de uma retenção escatológica que, ao contrário dele, amante dos tabus, sinto-me pouco propenso a discorrer. Minha única consolação é a de que o próprio Freud sofria desse impulso, já que colecionou ao longo da vida uma quantidade absurda (cerca de 5.000 peças) de itens arqueológicos, que atulhavam seu consultório em Viena.

Sou um colecionador inveterado desde que me entendo por gente, tanto que ainda guardo a maioria dos brinquedos que ganhei desde que vim ao mundo. Para fascínio de alguns e transtorno de outros (incluindo minha namorada), meu quarto parece cada vez mais denso de objetos de todos os tipos, embora eu me considere altamente seletivo. Pedras, livros, filmes e vários tipos de bugigangas disputam espaço na minha mesa, criado e estantes numa profusão capaz de enlouquecer qualquer faxineira. Mas tudo organizado, esteja claro, tenho horror à bagunça tanto quanto aos espaços vazios. São objetos que representam culturas de diversas partes do mundo, materializações de deuses e arquétipos.

Ao pensar em publicar as fotos no blog e redigir uma pequena introdução sobre essa paixão, cunhei até uma palavra para minha relação com as coisas inanimadas que me rodeiam, objetolatria, isto é, adoração aos objetos. Porém, ao escrever a palavra no Google, descobri que ela tem outra conotação, que é a que caracteriza a pessoa que sente atração sexual por objetos, o que sem dúvida não é meu caso. Portanto, a partir de agora “objetolatria” possui dois significados.

Vamos começar no momento em que houve uma reforma no meu quarto, e tive que amontoar tudo no quarto de hóspedes:

As coisas ficaram meio caóticas.

Bem-vindos!

Guerreiros de xian, comprados no mercado livre, ladeando Bastet, uma sobrevivente da minha adolescência.

Agora os guerreiros deram lugar a, da esquerda para direita, Nefertiti e Tuntankamon. De uma coleção em fascículos.

Elefante indiano, uma das minhas peças preferidas. Foi comprado numa lojinha em Cabo Frio, Curare Atelier, perto da igreja nova, em 2011. Minha namorada quase teve um treco ao descobrir que paguei 40,00 nele.

Anfíbio, em Juiz de Fora, por 18,00.

Carro do filme Minority Report, adquirido através de uma promoção de jornal (presente da namorada). Na frente, uma concha comprada em Búzios.

Guerreiros de xian, caixinha com todos.

Rainha egípcia, no site da loja Condonare, creio que do Paraná.

Palhaço, comprado numa lojinha de decoração em Tabuleiro, por 10,00.

Cavaleiro Medieval, em Juiz de Fora, por 25,00, em 2009.

Criado-mudo.

Só os livros merecem uma foto especial. Da esquerda para a direita: Terra dos Homens, Piloto de Guerra, Olhai os Livros do Campo, Gog, Um Pobre Amor em Paris, Melhores Contos Indianos, Contos Brasileiros, Philosophy Iogy (1929). O porta-livros de elefante em comprei numa feirinha em Ouro Preto, em 2002 ou 2003.

Elefante, por 24,00 no natal de 2004, em Juiz de Fora.

Presente de Lucas, um amigo de 7 anos.

Máscara de argila, comprada no Mangal das Garças, em Belém. Presente da minha namorada.

Máscara indonésia, comprada num bazar por 45,00.

Homem-árvore, modelagem em argila feita por mim.

Arlequim. Também fiz essa e depois pintei com corretivo escolar. Infelizmente, numa faxina de domingo, ela se quebrou.

Máquina de escrever. Quarto romance a caminho! (nenhum anterior publicado).

Chocalho indígena.

Um dos objetos preferidos, réplica do crânio de Smilodon fatalis, comprado no site da Bios Réplicas. 280,00, em 2011.

Quadro da Catedral Santa Maria de Fiore, em Florença, cidade dos sonhos.

Parede norte.

Artigo de fé. Detalhe de um quadro que ganhei ao nascer. Menino Jesus de Praga.

Pintei esse quadro de 1,5 por 1m pra ocupar um espaço ocioso na parede.

O quadro alongado foi um presente de um pintor e poeta de Juia de Fora, Nilo César.

Os preferidos...

Os três maiores da esquerda contam a história de Dom Quixote, os outros foram comprados num sebo em Belo Horizonte e narram histórias que tem como pano de fundo a Segunda Guerra.

Outro ângulo, outra configuração.

Meus livros sobre biologia.

A girafa e o barco foram comprados em Juiz de Fora, os peixes são de kinder ovo, resquícios da minha infância.

O pelicano foi de uma feirinha em Cabo Frio.

Ficção-científica.

Misticismo.

Coleção de sermões do Padre Antônio Vieira.

Buda, Anúbis e psicologia junguiana (coleção amor e psiquê).

Urso malabarista, lembrança de São Paulo trazida por minha tia.

O índio norte-americano veio da 25 de março, o apontador veio de uma papelaria em Juiz de Fora e o Buda foi comprado em Aparecida do Norte.

A caixinha do Boticário era da minha bisavó.

cofre em forma de Tatu, guardando A Longa História e uma biografia de Hitler.

Aqui, ao lado de um manequim de madeira.

Inexpressivo, não?

Prateleira das rochas.

A panelinha de pedra ao fundo foi de uma outra bisavó.

Lutador de sumô, na Leitura, por 26,00.

Farol, por 5,00 num mercado em Tabuleiro. Presente da minha mãe.

O duende incenso também foi presente da minha mãe, quando eu ainda era criança.

O relógio de sol veio de Tiradentes, o guerreiro japonês de um kinder-ovo bem antigo.

Mais um Buda.

A esquerda, divindade amazonense pré-histórica, presente da namorada, trazida de Belém. A direita, Menino Jesus de Praga, presente de uma amiga, de Aparecida do Norte.

Segundo minha mãe esse aí sou eu quando ficar velho.

Igrejinha de argila, comprada na Venezuela, herança de uma terceira bisavó.

T Rex, na Ri Happy brinquedos, shopping Independência em JF, por 76,00.

Porco cofre e pirata destemido.

Herói.

Foguete Inca. Ou um homem narigudo, dependendo da perspectiva.

Duende, presente de minha prima Liziane. Acho que foi num aniversário.

]

Fonte.

Marcador de livro em forma de violão (presente da Roberta, de São Luis?) Casa maranhense, pulseira das havaianas, um colar da infância (que vinha com um coruja de durepox) e um anel que minha namorada me deu pra nao me esquecer dela.

CDs, uma lupa, tubos de ensaio, uma pelve de tatu, substância laranja não identificada, coisas típicas para o quarto de um jovem.

A mulher da loja riu quando eu disse que a petisqueira iria guardar pedras.

Isso é nostálgico.

Carranca havaina. Condonare presentes.

Filhote de tricerátops, da época em que O Mundo Perdido de Spielberg foi lançado.

Máscara de argila, produção própria.

Enciclopédias, extintas com a invenção da internet. Meu interesse por fósseis me faz solidário a elas.

Natal de 2003

O cão é mais ou menos da mesma época. O policial é mais antigo e vinha acompanhado de uma moto que se perdeu.

No fim do arco-íris...

Dimetrodon.

Rama, esposo de Sita, casal que reencarnou 7 vezes para viverem seu amor. Feirinha internacional de Juiz de Fora, 70,00 o par.

Eis a Sita.

Faraó e sacerdotisa, lojinha de Búzios, 01/03/12

Xadrez peruano, feirinha de Cabo Frio, 2011

A JORNEY TO INDIAN – Karunesh

Quero falar de uma melodia indiana de autoria de Karunesh, por favor que souber onde consigo baixar a discografia completa me avise, até agora conheço apenas um álbum, e já virei fã.

Para mim, enquanto a maioria das drogas psicodélicas continua proibida por lei, o jeito é experimentar outras formas de se alcançar estados alterados de consciência. Uma dessas formas é através da música. Não qualquer música, não de qualquer maneira. É preciso estilo e ritual. Os humanos sabem disso há milhares de anos, e até hoje existem tribos onde os xamãs caem em transe após escutarem e dançarem ao redor de alguma fogueira, rodeados por um círculo de pessoas que cantam e batem ritmamente em tambores.

Nas grandes cidades esse tipo de experiência pode ser facilmente provocado, principalmente sob efeito contínuo das músicas eletrônicas que tocam nas casas noturnas. Pergunte a qualquer jovem freqüentador desse ambiente se já não se sentiu impelido a mover o corpo exatamente como se estivesse fora se si, em transe, absolutamente “levado”. Nesses casos o som pode ou não seguir a repetição monótona dos mantras ou cantos indígenas, mas é alto o suficiente para que o indivíduo tenha toda sua atenção concentrada nele.

Portanto, minhas impressões aqui relatadas seguem padrões de concentração que precisam ser seguidos caso alguma outra pessoa tenha a curiosidade de tentar algo do gênero. Não adianta botar a música pra tocar dentro de um ônibus barulhento ou enquanto outras pessoas falam. O ideal é que ela seja executada em mp4 ou algo do gênero, assim a mente fica mais livre de interferências externas e o som fica mais íntimo com as sensações internas, muitas vezes se tornando indiscerníveis destas. Faça isso à noite, com as luzes do quarto apagadas. Deite na cama, livre a cabeça de qualquer pensamento e deixe que os sons falem por si. Você vai perceber um efeito incrível ocorrendo, como se milhares de vozes se levantassem, subitamente despertas.

Aos que entendem de música, peço desculpas e paciência por minha ignorância absoluta no que diz respeito aos instrumentos que ouço, esta é uma descrição dos sons e das minhas impressões, nada técnico. Em muitas ocasiões terei que usar comparações esquisitas ou risíveis para descrever o som, já que não posso nem imaginar que tipo de instrumento o produza.

Além disso, estou superficialmente familiarizado com as técnicas de imaginação ativa da psicologia junguiana, e descobri que a música pode ser um excelente canal para que o inconsciente conte suas histórias sobre quem nós somos.

Disto isto, comecemos.

Muito bem, A Jorney to Indian começa com um som farfalhante, que lembra o som daquelas partículas mágicas que se desprendem cada vez que um mágico de desenho animado utiliza sua varinha de condão, ou quando Tinker Bell aparece no filme com sua característica chuva de partículas mágicas. É um som que me lembra estrelas cadentes (embora eu nunca tenha ouvido nenhuma); começa tímido e termina numa cascata suave e relaxante.

Então vem um som profundo, que me lembra um gongo tibetano soando lá no alto do Himalaia, isolado nas alturas, rodeado por um mar de floresta nativa. É um som que contrasta com a chuva de estrelas do início e provoca um efeito que atrai totalmente a atenção, como se a hipnose ou o transe tivesse tido início. Ao mesmo tempo, existe um som que vem de baixo, parecido com uma vocalização gótica, porém mais suave e ao mesmo tempo mais estilizada, de modo que não tenho certeza de se é feita por voz humana ou não. Logo em seguida tem início outro som contínuo, que parece provocado por um violoncelo ou coisa parecida, mas é difícil explicar.

Penso numa floresta indiana, Nagarole, e vejo a mata sombria diante de mim aproximando-se em câmara lenta, naquele efeito incrível do filme Apocalypto. De trás de uma samambaia que cresce sobre a raiz protuberante de uma árvore cheia de musgo, vejo um tigre surgir, silencioso e sensual como só os felinos sabem fazer. Percebo que não é um tigre real, mas uma criação simbólica para qualquer outra coisa inescrutável, parece-se mais com um desenho a nanquim, excessivamente simétrico e perfeito. Ora, isso acaba me lembrando um verso de William Blake: Tigre! Tigre! Ardendo em chamas nas florestas da noite…

Um matraquear de madeira toma conta da música, como se fosse asas de pássaros mágicos, e eu os vejo em revoada na beira de algum rio indiano.

Enquanto os pássaros se afastam, o violoncelo toma a dominância e realiza diversos sons muito belos, indo e voltando, como se o instrumento fizesse no ar movimentos redundantes, imitando o símbolo do infinito, deixando um rastro de cores e nuances. Ao fundo, as vozes humanas se tornam mais discerníveis e é possível perceber que vem de uma ou mais mulheres. Nesse momento sinto que a música já modificou minhas ondas cerebrais totalmente e começo uma viajem em outro plano. O violoncelo torna-se mais forte, com tons que variam de forma mais rápida, a chuva de estrelas volta por poucos segundos e então vem o som de um sino, muito agudo e rápido, como se para preparar para a segunda parte.

Percebemos agora um instrumento de corda, talvez um violão ou algo bem parecido. O som parece mais aberto e mais grave, o que dá mais dinâmica a música, embora o estilo transcendental continue o mesmo, porém ainda mais contagiante.

Nesse estágio, todos os instrumentos estão juntos, o que confere um ar muito misterioso e envolvente. Sinto-me rodeado pelo clima de mistério.

Então, cortante como uma navalha, entra o vocal feminino. A mulher canta de tal maneira que me sinto enlevado, como se já não houvesse outra coisa no mundo a não ser minha mente. E não é apenas o som, é também o idioma e a forma como as palavras são ditas, intercaladas por outros sons indiscerníveis e com o pano de fundo do qual já falei.

Então a música sofre uma pausa, mas mesmo da primeira vez dá pra perceber que não foi um fim abrupto, e sim o hiato necessário para que um novo elemento se fizesse presente.

Vem então um instrumento de sopro que recheia nossos ouvidos de uma maneira que eu só posso classificar como divina, sem exagero. Na minha cabeça, me vem uma imagem desconexa, apenas parcialmente explicável. Há um ano comprei um xadrez peruano onde, no lugar do bispo, existe um sacerdote inca com uma flauta na boca.

Talvez por isso, imagino um indígena pré-colombiano tocando tal instrumento, flutuando sobre uma floresta tropical, parado no ar acima de um vale onde corre um rio escondido pelas árvores. Observo seus olhos, e são tão expressivos. Entendo que não é um ser humano de verdade, mas outra coisa qualquer, um “sopro da natureza” como dizia Jung, e sinto que ele não detém nossa linguagem cotidiana, por isso se esforça para me dizer algo através das notas de sua flauta. Quase consigo compreender, mas é sutil demais para a mente desperta.

Nos dias em que estou mais inspirado, a sensação é a de que estou me desprendendo do corpo, flutuando para qualquer lugar na eternidade onde só exista esse enlevo, essa imersão. O Paraíso bem podia ser assim, mente e música, nada mais.

Recentemente li um artigo de Ricardo Costa (Ramon Llull (1232-1316) e a beleza, boa forma natural da ordenação divina. Sofia – Filosofia Medieval, vol. XI, ns. 15-16, Vitória, 2006, p. 333-348), onde ele cita um autor medieval, cujas palavras parecem apropriadas para trasncrevê-las aqui:

“Quando, de vez em quando a dileção pelas cores da casa do Senhor ou o esplendor multicolorido das pedras preciosas me distanciam, pelo prazer que produzem, de minhas próprias preocupações, e quando a honesta meditação me convida a refletir sobre a diversidade das santas virtudes, transferindo-me das coisas materiais para as imateriais, parece que resido em uma estranha região do orbe celeste, que não chega a estar completamente na superfície da terra nem na pureza do céu, e que, pela graça de Deus, posso transferir-me de um lugar inferior para outro superior de um modo anagógico” – Suger de Saint Denis,De rebus in administratione sua gestis, XXXIII, 198-199.

A mulher retorna e canta mais algumas palavras, que se dissolvem no som dos gongos e da chuva de estrelas cadentes.

Transcendental. Palmas para Karunesh

Leituras de 2008

(223) A Mente – John R. Wilson (22/01/08)

(224) A VIDA VEM da VIDA – A. C. Bhaktivedanta Swami (23/01/08)

Embora tenha mostrado um conhecimento muito superficial da evolução darwiniana, o líder espiritual Bhaktivedanta Swami nos fornece pensamentos surpreendentes, muitos de acordo com as últimas descobertas da ciência. Por exemplo, acho que Einstein ia gostar de ouvir esse trecho que eu grifei:

“A idéia de vir está em nossas mentes porque estamos vivendo nesse mundo limitado, onde vemos que há um começo para tudo. Portanto, pensamos que as coisas estão vindo. Mas na verdade matéria e espírito já existem. Quando eu nasço, penso que o meu nascimento é o começo do mundo. Mas o mundo já existe.” P. 48

“Tanto você quanto a formiga vivem cem anos, mas a extensão de nossa duração de vida de cem anos é relativa aos nossos corpos.” p. 4

Já Pavlov ia gostar de ler isso:

“Quando você é condicionado, você pensa em termos de dualidades como calor e frio, dor e prazer. Mas quando você é liberado, não tem tais pensamentos condicionados. (…) ser condicionado significa que embora a entidade viva seja eterna, devido ao seu condicionamento ela pensa que nasceu, que está morrendo, que está doente ou que está velha. Mas uma pessoa não condicionada nem mesmo é velha.” p. 45

E sobre a vida após a morte? Quando eu era mais jovem, sempre pensava que se acaso houvesse mesmo uma vida do lado de lá, a passagem deveria ser uma experiência bem traumatizante, mais até do que o nascimento. Criado como católico, eu me preocupava com o fato da Igreja não lidar muito com essa experiência, dizendo apenas que renasceríamos no Paraíso. E se não fosse bem assim? E se uma pessoa muito simples desencarnasse e fosse parar em outro lugar, talvez no umbral? Que experiência chocante ir parar ali sem nem ter idéia do que estava acontecendo. Para explicar o que acontece (em sua concepção), Swami cita o próprio Krsna:

“Aqueles que adoram os semideuses nascerão entre os semideuses; aqueles que adoram os fantasmas e espíritos nascerão entre tais seres; aqueles que adoram os ancestrais irão aos ancestrais; e aqueles que Me adoram viverão coMigo. (Bg. 9.25)” p. 51

Acho que Nietzsche ia gostar dessa parte:

“A criação de Krsna é boa. Deus é bom. Aquilo que você pensa ser mau é bom para Deus. Portanto, não podemos entender Krsna. Ele está fazendo algo que em nossa consideração pode ser mau, mas para Ele não há tal coisa como bom ou mau.” p. 65

(225) Rua da Alegria – Frances P. Keyes (29/01/08)

Não se deve julgar um livro pela capa, mas esse eu li pela beleza física mesmo. É um livro vermelho, de capa dura, de uma coleção que comprei num sebo em BH algum tempo atrás.

(226) JUNG – das edições Planeta (31/01/08)

Eu já havia lido esse livro (não totalmente) antes de conhecer O Homem e Seus Símbolos, mas mesmo assim achei interessante. Essas antigas revistas Planeta realmente são excelentes. Nessa que fala sobre o psicólogo suíço temos uma pequena biografia, o relacionamento tempestuoso com Freud, cartas de Jung, seu horóscopo, Jung e a Alquimia, a análise dos sonhos, o processo de criação artística, aspectos psicológicos do ciclo menstrual da mulher, uma análise de Deus nos dias atuais, D. Juan e o bandeirante brasileiro, Iemanjá e o complexo-mãe ainda as comemorações do centenário de Jung. Realmente, muito bom.

(227) O MESTRE DA SENSIBILIDADE – Augusto Cury (09/01/08)

Augusto Cury era um psiquiatra ateu até resolver estudar a Bílbia para construir um diagnóstico clínico de Jesus. Foi nesse estudo que percebeu que a personalidade do Mestre continha elementos mutuamente exclusivos nos seres humanos comuns. O resultado foi uma série de cinco livros, dos quais esse é o segundo, onde esse estudo é explanado de forma muito impressionante.

(228) Eu Sou o Mensageiro – Markus Zusak (23/02/08)

(229) A REVOLUÇÃO DOS BICHOS – George Orwell (01/03/08)

Considero esse livro melhor que 1984, do mesmo autor. A história que parece filme de Sessão da Tarde (esperamos ver Pig, O Porquinho Atrapalhado surgir a qualquer momento), mas na verdade trata-se de uma crítica ao sistema comunista, que prega a igualdade mas explora o ser humano de forma ainda mais cruel que o capitalismo. Orwell foi corajoso ao escrever essa história em 1945, quando União Soviética e Estados Unidos estavam juntos contra o nazismo. Pra quem gosta de criticar o capitalismo e vê no comunismo um sistema romântico de igualdade, é uma boa lição, mostrando que a natureza humana é a mesma, independente da sociedade na qual se insere.

(230) BREVE ROMANCE DE SONHO – Arthur Schnitzler (10/04/08)

Li esse livro sem nem ter idéia de que fora a inspiração para que Stanley Kubrick filmasse De Olhos Bem Fechados, seu último filme, do qual sou fã, principalmente pela atuação de Tom Cruise. O livro é igualmente estranho e envolvente, narrando os estranhos acontecimentos noturnos na vida de um pacato médico.

Freud era um dos admirados do autor.

(231) A Morte e o Morrer – Magali R. Boemer (14/04/08)

(232) O MISTÉRIO DA CONSCIÊNCIA – Antonio Damásio (29/04/08)

Existem alguns livros um pouco maçantes, mas que devem ser lidos por sua importância. Só consegui terminar O Mistério da Consciência depois de umas quatro tentativas (sempre devolvendo à biblioteca e começando do início todas as vezes), mas valeu a pena. Para quem quer se tornar psicólogo, é indispensável.

(233) TERRA DOS HOMENS – Saint-Exupéry (05/05/08)

Mais um livro que comecei a ler pela beleza, mas cujo conteúdo ainda superou as expectativas. Como Exupéry conseguia escrever com tanta poesia? Terra dos Homens conta várias histórias de sua vida como piloto de guerra, e ler esses relatos é algo emocionante.

(234) O Despertar dos Mágicos (repeteco, ver livro 174, de 2004) – Louis Pauwels & Jacques Bergier (09/05/08)

(235) PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE – Carl G. Jung (05/06/08)

Peguei esse livro de Jung com muita reserva, pois ainda estava influenciado por algumas opiniões de que Jung era muito difícil de se ler. Talvez isso até possa se dar com livros mais pesados, mas em Psicologia do Inconsciente a leitura flui fácil e compreensível até mesmo para quem é leigo como eu.

(236) Piloto de Guerra – Saint-Exupéry (09/07/08)

(237) O OITAVO PASSAGEIRO – Alan Dean Faster (01/08/08)

Tenho um certo preconceito com livros baseados em filmes, pois me parece um processo muito mecânico de escrita. Mas li O Oitavo Passageiro com a respiração presa, o suspense é mantido tanto quanto no filme.

(238) ENCONTRO COM RAMA – Arthur C. Clarke (04/08/08)

Uma das melhores ficções-científicas que eu já li na vida. Conta a história de um objeto cilíndrico alienígena que entra no sistema solar, atraindo a atenção dos humanos, que, claro, armam uma expedição para encontrá-lo.  Trata-se, na verdade, de uma espécie de estação espacial, ainda adormecida, que os personagens recebem a missão de explorar. Muito, muito bom!

(239) Os Frutos Dourados do Sol – Ray Bradbury (08/08/08)

(240) O RETRATO DE DORIAN GRAY – Oscar Wilde (13/08/08)

Se uma das frases de Oscar Wilde empresta até o nome para esse blog, como não falar de um livro dele aqui? Para quem gosta de vilões como eu, Dorian Gray sem dúvida figurará na galeria dos melhores, principalmente por conta de sua humanidade, algo poucas vezes explorado nos livros contemporâneos. Wilde vai fundo na descrição psicológica do personagem, que aliás vai passando por suas aventuras sem perder a elegância. Ótimo pra quem gosta de vilões. 😀

(241) Tem Alguma Coisa Babando Embaixo da Cama – Bill Watterson (16/08/08)

Não há muito o que dizer, sou fã ardoroso de Calvin e Haroldo. Todos os livros são bons.

(242) ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA – José Saramago (20/08/08)

Meu Deus, como o Saramago pôde escrever uma história tão original e fascinante quanto esta? Eu decidi ler o livro ao ver o trailler do filme no cinema, até então não sabia que se tratava de um romance. Pra quem ainda não sabe, o livro conta a história de uma epidemia de cegueira que se espalha rapidamente no mundo, fazendo-o cair no caos absoluto. Os personagens não tem nomes, são identificados por certas características. É protagonizado pela mulher do médico, única que não fica cega e recebe nos ombros o peso de ter de cuidar de todos, os pelo menos de todos a quem ela conhece. Saramago nos faz acompanhar os primeiros a ficarem cegos, trancafiados dentro de um antigo prédio abandonado, que servia como hospício. Lá vemos todo tipo de degradação e violência humana. Mais tarde, quando a epidemia já alcançou níveis mundiais, eles conseguem sair, e encontram um mundo devastado. O filme também foi muito bom, mas o livro é melhor por conter detalhes adicionais. Por exemplo, fiquei impressionado ao ler a parte onde eles chegam até uma senhora, vizinha da menina de óculos. A velha vivia em seu apartamento imundo, e para se alimentar balançava folhas de couve na porta da cozinha, até que um de seus coelhos viesse comer. Então ela quebrava o pescoço do bicho e, como não conseguia mais lidar com o fogão, comia a carne crua mesmo. Em todo o apartamento se espalhavam restos de pelos e ossinhos.

 Algumas pessoas tem dificuldades em ler Saramago, por causa do seu famoso jeito característico de escrever, mas para mim a leitura fluiu ainda melhor por conta disso. Mas ainda que fosse escrito de forma tradicional, o livro seria extraordinário. Devorei em menos de sete dias. Ainda tenho que comprar meu exemplar.

(243) O Segredo da Flor de Ouro – Jung & Wilhelm (27/08/08)

Aí está um livro de Jung realmente complicado de ler, fui da primeira à última página sem entender nada.

(244) A Caverna – José Saramago (05/09/08)

(245) AS RAÍZES HISTÓRICAS DO CONTO MARAVILHOSO – Vladímir Propp (22/09/08)

Também um dos melhores livros que já li na vida, para entender esse entusiasmo basta verificar que existe uma categoria no blog, Um História do Dragão, toda dedicada a uma parte desse livro. Propp, com uma escrita muito clara, analisa o enredo básico do conto de fada, buscando nos antigos ritos tribais as origens para seus personagens e ações. Não tem como explicar, é muito bom.

(246) Androginia – Elémire Zolla (22/09/08)

(247) Sonhos e Visões – David Coxhead & Susan Hiller (25/09/08)

(248) MALUNGO – Bentto de Lima (31/10/08)

Uma análise psicológica profunda da Umbanda, ótimo para quem se interessa por religiões. Desde que li esse livro fiquei com vontade de presenciar o ritual, mas ainda não tive oportunidade.

(249) Deuses, Espaçonaves e Terra – Erick Von Däniken (01/11/08)

Aqui Däniken continua sua análise das evidência da presença alienígena no passado distante da Terra. Risível em algumas hipóteses, intrigante na maioria delas.

(250) Comicidade e Riso – Vladimir Propp (17/11/08)

(251) O CARDUME – Frank Schätzing (24/11/08)

Talvez a melhor ficção científica que eu já tenha lido. Com 900 páginas de letras miúdas e conteúdo denso, engoli a história de Schätzing em 9 dias, isso em final de período, com provas, trabalhos e estágio na Embrapa. Embora o assunto seja diferente, me pareceu um Dan Brown hipertrofiado: não há maneiras de largar o livro, mas o conteúdo vai muito mais profundo. Os personagens são muitíssimo bem construídos (Fabíola me chama de Johanson em Quem Sou Eu, por causa de um deles. Fiquei muito lisonjeado porque se trata de um biólogo de sucesso, um futuro que talvez ainda me espere).

A história começa com acontecimentos bizarros envolvendo criaturas marinhas ao redor do globo, que vão piorando a cada momento, até que toda a humanidade esteja sofrendo com mecanismos intricados de ataque, que só podem advir de uma inteligência, mas quem seria tal inimigo? Pra quem gosta de suspense, excelente, pra quem gosta de ficção científica, excelente, pra quem gosta de biologia marinha, excelente, pra quem gosta de uma boa história, excelente.

Parece que o livro também foi publicado sob o nome de O Quinto Dia. Sinceramente não sei como não fez mais sucesso.

(252) Coronel Fawcett – Hermes Leal (01/12/08)

Leituras de 2007

(206) Ponto de Impacto (repeteco, ver livro 184, de 2006) – Dan Bronw (13/01/07)

(207) Mar Sem (repeteco, ver livro 30, de 2001) – Amyr Klink (16/01/07)

(208) Uma História do Diabo (repeteco, ver livro 204, de 2006) – Robert Muchembled (19/01/07)

(209) Cipreste Triste – Agatha Christie (17/02/07)

(210) A Misteriosa Chama da Rainha Loana – Umberto Eco (11/03/07)

(211) Eu, Robô – Isaac Asimov (22/03/07)

(212) O Significado do Século XX – Kenneth E. Bouding (13/05/07)

(213) O Pastor – Friederick (15/07/07)

(214) A Montanha Mágica (repeteco, ver livro 172, de 2005) – Thomans Mann (26/07/07)

(215) O Diário de Bridget Jones – Helen Fielding (02/10/07)

(216) O ENIGMA DO QUATRO – Ian Caldwell & Dustin Thomason (11/09/07)

Um bom romance, com bons personagens, principalmente o garoto que faz o papel de protagonista, obcecado na decifração de um hipotético código inscrito num livro antigo, que levaria a um tesouro incalculável enterrado na Europa.

Quando li transcrevi algumas passagens para a minha agenda:

“Sonho? Lute para realizá-lo, e agonize para fazê-lo, e definhe fazendo-o.”

“A introspecção e a incerteza que o fizeram duvidar se o seu gênio era simplesmente um talento provinciano, uma estrela embotada num canto escuro do céu.”

“Nunca se entregue de maneira tão profunda a alguma coisa cujo fracasso possa lhe custar a felicidade.”

(217) A Menina Que Roubava Livros – Markus Zusak (23/10/07)

(218) LINHA DO TEMPO – Michael Crichton (17/11/07)

Outro livro fantástico de Michael Crichton, mas que novamente fracassa na construção dos personagens. O Professor, por exemplo, é tão estéril que Crichton o deixa sem diálogos praticamente o livro inteiro, e no fim fica repetindo que ele estava em choque, com o olhar distante. Falta verdade e coerência quanto à resposta dos personagens à situação. Simplesmente não são reais; e mesmo assim é impossível largar o livro antes do final.

(219) ASSASSINATOS NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS – Jô Soares (21/11/07)

Jô tem uma linguagem muito simples e fluente, além de grande imaginação e, claro, muito humor. Vale a pena.

(220) Uma Sombra Passou Por Aqui (repeteco, ver livro 21, de 2000) – Ray Bradbury (02/12/07)

(221) O Caso Morel – Rubem Fonseca (03/12/07)

(222) A Chave da Alquimia – Paracelso (21/12/07)

Leituras de 2006

(182) CORRENDO ÀS CEGAS – Lee Child (31/01/06)

Eis um livro da coleção Seleções, um trailler policial/psicológico de poucas páginas, mas que vale a pena pela técnica usada pelo assassino. Ele conseguia matar suas vítimas sem deixar qualquer tipo de rastro no local do crime, em alguns as portas estavam trancadas por dentro e havia escolta policial fora da casa. Querem saber como ele fazia? Leiam o livro! Garanto que é muito original.

(183) Caminhos Perdidos – Anne Tyler (02/02/06)

(184) PONTO DE IMPACTO – Dan Brown (08/02/06)

Embora Dan Brown seja muito criticado por muitos colegas, eu adoro as histórias dele. Nesse livro ele trata de dois assuntos irresistíveis para mim: Biologia e vida extraterrestre. Como não se sentir influenciado pelo biólogo Tolland? E como não ser arrastado pelo suspense crescente que Dan Brown sabe tão bem criar?

(185) FORTALEZA DIGITAL – Dan Brown (11/02/06)

Histórias tecnológicas não são muito minha praia, mas o ritmo do livro prende a atenção. Para mim, os capítulos que transcorrem na Espanha são os melhores.

(186) O SENHOR DAS MOSCAS – Willian Golding (19/02/06)

Foi uma idéia relativamente bem difundida por grandes vultos da psicologia que as crianças estão mais sujeitas às oscilações instintivas, uma vez que sua mentalidade encontra-se num nível ainda não plenamente desenvolvido. É como se a consciência fosse ainda mais frágil nelas, de modo que o inconsciente encontrasse mais facilidade de expressão. Por exemplo, Freud dizia que o Complexo de Édipo vem de uma época pré-histórica onde os mais jovens do clã disputavam com os mais velhos a posse das mulheres. Jung também disse que “por uma criança ser fisicamente pequena e seus pensamentos consciente poucos e simples, não avaliamos as extensas complicações da sua mente infantil, fundamentadas na sua identidade original com a psique pré-histórica.” Ele cita as danças infantis realizadas de maneira tão espontânea por crianças de todo o mundo, traçando um paralelo com às danças cerimoniais antigas, ainda executadas por tribos isoladas.

Embora eu não esteja certo do grau de influencia, parece que William Golding bebeu dessa fonte ao escrever O Senhor das Moscas, um livro que passou e foi negado por 19 editores e depois se transformou na obra que é considerada como uma das mais importantes da literatura do século XX.

Nela, um avião despenca numa ilha e só sobrevivem crianças. Elas tentar se unir e formar uma espécie de sociedade até que a ajuda venha, mas seus instintos de sobrevivência acabam falando mais alto e levam os personagens a atos drásticos.

Não parece interessante?

(187) ANJOS E DEMÔNIOS – Dan Brown (04/03/06)

Pra quem é apaixonado por histórias envolvendo a Igreja, é uma excelente pedida. Obs.: O livro é bem melhor que o filme.

(188) Um Conto de Duas Cidades – Charles Dickens (12/03/06)

(189) O Observador – Chris Ryan (19/03/06)

(190) O Triângulo das Bermudas – Charles Berlitz (24/03/06)

(191) FELIZ ANO VELHO – Marcelo Rubens Paiva (28/03/06)

Marcelo Rubens passa uma melancolia que me lembra Scoott Fitzgerald, um dos meus autores favoritos. E, além disso a linguagem é simples e flui muito bem, embora a complexidade dos sentimentos expressados garantam a qualidade.

(192) Por Que os Homens Fazem Sexo e as Mulheres Fazem Amor? – Allan & Barbara Pease (02/04/06)

(193) RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM – James Joyce (16/05/06)

Todos sabem que James Joyce é um autor dificílimo, e devo admitir que fui passando pelas páginas desse livro sem compreender quase nada. Porém o livro ficou retido em minha mente por conta de uma passagem que, de tanto gostar, acabei decorando. Nessa passagem o personagem principal se encontra com uma prostituta, sentindo um misto de desejo e repugnância:

“Queria estar preso pelos braços dela e ser acariciado devagar, devagar, bem devagar. Em seus braços sentiu que tinha se tornado subitamente forte, destemido e seguro e si próprio. Mas os lábios não queriam baixar para beijar (…).

Fechou os olhos, apertando-se bem de encontro a ela, corpo e espírito, sem consciência de nada mais no mundo senão da sombria pressão dos lábios dela suavemente se entreabrindo.

Eles lhe comprimiam o cérebro como lhe comprimiam os lábios, como se esse fosse o veículo duma vaga linguagem. E entre seus lábios e os dela sentiu uma desconhecida pressão, mais sombria que o desmaio do pecado e mais suave do que som ou dor.”

(194) O SOL TAMBÉM SE LEVANTA – Ernest Hemingway (27/05/06)

Hemingway é sempre prazeroso de se ler, embora eu não tenha retido muito desse livro além de touradas e muita bebedeira em barzinhos da Espanha de início de século.

(195) OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER – J. W. Goethe (01/06/06)

Goethe foi um gênio em diversas áreas, inclusive a literária. Li este romance por curiosidade, depois de saber que ele causou uma onda de suicídios na Europa. Mas, vivemos numa época radicalmente diferente, é pouco provável que os lamentos do personagem principal pudessem surtir algum efeito grave nas emoções de alguém.

(196) O Parque dos Dinossauros (repeteco, ver livro 122, em 2003) – Michael Crichton (08/06/06)

(197) O DEMÔNIO E A SRTA. PRYM – Paulo Coelho (13/06/06)

Um dos livros mais interessantes de Paulo Coelho. Um pequeno trecho de diálogo me convenceu a lê-lo:

“Eu lhe mostrei uma barra de ouro, que lhe daria independência necessária para sair daqui, correr o mundo, fazer o que sempre sonham as moças em cidades pequenas e isoladas. Ela vai ficar ali; você sabe que ela é minha, mas poderá roubá-la se assim desejar. E estará infringindo um mandamento essencial: ‘não furtarás’. Quanto a estas dez outras barras, elas são suficientes para fazer com que todos os habitantes do vilarejo jamais precisem trabalhar o resto de suas vidas. Quero que, quando voltar à cidade, diga que as viu, e que estou disposto a entregá-las aos habitantes de Viscos, se eles fizerem aquilo que jamais sonharam fazer. Quero que infrinjam o mandamento ‘não matarás’.”

(198) DUBLINENSES – James Joyce (21/06/06)

Eis um livro de James Joyce mais acessível aos pobres mortais como eu. Reúne vários contos, tendo como pano de fundo a cidade de Dublin.

O conto Os Mortos provoca grande angústia, não recomendo para quem não gosta quando o assunto é a morte.

(199) SIDARTA – Hermann Hesse (29/06/06)

O livro conta a história de um jovem indiano, contemporâneo de Buda, à procura de iluminação. Achei extremamente interessante um parágrafo onde se faz uma análise do que seja a alma. Naquela época eu acreditava que mente, consciência e espírito fossem a mesma coisa, mas para meu espanto percebi um ponto de vista totalmente novo, segundo o qual os dois primeiros desses elementos pertencem ao mundo material e, portanto, não poderiam continuar existindo após a morte. No livro A Vida Vem da Vida, um líder espiritual indiano explica que a alma é algo já presente no corpo físico, mas que ocupa um espaço menor que um átomo. Em Sidarta, temos o seguinte pensamento:

“Onde morava Ele? Onde habitava Seu Eterno coração, onde, a não ser no próprio eu, naquele âmago indestrutível que cada um trazia em si? Mas em que lugar, em que lugar achava-se esse eu, esse âmago, esse último fim? Não era carne nem osso, nem pensamento nem consciência, segundo afirmavam os mais sábios.”

(200) O HOMEM E SEUS SÍMBOLOS – Carl G. Jung (13/09/06)

Quando eu entrei para a faculdade de psicologia (fiz apenas o primeiro período, depois me bandeei para a biologia), já havia lido a biografia de Jung (ver livro 31, de 2001), mas há tanto tempo e tão jovem que nada havia ficado em minha memória além de alguns sonhos que me impressionaram. Mas foi de grande utilidade pois quando um colega, que rapidamente se transformou num grande amigo, me perguntou se eu conhecia o psicólogo suíço, afirmei que já havia lido sua autobiografia.  Esse meu então colega era o Sérgio, uma das pessoas mais inteligentes que já conheci. Fizemos amizade rápido e ele foi me ensinando sobre interpretação de sonhos, etc. Um dia ele me levou até a biblioteca e me obrigou a levar O Homem e Seus Símbolos. Admito que fiquei desanimado ao ver o tamanho do livro, mas quando cheguei em casa e comecei a ler, percebi que não havia meio de parar. Sem dúvida está entre os cinco grandes livros de minha vida. Pra quem se interessa por psicologia junguiana e não sabe por onde começar, essa é sua deixa.

(201) A Máquina do Tempo (repeteco, ver livro 16, de 2000) – H. G. Wells (29/09/06)

(202) HANNIBAL – Thomas Harris (19/10/06)

Se em O Silêncio dos Inocentes o psicopata Hannibal Lecter marcou história, nessa continuação vemos o personagem em toda sua exuberância, distribuindo “charme e cultura” na Europa De vez em quando eu pego o livro e leio algumas passagens; gostei tanto que Florença se tornou o lugar na Terra que eu mais quero conhecer.

(203) O Caçador de Pipas – Khaled Hosseini (15/12/06)

(204) UMA HISTÓRIA DO DIABO – Robert Muchembled (17/12/06)

A escrita de Robert Muchembled requer atenção do leitor, mas como é envolvente! Nesse livro temos a trajetória do Diabo, de como surgiu por volta do século XII e foi se transformando ao longo das eras, até atingir o clímax no extraordinário fenômeno da caças às bruxas nos séculos XVI e XVII, e se desenrolar nos séculos seguintes até chegar à nós. Muchembled passa então a analisar não apenas os produtos da literatura, como também o cinema e os quadrinhos.

Essa primeira leitura foi se arrastando durante todo o segundo semestre de 2006 (eu comprei o livro no dia da minha inscrição na faculdade, como um prêmio) e as outras coisas que aconteciam na minha vida me impediram de absorver suas informações satisfatoriamente. Por isso eu o reli no início de 2007, aí sim reconhecendo seu valor e me deliciando com a prosa sofisticada do autor.

(205) Legião – Robson Pinheiro (28/12/06)