Biologia: Em Defesa de uma Didática Anacrônica

Estou escrevendo o rascunho dessa postagem dentro da sala de aula. Achei que seria mais… inspirador. Ao meu redor as pessoas ainda estão levemente agitadas da hora do intervalo, comendo biscoitos, bebendo água, olhando no relógio para ver quanto tempo falta para irem embora. Como sempre, uma aula chata. Na medida em que o tempo transcorre, aumenta o tédio e a sensação de que a hora não passa. Agora tem gente mexendo no celular, conversando sobre outros assuntos, folheando revistas Avon. Vejo um amigo voltar-se para trás e mover os lábios em mímica, e percebo claramente que disse um “chaaaatooo” pra colega de trás. Sou obrigado a concordar.

Hoje a tarde estava pensando nisso, enquanto trocava de roupa e sentia uma imensa má vontade de vir pra cá, só superada pela do meu professor em dar aula.

Levei um ano pra descobrir, ou pra admitir, que o curso me decepcionou profundamente. Enquanto calçava as meias, a biografia de meu herói,  Darwin, a Vida de um Evolucionista Atormentado me olhava da estante. Dentro do ônibus, vim lembrando os melhores momentos, como, por exemplo, a febre da época na captura de besouros:

“Nada era poupado na caça aos troféus. Ele comprou uma rede de varredura e aprendeu a capturar minúsculos insetos saltadores. Folhas de papelão foram enfeitadas com besouros, cada um alfinetado no lugar adequado. Também encontrou um morador local para coletar fragmentos do fundo das barcaças que traziam junco dos brejos, os quais ele examinava cuidadosamente, à procura de sua presa. Não era um massacre fácil, pois alguns besouros tinham defesas inesperadas. Um dia, ao retirar a casca de uma árvore morta, ele capturou dois tipos raros, um em cada mão. De repente avistou uma terceira nova espécie, boa demais para ser perdida. Sua ação foi tão boa quanto a de um apanhador de ovos bem treinado. Escondeu o besouro da mão direita na boca. Infelizmente tratava-se de um besouro bombardeiro, que de pronto fez jus ao nome esguichando um nocivo fluido fervente na garganta de Charles, surpreendendo-o momentaneamente. Ele cuspiu fora o besouro, perdendo-o no chão, e na confusão perdeu os outros dois também.”(p. 86)

“Passava a maior parte dos dias em passeios de barco pelo estuário, em caminhadas nas montanhas ou pescando nos lagos próximos.” (p. 81)

“Uma semana depois, os naturalistas flutuaram o Cam abaixo. (…) Darwin procurou por plantas novas em todo o canto. Do outro lado do canal lodoso ele avistou uma Utricularia, planta insetívora. Cheio de orgulho, tentou alcança-la usando sua vara de saltar (um de seus velhos companheiros de caça aos besouros lhe ensinara o truque.) Com um forte impulso, arremessou-se para cima – mas a força foi insuficiente. A vara ficou espetada no fosso, com Darwin dependurado na ponta. Encabulado, ele deslizou para dentro do atoleiro, chapinhou até o espécime e o entregou a Henslow. Naquela noite, enquanto o grupo jantou em uma hospedaria próxima, a bravata de Darwin tornou-se o brinde do período letivo. A herborização terminara em triunfo, com quase trezentos espécies coletadas. “ (p. 100)

Século XIX, início do XX.

Pra mim o homem jamais sentirá o mesmo espírito científico dessa época. Darwin foi a personificação perfeita do cientista recluso, instigado pela natureza e ao mesmo tempo atormentado por crises existenciais, influenciadas pelo positivismo e por um niilismo que parecia varrer qualquer esperança de um futuro crente.

Mesmo pela falta de conhecimento, o homem possuía uma idéia mais interessante, mais respeitosa diante da vida. Hoje acredito que isso se perdeu.

Estou na faculdade há um ano e até hoje não saímos a campo nenhuma vez. Cursar ciências biológicas exclusivamente dentro da sala de aula pra mim é suicídio profissional. Quando entrei aqui, ingenuamente insuflado pelas idéias românticas de uma era passada, imaginei que iria encontrar um ambiente mais respeitoso, mais fascinado e com certeza menos arrogante, menos prepotente.

Não vou dizer que aula estou tento agora porque não quero sacanear o professor (ainda que tenha a vaga suspeita de que, na verdade, é ele que quer me sacanear). Mas ninguém está realmente interessado. Posso garantir que o assunto é bom, mas a aula está uma desgraça. As perguntas que vêem à tona são mais por um medo do que vai cair na prova do que por um interesse real diante da mágica da vida. Os esquemas no quadro são uma tristeza só.

Hoje os professores ligam o retroprojetor, ou o datashow, e exibem figuras e animações sobre o pano branco dependurado na frente do quadro. Olhando bem para as formas, percebo que quase não exibem contornos orgânicos, em algumas essa característica desaparece completamente. Lembro-me bem, com horror, que os ciclos de reprodução das pteridófitas me causavam mais arrepios na espinha que os filmes de Hitchcock.



Inundada por uma luz azulada hipnótica, minha geração está assistindo, estática como uma horda de zumbis, ao clímax da didática científica (e vocês não sabem como me dói dizer isso). Os desenhos parecem almejar um traço matemático, os organismos são dilacerados em formas vazias, ocas, divididos em células, órgãos, gânglios e articulações. E ainda dão nomes que (na minha opinião) são completamente hilários. Quase não consigo segurar o riso cada vez que vejo uma glândula batizada com o nome de alguém. Meu Deus, eles dão nomes de gente pras partes dos bichos! Sou só eu ou alguém mais tem a sensação de estar ficando doido?

Provavelmente estou parecendo um reclamão, pretensioso, chato e, com certeza, completamente imbecil. Mas não é isso.

O problema não é da instituição, porque sei que estudo numa das que talvez figure entre as melhores do país. A culpa também não é toda dos alunos. É claro, tem muita gente lá que não nutre essa paixão cega e um tanto delirante pela biologia, apenas se simpatizam a ponto de querer levar suas vidas em contato com ela. Normal. Há ainda aqueles que só cursam uma faculdade por seguirem uma espécie de obrigação social ou mesmo familiar. Pode ser que o cara quisesse apenas montar um quiosque numa praia e vender cerveja, mas os pais ficariam decepcionados se ele não tivesse um curso superior. Pra esses alunos, (sem qualquer falsidade), eu bato palmas, pois nem posso imaginar o que deve ser passar quatro anos da vida fazendo algo só porque todo mundo diz que você deve fazer. Uma saga horrível.

Aí eu penso que o problema é dos professores. Mas quando penso nisso, não sei que fatores levaram este ou aquele professor até a sala de aula, ou pode ser que estivessem tentados a fazerem a diferença no início, mas foram ficando deprimidos a medida em que afundavam no clima geral.

O problema é global, está na didática ensinada no mundo todo.

Vejam bem, sei que deveria estar agradecido por cursar uma faculdade de qualidade, e estou, mas não vejo motivo também para não expressar meu sentimento numa simples postagem de blog que quase ninguém vai ler.

Também, é claro, pode ser que eu esteja completamente enganado. Como bom cartesiano, me recuso a abrir mão dessa possibilidade. Talvez eu esteja fazendo de Darwin um padrão estereotipado para uma época totalmente desconhecida para mim. É claro que nem todos no século XIX nutriam a mesma paixão pela ciência, tampouco eram tão interessados quanto Darwin. Mas, não posso deixar de pensar que mesmo os radicais seguiam um ateísmo mais ingênuo, uma filosofia que existia quase exclusivamente para atacar uma Igreja que começava a ficar ruim das pernas. Hoje talvez não seja tão diferente, sempre gosto de pensar que todos nós somos o que somos influenciados por fatores individuais: traumas, vivências, experiências de mundo. E isso acontece inclusive com os cientistas.

Mas, me perdoem, mesmo assim não consigo deixar de ver o radicalismo contemporâneo como uma coisa pornográfica.

Tristeza, não consegui focar o assunto, mas é o que dá escrever durante a aula.

Ah… Se eu fosse milionário comprava um veleiro e sumia nesse mundo.

Mas agora tenho que voltar a prestar atenção no que o professor está dizendo.

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1 Comentário

  1. […] sobre qualquer tema, ainda não amarrados por qualquer especialidade. Já falei aqui no blog o que eu penso sobre a especialização, e enfatizo que as vezes os biólogos esquecem que são biólogos, tem continuamente diante de si […]


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