Nos Labirintos da Psiquê

um olhar psicológico

“Há muito tempo atrás, no Reino Subterrâneo, onde não há mentiras ou dor, viveu uma princesa que sonhava com o mundo humano. Ela sonhava com o céu azul, a brisa suave e o brilho do sol.Um dia, burlando toda a vigilância, a princesa escapou.

Uma vez do lado de fora, o sol brilhante a cegou e apagou sua memória. Ela esqueceu quem ela era e de onde havia vindo. Seu corpo sofria de frio, doença e dor. E ela acabou morrendo.

Entretanto seu pai, o Rei, sempre soube que a alma da princesa retornaria, talvez em outro corpo, em outro lugar, em outra época. E ele esperaria por ela, até seu último suspiro, até que o mundo parasse de girar.”

O Labirinto do Fauno é um filme triste, sombrio e belo, que caminha a passo vacilante entre o desespero de uma realidade insuportável e a esperança traga pela fantasia; entre o objetivo e o subjetivo, entre o consciente e o inconsciente. Essa dicotomia é a principal característica do filme.
É uma trama  fantástica, seja lá qual for o seu ponto de vista. Eu escolhi o da psicologia junguiana.Desse modo, toda a história deve ser encarada com múltiplos simbolismos, como se fosse a metáfora da aventura de uma única mente, os personagens representando nossas funções psíquicas.
Ele começa assim:
No ano de 1944, a Europa esfacelava-se sob os escombros fumegantes da Segunda Guerra Mundial. Às raias do Dia D, a Guerra Civil Espanhola está oficialmente terminada, mas pelo país ainda havia focos de conflitos entre republicanos e fascistas.Apesar de a guerra ser tratada em segundo plano sob o ponto de vista que usarei a seguir para contar a história, é importante ressaltar que ela é o fator principal que incita todo o enredo. A guerra deve ser encarada como um conceito genérico, um embate entre as forças do consciente e do inconsciente, que Ofélia terá a missão de mediar e resolver.

A garota de dez anos, corajosa e apaixonada por livros, simboliza a anima. Ela viaja com sua mãe Carmem (uma mulher grávida e muito doente), através de uma área rural da Espanha.

Ofélia não consegue se sentir a vontade com a idéia de ir morar com seu recente padrasto, o Capitão Vidal, que se encontra instalado em uma mansão no meio da floresta.

vidal
Antes de chegarem à propriedade, ainda na estrada, Ofélia tem um encontro com um inseto diferente, um “elemento da terra” por assim dizer, e o primeiro indício de que ela se relacionará com forças subterrâneas, isto é, do inconsciente.Ao chegarem a casa elas são recebidas pelo Capitão, que as espera do lado de fora. Tem-se, nesse primeiro momento, em minha opinião, uma das cenas mais fascinantes do filme.

Descendo do carro, Ofélia estende a mão esquerda para cumprimentá-lo, enquanto que com a direita segura seus livros. Na psicologia junguiana, principalmente quando se trata de interpretação de sonhos, o lado esquerdo é comumente ligado ao inconsciente, enquanto que o direito é relacionado ao consciente.

Representando a “mensageira” através da qual o inconsciente fala, Ofélia estende a mão esquerda para o Capitão (Ego). Deste modo, ela faz um apelo a ele para que ouça o que ela tem a dizer. Os livros de contos de fada no braço direito só vêm reforçar essa vontade (essa necessidade) de trazer ao consciente elementos do mundo Irracional.

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Ano passado encontrei na biblioteca da faculdade um livro de Jung chamado O Homem e Seus Símbolos, certamente um dos livros mais extraordinários que já li. Eu o consultei para escrever esse texto e, na página 162, Jung nos ensina que o Ego (simbolizando na figura do Capitão) deve ser capaz de “se desembaraçar de todo projeto determinado e ambicioso em benefício de uma existência mais profunda, mais fundamental. O ego deve ser capaz de ouvir e de entregar-se, sem qualquer outro propósito ou objetivo, ao impulso interior de crescimento.”Mas sabemos que não é o que ocorre em nossa história. O Capitão Vidal, devido à sua arrogância egocêntrica (com trocadilho) procura respostas apenas no mundo consciente para a resolução de seus conflitos. Quando Ofélia tenta cumprimentá-lo com sua maneira característica, ele agarra sua mão e afirma que é “a mão errada.” Por isso não restará a ela outra opção que não a de abandoná-lo em sua própria jornada, o que acabará resultando, do mesmo modo, em uma transformação para ambos os mundos.

Quando se prepara para dormir com sua mãe, têm-se um diálogo interessante entre as duas personagens. Ofélia assusta-se com os barulhos da casa, mas Carmem tenta explicar-lhe que “na cidade ouve-se o barulho de carros, mas aqui as casas são velhas, elas rangem. Quase como se estivessem falando.”

Eis aí uma bela metáfora do que é uma empreitada rumo ao conhecimento de si mesmo. É preciso desligar-se do mundo externo, do barulho dos carros, e voltar-se para a solidão de si mesmo, no silêncio da noite, e ouvir.

Em sua primeira noite ali, Ofélia recebe a visita do inseto que encontrou mais cedo na estrada. No escuro do quarto, e sem conseguir acordar sua mãe, ela sente medo, mas logo se acalma, pois pode sentir em seu interior que compartilha a mesma natureza que ele. Abrindo um de seus livros que se encontrava à cabeceira, ela encontra o desenho de uma fada, e dá-lhe a entender que provavelmente era aquela a imagem que ele deveria ter.

Ofélia esqueceu-se de sua origem, por isso julga-se pertencente ao mundo consciente. Com o inseto transformado em fada, o consciente fica mais a vontade em se comunicar com o mundo subterrâneo, já que é bem mais aceito aquilo que é por nós conhecido, ou que, pelo menos, nos atraia a simpatia.

O inseto (agora transformado em uma pequena, mas ainda não muito simpática fada) leva Ofélia para fora da mansão, no meio da madrugada, até um labirinto antiqüíssimo.

A correlação do labirinto com as “volutas da mente” está tão explícita que, pra falar a verdade, eu quase me esqueci de colocar aqui. Representam os caminhos tortuosos, difíceis e muitas vezes incompreendidos da psique inconsciente.

Com caminhos concêntricos (um forma sempre ligada à totalidade psíquica), ele tem no centro uma câmara subterrânea, onde se desce por uma escada de pedra até uma sala circular, no centro da qual há um totem.

É neste lugar que Ofélia encontra o Fauno.

O Fauno é uma figura horripilante, sombria, que desperta medo. Seus olhos de lince jogam nossa imaginação para a selvagem África. Os chifres de bode e os cabelos esverdeados fazem-nos pensar no diabo em pessoa. Mas, ao mesmo tempo, é uma criatura envolvente, principalmente por sua maneira poética de falar. E sentimos piedade por sua aparência decadente, principalmente porque ela nos soa romântica.

Não leva muito tempo para que nossa posição perante ele se torne ambígua: não nos sentimos tão seguros a ponto de confiar nele, nem tão horripilados a ponto de torná-lo totalmente inumano.

Reúne, sem dificuldades, todas as características da Sombra, sobre a qual Jung nos fala. “A função da Sombra é representar o lado contrário ao Ego e encarnar, precisamente, os traços que mais detestamos nos outros.(…) Algumas vezes a Sombra é assim poderosa porque o Self (na nossa história, o Rei) indica uma orientação idêntica; portanto não sabemos se é o Self ou a Sombra que nos pressionam.”

O Fauno, após implorar a Ofélia que não tenha medo, lhe diz que ela é uma rainha, a rainha Moanna pela qual seu pai, o Rei, tem procurado desde seu desaparecimento.

Mas, para certificarem-se de que sua essência permanece intacta, ela deve cumprir três tarefas antes da lua cheia.

Na mitologia clássica, os trabalhos (como os de Hércules) são etapas para a transcendência; ou seja, degraus que Ofélia deve galgar para provar a pureza e a natureza de sua alma.

Quanto ao número três, muito presente em todo o filme, sua existência (e insistência) parece nos remeter a um simbolismo supranatural, como se quisesse nos lembrar a todo instante da aura divina que envolve Ofélia.

O número três, ou o triângulo, representa bem o conceito ocidental de divindade, isto é, a natureza tríplice de Deus. A síntese espiritual, as três esferas concêntricas do Universo: natural, humano e divino.

O Fauno entrega a Ofélia um livro mágico, O Livro das Encruzilhadas, de páginas totalmente em branco, mas que lhe dirá o que fazer no momento apropriado.

Naquela noite, na mansão, todos se preparam para um jantar, e Ofélia ganha sapatos novos e um lindo vestido. Antes do banho, quando está sozinha, ela abre o livro e o lê.

no-banho

Ele lhe revela isto:

“Era uma vez, quando a floresta era jovem; era o lar de criaturas que eram mágicas e maravilhosas.”

“Ela protegiam umas as outras, e dormiam à sombra de um enorme pé de figo que cresceu numa colina, próximo ao moinho.”

“Mas agora, a árvore está morrendo. Seus galhos estão secos, seu tronco velho e retorcido. Um sapo monstruoso se acomodou em suas raízes, e não deixa a árvore se desenvolver.”

“Você precisa colocar as três pedras mágicas na boca do sapo e recuperar a chave dourada de dentro de sua barriga. Só então a árvore irá florescer novamente.”

Pouco antes do jantar, Ofélia segue até a figueira, entra por uma abertura no tronco e encontra um sapo gigantesco no subsolo.

Mais uma vez recorro a Jung, e descubro que o primeiro contato com os elementos do inconsciente trazem profundo desagrado à personalidade, como é o caso do sapo que Ofélia deve enfrentar. Devemos encarar as sombras que se aproximam, e descobrir o que elas dizem sobre nós. “A harmonização do consciente com o nosso próprio centro interior ou self, em geral começa infligindo uma lesão à personalidade, acompanhada de conseqüente sofrimento. (…). Muitos mitos e contos de fadas descrevem simbolicamente este estágio inicial do processo de individuação, quando contam histórias de um rei que caiu gravemente doente ou envelheceu (no nosso caso, a figueira doente) (…). Observamos nos mitos que a magia ou talismã capaz de curar a desgraça é sempre algo peculiar. (…). Acontece o mesmo na crise inicial que marca a vida de um indivíduo. Procura-se algo difícil de achar ou a respeito do qual nada se sabe. (…). Só há uma atitude que parece alcançar algum resultado: voltar-se para as trevas que se aproximam, sem nenhum preconceito e com a maior singeleza, e tentar descobrir qual seu objetivo secreto e o que vêm solicitar do indivíduo.”

Ofélia consegue matar o sapo e recuperar a chave dourada, mas seu vestido novo e os sapatos ficam destruídos de lama e sujeira. Assim, ela perde o jantar do capitão. Este quase não se dá por sua ausência, mas Carmem, sua mãe, fica muito decepcionada.

Isso demonstra que para cada ação ou escolha em favor do inconsciente, paga-se um preço ao consciente. Devemos saber escolher e lidar com as conseqüências de nossa escolha.

O lado consciente de nossa história, liderado pelo Capitão Vidal, igualmente sofre como conseqüência de sua soberba. Os Soldados Vermelhos cercam a mansão transformada em base militar e lançam ataques cada vez mais potentes.

Mas Ofélia está sozinha.

De volta ao labirinto, ela recebe do Fauno instruções para que fique com a chave dourada, pois precisará dela em sua próxima tarefa. Ele lhe dá ainda um giz mágico, e pede que ela consulte o livro.

Entretanto, uma ameaça de aborto de Carmem tumultua a casa e atrapalha os planos da garota. Sob ordens do médico, ela passa a dormir em outro quarto, onde recebe a visita do Fauno durante a noite.

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Ele lhe mostra algo que pode ajudar na saúde de sua mãe:

“Veja… Esta é uma raiz de Mandrácula, uma planta que sonhava em ser humana. Coloque-a debaixo da cama de sua mãe em um vaso com leite fresco. Toda manhã, dê-le duas gotas de sangue”.

Na Grécia e Roma antigas acreditava-se que o leite era um alimento capaz de apaziguar os deuses do mundo subterrâneo. Além disso; e tem-se aqui um detalhe interessante, leite com mel se constituía na comida para os renascidos nos primeiros batismos católicos. Ora, essa mistura é justamente o que Carmem oferece à filha em determinada parte do filme. Estaria ela preparando Ofélia para um ritual de renascimento?

O sangue que ela deve dar à criatura em gotas diárias representa a parte emocional da alma humana, pois possui um vínculo ligado ao afeto. É um símbolo poderoso da essência da vida, a seiva que a feiosa Mandrácula deve beber para que seu coração torne-se humano.

Logo após ter acalmado Ofélia quanto à saúde de sua mãe, o Fauno insiste que ela prossiga com a segunda tarefa, alertando-a para os cuidados que a missão exige.

“Leve meus bichinhos com você, para guiá-la.

Você está indo para um lugar muito perigoso, então tenha cuidado. O ser que lá habita não é humano.

Você verá um suntuoso banquete, mas não coma nem beba nada. Absolutamente nada! Pois sua vida depende disso.”

O Fauno lhe entrega uma ampulheta e parte. Ofélia consulta o livro e recebe as instruções:

“Use o giz para fazer o contorno de uma porta em qualquer parte do seu quarto.

Uma vez aberta a porta, iniciar o relógio de areia.

Deixe as fadas te guiarem.

Não coma nem beba nada durante a sua permanência e volte antes que o último grão de areia caia.”

Riscando o contorno de uma pequena porta na parede de seu quarto, Ofélia abre o portal para o mundo subterrâneo.

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Entra por um corredor comprido, cheio de colunas, que termina em uma sala arredondada, onde há uma farta mesa e uma lareira. As paredes são avermelhadas, e o teto baixo dá uma sensação de claustrofobia.

Na cabeceira da mesa Ofélia encontra o Homem-Pálido, um ser tão horrendo que faz o Fauno parecer bonito.

Ele está imóvel em seu assento, as mãos postas sobre a mesa e tendo diante de si um pires com dois globos oculares, certamente os seus.

Como seu tempo de permanência ali está subordinado à velocidade da ampulheta, as três fadas apressam Ofélia, levando-a até uma das paredes, onde três pequenas portinholas estão incrustadas.

Uma das fadas sugere à nossa heroína que abra a do meio, mas Ofélia, fiel às intuições de sua natureza inconsciente, escolhe a porta da esquerda e a abre usando a chave dourada. De dentro do nicho ela retira um belo e afiado punhal.

Mas ela comete um erro. Antes de deixar a sala, não resiste à tentação e come duas uvas. O monstro desperta de seu estado de latência e a ataca. Sua aparência já sinistra evolui para uma natureza ainda mais bizarra. Seus olhos, que ele colheu do pires, ficam nas palmas das mãos, as quais ele ergue, bem abertas, acima da cabeça.

Por muito pouco Ofélia consegue escapar, mas no meio da confusão duas fadas acabam devoradas.

A desobediência de Ofélia às ordens do Mundo Subterrâneo trará conseqüências devastadoras.

O Fauno se enfurece com ela, dizendo que suas relações estão cortadas para sempre. Em minha opinião, esta é a melhor cena do filme.

Ofélia é então jogada no mundo consciente, dominado por um ego autoritário e meio psicótico. Um mundo à beira da destruição completa, pois os ataques dos Vermelhos tornam-se cada dia mais violentos.

A Mandrácula, que no pouco tempo que ficou debaixo da cama de sua mãe deu resultados favoráveis à saúde desta, aparece morta numa manhã, ao mesmo instante em que é descoberta pelo Capitão. Ofélia tem uma violenta discussão com sua mãe, que joga a raiz na lareira e, por conseguinte, tem sua ameaça mais violenta de aborto. Pouco depois ela dá a luz a um garoto, mas não resiste ao parto.

A menina, desesperada, tenta fugir com a empregada Mercedes, mas ambas são capturadas na floresta.

Numa noite, talvez por se comover com o desespero de Ofélia ou, afinal, porque o equilíbrio de seu próprio mundo depende dessa ligação, o Fauno decide dar a ela uma última chance. Uma cena linda é quando Ofélia o abraça.

Ele dá a Ofélia uma última missão, que parece ser a mais simples: levar seu irmão recém-nascido até o labirinto.

Naquela noite derradeira, o Capitão Vidal percorre um mundo que se incendeia ao seu redor, num clímax enlouquecedor. Parcialmente destruído, sua morte torna-se uma certeza para nós.

Em algum lugar, um radinho dá os resultados da loteria: 3-3-3-0-7. No auge do filme, vemos aparecer, como que numa visão sobrenatural, três vezes o número três, cujo significado já nos é conhecido, e por fim o número 7, de simbolismo parecido. Sete é o número do mistério, do sagrado, símbolo da totalidade, do ciclo completo. Apesar de poder aparecer com sentidos contrários, sua expressão é sempre de abundância, de totalidade e plenitude.

Antes do fim, Vidal flagra Ofélia fugindo com o bebê, e a persegue até o labirinto. Entretanto, ajudada por forças do mundo subterrâneo, ela ganha certa vantagem e o Capitão perde-se momentaneamente pelos corredores.

No centro do labirinto, iluminado pela lua cheia, o Fauno resplandece em todo o seu mistério.

Ofélia aproxima-se com seu irmão e junto com ela, fazemos uma observação capaz de gelar os ossos. O Fauno segura o punhal que ela havia capturado do Homem-Pálido. Nesse momento toda a nossa desconfiança com o Fauno, que havia afrouxado ao longo do filme, retorna violentamente, trazendo consigo a sensação amarga de que fomos enganados. O Fauno matará o bebê!

Ele explica a Ofélia que para que ela retorne ao Mundo Subterrâneo, é preciso que se derrame o sangue de um inocente, mas apenas um pouco, que não chegará a prejudicar a criança.

Horrorizada, Ofélia se nega a entregá-lo o irmão.

Pela segunda vez em nossa história o Fauno se enfurece com ela, dizendo que, se for assim, ela deve arcar com as conseqüências de sua escolha. Ofélia, chorando (mais por decepção que por tristeza ou desespero) grita a ele que assim seja, ela desistirá de todo o Reino para salvar o irmão.

O Capitão surge no centro do labirinto, e nossa expectativa é como será seu encontro com o Fauno. Mas devido sua arrogância ele não consegue vê-lo.

Ele toma o menino dos braços de Ofélia e deixa o labirinto. Morrerá assassinado instantes depois, mas antes disso, porém, ele condena Ofélia, acertando-lhe um tiro.

Olhando o sangue através da luz da lua, Ofélia tomba sem forças, entregando-se ao seu destino. Seu sangue é derramado em sacrifício.

Assim, ela renasce no Mundo Subterrâneo, diante de três altíssimos tronos, um deles reservado para ela, ou outros dois ocupados por sua mãe e por seu pai, o Rei. Quando este fala, dizendo que ela cumpriu bem sua última missão, que era a de dar a vida por um inocente, vemos atrás de sua figura um vitral redondo, por onde entra a luz do sol, um símbolo inequívoco da totalidade psíquica, ou self.

O Fauno surge nesse mundo dourado, feio e cinzento. Percebemos que sua semelhança com o diabo não é fora de propósito, pois, como nos diz o grande Jung,  existe uma “tendência em unir à forma trina da divindade um quarto elemento, que tende a ser sombrio, efeminado e maléfico”. A própria origem da figura do diabo em nossa cultura.

Ele diz a Ofélia que ela escolheu bem.

Qualquer semelhança com o destino de Ofélia e o sacrifício de Cristo também não é mera coincidência. Num filme tão denso de simbolismos, não é de se admirar que ele termine com um dos símbolos mais poderosos que a humanidade conhece. O arquétipo do herói que é devorado por um monstro terrível e renasce tempos depois está presente em muitas histórias (um exemplo é de Jonas e a Baleia), e vem nos confirmar de maneira definitiva sobre a natureza divina de Ofélia.

Seu jovem irmão, que continuará no mundo “pós-guerra”, simboliza uma nova consciência diante do mundo.

“E foi dito que a princesa retornou ao reino de seu pai. E que ela reinou com justiça e bondade por muitos séculos. Que ela foi amada por seus súditos. E que ela deixou para trás pequenos traços de sua passagem na terra, visíveis apenas para aqueles que sabem onde olhar.”

Como bem disse H. G. Wells no fechamento de A Máquina do Tempo, “nada resta fazer se não admirar-se.”

Sim, admirar-se e indagar: Quantos de nós nos tornamos Capitães fascistas, orgulhosos demais para enxergamos o Fauno no centro do Labirinto?

“O homem sente-se isolado no cosmos porque, já não estando envolvido com a natureza, perde sua “identificação emocional inconsciente” com os fenômenos naturais. E os fenômenos naturais perderam suas implicações simbólicas. Pedras, plantas ou animais já não têm vozes para falar ao homem e o homem não se dirige mais a eles. Acabou-se o contato com a natureza, e com ele foi-se também a profunda energia emocional que esta conexão alimentava. Esta enorme perda é compensada pelos símbolos dos nossos sonhos. Eles nos revelam nossa natureza original com seus instintos e sua maneira peculiar de raciocínio. (…) De maneira lenta mas que nos parece fatal, atraímos o desastre. Já não existem deuses cuja ajuda possamos invocar. As grandes religiões padecem de uma crescente anemia, porque as divindades prestimosas já fugiram dos bosques, dos rios, das montanhas e dos animais e os homens-deuses desapareceram no mais profundo de nosso inconsciente (…). Nossas vidas são dominadas por uma deusa, a Razão, que é nossa ilusão maior e mais trágica”

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7 Comentários

  1. Ricardin, eu tenho esse filme, mas nunca o vi assim!!! Adorei, realmente tudo faz muito sentido, mas se você não tivesse postado tudo ia passar batido por mim. E isso porque eu já gostava desse filme, agora gosto mais e ainda vou vê-lo outra vez agorinha!!!
    Beijos!!!

  2. Muito interessante sua análise Ricardin, coerente e bem fundamentada.
    Longe de querer corrigir algo, mas sim como uma crítica construtiva, aconselharia para que citasse as passagens de Jung – ou qualquer autor que você cita – que tem relações com os seus comentários, assim os próprios leitores poderiam fazer uma análise comparativa, criando possivelmente mais pontos de vista, que poderiam além de justificar e validar a análise, enriquecê-la.

    • Valeu pelo comentário Rodrigo, e foi ótimo porque me alertou para algo que passava desabercebido. É bom que todos saibam que, ainda que as vezes eu não me renda e tente fazer um texto rebuscado, o que escrevo no site são opiniões minhas, um mero estudante, e portanto nada dignas de crédito profissional. Essa postagem é até agora a que tem mais tráfego, excetuando-se a que descrevo meus sonhos, o que até foi uma surpresa pra mim. Mas que todos saibam, escrevi isso com base no que EU apreendi lendo um pouco de Jung, que ninguém use essas palavras pra qualquer trabalho mais aprofundado. Infelizmente, nesse caso, não poderia citar precisamente as passagens que me levaram a determinado pensamento justamente porque não tenho compromisso com a técnica acadêmica de redação, apenas captei uma ou outra coisa à medida em que a história me permitia isso.
      Como vê, críticas construtivas são muito bem vindas. Obrigado pela visita, e até.

      • Na verdade nem sei se foi isso que quis dizer, já que o livro que utilizei foi mostrado e as passagens estão entre aspas e em negrito.

  3. […] devo abrir um parênteses ao relacionar esse motivo àquele do filme também já tratado no blog, O Labirinto do Fauno, quando Ofélia, para matar um sapo monstruosos que vivia no subterrâneo de uma velha figueira, […]

  4. Eu tbm tenho esse filme gosto muito, só que eu n vejo o fauno como o diabo
    vejo ele como um bode *_*

    + tdu bem!
    Parabéns! Tdu faz sentido!!!

    Gostei!
    Bjos

    Leh

  5. Fantastico


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