Presságio nas entrelinhas

pressagio-poster07

Atenção, se você ainda não viu esse filme, NÃO leia esse post.

Muito bem, vamos lá.

Primeiramente, não se deixe levar pela expressão angelical do rosto de Nicolas Cage. Como vários outros trabalhos do ator, Presságio é um filme forte, daqueles que te faz ficar tenso na poltrona do cinema.

A história se desenrola da seguinte maneira: numa cidadezinha dos Estados Unidos, 50 anos atrás, os alunos de uma escola fazem desenhos de como eles achavam que seria o mundo em 2009 e os colocam numa cápsula do tempo.

Nicolas Cage interpreta um astrofísico (John Koestler), cujo filho estuda hoje nessa mesma escola. O garoto, Caleb, recebe juntamente como as outras crianças, um envelope da cápsula, aberta num evento em comemoração ao aniversário da escola.

pressagio-554-04

Entretanto, ao invés de conter um desenho, há uma folha com diversos números. A garotinha que os fez aparece como personagem central nos primeiros minutos do filme, estranha e triste, aparentemente portadora de esquizofrenia, rabiscando freneticamente todos aqueles números. John descobre que eles são códigos com datas dos piores desastres ocorridos ao redor do globo nos últimos 50 anos. O astrofísico descobre ainda que três catástrofes estão para acontecer, e tentará evitá-las.

Em uma noite insone, John começa a perceber um padrão...

Em uma noite insone, John começa a perceber um padrão...

Pode parecer um roteiro simples, mas não é. O filme é entremeado de conteúdos estranhos e densos, para alguns mais próprios do realismo fantástico, para outros bem reais.

Enquanto a história prossegue, trazendo-nos personagens novos, o astrofísico interpretado por Cage cambaleia entre as tragédias, sem conseguir evitá-las, só para descobrir que a última delas teria, de qualquer forma, transformado seus esforços em vão, pois recairá sobre a humanidade inteira.

Trata-se do próprio apocalipse.

John no momento mais tenso do filme

John no momento mais tenso do filme

O fim, como descrito na Bíblia, virá com o fogo, fogo do nosso sol que, após ter criado as condições propícias ao surgimento da vida na Terra, irá devastá-la com uma grande erupção em sua superfície. John conhece bem a gravidade da situação, e sabe que não há o que se possa fazer para impedir.

Sabemos perfeitamente que o sol possuiu uma superfície brilhante. Chama-se fotosfera. É ela quem produz a luz de chega até nós e mantém a vida no planeta.

Como a Terra, o sol também gira ao redor de si mesmo, porém nossa estrela não é um corpo rígido. Em função disto, a rotação é diferenciada de acordo com a latitude. Enquanto a região equatorial leva 26 dias para completar uma volta em torno do eixo, nos pólos a rotação pode durar até 30 dias. Isso cria uma deformação no campo magnético do sol que provavelmente é a causa principal das manchas.

As manchas solares são áreas escuras que surgem na superfície do sol sempre aos pares.

Uma mancha solar captada por uma câmera comum

Uma mancha solar captada por uma câmera amadora

A medida em que caminha para o ápice do ciclo, as manchas tornam-se mais comuns

A medida em que caminha para o ápice do ciclo, as manchas tornam-se mais comuns

Alem de mais frias que as áreas ao redor, elas se caracterizam por uma intensa atividade magnética. Linhas de campo magnético saem por uma mancha e entram por outra.

observem as distorções no plasma causadas pelos igualmente assimétricos campos magnéticos

observem as distorções no plasma causadas pelos igualmente assimétricos campos magnéticos

022-sunspot_trace

Períodos de atividade máxima e mínima compõe o ciclo solar, cuja duração é de 11 anos.

Ocasionalmente, nuvens de gás da camada inferior à fotosfera escapam pelas manchas, acompanhando as linhas de campo em direção ao espaço. Os arcos de gás então formados recebem o nome de proeminências, e podem durar vários meses acima da superfície.

Quando esses arcos atingem altura crítica, podem romper numa ejeção de massa coronal.

03-sun-solar-prom-close

As vezes, alterações repentinas em localidades onde o campo magnético estava muito concentrado geram explosões abruptas e muito violentas denominadas fulgurações solares.

as fulgurações ocorrem quando os níveis de magnetismo alcançam o ápice

as fulgurações ocorrem quando os níveis de magnetismo alcançam o ápice

As fulgurações expelem grande quantidade de partículas através do espaço (gás, elétrons livres, raios-x, etc.) e ao interagirem com o campo magnético da Terra, criam auroras boreais nos pólos.

Em outubro de 2003, a atividade solar foi tão mais intensa que se observaram auroras em várias partes dos Estados Unidos, mesmo nas regiões mais ao sul. Nesse ano, os astrônomos se surpreenderam com a quantidade e o tamanho das manchas, algumas maiores que o planeta Júpiter.

Ao chegar à Terra, as partículas do vento solar ionizam a atmosfera, interferindo ou mesmo impedindo a comunicação via ondas de rádio, usadas por nossos satélites e antenas. Se forem fortes o suficiente, induzem descargas de energia na fiação elétrica, podendo causar blecautes. No filme vemos com bastante clareza esses tipos de interferências.

as linhas brancas são os ventos solares, a roxa representa a zona de impacto e as azuis são o campo magnético da Terra

as linhas brancas são os ventos solares, a roxa representa a zona de impacto e as azuis são o campo magnético da Terra

Voltemos ao fime. Havia dito que é entremeado de conteúdos estranhos. Um desses elementos é a presença inquietante de homens que rondam a casa e os personagens, em especial o garoto, Caleb.

A maneira de andar, a altura, o aspecto dos olhos, a forma dos rostos, o tom e a textura da pele, a cor, o comportamento… Existe algo neles que nos desperta um sentimento antigo, pavoroso.

knowing2-61

Ainda que os fanáticos possam perceber isso antes, é lá pelo final do filme que esses seres se revelarão extraterrestres.

Sim, alienígenas.

Nesse aspecto, o filme me lembrou bastante Os Esquecidos, e acho que foi isso que me fez desconfiar. No entanto, é perceptível que houve um estudo bastante aprofundado para se construírem esses personagens pois a aparência deles está extremamente fiel aos relatos mais confiáveis de contatos de humanos com seres de aspecto angelical.

Apesar da variedade quando se trata da morfologia dada aos extraterrestres, testemunhas em todo o mundo relatam contatos com seres incrivelmente belos, que passam mensagens importantes quanto ao futuro da humanidade. É nesse ramo da ufologia que o filme se apóia.

Para muitos estudiosos, essa raça ou raças altamente desenvolvidas de aliens está presente na história do homem desde o início, e as evidências dessa presença encontram-se marcadas nos livros sagrados. Blasfêmia? Eles vão além e defendem que nossas religiões e mitos repousam suas bases no contato de povos primitivos com inteligências oriundas do espaço.

Esta tapeçaria do Século XIV nos mostra um incomum objeto no céu.

Esta tapeçaria do Século XIV nos mostra um incomum objeto no céu.

No templo de Saqquara, Egito, temos o relevo desse curioso personagem

No templo de Saqquara, Egito, temos o relevo desse curioso personagem

Observem atentamente esses relevos no templo de Abydos, também no Egito. Uma delas não se parece exatamente com um helicóptero?

Observem atentamente esses relevos no templo de Abydos, também no Egito. Uma delas não se parece exatamente com um helicóptero? Outras não lembram naves espaciais?

Os defensores dessa tese nos apontam evidências perturbadoras nas passagens de diversos documentos tidos como sagrados por várias culturas, incluindo a Bíblia que você tem aí na sua casa.

(Não quero ser acusado de plágio, portanto cabe dizer que pra escrever esse texto estudei a matéria de uma revista Ufo, a mais séria nesse assunto que tenho notícia. A revista em questão é a nº 65, de julho de 99. A matéria se chama Extraterrestres nos Livros Sagrados, e foi escrita pelo grande Marco A. Petti, co-editor.)

Entre visões, profetas, anjos e carros de fogo, os eventos narrados nas páginas apócrifas do Livro de Enoque parecem ser os que contém os caracteres mais explícitos. O patriarca bíblico nos fala abertamente de anjos que desceram do céu em numero de 200 e engravidaram mulheres da Terra, criando seres híbridos aberrantes, inclusive Noé. No capítulo 104 ele faz uma série de observações sobre a aparência peculiar do homem que construiu a Arca, e termina concluindo que “com certeza não é da nossa espécie”.

No Êxodo, o texto nos diz que os israelitas fora guiados para fora do Egito por um objeto voador que chamavam Anjo de Deus, mas tal Anjo era corpóreo o suficiente para se locomover emanando “colunas de nuvem e fogo”. Nesse caso específico, existem figuras milenares que parecem corroborar a teoria ufológica.

Nessa pintura de Moisés recebendo as Tábulas da Lei, objetos indistintos pairam no horizonte.

Nessa pintura de Moisés recebendo as Tábulas da Lei, objetos indistintos pairam no horizonte.

No 19º capítulo, Moisés recebe indicações para afastar as pessoas a uma distância segura, pois o Senhor iria descer, segundo o capítulo precedente no interior de um objeto luminoso envolto em fogo e fumaça.

Nosso filme refere-se diretamente a uma das passagens mais impressionantes da Bíblia, àquela narrada por Ezequiel. O profeta estava à beira de um rio, quando um fenômeno no céu chamou sua atenção.

“Aconteceu no trigésimo ano, no quinto dia, do quarto mês. Estando eu com os exilados, junto ao Rio Quebar; se abriram os céus e tive visões de Deus (…). Olhei, e eis que um vento tempestuoso e uma grande nuvem com fogo a revolver-se; esplendor ao redor dela, e no meio disto uma coisa como metal brilhante que saía do meio do fogo.”

A descrição, além de absolutamente clara e sóbria, vem ainda com informações sobre data e local, o que permite aos estudiosos descartar qualquer possibilidade de fenômeno metereológico ou astronômico.

Apesar do choque que tais inferências possam acarretar aos mais puritanos, os ufólogos apontam indicativos de fenômenos extraterrestres mesmo no Novo Testamento, a começar pela Estrela de Belém.

Essa peculiar estrela é descrita primeiramente em movimento, para depois se imobilizar sobre determinado ponto, conhecido de todos nós. Em Matheus, capítulo 9 comprova-se isso:

“Depois de ouvirem o rei, partiram e eis que a estrela que viram no ocidente os precedia, até que chegando pairou sobre onde estava o menino.”

Não sei quanto a vocês mas eu fico arrepiado. Independente de se era um fenômeno ufológico ou divino (quem sabe uma mistura dos dois), o objeto devia obrigatoriamente estar num plano muito mais baixo que a lua, para que pudesse dar a impressão de pairar sobre um ponto tão específico.

É extraordinário, de qualquer forma, que documentos da mesma época narrem avistamentos ufológicos pelos céus em diferentes partes do mundo, em especial Roma, porém sem atribuir-lhes caráter divino. De fato, na capital italiana (que diga-se de passagem depois se tornaria sede do cristianismo ocidental) encontramos fartos relatos de sóis noturnos, luas, escudos voadores, etc.

Tapeçaria de 1538. Olhem o céu, eu contei quatro deles

Tapeçaria de 1538. Olhem o céu, eu contei quatro deles

Essa incrível tapeçaria chamada Cenas da Vida da Virgem Maria nos mostra no canto superior esquerdo imensa evidência de presença alienígena durante o período medieval

Esta incrível tapeçaria chamada Cenas da Vida da Virgem Maria nos mostra no canto superior esquerdo imensa evidência de presença alienígena durante o período medieval

Dentre toda documentação, o que comprova mais explicitamente a atividade ufológica nos tempos antigos, em especial nos anos que envolveram a vida de Jesus, parecem ser mesmo as obras de arte, pois estão menos sujeitas a interpretações alternativas.

Vocês poderiam objetar que quem produziu as obras não viveu na época de Cristo, e portanto acrescentou esses elementos usando uma certa licença poética. Bem, é claro que esses pintores não estiveram lá. Mas acredito que a visão dos ufos nesses períodos, em que não existiam veículo automotores e muito menos aviões, estariam revestidos por uma restrita ótica divina. Posteriormente, quando iam pintar as imagens, é natural que quisessem acrescentar esses elementos num tema divino.

Um quadro impressionante foi pintado por Carlo Crivelli no ano de 1486 e mostra a Virgem Maria arrebatada por um facho de luz que desce de um objeto ovalado no céu.

01-annunciazione_crivelli1

annunciazione_crivelli_part1

Não entrarei aqui na discussão sobre a natureza divina de Jesus, apenas direi que acredito nela. Não encontrei nenhum indicação oriunda de fontes sérias que afirmassem ser Cristo uma espécie alienígena superior que teria visitado a Terra numa missão qualquer. Não é disso que se trata. Entretanto, acredito numa natureza alienígena de Cristo no momento em que afirmo sua origem divina, e portanto, extraterrestre.

Além disso, não vejo razões para desacreditar que os ETs que hoje nos visitam e estudam, portadores de domínio tecnológico sobre o tempo e espaço, não teriam razões para visitar uma época tão importante para a formação de boa parte da cultura mundial. E não sinto qualquer dificuldade para crer que Jesus, em sua sabedoria divina, possa ter tido relações com esses seres.

"O Batismo de Cristo" de 1710

"O Batismo de Cristo" de 1710

Muitos estudantes hoje sabem que a física moderna, assim como a psicologia depois de todo aquele surto no início do século XX, ergueu-se tanto em sua verticalidade empírica que ultrapassou os limites do conhecido, tocando nas raias daquilo que comumente chamamos sobrenatural.

Alguns físicos modernos já sugerem, dentro de suas equações incompreensíveis, que nosso universo material não passaria de uma marionete controlada por uma realidade mais vasta e inefável, o mundo espiritual.

Platão deve estar sorrindo de lá.

“A entidade que ficou conhecida como Jesus evidentemente já existia antes de sua manifestação há dois mil anos (…) Portanto, o objetivo [da concepção miraculosa de Maria] era a geração de uma estrutura física sem as limitações que os humanos normais apresentam, para que quando a entidade se apossasse daquele corpo, pudesse então manifestar todos os poderes inerentes à sua evolução espiritual” , nos diz Marco A. Petti. Para vocês há alguma distorção do pensamento cristão?

Numa outra figura renascentista da série A Virgem e o Menino vemos reforçadas as hipóteses ufológicas com perturbadora clareza diante da presença de um objeto redondo pairando entre as nuvens.

madona1

Aqui vocês percebem que uma pessoa e um cachorrinho atento observam o ufo no céu.

Aqui vocês percebem que uma pessoa e um cachorrinho atento observam o ufo no céu.

A descrição dos anjos e suas roupas, a paralisação decorrente desses contatos, os tremores de terra, a aparência e o som desses veículos aéreos, tudo isso pode ser fartamente encontrado não apenas nos relatos atuais, como também no livro que é considerado sagrado para 2 bilhões de seres humanos, dentre outros documentos arcaicos.

Ano de 776

Ano de 776

Se era uma estrela cadente ou cometa, porque o artista quis nos dar a impressão de que o objeto era definível dentro do facho luminoso, provavelmente de metal?

Se era uma estrela cadente ou cometa, porque o artista quis nos dar a impressão de que o objeto era definível dentro do facho luminoso, provavelmente de metal?

No Monastério de Detchani, na antiga Iuguslávia, existem afrescos de 1350 que mostram cenas do Antigo e do Novo Testamento. Na crucificação, dois objetos redondos aparecem no céu, um de cada lado da cruz.

christ-ufo

Um dos objetos presentes no afresco

Um dos objetos presentes no afresco

No outro lado há este. Atentem que a posição dos braços indica claramente um controle sobre a aparelhagem que guia a "estrela"

No outro lado há este. Atentem que a posição dos braços indica claramente um controle sobre a aparelhagem que guia a "estrela"

Na ressurreição, o próprio Cristo aparece pilotando um deles. Os estudiosos crêem que essas ilustrações tenham sido tiradas de figuras mais antigas que se perderam.

Na mais antiga igreja da Geórgia, na Rússia, há pinturas semelhantes. A Ressurreição de Jesus Cristo, mostra o salvador dentro de um aparelho que solta fumaça rodeado de anjos, um ícone hoje preservado pela Academia Conciliar de Moscou.

Em um afresco do século XVII exposto na Catedral Svetishoveli, em Mtskheta, dois objetos alçam vôo das laterais do Cristo crucificado

A crucificação

A crucificação

Em Londres, um relevo em marfim mostra Jesus ascendendo no interior de um objeto ovalado, que sobe ao céu propulsionado por chamas que saem de sua base.

O assunto é intrigante, e dá margem a amplas discussões. Fiquem a vontade.

pressagio08

Por fim, uma breve análise psicosociológica do filme. Podemos notar que ele se encaixa na classificação de filmes catástrofes que fazem tanto sucesso nesse início de século. Se prestarmos atenção, esse filão vem se agravando.

Não li isso em lugar nenhum mas percebo que os filme das década de 80 ou mesmo 90, quando queriam mostrar o Apocalipse, geralmente projetavam a história no futuro, como Blade Runner, Fuga de Los Angeles, O Exterminador do Futuro, O Juiz, etc.

Agora, o fim do mundo hollywoodiano acontece em nossa própria época, como vemos em O Dia Depois de Amanhã, Guerra dos Mundos, O Dia Em Que A Terra Parou, entre outros.

Ironicamente, mesmo com nossos aviões ultrasônicos, dentes limpos, supermercados ascépticos e foguetes, vivemos numa sociedade tão histérica quanto à medieval. Se lá o medo opressor era o Demônio, hoje o que maquina sombriamente em nossas mentes é o “Aqueciemento Global”. Acreditamos viver na iminência de um desastre ecológico irreversível. A natureza tornou-se uma donzela em perigo que necessita ser salva das garras da espécie mais terrível, hedionda e imunda que ela própria criou: Nós.

Isso acontece porque não conseguimos escapar ao pêndulo que leva as sociedades de uma ideologia a outra, inexoravelmente. Vivemos agora o resultado de alguns séculos de inocente pilhagem, quando o homem julgava a natureza provedora infinita de recursos. Junto com o constatação de que não é bem assim, veio a histeria mórbida, e agora achamos que estamos a beira do fim do mundo. O historiador Robert Muchembled já havia analisado que em O Iluminado o que vemos é a vingança dos mais jovens contra os pais, representantes da geração destruidora.

Em Presságio e em outros filmes vemos o romper desses limites. As crianças são escolhidas para habitarem um novo mundo, enquanto os adultos ardem no inferno que eles mesmos tramaram. Vivemos uma época em que o sentido da inevitabilidade do caos se apodera das mentes.

O fim do mundo não é mais amanhã, e sim agora.

Sonhos

nuvem

Quem me conhece sabe que eu gosto de falar e dou muita importância aos sonhos. Isso vêm desde que li O Homem e Seus Símbolos, onde aprendi sobre o processo de individuação. A partir daí sempre leio tudo o que posso a respeito, e tento saber mais. Por isso resolvi criar esse post, onde atualizarei com meus sonhos sempre que puder ou sentir necessidade, mas por questões de espaço (e preguiça) postarei só aqueles que sinto mais importantes. E por razões éticas trocarei os nomes das pessoas envolvidas por letras aleatórias. Mas fiquem a vontade pra comentar.

Por fim, alguns trechos de Jung sobre o tema:

PISCICOLOGIA DO INCONSCIENTE:

Antigamente, (o sonho) era muito valorizado como um pronunciador do destino, admoestando e consolando, como um emissário dos deuses. Hoje, é utilizado como porta-voz do inconsciente, sua função é revelar os segredos que a consciência desconhece, e realmente o faz com incrível perfeição. (p.13)


O HOMEM E SEUS SÍMBOLOS:

A tarefa principal dos sonhos é trazer de volta uma espécie de reminescência da pré-história e do mundo infantil, ao nível de nossos instintos mais primitivos. (…) Reminescências de memórias de infância e reprodução de comportamentos psíquicos, expressos por meio de arquétipos, podem alargar nossos horizontes e aumentar o campo de nossa consciência – sob a condição de que os conceitos readquiridos sejam assimilados e integrados na mente consciente. Como não sao elementos neutros, a sua assimilação vai modificar a personalidade do indivíduo. (p. 99)

Se estudarmos nossos próprios sonhos e sua sequência inteira durante alguns anos verificaremos que certos conteúdos emergem, desaparecem e depois retornam. (…) Um tendência reguladora ou direcional oculta, gerando um processo lento e imperceptível de crescimento psíquico. (p. 160)

Vou colocar aqui um sonho de 2005, quando eu ainda estava mergulhado nas “viagens alucinantes” da psicologia. Esse sonho seria a pedra angular, aquele que me motivou a buscar por todos os demais, pois um grande amigo me ajudaria muito nas interpretações.

09/11/05:

Eu andava por uma estrada de chão, quando cheguei a uma bifurcação. No lado direito, não muito longe, havia uma ambulância parada no acostamento. As portas de trás estavam abertas e no interior e exterior havia mais de meia dúzia de loucos, todos vestidos de branco, com camisas de força.

A estrada que seguia pela esquerda embrenhava-se não muito longe numa densa floresta, que subia por um morro e terminava aos pés de um castelo. Estava escuro, e eu via uma janela acesa, uma luz amarelada que saía dela dando uma idéia de que o lugar era aconchegante.

Onde a estrada se bifurcava havia uma árvore. Grande, seca e quase totalmente azul. Havia um balde aberto de tinta aos seus pés, e antes de fazer minha escolha eu deveria molhar o pincel na tinta azul e pintar a útima parte da árvore que ainda conservava a cor original. Assim fiz, pintando um pequeno pedaço do tronco logo abaixo de onde os galhos se irradiavam. Porém, nao me lembro o caminho que tomei, creio que tenha sido a da ambulância com os loucos.

15/04/09:

Junto com minha família, estava indo pra roça do meu tio, irmão de minha mãe. Porém, o curioso é que estávamos indo caminhando sobre o lombo de elefantes. Eles pararam no meio da estrada, num lugar estreito, e começaram a disputar goiabas caídas no chão com vacas que estavam do outro lado de uma cerca. Por fim, consegui colocar-me à frente da confusão, subindo para um local de pedras chatas, um pouco mais alto. Mas, a elefoa que eu guiava disparou pelo caminho, me deixando amedrontado. Ela virou-se para a esquerda e logo parou, pois percebi que havíamos chegado.

A casa do meu tio, juntamente com um curral, era no formato de um C retangular. Todos descemos e entramos, aparentemente organizados para preparar uma ceia. Dentro da casa, eu estava segurando um recém-nascido. Eu tentava fazê-lo dormir quando sua mãe chegou, irritada com o choro, e deu-lhe um tapa forte na cabeça. Senti uma raiva profunda daquela mulher.

16/04/09:

Curiosamente as goibadas retornaram ao meu sonho. Desta vez eu estava na casa de uma tia-avó, com um outro tio, paterno. Ele me apontou um arbusto em um barranco ao lado de uma escada que leva para o quintal, um lugar que realmente existe. Subi até lá e começamos a apanhar as goiabas.

Depois eu estava na sala de aula onde cursei um período de psicologia. Não havia carteiras, eu acho. Eu estava com um gaoto de uns 8 anos, e colocamos um pequeno aparelho de som no meio da sala pra tocar. Isso deria atrair para a sala uma antiga professora. Porém, ela não poderia nos ver de repente, por isso nos escondemos atrás da lousa, que não estava pregada à parede mas solta no chão.R.C. entrou na sala, eu sai do esconderijo e a abracei com força, percebendo que ela estava emocionada. Lembro que os olhos azuis estavam pálidos.

17/04/09:

Vários sonhos hoje.

Estava assistindo TV numa casa minúscula, com várias outras pessoas. L e F queriam comprar alguma coisa na rua, porém estavam desanimadas por causa de uma chuva forte. Levantei-me do sofá e olhei através da porta. Estávamos numa cidade muito grande, e a casa fazia parte de um conjunto de prédios apinhados. Vi várias pessoas nas calçadas, esperando ônibus. Era noite e chovia forte. Ofereci-me para comprar o que elas queriam. L me deu uma nota de 50,00.

Descia com minha avó de um morro bem alto e íngrime, onde ela havia subido para fazer penitência. Tinha que ajudá-la a descer pois o risco de cair era grande. Lá de cima podia ver a cidade do Rio de Janeiro, sob uma névoa bastante densa. O caminho estava molhado. No rádio alguém alertava para a chuva que estava prevista para a madrugada.

Eu estava numa estrada com outra pessoa, não sei quem. Havia um carro abandonado de qualquer maneira perto do acostamento, e suspeitamos que deveria ter acontecido um acidente. A pessoa que estava comigo discerniu marcas de pneus na lama que emprastava o asfalto e descemos por uma bifurcação, que passava sob um viaduto. O outro carro estava lá, também vazio, e peguei algumas coisas em seu interior. O curioso é que era carros antigos, da década de 50 ou 60, conversíveis. Também parecia ter chovido bastante.

18/04/09:

Tinha voltado à escola onde estudei, na sala onde fiz a sétima série. Estava escuro, e o lugar bastante cheio. Parece que só havia homens. Eu estava sentado na parte esquerda, bem ao fundo. Alguns rapazes estavam de pé, pois não havia lugar. N entrou na sala e se dirigiu diretamente para mim, postando-se à minha esquerda. Então sussurrou em meu ouvido que Brad Pitt (rsrs) estava presente. No sonho, aquilo não era nenhuma novidade. Ela disse que eu deveria fazer algo, tentar puxar papo, afinal, era o Brad Pitt. Mas eu não achava importante. Então, depois que ela se calou, olhei para ele, que se sentava mais a frente, e pensei que estava estudando com uma pessoa que seria mundialmente famosa. Assim, o sonho parece ter se desenrolado numa era passada.

19/04/09:

Estava parado no passeio da casa de minha vó, no exato lugar onde costumo parar para ver o céu. As nuvens estavam revoltosas, densas, escuras. Um objeto luminoso vagava por entre as nuvens, escondendo-se e aparecendo repetidas vezes. Tentei chamar alguém mas parecia hipnotizado. Havia algo de muito grave naquilo, como se fosse o início do fim do mundo.

Como tenho fixação por nuvens e estrelas, sempre paro nesse mesmo lugar e fico olhando para o céu. Aqui, tenho até uma foto tirada do exato lugar.

Como tenho fixação por nuvens e estrelas, sempre paro nesse mesmo lugar e fico olhando para o céu. Aqui, tenho até uma foto tirada do meu "posto de observação".

20/04/09:

Sonho horrível hoje. Eu estava do lado de fora da casa, no portão da rua, quando olhei para o morro à minha frente. Era alto e coberto por uma densa floresta. O céu estava novamente revoltoso e escuro, as nuvens revolvendo-se depressa. Então percebi uma sombra crescente vindo para o lado das árvores, por entre as nuvens e percebi com horror que se tratava de um tornado. Corri para dentro, certo de que não estaria a salvo se não entrasse em algum lugar subterrâneo, quando minha avó me gritou.

Ela vinha de sua casa tentando correr com dificuldades, eu parei para esperá-la, enquanto o tornado se aproximava, cada vez maior. Então me lembrei que mais cedo ela me disse que eu tivesse fé, e fiquei a pensar, confuso, se ela havia tido uma espécie de premonição para aquele momento. Olhei para o cilindro devastador e escuro acima de mim, erguendo-se até o céu, quando então percebi rasgos azuis por entre as nuvens, e logo elas se dissiparam e o céu límpido apareceu.

21/04/09:

Ao que parece, eu estive hoje no Velho Oeste. Ou minha cidade inteira esteve, pelo menos a parte do jardim e da igreja. Não há dúvidas de que estávamos no passado, século XIX, pois nossas roupas indicavam isso com clareza. Havia um almoço ou quemersse no pátio da igreja. Todos estávamos bem quando um bando de índios nos atacou, causando grande confusão. Um homem mais velho me chamou e a outro rapaz para entrarmos na igreja, pois ela havia sido construída pensando-se justamente nesse tipo de ataque, e nela havia passagens secretas e túneis.

Logo que entrei percebi que lá dentro estava bastante escuro, e começamos a subir uma escada em caracol, que, aliás, de fato existe. Apesar do pânico e da gravidade da situção, de modo algum eu estava assustado, pelo contrário, sentia em tudo aquilo uma emoção maravilhosa. Chegamos ao sótão, cheio de imagens de santos e coisas velhas, e começamos a procurar uma passagem. Fui eu quem a encontrou, um piso falso no meio das tábuas carcomidas do chão. Desci e percebi que embaixo era muito mais estreito, só dando para se arrastar. Percebi uma outra janelinha ao fundo, de onde vinha luz, e caminhei até lá.

Num outro sonho, N me esperava no alto de uma colina, debaixo de uma árvore. Tentei subir até lá mas uma cerca me impedia. Havia uma pequena casa próxima, mas como havia gente e pareciam almoçar, resolvi não chamar pra pedir para passar pelo quintal deles. Comecei a contornar quando um monstro me atacou. Parecia-se com o Venom, porém era completamente verde e sem feições. Parecia um boneco de massinha, mas bem agressivo. O pior era que não havia meio de matá-lo, pois as partes se despedaçavam e voltavam a se unir. Atracamo-nos pela estrada de terra, eu pegava pedaços de sua pele e jogava onde achava que estavam os olhos. Pareceu funcionar, e repeti isso alguma vezes. Depois puxei uma parte bem comprida de sua pele e passei ao redor do pescoço, enforcando-o, mas a cabeça se soltou e imediatamente nasceu outra no lugar. O sonho terminou antes do fim da luta.

30/04/09:

Eu estava numa festa, parecia uma quermesse ou algo assim. As barracas e as pessoas se aglomeravam em torno de mim, fazendo com que eu quisesse sair dali o mais rápido possível. Um homem bêbado me abordou, e eu me desvencilhei dele com um solvanco de braço. Ele ficou parado lá, parecendo que ia chorar. Furioso, marchei pra fora daquele lugar, voltei o pescoço e olhei para ele. De longe, fixando o olham em mim, ele ergueu um revolver e deu um tiro na cabeça, caindo morto imediatamente. Tentei me conter mas nao pude, se sentei-me no chão, chorando muito.

07/06/09:

Tive um sonho esquisito hoje, mas sei perfeitamente interpretá-lo, ainda que não vá fazer isso aqui. Basta dizer que o sonho me pareceu como prenunciador de uma superação de trauma.

Eu estava na casa de minha avó paterna. Houve outras coisas antes mas não me lembro. Eu morava lá, mas me sentia mal, tendo calafrios e um sentimento de opressão. Em cada cômodo havia objetos meus, aparentemente representando diversas fases de minha vida. Queria sair dali, mas estava mostrando toda a casa para B, que me acompanhava.

Parei num dos quartos, onde na vida real dormia minha bisavó. B e eu nos deitamos na cama, e senti que ia rolar um sexo. Mas aí percebi que ela havia fechado a porta e me apressei em destrancá-la e deixá-la entreaberta, pois sabia que minha avó nos interromperia caso a visse fechada. E quando a destranquei, de fato, ela já estava lá, e adentrou o quarto dando uma desculpa qualque rpara nos vijiar.

OBS.: Algo parecido já aconteceu de verdade.

11/06/09:

Eu e uma menina de uns doze anos andávamos sobre um lago congelado. As vestimentas eram apropriadas para um frio intenso e a paisagem lembrava qualquer lugar da Antártida. Investigávamos rachaduras no gelo que estavam aparecendo numa cidadezinha próxima.

Logo avistamos duas elevaçõesno solo, que tinha crostas de gelo rachado em muitos pontos. Nos aproximamos da elevação maior, que ficava mais longe, e o que vi me deu medo.

Nas partes que o gelo havia caído, havia uma membrana fina e transparente, e através dela vi um monstro enguiliforme, enrolado, como se estivesse dentro de um ovo. Seus olhos eram pequenos e totalmente pretos, terríveis de se olhar, a pele rósea e lisa, de aspecto frágil, como se o animal tivesse acabado de trocá-la. Ele se moveu girando, incomodado com a nossa presença, e percebi surpreso e com mais medo ainda que a elevação menor continha sua cauda, de tão grande que era.

O gelo se partiu enquanto fugíamos aterrorizados. O sonho pulou e estávamos num pântano, com água pela cintura. O monstro havia se tornado humano, uma espécie de Corcunda de Notre Dame, e vivia no pântano refugiado da humanidade.

A casa de paliçadas mostrava inúmeros artesanatos pendurados nas paredes de palha, e senti pena dele. A menina me mostrou dois tambores que ele tinha começado a pintar de azul, e disse-me que ele pintava como minha mãe. Eu ri da comparação.

SONHOS DE 2010:

22/05/10:

Sonhei que estava em um carro, voltando de Juiz de Fora numa noite muito escura. D. estava comigo e, junto com mais algumas pessoas, formávamos um grupo de pesquisas ufológicas e sobrenaturais. Ao passarmos por Coronel Pacheco, entramos na cidade, até uma pracinha que havia no centro. Uma bela casa rodeada por grama e árvores erguia-se sobre uma colina bem cuidada, mas de aspecto selvagem. Flutuando ali havia dois pontos verdes bem luminosos, um deles parecendo uma água-viva. Aproximamos com o carro mas eles logo desapareceram.

O sonho pulou e eu me vi correndo com mais algumas pessoas por uma estrada de chão com bastante lama, embora estivesse de dia e o sol brilhasse. Corríamos de “homens do governo” pela estrada reta, em direção a uma elevação, onde o mesmo carro nos esperava. O carro era uma saveiro, e quem dirigia era M, que estuda comigo. Subimos todos no carro, D ao meu lado, e preparamos para partir.

Apesar da tensão, não foi um pesadelo.

O outro sonho foi um dos mais carregados que já tive.

Havia uma festa noturna no que aparentemente era uma praia. Muita gente, barracas sustentadas por colunas de madeira, uma casa de fazenda. Parecia uma dessas pequenas cidades litorâneas que ficam lotadas de turistas na alta estação. Vi B lá, saindo de uma das barracas onde estava o namorado e andando na minha direção, embora não me visse. Corri até ela e a abracei com vontade, levantando seus pés do chão. Ela sorriu mas educadamente me repreendeu por aquilo, dizendo que não era apropriado.

O sonho pulou e andávamos por uma estrada de terra no meio da noite, parece que estávamos indo visitar um local de terra vermelha, onde a paisagem era recortada por fissuras no solo, certamente uma influência do livro que li na véspera, Um Estudo Em Vermelho. Porém paramos no caminho para visitar uma lojinha, dessas que vendem artesanato nas cidades turísticas.

Entramos numa casa e eu estava preocupado porque havíamos entrado sem permissão e já era de madrugada, de modo que se a dona de repente nos visse não só chamaria a polícia como provavelmente morreria de um ataque cardíaco de tanto susto. Passei por um corredor muito escuro e estreito, lembro que a casa era toda de madeira vermelha, muito lustrosa. À minha direita havia um pequeno cômodo com um balcão amarela e prateleiras com os mais diversos objetos. Eu sei que, ao acordar de madrugada me lembrava mais, porém agora poucos detalhes permaneceram em minha memória. Me lembro que num primeiro momento vi dois homenzinhos construídos com objetos de metais. Eles tinham uma espécie de coroa na cabeça no formato dos cabelos de Lisa Simpson, e seguravam cajados. Mesmo no sonho fiquei impressionado com a originalidade daqueles objetos. E mais, eles montavam em cavalos, que na verdade eram duas conchas de formas elípticas. O curioso é que, quando olhei pela segunda vez, eles não mais montavam a concha mas estavam um pouco à frente e de lado. Os bivalves haviam ficado com uma marca onde eles estavam fixados. B também andava pelo quarto olhando as coisas.

Então saí dessa sala, atravessei o corredor para o outro lado e acabei dando em uma espécie de closet, onde havia um guarda-roupa embutido de um lado, cabides de outro e um baú em forma de cubo meio escondido, sobre o qual eu me sentei. Estava nesse lugar, meio escondido mas olhando para o corredor, quando a dona da casa finalmente apareceu, e junto com uma outra senhora, mais idosa. Temi pelo pior mas elas nos atenderam muito bem, mostrando as coisas. Voltei para a loja propriamente dita. Creio ter sido nesse hora que percebi que os homenzinhos de lata não mais montavam seus cavalos.

Ah…Depois tive um sonho ainda mais esquisito. Eu não me lembro dele por completo, mas sei que andava por um hospital até as duas últimas salas, bem no fundo. Esse ambiente deve ter sido suscitado porque há algumas semanas fui até o posto de saúde com meu pai, e aí percebi o quanto as últimas salas eram parecidas em conformação com as do antigo hospital de minha cidade, um lugar que sempre me provocou medo enquanto criança e com os quais eu tinha o seguinte pesadelo: Avançava até o fundo, pelo extenso corredor, e via então duas salas. À da minha direita havia uma cadeira de dentista, mas tomada por ervas daninhas e trepadeiras, bem como o chão e as paredes. Uma porta dava para um quintal igualmente abandonado. Isso me provocava um pavor indescritível e esse pesadelo se repetiu algumas vezes.

Muito bem, o sonho que eu tive hoje foi bem diferente. Atravessei o corredor mas o hospital, longe de estar abandonado, parecia muito novo e estava cheio de gente. As duas salas do fundo também haviam se fundido numa só. Dirigi-me à direita e sentei-me numa cadeira. Um homem de aparência selvagem e repugnante me aplicaria uma injeção. Eu não tive medo algum pois fora eu mesmo que o procurara, e sabia que somente ele poderia me administrar aquilo. Creio que ele segurava um rifle. Informou-me que a injeção provocaria efeitos colaterais quase insuportáveis, mas seria passageiro. Minha coxa direita seria o local onde a dor se manifestaria de maneira mais intensa. Eu nem estava preocupado, e consenti. Aí que vem a parte estranha. De repente, ao meu lado, estava uma professora, que chamarei de F. Eu acho que o sonho se repetiu durante a madrugada porque eu olhei pra ela rindo e disse que tinha sonhado que um homem me aplicaria uma injeção e que ela estivera lá comigo. Nesse caso, deve ter havia um primeiro diálogo, do sonho “original”, ou talvez não, mas se houve eu me esqueci totalmente. Um sonho dentro de um sonho, isso é louco.

25/05/10:

Moro numa cidade com pouco mais de cinco mil habitantes, mas nessa noite ela ganhou ares de metrópole. Uma metrópole escura e fumarenta, sem dúvida influenciada por um filme que assisti no domingo, O Justiceiro Mascarado. No local onde é minha casa havia um arranha céu, e em sua lateral, uns cinco andares acima do nível do solo havia um terraço bem espaçoso, com portas que davam para o interior do prédio, onde eu morava. Nesse terraço havia mesas brancas e bastante gente, numa festa noturna no melhor estilo Grande Gatsby. Perto da amurada eu olhava os prédios em volta, quando luzes no céu me chamaram a atenção, e de mais alguém que não me lembro. Então vi um avião desses usados na segunda guerra. Ele apareceu no céu à esquerda e descreveu uma curva elegante, a parte de cima virada pra nós enquanto virava e descia. Deu pra perceber os detalhes da janela, e nós sabíamos que algo não ia bem. A aeronave continuou descendo naquela vurva aberta e explodiu contra um prédio vizinho, no outro lado da rua, lançando fogo e destroços para o ar. Fiquei eufórico e quis imediatamente ir lá ver, mas meu avô materno apareceu e eu sabia que ele seria contra.

04/06/10:

Eu andava por um lugar estranho, com ruínas muito antigas e prédios mal conservados. Pessoas de aparência peculiar reuniam-se em grupos esparsos de dois ou três. Eram homens magros, morenos e que vestiam tangas, verdadeiros hindus. Certamente esse cenário foi influenciado por um documentário que vi dias antes, sobre um ritual indiano onde as pessoas reverenciam as forças elementais masculinas e femininas, no interior de um templo antiquíssimo e caindo aos pedaços e onde existe um enorme falo introduzido em uma vagina, e sobre os quais eles derramam leite em adoração. No sonho, não me lembrava de nada disso. Apenas andava por uma rua imunda com um papel na mão, onde havia informações sobre uma garota a quem eu queria encontrar. Perguntei a um e a outro, mas não encontrei respostas que me ajudassem.

Por fim, passei ao longo de um prédio quadrado, sem janelas, erguido sobre paliçadas. Hesitante, resolvi voltar e entrar. Eu sabia exatamente o que encontraria lá dentro: anciãs que viviam numa espécie de congregação religiosa e que pregavam o silêncio absoluto como forma de penitência. Lembrei-me que, quando criança, tivera medo dessas velhas em alguns encontros que tive com elas em presença de minha mãe. Agora eu sabia que elas eram totalmente inofensivas, mas essas recordações ainda eram responsáveis por minha hesitação diante da perspectiva de entrar lá.

Com o papel na mão, subi a escadinha de três ou quatro degraus de pedra em direção à porta retangular, através da qual reinava a mais espessa escuridão. As paredes do templo eram de barro.

O chão também era de terra batida, como logo vislumbrei através da meia-luz. Logo percebi também o contorno acinzentado das velhas. Estavam sentadas no chão, amontoadas próximo à porta, embora desse pra perceber que o templo se estendia para muito além, já com paredes amorfas como as de uma caverna. Além da escuridão, o silêncio me impressionava porque era muito pesado.

Uma das velhas tomava a frente do grupo e foi dela que me aproximei, mostrando a folha. Diante da reação dela, olhei eu mesmo para o que exibia e me assustei. Primeiro percebi que não era mais apenas uma folha, mas sim um maço delas, grampeadas no canto superior. Também, ao invés de uma foto da garota a quem eu estava procurando, havia na primeira delas desenhos das velhas, principalmente daquela com quem eu falava. Agora, enquanto escrevo, penso que essas velhas tem características muito parecidas com as de minha bisavó materna. De todo modo, a velha se horrorizou ao ver seu desenho. Pensei que elas obviamente não tinham espelhos e, portanto, não sabiam a aparência que haviam adquirido desde que ingressaram na ordem. A velha começou a falar com a outra que tudo havia sido em vão, haviam renunciado demais por nada.

Ainda perplexo, virei a primeira página, encontrando o desenho de um crânio na segunda folha. Era grande e robusto, meio primitivo (isso se deve à monografia que estou preparando). Comecei a ensinar a elas sobre o que ia se apresentando nas folhas, sempre desenhos de estruturas ósseas. A última página mostrava três tipos de membros, creio que um era um braço humano e os outros eram pernas de cavalo e anta. Expliquei a elas os nomes dos ossos e a comparação entre as espécies.

17/06/10:  Antônio Fagundes e o rinoceronte.

Um velho, influente e muito corrupto político acabara de morrer, ainda estando sobre sua cama com os braços cruzados sobre o peito. De minha visão no fundo do quarto, só percebia seus pés. Era um cômodo escuro, de cortinas espessas e parecendo bem antigo. Antônio Fagundes (!) sentava-se numa cadeira aos pés do morto, as maos espraiadas e a cabeça pendida, em muita tristeza. Fora o primeiro a saber da notícia. Tony Ramos (!!) entrou no quarto vestindo um smoking branco, pois estava numa festa quando soubera da notícia e viera correndo. Sentou-se numa cadeira do outro lado da cama (à minha esquerda) e os dois puseram a conversar. Em determinados momentos pareciam mesmo dois atores representando, em outros era como se fosse real. De repente houve um clima ruim, como se Tony tivesse falado mal do morto e Fagundes nçao tivesse gostado, pois era o braço direito do velho político. Tinha até o apelido de “rinoceronte”, uma vez que sua personalidade forte combinava com esse animal. Mas Tony lembrou um episódio em que o velho havia sido mal agradecido para com ele, traíra o rinoceronte, e Fagundes foi obrigado a concordar, parecendo muito triste.

21/06/10: As estátuas vivas e os segredos de minha avó.

Foram dois sonhos.

No primeiro deles, eu estava em casa quando meu pai me chamou pra ver alguns bichos que ele nunca tinha visto. Fui até a casa de minha avó e percebi que os animais haviam sido fritos para se comer, pis estavam amarronzados e secos. Num primeiro momento achei que fossem rainhas e cupis muito grandes, pois o abdômen era característico, mas depois julguem serem uma espécie desconhecida de gafanhotos. Eram muito grandes, com mandíbulas fortes e olhos raiados, difíceis de descrever. Embora meu pai e outras pessoas quisessem comê-los, insisti para que me dessem alguns exemplares para que eu os guardasse comigo. Cinco espécimes, acho que nenhum deles inteiro, foram colocados num grande prato branco, sobre um murinho que existe na cozinha de minha avó.

Na vida real minha avó tem problemas de visão e o mesmo ocorria no sonho. Como ela estava perto, pedi que tomasse cuidado com o prato, para não derrubá-lo. Entretanto, assim que me virei, ela passou um pano sobre o murinho e jogou todos os gafanhotos no chão. Ciente da importância daqueles espécimes, apressei-me em procurá-los, sentindo em meu interior que ela havia feito isso de propósito, porém nada falei. Então, descobri uma tampa de metal igual a essas que fecham os registros antigos de água encravada no piso da cozinha. Logo imaginei que eles poderiam ter caído por entre os buracos do metal e a levantei. Qual não foi minha surpresa ao perceber que aquele buraco estava repleto de objetos de minha infância, todos escondidos por minha avó ao longo dos anos. Sem esquecer os gafanhotos, fui revolvendo aquelas lembranças, vendo brinquedos que realmente existem ou existiram, enfiando quase todo o braço. Fiquei com medo, pois quanto mais fundo maior era a sujeira, as teias de aranha, os papéis velhos, mas estava determinado a encontrar meus bichos. O sonho se desvaneceu durante essa procura.

O segundo sonho foi mais interessante.

Uma moça de vinte e poucos anos corria desesperada por um jardim, sobre a calçada, enquanto era perseguida por um homem que queria matá-la de qualquer modo. Ela se enfiou na frente de um carro, quase morrendo atropelada, até que entrou por um portão de ferro, branco, bem antigo. Do lado de lá havia um jardim muito bonito, mas abandonado, com folhas e ervas daninhas espalhadas pelo chao. Ao fundo, uma casa de arquitetura antiga, do século XIX, tambem decadente. A moça avançou pelo centro do comprido jardim, em direção à casa, quando percebeu que suas dificuldades haviam aumentado. Ladeando esse corredor de grama, dos dois lados, haviam pedestais de pedra com grandes estátuas. No entando, estavam meio vivas. As pernas, assim como o pedestal, continuavam sendo de pedra cinza, mas o tronco já era feito de outro material, parecendo madeira, enquanto os braços e as cabeças era de carne. Agitavam os membros freneticamente, tentando alcançar a moça, enquanto ela corria como desesperada. Um deles tinha galhos irradiando-se dos braços, como se fosse metade homem, metade árvore. O interessante é que esse tipo d epersonagem já me ocorreu duas vezes em sonhos anteriores, cheguei a sonhar com o Barbárvore, da trilogia O Senhor dos Anéis.

O Limite do Eterno

Assisti um pedaço de um grande documentário na TV Escola. Falou sobre a grande extinção do Permiano, período anterior ao Triássico, onde surgem os dinossauros. Percebi que os dinossauros não apenas desapareceram por causa de uma grande extinção, mas também vieram ao mundo por causa de uma. O que não é tão raro na história da Terra. Depois o documentário se rendeu um pouco ao show do momento que coloca o homem como o autor de uma tragédia grega de ordem planetária. Na minha opinião, deveria ter feito o contrário, e desmistificado a extinção. Mas o documentário foi bom sim, principalmente porque enfocou a paleontologia, apesar de não ter sido o tema único.

o mundo no Permiano

o mundo no Permiano

Aliás, extinção é um tema que tem me chamado a atenção. Os cientistas calculam, por exemplo, que toda a biodiversidade hoje represente algo perto de 1% de toda a vida que já passou por aqui, o que é uma coisa fantástica.

Um pouco mais tarde, também na TV Escola, estava passando um episódio da série Cosmos, aquela antiga, de década de 70. Era o chamado “No Limite do Eterno”, certamente um dos mais impressionantes.

Mas o niilismo de Carl Sagan me faz gelar os ossos. Realmente comecei a me sentir mal quando ele começou a falar sobre a morte do universo.

Segundo ele, o universo funciona da seguinte maneira: sua forma é ditada pela quantidade de matéria que existe em seu interior.

As possíveis formas do universo

As possíveis formas do universo

Sabemos que todas as galáxias hoje se afastam, e isso é o maior indicio de que um dia estiveram todas unidas num ponto ínfimo, menor que um átomo, que explodiu, no evento chamado Big Bang. O negócio agora é saber o que acontecerá no futuro.

Os cientistas acham que existem duas possibilidades básicas de morte para o universo. Se houver matéria o bastante no universo a gravidade fará com que ele se dobre sobre si mesmo, como uma esfera, o que refreará uma expanção sem fim. Nesse caso, então é possível que um número infinito de mortes e renascimentos tenha ocorrido. Assim, o universo sempre existiu, ainda que as leis da física possam ter sido diferentes a cada renascimento. Coisas tão comuns para nós quanto gravidade, inércia ou empuxo podem ser apenas três exemplos, perdidos numa gama infinita de leis naturais, embaralhadas ao acaso a cada contração.

vialactea

O perturbador é pensar que nada do que existiu no universo anterior sobreviveu até o nosso e nada do que existe hoje sobreviverá depois da próxima contração. “Nada das galáxias, estrelas, planetas, formas de vida ou civilizações [que] se desenvolveram na encarnação prévia da infusão do universo para o ápice, agitações após o Big Bang, para serem conhecidas em nosso universo atual”(p.259 de Cosmos). A falta de sentido com tudo que pode decorrer disso é não só evidente como previsível, e Sagan tenta nos acalentar dizendo que podemos encontrar consolo nas escalas de tempo envolvidas.

Carl Sagan tenta nos acalmar: "Não se desepere leitor, seu fim virá bem antes."

Carl Sagan tenta nos acalmar: "Não se desepere leitor, seu fim virá bem antes."

De qualquer forma, a outra teoria é ainda pior.

O universo não possuiria matéria suficiente para se dobrar totalmente e continuará se expandindo pelo infinito. Ele teve um início, no Big Bang, mas não terá um fim. Bom pra nós? De modo algum. As galáxias continuarão se afastando umas das outras até sumirem de vista e depois elas próprias vão se desfazer. As estrelas morrerão e a matéria se estragará, diluindo-se num éter finíssimo, em direção a um infinito absolutamente vazio, escuro e frio.

Lendo uma revista Ufo (Ufo Especial, maio de 98) em busca de minha próxima postagem, acabei achando mais um parágrafo que fala sobre isso. “Segundo o princípio da termondinâmica (…) a entropia dentro de qualquer sistema aumenta com o tempo, isto é, o Universo irá se expandir indefinidademente até que fique sem energia (num universo aberto) ou até que a gravidade termine, e a expansão e a recompressão comecem (num universo fechado). (…) Portando, num universo aberto, as ações estariam ainda continuamente limitadas de acordo com o declínio da disponiblidade de energia. Num universo fechado, elas não sobreviveriam ao colapso. Independente de sua crença num Universo abertou ou fechado, o Universo e toda evolução física dentro dele estão caminhando para o seu fim. Embora isso possa acontecer num futuro distante, a questão continua. Nós nascemos da evolução cósmica apenas para morrer no colapso de um universo fechado? Se toda vida perderá eventualmente energia, devemos concluir que ela é efêmera, e sem a eternidade incapaz de controlar seu próprio destino.”

o diretor e phD James Hurtak vai ainda mais longe, sugerindo meios de inteligências avançadas sobreviverem ao colapso final.

o diretor e Ph.D James Hurtak vai ainda mais longe, sugerindo meios de inteligências avançadas sobreviverem ao colapso final.

Nessa matéria excelente, James Hurtak, o autor, continua discursando sobre maneiras hipotéticas de contornar o problema da extinção final. “Portanto, o objetivo lógico das inteligências (…) seria um controle da entropia universal. Isto é possível? Uma inteligencia altamente desenvolvida seria definida como uma inteligência que seja apta a controlar a entropia (…) ou que possa intervir no processo entrópico de modo geral. (…) Se uma espécie, ou grupo de espécies cooperativas descobrisse como operar exteriormente o sistema limitado, deveriam ser capazes de controlar sua viagem para dentro e para fora de qualquer Universo que esteja sujeito ao colapso, a fim de escapar de algum modo à recompressão do Cosmo. Com nossa tecnologia atual, parece impossível organizar tal salto quântico além de nossas limitações de tempo e espaço. E há a possibilidade de que as outras dimensões possam estar sujeitas a esses eventos, se as dimensões estão ligadas e em conjunção umas com as outras. Contudo, o objetivo final de qualquer civilização e o sinal verdadeiro de inteligência avançada seria quando fossem capazes de se transferirem de dentro de um sistema fechado para outra realidade, tal como um universo paralelo (…) visualizando uma metodologia em que as inteligências pudessem sair do paradigma tridimensional antes do colapso final.”

De qualquer forma, fiquei realmente mal de ao ver aquele documentário, apesar de já ter lido o capítulo correspondente no livro que surgiu da série. As duas teorias são terríveis.

Descobri então que nós não apenas desejamos a imortalidade para nós como indivíduos mas, uma vez conformados com o destino certo que nos aguarda, queremos então, pelo menos, a imortalidade para a nossa espécie ou, num nível mais abrangente, para a vida de um modo geral. Queremos que se a Terra esteja condenada pela morte do sol, pelo menos que a humanidade possa resolver isso saindo com arcas de Noé cósmicas pelo universo afora, salvando a vida. Queremos que as estrelas e os planetas continuem existindo para sempre. É triste pensar que tudo vai acabar. Sensação de inutilidade. Pra que existir então?

no fim o Sol tornar-se-a uma gigante vermelha, podendo engolfar a Terra

no fim o Sol tornar-se-a uma gigante vermelha, podendo engolfar a Terra

Numa concepção que pode parecer ate muito forçada, o fim do universo vai até contra a construção desse blog. É claro que eu não penso que ele durará para sempre mas, ao mesmo tempo, faço conscientemente uma tentativa de imortalidade, preservando aquilo que julgo importante para mim quem algo que possa durar pelo menos mais alguns séculos, que sabe alguns milhares de anos…

Há ainda uma teoria dentro da astronomia que talvez nos possa trazer algum tipo de conforto científico, principalmente para aqueles que não aceitam serem confortados pela fé.

Como disse o próprio Carl Sagan, é uma teoria totalmente indemonstrável, talvez nunca possa ser provada. Segundo ela, o nosso universo inteiro, com planetas, galáxias e quasares estariam encerrados dentro de uma unidade básica de um universo imediatamente acima. Por exemplo, um elétron. Todos nós estaríamos então dentro de um elétron de um próximo universo acima de nós, e todos os elétrons de lá possuiriam universos dentro de si. E mesmo esse próximo universo acima estaria encapsulado no elétron de um outro universo, ainda maior, e assim sucessivamente, numa progressão infinita. Naturalmente, o contrário também valeria, ou seja, cada elétron do nosso universo conteria um universo inteiro, com planetas, galáxias, asteróides, e esses universos seriam compostos por unidades básicas repletas de outros universos, numa regressão infinita. Quem sabe os buracos negros não seriam portas entre esses universos?

Não sei se essas grandes questões servem para alguma coisa. O homem ainda está no início da investigação astronômica, resta muito saber. Quem quiser falta de sentido vai encontrá-lo em todo lugar, não precisa de astronomia cética. Me lembrei agora, não sei porque, de um texto de H. G. Wells:

“Dia virá na sucessão sem fim de dias, quando seres agora latentes em nossos pensamentos e escondidos em nossas costas, se levantarão sobre essa Terra como se fica em pé sobre um escabelo, e rirão e tocarão suas mãos no meio das estrelas”

Ah… Essas Fêmeas Fatais

Segundo os antropólogos, nossa espécie habita esse planeta há mais ou menos dois milhões de anos. Entretanto, só criamos a escrita, as cidades e o modo civilizado de ser há apenas dez mil anos. Ou seja, passamos seiscentas vezes mais tempo nas florestas do que nas cidades. Somos ainda essencialmente selvagens e, portanto, ainda sujeitos às ondulações da natureza. Estudar a história do homem é estudar seu amadurecimento, seu desprendimento à selvageria, sua perda de ingenuidade…

No início era a mulher.

Nas sociedades antigas, de subsistência, não havia necessidade de força física, e a mulher possuía papel central como reprodutora. Os homens primitivos adoravam as formas avantajadas da Vênus de Willendorf, portadora do segredo da vida.

Ainda hoje podemos encontrar em alguns lugares remotos remanescentes vivos desse tipo de cultura, como nas planícies remotas da África ou da Austrália, por exemplo. Neles, os integrantes do grupo vivem da pequena caça e da coleta de frutos, a mulher é vista como um ser sagrado, pois pode dar à luz. O feminino e o masculino governavam juntos, existe divisão do trabalho mas não há desigualdade.
“Nos grupos matricêntricos, as formas de associação entre homens e mulheres não incluíam nem a transmissão do poder nem a da herança, por isso a liberdade em termos sexuais era maior. Por outro lado, quase não existia guerra, pois não havia pressão populacional pela conquista de novos territórios”, nos diz Rose Marie Muraro, no prefácio de livro Malleus Maleficarum.

Mas, com o aumento no número de seres humanos, a competição por alimentos incitou a caça de animais cada vez maiores. Com a competição mais acirrada, as guerras passam a ser mais freqüentes, os guerreiros começam a ser vistos como heróis, iniciando o processo de ruptura com a crescente mitificação dos conflitos.

Mas o homem ainda desconhecia sua função de reprodutor, e acreditava que a mulher ficava grávida dos deuses. Portanto, a elas ainda se envolvia numa aura de misticismo e divindade e os homens as invejavam, cultuado-as como a um ídolo.
O curioso é que essa primeira fase, a da “inveja do útero” é a precursora da famosa “inveja do pênis”, que Freud descobriria muito mais tarde. Durante a Idade Média, o útero era visto como uma entidade, um ser dotado de vontades próprias e de uma insaciedade demoníaca, uma teoria que serviu de base para explicar a culpa das mulheres durante os processos de Inquisição. Hoje, percebemos claramente, (principalmente nos filmes de comédia no estilo “besteirol” americanos), que é o pênis que se reveste de um contorno próprio, como se fosse uma parte quase dotada de consciência no homem.

A inveja do útero deu origem a pelo menos dois rituais universais nas culturas antigas, e algumas ainda em andamento. O primeiro desses fenômenos denomina-se couvade, nele as mulheres começam a trabalhar logo depois do parto e os homens ficam em casa cuidando da prole e recebendo as visitas e os presentes. O outro é o ritual de iniciação masculino, aliás, muito bem detalhado no livro de Jung, O Homem e Seus Símbolos. Como os meninos não sofrem o processo de passagem oficial da infância para a adolescência, a saber, a menstruação, eles sofrem um violento ritual por volta dos doze anos, em que os homens da tribo simbolizam um “parto”. Desse modo, eles estão aptos a deixarem suas vidas de garotos e a tomarem as responsabilidades próprias de homens.

Tudo isso foi criado como uma forma de compensação pela inveja e sentimento de inferioridade que o homem nutria pela mulher.
Para as mulheres, a coisa começa a desandar no momento em que o homem descobre seu papel na reprodução, o que se deu provavelmente durante o Paleolítico. Já inflado por uma idéia de superioridade, obtida pela mitificação da guerra, o homem começa a controlar também a reprodução, e a mulher passa rapidamente de semi-deusa para propriedade privada. Surge o casamento como forma de controle sexual.
Nessa época, o homem começa a dominar também as técnicas de transformação dos metais, produzindo novas armas e também instrumentos para a atividade agrícola. Aparecem as aldeias pastoris citadas na Bíblia. Minha professora de história insistia que o maior feito humano foi a dominação da agricultura, pois a partir daí as tribos deixaram de ser nômades e puderam se desenvolver cada vez mais, criando laços hierárquicos cada vez mais sólidos, impulsionando o progresso. Surgem cidades, cidades-estados, impérios.
Infelizmente, nesse processo as mulheres são reduzidas ao âmbito doméstico, sua sexualidade é fortemente reprimida e o machismo começa a imperar nas civilizações.
A pior parte foi durante a Baixa Idade Média. Lá, “a moral cristã traduzia (…) os problemas da tentação da carne.” (p. 64 de Uma História do Diabo, Robert Muchembled).
No Renascimento, “a difusão de temas artísticos centrados no corpo feminino em toda a sua plenitude representava um grande problema, embaralhando as mensagens tradicionais a respeito de uma nudez pecaminosa. (…) Se não era possível proibir de mostrar o sexo de Vênus, os encantos de Diana ou os atrativos de uma mulher banhando-se, era possível lembrar incisivamente até que ponto a aparência era enganadora, ou até mesmo perigosa.”(p.66).

Aqui, por exemplo temos “Jovem Feiticeira”, de Hans Baldung Grien, ano de 1515; a imagem reflete o pensamento estereotipado de uma época em que o mal se escondia, muitas vezes, atrás da beleza feminina. A língua explicitamente fálica do dragão demoníaco nos mostra que a obsessão sexual respondia em grande parte pelas neuroses do inconsciente coletivo.
“No século XIV aparecem as mulheres-pecadoras, nas quais cada parte do corpo evocava um pecado: uma cabeça ou uma goela sobre o ventre fazia alusão à sexualidade feminina voraz.”(p.64). Surge o mito do sabbat (reuniões de bruxos) e a delirante caça as feiticeiras.

“A verdadeira força central do mito reside, a partir de então, na definição de um corpo humano tornado por natureza maléfico, voltado a uma sexualidade contra a natureza. As vias de introspecção passam por uma culpa em matéria do uso do próprio corpo e do próprio sexo. (…) Os costumes, por vezes bastante livres do final da Idade Média, cederam bastante o terreno diante de uma moralização crescente. (…) Aparentemente sem ligação direta, os dois fenômenos precedem, no entanto, de um mesmo impulso de inculpação, instigando cada um a controlar a fera dentro de si.”
(p. 80, 81).
Para piorar, essa reclusão da mulher provoca sua dependência econômica e gera, ainda, uma submissão psicológica que pode ser facilmente notada até os dias de hoje.

Mas, e quanto ao futuro?

É agora que devo citar um livro que li já há algum tempo, Homens São de Marte Mulheres São de Vênus. É isso mesmo, e apesar de alguns estudiosos torcerem o nariz para esse tipo de clichê, essa “psicologia de palco”, como eles dizem, está cientificamente comprovado que homens e mulheres seguiram linhas levemente divergentes na evolução. Por exemplo, os homens tiveram seu raciocínio lógico e senso espacial desenvolvidos, o globo ocular ficou maior para que enxergássemos de longe e nossa pele ficou mais grossa por causa dos espinhos e dos animais da floresta. Além do mais, apreciamos o silêncio porque tivemos que nos acostumar a ele enquanto estávamos caçando.
Já as mulheres, que ficavam em casa cuidando da aldeia e dos filhos, desenvolveram a linguagem e a cognição bem mais que os homens. Também se adaptaram para acordar a noite com o choro do bebê, aprenderam a ler expressões faciais sutis para diagnosticar doenças (um dos motivos pelos quais é difícil mentir pra elas) e apuraram a visão periférica, para enxergarem algum perigo que rondasse as imediações da aldeia.

Bem, estou mais interessado na linguagem. O século XX presenciou uma reviravolta mundial, foi a revolução da informação. Pela primeira vez na história do homem, estamos à porta de um estágio da civilização em que uma informação pode ser mais importante (ou mais perigosa) do que uma arma nuclear. E é justamente agora que a mulher começa a se sentir mais a vontade no mundo, repararam isso? É como se só agora elas percebessem que este lugar também é de delas. A verdade é que o homem só dominou este planeta até hoje porque o trabalho pesado precisava ser feito. Mas na medida em que caminhamos para um estágio em que a inteligência suplantará a força, e isso já acontece a uma velocidade estonteante, as mulheres inevitavelmente tomarão o poder. Livros, música, cultura de um modo geral, é uma coisa que combina melhor com mulher.

Pensem bem, vocês não acham muita coincidência que logo agora, quando cada vez mais se é preciso ter bagagem cultural para subir na vida, as mulheres estão abrindo caminho no mercado de trabalho? E em cargos altos. Ah!…Claro, as mais radicais dirão que devem isso ao movimento feminista americano que varreu o ocidente na década de 60, mas eu acredito que isso se deva muito mais a revolução tecnológica e aos novos valores impostos pela nova ordem mundial.
Aí uma garota me pergunta: Quer dizer então que daqui a cem anos nós seremos poderosas executivas sem filhos e o mundo cairá no matriarcalismo mão-de-ferro? E ao invés de mulheres ensaboadas na TV teremos homens bombados rebolando só de sunga?
Felizmente para meus bisnetos, acho que não. Bem, talvez elas queiram fazer isso por uma certa vingança rancorosa, é algo comum na história da humanidade, mas no geral as mulheres não se sentem atraídas por pornografia. É por isso que elas preferem fazer amor no escuro.

Biologia: Em Defesa de uma Didática Anacrônica

Estou escrevendo o rascunho dessa postagem dentro da sala de aula. Achei que seria mais… inspirador. Ao meu redor as pessoas ainda estão levemente agitadas da hora do intervalo, comendo biscoitos, bebendo água, olhando no relógio para ver quanto tempo falta para irem embora. Como sempre, uma aula chata. Na medida em que o tempo transcorre, aumenta o tédio e a sensação de que a hora não passa. Agora tem gente mexendo no celular, conversando sobre outros assuntos, folheando revistas Avon. Vejo um amigo voltar-se para trás e mover os lábios em mímica, e percebo claramente que disse um “chaaaatooo” pra colega de trás. Sou obrigado a concordar.

Hoje a tarde estava pensando nisso, enquanto trocava de roupa e sentia uma imensa má vontade de vir pra cá, só superada pela do meu professor em dar aula.

Levei um ano pra descobrir, ou pra admitir, que o curso me decepcionou profundamente. Enquanto calçava as meias, a biografia de meu herói,  Darwin, a Vida de um Evolucionista Atormentado me olhava da estante. Dentro do ônibus, vim lembrando os melhores momentos, como, por exemplo, a febre da época na captura de besouros:

“Nada era poupado na caça aos troféus. Ele comprou uma rede de varredura e aprendeu a capturar minúsculos insetos saltadores. Folhas de papelão foram enfeitadas com besouros, cada um alfinetado no lugar adequado. Também encontrou um morador local para coletar fragmentos do fundo das barcaças que traziam junco dos brejos, os quais ele examinava cuidadosamente, à procura de sua presa. Não era um massacre fácil, pois alguns besouros tinham defesas inesperadas. Um dia, ao retirar a casca de uma árvore morta, ele capturou dois tipos raros, um em cada mão. De repente avistou uma terceira nova espécie, boa demais para ser perdida. Sua ação foi tão boa quanto a de um apanhador de ovos bem treinado. Escondeu o besouro da mão direita na boca. Infelizmente tratava-se de um besouro bombardeiro, que de pronto fez jus ao nome esguichando um nocivo fluido fervente na garganta de Charles, surpreendendo-o momentaneamente. Ele cuspiu fora o besouro, perdendo-o no chão, e na confusão perdeu os outros dois também.”(p. 86)

“Passava a maior parte dos dias em passeios de barco pelo estuário, em caminhadas nas montanhas ou pescando nos lagos próximos.” (p. 81)

“Uma semana depois, os naturalistas flutuaram o Cam abaixo. (…) Darwin procurou por plantas novas em todo o canto. Do outro lado do canal lodoso ele avistou uma Utricularia, planta insetívora. Cheio de orgulho, tentou alcança-la usando sua vara de saltar (um de seus velhos companheiros de caça aos besouros lhe ensinara o truque.) Com um forte impulso, arremessou-se para cima – mas a força foi insuficiente. A vara ficou espetada no fosso, com Darwin dependurado na ponta. Encabulado, ele deslizou para dentro do atoleiro, chapinhou até o espécime e o entregou a Henslow. Naquela noite, enquanto o grupo jantou em uma hospedaria próxima, a bravata de Darwin tornou-se o brinde do período letivo. A herborização terminara em triunfo, com quase trezentos espécies coletadas. “ (p. 100)

Século XIX, início do XX.

Pra mim o homem jamais sentirá o mesmo espírito científico dessa época. Darwin foi a personificação perfeita do cientista recluso, instigado pela natureza e ao mesmo tempo atormentado por crises existenciais, influenciadas pelo positivismo e por um niilismo que parecia varrer qualquer esperança de um futuro crente.

Mesmo pela falta de conhecimento, o homem possuía uma idéia mais interessante, mais respeitosa diante da vida. Hoje acredito que isso se perdeu.

Estou na faculdade há um ano e até hoje não saímos a campo nenhuma vez. Cursar ciências biológicas exclusivamente dentro da sala de aula pra mim é suicídio profissional. Quando entrei aqui, ingenuamente insuflado pelas idéias românticas de uma era passada, imaginei que iria encontrar um ambiente mais respeitoso, mais fascinado e com certeza menos arrogante, menos prepotente.

Não vou dizer que aula estou tento agora porque não quero sacanear o professor (ainda que tenha a vaga suspeita de que, na verdade, é ele que quer me sacanear). Mas ninguém está realmente interessado. Posso garantir que o assunto é bom, mas a aula está uma desgraça. As perguntas que vêem à tona são mais por um medo do que vai cair na prova do que por um interesse real diante da mágica da vida. Os esquemas no quadro são uma tristeza só.

Hoje os professores ligam o retroprojetor, ou o datashow, e exibem figuras e animações sobre o pano branco dependurado na frente do quadro. Olhando bem para as formas, percebo que quase não exibem contornos orgânicos, em algumas essa característica desaparece completamente. Lembro-me bem, com horror, que os ciclos de reprodução das pteridófitas me causavam mais arrepios na espinha que os filmes de Hitchcock.



Inundada por uma luz azulada hipnótica, minha geração está assistindo, estática como uma horda de zumbis, ao clímax da didática científica (e vocês não sabem como me dói dizer isso). Os desenhos parecem almejar um traço matemático, os organismos são dilacerados em formas vazias, ocas, divididos em células, órgãos, gânglios e articulações. E ainda dão nomes que (na minha opinião) são completamente hilários. Quase não consigo segurar o riso cada vez que vejo uma glândula batizada com o nome de alguém. Meu Deus, eles dão nomes de gente pras partes dos bichos! Sou só eu ou alguém mais tem a sensação de estar ficando doido?

Provavelmente estou parecendo um reclamão, pretensioso, chato e, com certeza, completamente imbecil. Mas não é isso.

O problema não é da instituição, porque sei que estudo numa das que talvez figure entre as melhores do país. A culpa também não é toda dos alunos. É claro, tem muita gente lá que não nutre essa paixão cega e um tanto delirante pela biologia, apenas se simpatizam a ponto de querer levar suas vidas em contato com ela. Normal. Há ainda aqueles que só cursam uma faculdade por seguirem uma espécie de obrigação social ou mesmo familiar. Pode ser que o cara quisesse apenas montar um quiosque numa praia e vender cerveja, mas os pais ficariam decepcionados se ele não tivesse um curso superior. Pra esses alunos, (sem qualquer falsidade), eu bato palmas, pois nem posso imaginar o que deve ser passar quatro anos da vida fazendo algo só porque todo mundo diz que você deve fazer. Uma saga horrível.

Aí eu penso que o problema é dos professores. Mas quando penso nisso, não sei que fatores levaram este ou aquele professor até a sala de aula, ou pode ser que estivessem tentados a fazerem a diferença no início, mas foram ficando deprimidos a medida em que afundavam no clima geral.

O problema é global, está na didática ensinada no mundo todo.

Vejam bem, sei que deveria estar agradecido por cursar uma faculdade de qualidade, e estou, mas não vejo motivo também para não expressar meu sentimento numa simples postagem de blog que quase ninguém vai ler.

Também, é claro, pode ser que eu esteja completamente enganado. Como bom cartesiano, me recuso a abrir mão dessa possibilidade. Talvez eu esteja fazendo de Darwin um padrão estereotipado para uma época totalmente desconhecida para mim. É claro que nem todos no século XIX nutriam a mesma paixão pela ciência, tampouco eram tão interessados quanto Darwin. Mas, não posso deixar de pensar que mesmo os radicais seguiam um ateísmo mais ingênuo, uma filosofia que existia quase exclusivamente para atacar uma Igreja que começava a ficar ruim das pernas. Hoje talvez não seja tão diferente, sempre gosto de pensar que todos nós somos o que somos influenciados por fatores individuais: traumas, vivências, experiências de mundo. E isso acontece inclusive com os cientistas.

Mas, me perdoem, mesmo assim não consigo deixar de ver o radicalismo contemporâneo como uma coisa pornográfica.

Tristeza, não consegui focar o assunto, mas é o que dá escrever durante a aula.

Ah… Se eu fosse milionário comprava um veleiro e sumia nesse mundo.

Mas agora tenho que voltar a prestar atenção no que o professor está dizendo.

Nos Labirintos da Psiquê

um olhar psicológico

“Há muito tempo atrás, no Reino Subterrâneo, onde não há mentiras ou dor, viveu uma princesa que sonhava com o mundo humano. Ela sonhava com o céu azul, a brisa suave e o brilho do sol.Um dia, burlando toda a vigilância, a princesa escapou.

Uma vez do lado de fora, o sol brilhante a cegou e apagou sua memória. Ela esqueceu quem ela era e de onde havia vindo. Seu corpo sofria de frio, doença e dor. E ela acabou morrendo.

Entretanto seu pai, o Rei, sempre soube que a alma da princesa retornaria, talvez em outro corpo, em outro lugar, em outra época. E ele esperaria por ela, até seu último suspiro, até que o mundo parasse de girar.”

O Labirinto do Fauno é um filme triste, sombrio e belo, que caminha a passo vacilante entre o desespero de uma realidade insuportável e a esperança traga pela fantasia; entre o objetivo e o subjetivo, entre o consciente e o inconsciente. Essa dicotomia é a principal característica do filme.
É uma trama  fantástica, seja lá qual for o seu ponto de vista. Eu escolhi o da psicologia junguiana.Desse modo, toda a história deve ser encarada com múltiplos simbolismos, como se fosse a metáfora da aventura de uma única mente, os personagens representando nossas funções psíquicas.
Ele começa assim:
No ano de 1944, a Europa esfacelava-se sob os escombros fumegantes da Segunda Guerra Mundial. Às raias do Dia D, a Guerra Civil Espanhola está oficialmente terminada, mas pelo país ainda havia focos de conflitos entre republicanos e fascistas.Apesar de a guerra ser tratada em segundo plano sob o ponto de vista que usarei a seguir para contar a história, é importante ressaltar que ela é o fator principal que incita todo o enredo. A guerra deve ser encarada como um conceito genérico, um embate entre as forças do consciente e do inconsciente, que Ofélia terá a missão de mediar e resolver.

A garota de dez anos, corajosa e apaixonada por livros, simboliza a anima. Ela viaja com sua mãe Carmem (uma mulher grávida e muito doente), através de uma área rural da Espanha.

Ofélia não consegue se sentir a vontade com a idéia de ir morar com seu recente padrasto, o Capitão Vidal, que se encontra instalado em uma mansão no meio da floresta.

vidal
Antes de chegarem à propriedade, ainda na estrada, Ofélia tem um encontro com um inseto diferente, um “elemento da terra” por assim dizer, e o primeiro indício de que ela se relacionará com forças subterrâneas, isto é, do inconsciente.Ao chegarem a casa elas são recebidas pelo Capitão, que as espera do lado de fora. Tem-se, nesse primeiro momento, em minha opinião, uma das cenas mais fascinantes do filme.

Descendo do carro, Ofélia estende a mão esquerda para cumprimentá-lo, enquanto que com a direita segura seus livros. Na psicologia junguiana, principalmente quando se trata de interpretação de sonhos, o lado esquerdo é comumente ligado ao inconsciente, enquanto que o direito é relacionado ao consciente.

Representando a “mensageira” através da qual o inconsciente fala, Ofélia estende a mão esquerda para o Capitão (Ego). Deste modo, ela faz um apelo a ele para que ouça o que ela tem a dizer. Os livros de contos de fada no braço direito só vêm reforçar essa vontade (essa necessidade) de trazer ao consciente elementos do mundo Irracional.

o-homem-e-seus-simbolos

Ano passado encontrei na biblioteca da faculdade um livro de Jung chamado O Homem e Seus Símbolos, certamente um dos livros mais extraordinários que já li. Eu o consultei para escrever esse texto e, na página 162, Jung nos ensina que o Ego (simbolizando na figura do Capitão) deve ser capaz de “se desembaraçar de todo projeto determinado e ambicioso em benefício de uma existência mais profunda, mais fundamental. O ego deve ser capaz de ouvir e de entregar-se, sem qualquer outro propósito ou objetivo, ao impulso interior de crescimento.”Mas sabemos que não é o que ocorre em nossa história. O Capitão Vidal, devido à sua arrogância egocêntrica (com trocadilho) procura respostas apenas no mundo consciente para a resolução de seus conflitos. Quando Ofélia tenta cumprimentá-lo com sua maneira característica, ele agarra sua mão e afirma que é “a mão errada.” Por isso não restará a ela outra opção que não a de abandoná-lo em sua própria jornada, o que acabará resultando, do mesmo modo, em uma transformação para ambos os mundos.

Quando se prepara para dormir com sua mãe, têm-se um diálogo interessante entre as duas personagens. Ofélia assusta-se com os barulhos da casa, mas Carmem tenta explicar-lhe que “na cidade ouve-se o barulho de carros, mas aqui as casas são velhas, elas rangem. Quase como se estivessem falando.”

Eis aí uma bela metáfora do que é uma empreitada rumo ao conhecimento de si mesmo. É preciso desligar-se do mundo externo, do barulho dos carros, e voltar-se para a solidão de si mesmo, no silêncio da noite, e ouvir.

Em sua primeira noite ali, Ofélia recebe a visita do inseto que encontrou mais cedo na estrada. No escuro do quarto, e sem conseguir acordar sua mãe, ela sente medo, mas logo se acalma, pois pode sentir em seu interior que compartilha a mesma natureza que ele. Abrindo um de seus livros que se encontrava à cabeceira, ela encontra o desenho de uma fada, e dá-lhe a entender que provavelmente era aquela a imagem que ele deveria ter.

Ofélia esqueceu-se de sua origem, por isso julga-se pertencente ao mundo consciente. Com o inseto transformado em fada, o consciente fica mais a vontade em se comunicar com o mundo subterrâneo, já que é bem mais aceito aquilo que é por nós conhecido, ou que, pelo menos, nos atraia a simpatia.

O inseto (agora transformado em uma pequena, mas ainda não muito simpática fada) leva Ofélia para fora da mansão, no meio da madrugada, até um labirinto antiqüíssimo.

A correlação do labirinto com as “volutas da mente” está tão explícita que, pra falar a verdade, eu quase me esqueci de colocar aqui. Representam os caminhos tortuosos, difíceis e muitas vezes incompreendidos da psique inconsciente.

Com caminhos concêntricos (um forma sempre ligada à totalidade psíquica), ele tem no centro uma câmara subterrânea, onde se desce por uma escada de pedra até uma sala circular, no centro da qual há um totem.

É neste lugar que Ofélia encontra o Fauno.

O Fauno é uma figura horripilante, sombria, que desperta medo. Seus olhos de lince jogam nossa imaginação para a selvagem África. Os chifres de bode e os cabelos esverdeados fazem-nos pensar no diabo em pessoa. Mas, ao mesmo tempo, é uma criatura envolvente, principalmente por sua maneira poética de falar. E sentimos piedade por sua aparência decadente, principalmente porque ela nos soa romântica.

Não leva muito tempo para que nossa posição perante ele se torne ambígua: não nos sentimos tão seguros a ponto de confiar nele, nem tão horripilados a ponto de torná-lo totalmente inumano.

Reúne, sem dificuldades, todas as características da Sombra, sobre a qual Jung nos fala. “A função da Sombra é representar o lado contrário ao Ego e encarnar, precisamente, os traços que mais detestamos nos outros.(…) Algumas vezes a Sombra é assim poderosa porque o Self (na nossa história, o Rei) indica uma orientação idêntica; portanto não sabemos se é o Self ou a Sombra que nos pressionam.”

O Fauno, após implorar a Ofélia que não tenha medo, lhe diz que ela é uma rainha, a rainha Moanna pela qual seu pai, o Rei, tem procurado desde seu desaparecimento.

Mas, para certificarem-se de que sua essência permanece intacta, ela deve cumprir três tarefas antes da lua cheia.

Na mitologia clássica, os trabalhos (como os de Hércules) são etapas para a transcendência; ou seja, degraus que Ofélia deve galgar para provar a pureza e a natureza de sua alma.

Quanto ao número três, muito presente em todo o filme, sua existência (e insistência) parece nos remeter a um simbolismo supranatural, como se quisesse nos lembrar a todo instante da aura divina que envolve Ofélia.

O número três, ou o triângulo, representa bem o conceito ocidental de divindade, isto é, a natureza tríplice de Deus. A síntese espiritual, as três esferas concêntricas do Universo: natural, humano e divino.

O Fauno entrega a Ofélia um livro mágico, O Livro das Encruzilhadas, de páginas totalmente em branco, mas que lhe dirá o que fazer no momento apropriado.

Naquela noite, na mansão, todos se preparam para um jantar, e Ofélia ganha sapatos novos e um lindo vestido. Antes do banho, quando está sozinha, ela abre o livro e o lê.

no-banho

Ele lhe revela isto:

“Era uma vez, quando a floresta era jovem; era o lar de criaturas que eram mágicas e maravilhosas.”

“Ela protegiam umas as outras, e dormiam à sombra de um enorme pé de figo que cresceu numa colina, próximo ao moinho.”

“Mas agora, a árvore está morrendo. Seus galhos estão secos, seu tronco velho e retorcido. Um sapo monstruoso se acomodou em suas raízes, e não deixa a árvore se desenvolver.”

“Você precisa colocar as três pedras mágicas na boca do sapo e recuperar a chave dourada de dentro de sua barriga. Só então a árvore irá florescer novamente.”

Pouco antes do jantar, Ofélia segue até a figueira, entra por uma abertura no tronco e encontra um sapo gigantesco no subsolo.

Mais uma vez recorro a Jung, e descubro que o primeiro contato com os elementos do inconsciente trazem profundo desagrado à personalidade, como é o caso do sapo que Ofélia deve enfrentar. Devemos encarar as sombras que se aproximam, e descobrir o que elas dizem sobre nós. “A harmonização do consciente com o nosso próprio centro interior ou self, em geral começa infligindo uma lesão à personalidade, acompanhada de conseqüente sofrimento. (…). Muitos mitos e contos de fadas descrevem simbolicamente este estágio inicial do processo de individuação, quando contam histórias de um rei que caiu gravemente doente ou envelheceu (no nosso caso, a figueira doente) (…). Observamos nos mitos que a magia ou talismã capaz de curar a desgraça é sempre algo peculiar. (…). Acontece o mesmo na crise inicial que marca a vida de um indivíduo. Procura-se algo difícil de achar ou a respeito do qual nada se sabe. (…). Só há uma atitude que parece alcançar algum resultado: voltar-se para as trevas que se aproximam, sem nenhum preconceito e com a maior singeleza, e tentar descobrir qual seu objetivo secreto e o que vêm solicitar do indivíduo.”

Ofélia consegue matar o sapo e recuperar a chave dourada, mas seu vestido novo e os sapatos ficam destruídos de lama e sujeira. Assim, ela perde o jantar do capitão. Este quase não se dá por sua ausência, mas Carmem, sua mãe, fica muito decepcionada.

Isso demonstra que para cada ação ou escolha em favor do inconsciente, paga-se um preço ao consciente. Devemos saber escolher e lidar com as conseqüências de nossa escolha.

O lado consciente de nossa história, liderado pelo Capitão Vidal, igualmente sofre como conseqüência de sua soberba. Os Soldados Vermelhos cercam a mansão transformada em base militar e lançam ataques cada vez mais potentes.

Mas Ofélia está sozinha.

De volta ao labirinto, ela recebe do Fauno instruções para que fique com a chave dourada, pois precisará dela em sua próxima tarefa. Ele lhe dá ainda um giz mágico, e pede que ela consulte o livro.

Entretanto, uma ameaça de aborto de Carmem tumultua a casa e atrapalha os planos da garota. Sob ordens do médico, ela passa a dormir em outro quarto, onde recebe a visita do Fauno durante a noite.

fauno2

Ele lhe mostra algo que pode ajudar na saúde de sua mãe:

“Veja… Esta é uma raiz de Mandrácula, uma planta que sonhava em ser humana. Coloque-a debaixo da cama de sua mãe em um vaso com leite fresco. Toda manhã, dê-le duas gotas de sangue”.

Na Grécia e Roma antigas acreditava-se que o leite era um alimento capaz de apaziguar os deuses do mundo subterrâneo. Além disso; e tem-se aqui um detalhe interessante, leite com mel se constituía na comida para os renascidos nos primeiros batismos católicos. Ora, essa mistura é justamente o que Carmem oferece à filha em determinada parte do filme. Estaria ela preparando Ofélia para um ritual de renascimento?

O sangue que ela deve dar à criatura em gotas diárias representa a parte emocional da alma humana, pois possui um vínculo ligado ao afeto. É um símbolo poderoso da essência da vida, a seiva que a feiosa Mandrácula deve beber para que seu coração torne-se humano.

Logo após ter acalmado Ofélia quanto à saúde de sua mãe, o Fauno insiste que ela prossiga com a segunda tarefa, alertando-a para os cuidados que a missão exige.

“Leve meus bichinhos com você, para guiá-la.

Você está indo para um lugar muito perigoso, então tenha cuidado. O ser que lá habita não é humano.

Você verá um suntuoso banquete, mas não coma nem beba nada. Absolutamente nada! Pois sua vida depende disso.”

O Fauno lhe entrega uma ampulheta e parte. Ofélia consulta o livro e recebe as instruções:

“Use o giz para fazer o contorno de uma porta em qualquer parte do seu quarto.

Uma vez aberta a porta, iniciar o relógio de areia.

Deixe as fadas te guiarem.

Não coma nem beba nada durante a sua permanência e volte antes que o último grão de areia caia.”

Riscando o contorno de uma pequena porta na parede de seu quarto, Ofélia abre o portal para o mundo subterrâneo.

no-corredor

Entra por um corredor comprido, cheio de colunas, que termina em uma sala arredondada, onde há uma farta mesa e uma lareira. As paredes são avermelhadas, e o teto baixo dá uma sensação de claustrofobia.

Na cabeceira da mesa Ofélia encontra o Homem-Pálido, um ser tão horrendo que faz o Fauno parecer bonito.

Ele está imóvel em seu assento, as mãos postas sobre a mesa e tendo diante de si um pires com dois globos oculares, certamente os seus.

Como seu tempo de permanência ali está subordinado à velocidade da ampulheta, as três fadas apressam Ofélia, levando-a até uma das paredes, onde três pequenas portinholas estão incrustadas.

Uma das fadas sugere à nossa heroína que abra a do meio, mas Ofélia, fiel às intuições de sua natureza inconsciente, escolhe a porta da esquerda e a abre usando a chave dourada. De dentro do nicho ela retira um belo e afiado punhal.

Mas ela comete um erro. Antes de deixar a sala, não resiste à tentação e come duas uvas. O monstro desperta de seu estado de latência e a ataca. Sua aparência já sinistra evolui para uma natureza ainda mais bizarra. Seus olhos, que ele colheu do pires, ficam nas palmas das mãos, as quais ele ergue, bem abertas, acima da cabeça.

Por muito pouco Ofélia consegue escapar, mas no meio da confusão duas fadas acabam devoradas.

A desobediência de Ofélia às ordens do Mundo Subterrâneo trará conseqüências devastadoras.

O Fauno se enfurece com ela, dizendo que suas relações estão cortadas para sempre. Em minha opinião, esta é a melhor cena do filme.

Ofélia é então jogada no mundo consciente, dominado por um ego autoritário e meio psicótico. Um mundo à beira da destruição completa, pois os ataques dos Vermelhos tornam-se cada dia mais violentos.

A Mandrácula, que no pouco tempo que ficou debaixo da cama de sua mãe deu resultados favoráveis à saúde desta, aparece morta numa manhã, ao mesmo instante em que é descoberta pelo Capitão. Ofélia tem uma violenta discussão com sua mãe, que joga a raiz na lareira e, por conseguinte, tem sua ameaça mais violenta de aborto. Pouco depois ela dá a luz a um garoto, mas não resiste ao parto.

A menina, desesperada, tenta fugir com a empregada Mercedes, mas ambas são capturadas na floresta.

Numa noite, talvez por se comover com o desespero de Ofélia ou, afinal, porque o equilíbrio de seu próprio mundo depende dessa ligação, o Fauno decide dar a ela uma última chance. Uma cena linda é quando Ofélia o abraça.

Ele dá a Ofélia uma última missão, que parece ser a mais simples: levar seu irmão recém-nascido até o labirinto.

Naquela noite derradeira, o Capitão Vidal percorre um mundo que se incendeia ao seu redor, num clímax enlouquecedor. Parcialmente destruído, sua morte torna-se uma certeza para nós.

Em algum lugar, um radinho dá os resultados da loteria: 3-3-3-0-7. No auge do filme, vemos aparecer, como que numa visão sobrenatural, três vezes o número três, cujo significado já nos é conhecido, e por fim o número 7, de simbolismo parecido. Sete é o número do mistério, do sagrado, símbolo da totalidade, do ciclo completo. Apesar de poder aparecer com sentidos contrários, sua expressão é sempre de abundância, de totalidade e plenitude.

Antes do fim, Vidal flagra Ofélia fugindo com o bebê, e a persegue até o labirinto. Entretanto, ajudada por forças do mundo subterrâneo, ela ganha certa vantagem e o Capitão perde-se momentaneamente pelos corredores.

No centro do labirinto, iluminado pela lua cheia, o Fauno resplandece em todo o seu mistério.

Ofélia aproxima-se com seu irmão e junto com ela, fazemos uma observação capaz de gelar os ossos. O Fauno segura o punhal que ela havia capturado do Homem-Pálido. Nesse momento toda a nossa desconfiança com o Fauno, que havia afrouxado ao longo do filme, retorna violentamente, trazendo consigo a sensação amarga de que fomos enganados. O Fauno matará o bebê!

Ele explica a Ofélia que para que ela retorne ao Mundo Subterrâneo, é preciso que se derrame o sangue de um inocente, mas apenas um pouco, que não chegará a prejudicar a criança.

Horrorizada, Ofélia se nega a entregá-lo o irmão.

Pela segunda vez em nossa história o Fauno se enfurece com ela, dizendo que, se for assim, ela deve arcar com as conseqüências de sua escolha. Ofélia, chorando (mais por decepção que por tristeza ou desespero) grita a ele que assim seja, ela desistirá de todo o Reino para salvar o irmão.

O Capitão surge no centro do labirinto, e nossa expectativa é como será seu encontro com o Fauno. Mas devido sua arrogância ele não consegue vê-lo.

Ele toma o menino dos braços de Ofélia e deixa o labirinto. Morrerá assassinado instantes depois, mas antes disso, porém, ele condena Ofélia, acertando-lhe um tiro.

Olhando o sangue através da luz da lua, Ofélia tomba sem forças, entregando-se ao seu destino. Seu sangue é derramado em sacrifício.

Assim, ela renasce no Mundo Subterrâneo, diante de três altíssimos tronos, um deles reservado para ela, ou outros dois ocupados por sua mãe e por seu pai, o Rei. Quando este fala, dizendo que ela cumpriu bem sua última missão, que era a de dar a vida por um inocente, vemos atrás de sua figura um vitral redondo, por onde entra a luz do sol, um símbolo inequívoco da totalidade psíquica, ou self.

O Fauno surge nesse mundo dourado, feio e cinzento. Percebemos que sua semelhança com o diabo não é fora de propósito, pois, como nos diz o grande Jung,  existe uma “tendência em unir à forma trina da divindade um quarto elemento, que tende a ser sombrio, efeminado e maléfico”. A própria origem da figura do diabo em nossa cultura.

Ele diz a Ofélia que ela escolheu bem.

Qualquer semelhança com o destino de Ofélia e o sacrifício de Cristo também não é mera coincidência. Num filme tão denso de simbolismos, não é de se admirar que ele termine com um dos símbolos mais poderosos que a humanidade conhece. O arquétipo do herói que é devorado por um monstro terrível e renasce tempos depois está presente em muitas histórias (um exemplo é de Jonas e a Baleia), e vem nos confirmar de maneira definitiva sobre a natureza divina de Ofélia.

Seu jovem irmão, que continuará no mundo “pós-guerra”, simboliza uma nova consciência diante do mundo.

“E foi dito que a princesa retornou ao reino de seu pai. E que ela reinou com justiça e bondade por muitos séculos. Que ela foi amada por seus súditos. E que ela deixou para trás pequenos traços de sua passagem na terra, visíveis apenas para aqueles que sabem onde olhar.”

Como bem disse H. G. Wells no fechamento de A Máquina do Tempo, “nada resta fazer se não admirar-se.”

Sim, admirar-se e indagar: Quantos de nós nos tornamos Capitães fascistas, orgulhosos demais para enxergamos o Fauno no centro do Labirinto?

“O homem sente-se isolado no cosmos porque, já não estando envolvido com a natureza, perde sua “identificação emocional inconsciente” com os fenômenos naturais. E os fenômenos naturais perderam suas implicações simbólicas. Pedras, plantas ou animais já não têm vozes para falar ao homem e o homem não se dirige mais a eles. Acabou-se o contato com a natureza, e com ele foi-se também a profunda energia emocional que esta conexão alimentava. Esta enorme perda é compensada pelos símbolos dos nossos sonhos. Eles nos revelam nossa natureza original com seus instintos e sua maneira peculiar de raciocínio. (…) De maneira lenta mas que nos parece fatal, atraímos o desastre. Já não existem deuses cuja ajuda possamos invocar. As grandes religiões padecem de uma crescente anemia, porque as divindades prestimosas já fugiram dos bosques, dos rios, das montanhas e dos animais e os homens-deuses desapareceram no mais profundo de nosso inconsciente (…). Nossas vidas são dominadas por uma deusa, a Razão, que é nossa ilusão maior e mais trágica”

O Elo Cósmico

Numa tarde de dezembro alguns anos atrás eu entrava num ônibus de rua, a caminho de uma prova de vestibular, na Universidade Federal de Juiz de Fora. Enquanto o ônibus subia cheio de estudantes ansiosos, eu observei através da janela, uma placa em meio as árvores de São Pedro, com a frase: “Nas cidades está o abrigo dos homens e nas florestas a essência da vida.” Horas mais tarde me lembrei disso de repente e anotei numa folha de rascunho. Desde então tenho pensado nela. Achei bonita.

A lua minguante ainda estava bem alta no céu quando me levantei na madrugada de terça-feira em minhas férias de julhode 2007. Os cães latiam nas casas enquanto eu passava, incomodados com o mochileiro solitário no meio da noite. A essa altura, enquanto eu seguia num frio de rachar até a casa de meus tios, já me perguntava (sem querer admitir a mim mesmo) se havia sido mesmo uma boa idéia essa de passar uma semana com eles lá na roça, enfurnado num fim de mundo lá pros lados de Andrelândia.

Dessa vez eu não levava potes para besouros, redes para capturar mariposas ou caderno de anotações. A bem da verdade eu não levava nada. Nem CDs, nem DVDs, nem relógio e muito menos celular. Lá não tem nem TV, um radinho a pilha de meu tio nos diverte à noite num beirada quente de fogão à lenha, enquanto sintoniza três estações ao mesmo tempo. Fui completamente nu pra uma região inóspita, onde a energia elétrica chegou há três meses. O único mimo que levei da civilização foi meu inseparável livro A Montanha Mágica (pra quem não leu a obra-prima de Thomas Mann, faça um favor a si mesmo de não morrer antes de pelo menos tentar empreender tal tarefa).


Pois então, eu tinha visto muito LOST (faltavam três episódios pra terminar a terceira temporada quando parti) e influenciado por
meu personagem favorito daquela ilha, o insondável Locke, eu queria também ter minha própria jornada espiritual, e sabia ( e sentia) que para isso eu teria que me despojar de tudo o que me rodeava, mostrar-me nu ao mundo e ver o que ele revelava de mim. E acho que funcionou
.

Na tarde do mesmo dia eu subi um morro até uma jovem plantação de pêssegos, e a visão que eu tive de lá foi esplendorosa. A vegetação era parecida com trigo, batendo na altura das canelas, com um dente de leão erguendo-se mais alto de vez em quando. O solo é arenoso, de modo que se você andar olhando para o chão parece que está numa praia.

Na parte mais alta do morro você não consegue ver por onde subiu. É exatamente como se você estivesse no cume de uma montanha, e não conseguisse enxergar mais que um raio duzentos metros ao seu redor. Depois da vegetação rasteira há uma quebra bizarra e sua vista vai bem mais longe, deitando sobre cadeias e mais cadeias de morros, até terminar num tênue contorno azulado bem lá longe. Parece que você está voando.

Sozinho nesse topo de mundo, tão diferente de tudo quanto eu estava acostumado, não resisti ao ímpeto de me render a um clichê velho, mas antigo que “Titanic”, e abri os braços e fechei os olhos, colocando-me contra o vento forte lá de cima.

Esse vento vivificante do campo, essas moléculas puras que vinham de longe, atravessando montanhas, trazendo em seu seio átomos de flores, animais, rochas e céu. Essa enxurrada vitalizante, que entrava por minha traquéia e me fazia respirar, que me fazia sentir vivo.

Nesses momentos, nesses raros momentos em que você, tal como uma criança, larga mão de seguir regras básicas de comportamento e higiene é que você se sente parte integrante da natureza. Um sentimento de totalidade com o Universo, de respeito perante o mundo, que eu jamais senti em qualquer culto religioso.


Totalmente só, eu andei vários quilômetros por estradas desertas. Andar sem destino é uma das coisas que mais gosto de fazer. E eu sentia meu cabelo grudando de sujeira, as unhas sujas de terra, a poeira que se empastava no suor do corpo… Enfim, tudo isso faz com que eu me sentisse não diminuído perante as forças da natureza, mas sim parte verdadeira e integrante dela. Eu sou feito de matéria! É uma espécie de retorno ao primevo, em que você se torna menos intelectivo e mais material. Você é a natureza.

Andamos tão falidos espiritualmente que perdemos a capacidade de nos enxergar como seres vivos desse planeta. Numa das noites em que estava lá, e me preparava para dormir, tirei um carrapato do meu joelho. Algumas pessoas poderiam se sentir repugnadas só de pensar numa coisa dessas, e eu próprio não fiz isso com muito prazer, mas tive que rir de mim mesmo quando me flagrei pensando: “Santo Deus, então há mesmo sangue correndo em minhas veias?!”


Quem vive na cidade grande tem ao redor de si a possibilidade de um mundo quase infinito de conhecimento. Mas quando se trata de autoconhecimento nos vemos perdidos no meio de um deserto inócuo, opressivo e infrutífero. No meio da cidade grande nos dissolvemos no meio da coletividade, somos parte de uma cifra, uma parte mísera vagueando como gado no meio de um rebanho imenso. Não é difícil se sentir totalmente insignificante. Nesse Admirável Mundo Novo nós somos reduzidos a números: RG, CPF, matrículas e horários. Sinto certa náusea só de pensar no ser humano classificado assim.

Porque quando você foge da cidade, tudo isso perde o sentido, torna-se ridículo mesmo. Então você se descobre.

Não estou fazendo um saudosismo à pré-história (se é que isso é possível), nem sugerindo que se destrua a civilização e vivamos como nômades no meio dos escombros, como sugerem os integrantes do Clube da Luta. Estou humildemente atentando para o fato de que estamos nos distanciando e até mesmo mascarando certos aspectos de nossa natureza. Muitas das emoções de hoje são simples caricaturas do que foram um dia. Talvez por isso outras tenham ganhado tanto corpo, como é o caso do amor e de nossa cada vez menos aceitação da morte. Eu vou dar dois exemplos:

Uma coisa é o desespero de afundar numa prova de matemática. Outra coisa muito diferente é o desespero de despencar pasto abaixo numa corrida louca e desenfreada de uma boiada de quinze cabeças, como eu tive a oportunidade de vivenciar. O ser humano, é inútil ressaltar, não está acostumado ao papel de caça, mas quando o faz aproxima-se uma fração de seus longínquos ancestrais africanos que disparavam savana afora de leões antropofágicos.

Uma coisa é a tensão que se tem pela espera de uma prova de fim de período, outra muito diferente é aquela de se andar no meio da noite, lanternas na mão, pelo meio do pasto em uma região infestada por cascavéis e lobos e tendo como companhia uma horda barulhenta e desorganizada de amigos e parentes em estados variados de embriaguez.


O medo de ser perseguido ou caçado no meio da mata é um medo palpável, quente, que você sente perfeitamente se irradiando pelo corpo. É o irracional que toma conta, a Fera…

Olhar o ser humano dessa forma… Será que eu pretendo reduzi-lo ao nível da biologia pura? Certamente que não. O ser humano é bem mais que isso e agora vem a parte interessante.


Na escada da fazenda eu descascava uma laranja, enquanto a cadela Susy me olhava de perto, deitada nos degraus ao meu lado.
A luz morna daquele sol de fim de tarde batia bem dentro dos
olhos dela e por alguns segundos eu os olhei bem de perto. Eles transmitiam uma calma imensa, mas principalmente uma coisa que eu descobri meio de surpresa, inocência. Diante disso comecei a imaginar o que de fato nos diferencia deles.

Talvez por um erro genético, talvez por um destino maior, o fato é que há milhões de anos a natureza nos criou. E, além disso, trabalhou em nós a coisa mais sofisticada do universo conhecido, a tecnologia de ponta do mundo vivo, uma coisinha high tech chamada Consciência.

Por outro lado, a consciência é uma coisa tão nova na natureza que é ainda muito frágil, e prova disso são as filas que se amontoam cada vez mais nos consultórios de psicologia ou psicanálise. A Fera dentro de nós às vezes toma conta e quando isso acontece não sabemos bem ao certo como agir. Ocorre por vezes a dissociação psíquica, uma catástrofe tão avassaladora que Jung gostava de representá-la como uma explosão atômica.


Claro que a consciência não é uma coisa simples e tampouco está localizada em uma área
particular do cérebro, como imaginava Descartes e seus discípulos, mas para sermos simplistas, poderíamos colocar a coisa do seguinte modo: A única coisa que nos diferencia dos animais é uma camada que envolve o cérebro chamada córtex cerebral. Todo empreendimento humano, as artes, a arquitetura, enfim, a Civilização inteira repousa sobre essa porção quente e lamacenta de massa cinzenta. Vou citar aqui um trecho do livro Cosmos, de CARL SAGAN, porque certamente ele escreve melhor que eu:

Como todos os nossos órgãos, o cérebro evoluiu, aumentando em complexidade e conteúdo de informação, por milhões de anos. Sua estrutura reflete todos os estágios pelos quais passou. O cérebro evoluiu de dentro para fora. No fundo da parte mais interior está a parte mais antiga, o tronco cerebral, que conduz as funções biológicas básicas, incluindo os ritmos da vida – batimento cardíaco e respiração. (…) Cobrindo o tronco cerebral está o complexo-R – a sede da agressão, ritual, territorialidade e hierarquia social, que evoluiu há centenas de milhões de anos em nossos ancestrais reptilianos. Bem dentro do crânio de cada um de nós há algo semelhante ao cérebro de um crocodilo. Circundando o complexo-R está o sistema límbico do cérebro mamífero, que evoluiu há dezenas de milhões de anos em nossos ancestrais que eram mamíferos, mas ainda não primatas.É a principal fonte de nossas emoções e humores, de nossos interesses e cuidados com os jovens. E finalmente, do lado externo, vivendo em uma trégua agitada com o cérebro inferior mais primitivo está o córtex cerebral, que evoluiu há milhões de anos em nossos ancestrais primatas. O córtex cerebral, onde a matéria é transformada em consciência, é o ponto de embarque de todas as nossas viagens cósmicas. Compreendendo mais de dois terços da massa cerebral, é o reino da intuição e da análise crítica. É aqui que temos idéias e inspirações, aqui que lemos e escrevemos, aqui fazemos a matemática e compomos músicia. O córtex regula nossa vida consciente. É a distinção da nossa espécie, a sede da nossa humanidade. A civilização é um produto do córtex cerebral.” (p. 277).

Portanto é fácil perceber que somos uma espécie à parte, bem diferente do resto dos seres vivos. No entanto todo o restante do cérebro é herança de nossos antepassados, como uma biblioteca do tempo, e estamos fatalmente ligados a eles. Mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes, organismos unicelulares. Não há como escapar a essa relação. Um homem e um carvalho podem ser considerados parentes próximos, dependendo do ponto de vista. Isso sem falar na matéria da qual somos constituídos,as moléculas e átomos, presentes tanto na natureza viva quanto na inanimada.

Portanto é nisso que reside nossa benção e maldição: a duplicidade do ser humano. Somos divinos, mas também somos mortais.

Nos tornamos uma parte iluminada da natureza, talvez um salto tão gigantesco quando a passagem da natureza bruta para a viva. Então não é apenas o homem que pensa sobre si mesmo. Cada vez que um astrônomo aponta seu telescópio para o céu, cada vez que um biólogo olha através da lente de um microscópio, é a natureza estudando e maravilhando-se consigo mesma. É o Cosmos criando autoconhecimento e voltando-se para o estudo de seu EU. Para parafrasear o extraordinário Mynheer Peeperkorn na colônia da montanha mágica, “o homem é apenas o órgão por meio do qual Deus realiza seu enlace com a vida despertada e ébria…”

Essa dicotomia é um dos pilares fundamentais daquilo que nos torna humanos. O bem e o mal, a fé a descrença, a luz e a sombra. Uma semana no campo me ensinou isso.