Ah… Essas Fêmeas Fatais

Segundo os antropólogos, nossa espécie habita esse planeta há mais ou menos dois milhões de anos. Entretanto, só criamos a escrita, as cidades e o modo civilizado de ser há apenas dez mil anos. Ou seja, passamos seiscentas vezes mais tempo nas florestas do que nas cidades. Somos ainda essencialmente selvagens e, portanto, ainda sujeitos às ondulações da natureza. Estudar a história do homem é estudar seu amadurecimento, seu desprendimento à selvageria, sua perda de ingenuidade…

No início era a mulher.

Nas sociedades antigas, de subsistência, não havia necessidade de força física, e a mulher possuía papel central como reprodutora. Os homens primitivos adoravam as formas avantajadas da Vênus de Willendorf, portadora do segredo da vida.

Ainda hoje podemos encontrar em alguns lugares remotos remanescentes vivos desse tipo de cultura, como nas planícies remotas da África ou da Austrália, por exemplo. Neles, os integrantes do grupo vivem da pequena caça e da coleta de frutos, a mulher é vista como um ser sagrado, pois pode dar à luz. O feminino e o masculino governavam juntos, existe divisão do trabalho mas não há desigualdade.
“Nos grupos matricêntricos, as formas de associação entre homens e mulheres não incluíam nem a transmissão do poder nem a da herança, por isso a liberdade em termos sexuais era maior. Por outro lado, quase não existia guerra, pois não havia pressão populacional pela conquista de novos territórios”, nos diz Rose Marie Muraro, no prefácio de livro Malleus Maleficarum.

Mas, com o aumento no número de seres humanos, a competição por alimentos incitou a caça de animais cada vez maiores. Com a competição mais acirrada, as guerras passam a ser mais freqüentes, os guerreiros começam a ser vistos como heróis, iniciando o processo de ruptura com a crescente mitificação dos conflitos.

Mas o homem ainda desconhecia sua função de reprodutor, e acreditava que a mulher ficava grávida dos deuses. Portanto, a elas ainda se envolvia numa aura de misticismo e divindade e os homens as invejavam, cultuado-as como a um ídolo.
O curioso é que essa primeira fase, a da “inveja do útero” é a precursora da famosa “inveja do pênis”, que Freud descobriria muito mais tarde. Durante a Idade Média, o útero era visto como uma entidade, um ser dotado de vontades próprias e de uma insaciedade demoníaca, uma teoria que serviu de base para explicar a culpa das mulheres durante os processos de Inquisição. Hoje, percebemos claramente, (principalmente nos filmes de comédia no estilo “besteirol” americanos), que é o pênis que se reveste de um contorno próprio, como se fosse uma parte quase dotada de consciência no homem.

A inveja do útero deu origem a pelo menos dois rituais universais nas culturas antigas, e algumas ainda em andamento. O primeiro desses fenômenos denomina-se couvade, nele as mulheres começam a trabalhar logo depois do parto e os homens ficam em casa cuidando da prole e recebendo as visitas e os presentes. O outro é o ritual de iniciação masculino, aliás, muito bem detalhado no livro de Jung, O Homem e Seus Símbolos. Como os meninos não sofrem o processo de passagem oficial da infância para a adolescência, a saber, a menstruação, eles sofrem um violento ritual por volta dos doze anos, em que os homens da tribo simbolizam um “parto”. Desse modo, eles estão aptos a deixarem suas vidas de garotos e a tomarem as responsabilidades próprias de homens.

Tudo isso foi criado como uma forma de compensação pela inveja e sentimento de inferioridade que o homem nutria pela mulher.
Para as mulheres, a coisa começa a desandar no momento em que o homem descobre seu papel na reprodução, o que se deu provavelmente durante o Paleolítico. Já inflado por uma idéia de superioridade, obtida pela mitificação da guerra, o homem começa a controlar também a reprodução, e a mulher passa rapidamente de semi-deusa para propriedade privada. Surge o casamento como forma de controle sexual.
Nessa época, o homem começa a dominar também as técnicas de transformação dos metais, produzindo novas armas e também instrumentos para a atividade agrícola. Aparecem as aldeias pastoris citadas na Bíblia. Minha professora de história insistia que o maior feito humano foi a dominação da agricultura, pois a partir daí as tribos deixaram de ser nômades e puderam se desenvolver cada vez mais, criando laços hierárquicos cada vez mais sólidos, impulsionando o progresso. Surgem cidades, cidades-estados, impérios.
Infelizmente, nesse processo as mulheres são reduzidas ao âmbito doméstico, sua sexualidade é fortemente reprimida e o machismo começa a imperar nas civilizações.
A pior parte foi durante a Baixa Idade Média. Lá, “a moral cristã traduzia (…) os problemas da tentação da carne.” (p. 64 de Uma História do Diabo, Robert Muchembled).
No Renascimento, “a difusão de temas artísticos centrados no corpo feminino em toda a sua plenitude representava um grande problema, embaralhando as mensagens tradicionais a respeito de uma nudez pecaminosa. (…) Se não era possível proibir de mostrar o sexo de Vênus, os encantos de Diana ou os atrativos de uma mulher banhando-se, era possível lembrar incisivamente até que ponto a aparência era enganadora, ou até mesmo perigosa.”(p.66).

Aqui, por exemplo temos “Jovem Feiticeira”, de Hans Baldung Grien, ano de 1515; a imagem reflete o pensamento estereotipado de uma época em que o mal se escondia, muitas vezes, atrás da beleza feminina. A língua explicitamente fálica do dragão demoníaco nos mostra que a obsessão sexual respondia em grande parte pelas neuroses do inconsciente coletivo.
“No século XIV aparecem as mulheres-pecadoras, nas quais cada parte do corpo evocava um pecado: uma cabeça ou uma goela sobre o ventre fazia alusão à sexualidade feminina voraz.”(p.64). Surge o mito do sabbat (reuniões de bruxos) e a delirante caça as feiticeiras.

“A verdadeira força central do mito reside, a partir de então, na definição de um corpo humano tornado por natureza maléfico, voltado a uma sexualidade contra a natureza. As vias de introspecção passam por uma culpa em matéria do uso do próprio corpo e do próprio sexo. (…) Os costumes, por vezes bastante livres do final da Idade Média, cederam bastante o terreno diante de uma moralização crescente. (…) Aparentemente sem ligação direta, os dois fenômenos precedem, no entanto, de um mesmo impulso de inculpação, instigando cada um a controlar a fera dentro de si.”
(p. 80, 81).
Para piorar, essa reclusão da mulher provoca sua dependência econômica e gera, ainda, uma submissão psicológica que pode ser facilmente notada até os dias de hoje.

Mas, e quanto ao futuro?

É agora que devo citar um livro que li já há algum tempo, Homens São de Marte Mulheres São de Vênus. É isso mesmo, e apesar de alguns estudiosos torcerem o nariz para esse tipo de clichê, essa “psicologia de palco”, como eles dizem, está cientificamente comprovado que homens e mulheres seguiram linhas levemente divergentes na evolução. Por exemplo, os homens tiveram seu raciocínio lógico e senso espacial desenvolvidos, o globo ocular ficou maior para que enxergássemos de longe e nossa pele ficou mais grossa por causa dos espinhos e dos animais da floresta. Além do mais, apreciamos o silêncio porque tivemos que nos acostumar a ele enquanto estávamos caçando.
Já as mulheres, que ficavam em casa cuidando da aldeia e dos filhos, desenvolveram a linguagem e a cognição bem mais que os homens. Também se adaptaram para acordar a noite com o choro do bebê, aprenderam a ler expressões faciais sutis para diagnosticar doenças (um dos motivos pelos quais é difícil mentir pra elas) e apuraram a visão periférica, para enxergarem algum perigo que rondasse as imediações da aldeia.

Bem, estou mais interessado na linguagem. O século XX presenciou uma reviravolta mundial, foi a revolução da informação. Pela primeira vez na história do homem, estamos à porta de um estágio da civilização em que uma informação pode ser mais importante (ou mais perigosa) do que uma arma nuclear. E é justamente agora que a mulher começa a se sentir mais a vontade no mundo, repararam isso? É como se só agora elas percebessem que este lugar também é de delas. A verdade é que o homem só dominou este planeta até hoje porque o trabalho pesado precisava ser feito. Mas na medida em que caminhamos para um estágio em que a inteligência suplantará a força, e isso já acontece a uma velocidade estonteante, as mulheres inevitavelmente tomarão o poder. Livros, música, cultura de um modo geral, é uma coisa que combina melhor com mulher.

Pensem bem, vocês não acham muita coincidência que logo agora, quando cada vez mais se é preciso ter bagagem cultural para subir na vida, as mulheres estão abrindo caminho no mercado de trabalho? E em cargos altos. Ah!…Claro, as mais radicais dirão que devem isso ao movimento feminista americano que varreu o ocidente na década de 60, mas eu acredito que isso se deva muito mais a revolução tecnológica e aos novos valores impostos pela nova ordem mundial.
Aí uma garota me pergunta: Quer dizer então que daqui a cem anos nós seremos poderosas executivas sem filhos e o mundo cairá no matriarcalismo mão-de-ferro? E ao invés de mulheres ensaboadas na TV teremos homens bombados rebolando só de sunga?
Felizmente para meus bisnetos, acho que não. Bem, talvez elas queiram fazer isso por uma certa vingança rancorosa, é algo comum na história da humanidade, mas no geral as mulheres não se sentem atraídas por pornografia. É por isso que elas preferem fazer amor no escuro.

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