O Elo Cósmico

Numa tarde de dezembro alguns anos atrás eu entrava num ônibus de rua, a caminho de uma prova de vestibular, na Universidade Federal de Juiz de Fora. Enquanto o ônibus subia cheio de estudantes ansiosos, eu observei através da janela, uma placa em meio as árvores de São Pedro, com a frase: “Nas cidades está o abrigo dos homens e nas florestas a essência da vida.” Horas mais tarde me lembrei disso de repente e anotei numa folha de rascunho. Desde então tenho pensado nela. Achei bonita.

A lua minguante ainda estava bem alta no céu quando me levantei na madrugada de terça-feira em minhas férias de julhode 2007. Os cães latiam nas casas enquanto eu passava, incomodados com o mochileiro solitário no meio da noite. A essa altura, enquanto eu seguia num frio de rachar até a casa de meus tios, já me perguntava (sem querer admitir a mim mesmo) se havia sido mesmo uma boa idéia essa de passar uma semana com eles lá na roça, enfurnado num fim de mundo lá pros lados de Andrelândia.

Dessa vez eu não levava potes para besouros, redes para capturar mariposas ou caderno de anotações. A bem da verdade eu não levava nada. Nem CDs, nem DVDs, nem relógio e muito menos celular. Lá não tem nem TV, um radinho a pilha de meu tio nos diverte à noite num beirada quente de fogão à lenha, enquanto sintoniza três estações ao mesmo tempo. Fui completamente nu pra uma região inóspita, onde a energia elétrica chegou há três meses. O único mimo que levei da civilização foi meu inseparável livro A Montanha Mágica (pra quem não leu a obra-prima de Thomas Mann, faça um favor a si mesmo de não morrer antes de pelo menos tentar empreender tal tarefa).


Pois então, eu tinha visto muito LOST (faltavam três episódios pra terminar a terceira temporada quando parti) e influenciado por
meu personagem favorito daquela ilha, o insondável Locke, eu queria também ter minha própria jornada espiritual, e sabia ( e sentia) que para isso eu teria que me despojar de tudo o que me rodeava, mostrar-me nu ao mundo e ver o que ele revelava de mim. E acho que funcionou
.

Na tarde do mesmo dia eu subi um morro até uma jovem plantação de pêssegos, e a visão que eu tive de lá foi esplendorosa. A vegetação era parecida com trigo, batendo na altura das canelas, com um dente de leão erguendo-se mais alto de vez em quando. O solo é arenoso, de modo que se você andar olhando para o chão parece que está numa praia.

Na parte mais alta do morro você não consegue ver por onde subiu. É exatamente como se você estivesse no cume de uma montanha, e não conseguisse enxergar mais que um raio duzentos metros ao seu redor. Depois da vegetação rasteira há uma quebra bizarra e sua vista vai bem mais longe, deitando sobre cadeias e mais cadeias de morros, até terminar num tênue contorno azulado bem lá longe. Parece que você está voando.

Sozinho nesse topo de mundo, tão diferente de tudo quanto eu estava acostumado, não resisti ao ímpeto de me render a um clichê velho, mas antigo que “Titanic”, e abri os braços e fechei os olhos, colocando-me contra o vento forte lá de cima.

Esse vento vivificante do campo, essas moléculas puras que vinham de longe, atravessando montanhas, trazendo em seu seio átomos de flores, animais, rochas e céu. Essa enxurrada vitalizante, que entrava por minha traquéia e me fazia respirar, que me fazia sentir vivo.

Nesses momentos, nesses raros momentos em que você, tal como uma criança, larga mão de seguir regras básicas de comportamento e higiene é que você se sente parte integrante da natureza. Um sentimento de totalidade com o Universo, de respeito perante o mundo, que eu jamais senti em qualquer culto religioso.


Totalmente só, eu andei vários quilômetros por estradas desertas. Andar sem destino é uma das coisas que mais gosto de fazer. E eu sentia meu cabelo grudando de sujeira, as unhas sujas de terra, a poeira que se empastava no suor do corpo… Enfim, tudo isso faz com que eu me sentisse não diminuído perante as forças da natureza, mas sim parte verdadeira e integrante dela. Eu sou feito de matéria! É uma espécie de retorno ao primevo, em que você se torna menos intelectivo e mais material. Você é a natureza.

Andamos tão falidos espiritualmente que perdemos a capacidade de nos enxergar como seres vivos desse planeta. Numa das noites em que estava lá, e me preparava para dormir, tirei um carrapato do meu joelho. Algumas pessoas poderiam se sentir repugnadas só de pensar numa coisa dessas, e eu próprio não fiz isso com muito prazer, mas tive que rir de mim mesmo quando me flagrei pensando: “Santo Deus, então há mesmo sangue correndo em minhas veias?!”


Quem vive na cidade grande tem ao redor de si a possibilidade de um mundo quase infinito de conhecimento. Mas quando se trata de autoconhecimento nos vemos perdidos no meio de um deserto inócuo, opressivo e infrutífero. No meio da cidade grande nos dissolvemos no meio da coletividade, somos parte de uma cifra, uma parte mísera vagueando como gado no meio de um rebanho imenso. Não é difícil se sentir totalmente insignificante. Nesse Admirável Mundo Novo nós somos reduzidos a números: RG, CPF, matrículas e horários. Sinto certa náusea só de pensar no ser humano classificado assim.

Porque quando você foge da cidade, tudo isso perde o sentido, torna-se ridículo mesmo. Então você se descobre.

Não estou fazendo um saudosismo à pré-história (se é que isso é possível), nem sugerindo que se destrua a civilização e vivamos como nômades no meio dos escombros, como sugerem os integrantes do Clube da Luta. Estou humildemente atentando para o fato de que estamos nos distanciando e até mesmo mascarando certos aspectos de nossa natureza. Muitas das emoções de hoje são simples caricaturas do que foram um dia. Talvez por isso outras tenham ganhado tanto corpo, como é o caso do amor e de nossa cada vez menos aceitação da morte. Eu vou dar dois exemplos:

Uma coisa é o desespero de afundar numa prova de matemática. Outra coisa muito diferente é o desespero de despencar pasto abaixo numa corrida louca e desenfreada de uma boiada de quinze cabeças, como eu tive a oportunidade de vivenciar. O ser humano, é inútil ressaltar, não está acostumado ao papel de caça, mas quando o faz aproxima-se uma fração de seus longínquos ancestrais africanos que disparavam savana afora de leões antropofágicos.

Uma coisa é a tensão que se tem pela espera de uma prova de fim de período, outra muito diferente é aquela de se andar no meio da noite, lanternas na mão, pelo meio do pasto em uma região infestada por cascavéis e lobos e tendo como companhia uma horda barulhenta e desorganizada de amigos e parentes em estados variados de embriaguez.


O medo de ser perseguido ou caçado no meio da mata é um medo palpável, quente, que você sente perfeitamente se irradiando pelo corpo. É o irracional que toma conta, a Fera…

Olhar o ser humano dessa forma… Será que eu pretendo reduzi-lo ao nível da biologia pura? Certamente que não. O ser humano é bem mais que isso e agora vem a parte interessante.


Na escada da fazenda eu descascava uma laranja, enquanto a cadela Susy me olhava de perto, deitada nos degraus ao meu lado.
A luz morna daquele sol de fim de tarde batia bem dentro dos
olhos dela e por alguns segundos eu os olhei bem de perto. Eles transmitiam uma calma imensa, mas principalmente uma coisa que eu descobri meio de surpresa, inocência. Diante disso comecei a imaginar o que de fato nos diferencia deles.

Talvez por um erro genético, talvez por um destino maior, o fato é que há milhões de anos a natureza nos criou. E, além disso, trabalhou em nós a coisa mais sofisticada do universo conhecido, a tecnologia de ponta do mundo vivo, uma coisinha high tech chamada Consciência.

Por outro lado, a consciência é uma coisa tão nova na natureza que é ainda muito frágil, e prova disso são as filas que se amontoam cada vez mais nos consultórios de psicologia ou psicanálise. A Fera dentro de nós às vezes toma conta e quando isso acontece não sabemos bem ao certo como agir. Ocorre por vezes a dissociação psíquica, uma catástrofe tão avassaladora que Jung gostava de representá-la como uma explosão atômica.


Claro que a consciência não é uma coisa simples e tampouco está localizada em uma área
particular do cérebro, como imaginava Descartes e seus discípulos, mas para sermos simplistas, poderíamos colocar a coisa do seguinte modo: A única coisa que nos diferencia dos animais é uma camada que envolve o cérebro chamada córtex cerebral. Todo empreendimento humano, as artes, a arquitetura, enfim, a Civilização inteira repousa sobre essa porção quente e lamacenta de massa cinzenta. Vou citar aqui um trecho do livro Cosmos, de CARL SAGAN, porque certamente ele escreve melhor que eu:

Como todos os nossos órgãos, o cérebro evoluiu, aumentando em complexidade e conteúdo de informação, por milhões de anos. Sua estrutura reflete todos os estágios pelos quais passou. O cérebro evoluiu de dentro para fora. No fundo da parte mais interior está a parte mais antiga, o tronco cerebral, que conduz as funções biológicas básicas, incluindo os ritmos da vida – batimento cardíaco e respiração. (…) Cobrindo o tronco cerebral está o complexo-R – a sede da agressão, ritual, territorialidade e hierarquia social, que evoluiu há centenas de milhões de anos em nossos ancestrais reptilianos. Bem dentro do crânio de cada um de nós há algo semelhante ao cérebro de um crocodilo. Circundando o complexo-R está o sistema límbico do cérebro mamífero, que evoluiu há dezenas de milhões de anos em nossos ancestrais que eram mamíferos, mas ainda não primatas.É a principal fonte de nossas emoções e humores, de nossos interesses e cuidados com os jovens. E finalmente, do lado externo, vivendo em uma trégua agitada com o cérebro inferior mais primitivo está o córtex cerebral, que evoluiu há milhões de anos em nossos ancestrais primatas. O córtex cerebral, onde a matéria é transformada em consciência, é o ponto de embarque de todas as nossas viagens cósmicas. Compreendendo mais de dois terços da massa cerebral, é o reino da intuição e da análise crítica. É aqui que temos idéias e inspirações, aqui que lemos e escrevemos, aqui fazemos a matemática e compomos músicia. O córtex regula nossa vida consciente. É a distinção da nossa espécie, a sede da nossa humanidade. A civilização é um produto do córtex cerebral.” (p. 277).

Portanto é fácil perceber que somos uma espécie à parte, bem diferente do resto dos seres vivos. No entanto todo o restante do cérebro é herança de nossos antepassados, como uma biblioteca do tempo, e estamos fatalmente ligados a eles. Mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes, organismos unicelulares. Não há como escapar a essa relação. Um homem e um carvalho podem ser considerados parentes próximos, dependendo do ponto de vista. Isso sem falar na matéria da qual somos constituídos,as moléculas e átomos, presentes tanto na natureza viva quanto na inanimada.

Portanto é nisso que reside nossa benção e maldição: a duplicidade do ser humano. Somos divinos, mas também somos mortais.

Nos tornamos uma parte iluminada da natureza, talvez um salto tão gigantesco quando a passagem da natureza bruta para a viva. Então não é apenas o homem que pensa sobre si mesmo. Cada vez que um astrônomo aponta seu telescópio para o céu, cada vez que um biólogo olha através da lente de um microscópio, é a natureza estudando e maravilhando-se consigo mesma. É o Cosmos criando autoconhecimento e voltando-se para o estudo de seu EU. Para parafrasear o extraordinário Mynheer Peeperkorn na colônia da montanha mágica, “o homem é apenas o órgão por meio do qual Deus realiza seu enlace com a vida despertada e ébria…”

Essa dicotomia é um dos pilares fundamentais daquilo que nos torna humanos. O bem e o mal, a fé a descrença, a luz e a sombra. Uma semana no campo me ensinou isso.

Anúncios

Deixe um comentário

Nenhum comentário ainda.

Comments RSS TrackBack Identifier URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s