A Peste Negra na Europa do Século XIV

(Artigo principal consultado para essa postagem: A pandemia de Peste Negra no século XIV, por Amiraldo M. Gusmão Jr.)

 

Foi possivelmente em 1347 que o primeiro barco infectado jogou sua âncora no porto de Messina, na ilha italiana da Sicília. Alguns marinheiros já haviam sido lançados ao mar, corroídos pela praga, outros desceram cambaleantes e exaustos, dando o passo inicial para o terror que se instalaria entre os europeus.  Um historiador da época escreveu:

“No começo de Outubro, no ano 1347 da encarnação do Filho de Deus, doze galeões Genoveses que estavam fugindo da vingança de nosso Nosso Senhor, vingança essa lançada contra seus feitos nefastos, entraram no porto de Messina. Em seus ossos traziam tão virulenta doença que qualquer um que tão somente falasse com eles enfrentaria seus sintomas mortais e logo sucumbiria sem esperanças de evitar a morte. A infecção se espalhou para todos que tiveram intercurso com os doentes. Os infectados se sentiam penetrados por uma dor que se fazia sentir por todo o corpo e, por assim dizer, indeterminada. Então desenvolviam em suas virilhas e em seus braços bolhas pustulentas. Estas infectavam o corpo inteiro e penetravam tão profundamente que o paciente ficava vomitando sangue violentamente. Esses vômitos de sangue se seguiam sem pausa por um período de três dias, sem haver como curá-lo, e então o paciente expirava. Mas não só aqueles que tinham intercurso com eles morriam, mas também aqueles que haviam tocado neles ou em qualquer uma de suas coisas.”

Tenho para comigo que certos eventos de natureza excepcional, como uma guerra, só podem ser inteiramente compreendidos em seu impacto psicológico pelas mentes que o vivenciam.

Pior ainda para quem se interessa em analisá-los quando esses eventos ocorrem numa sociedade e numa época muito longínquas, nas quais as mentes envolvidas trabalhavam e absorviam os fenômenos do mundo de maneira diversa.

Eu gostaria de começar falando logo sobre os efeitos transformadores que a pandemia causou na sociedade medieval, mas seria inútil sem antes tentarmos ver como funcionava essa sociedade, por mais precárias que sejam as informações contidas numa simples postagem de blog.

Limitações à parte, espero que aos interessados seja dada pelo menos uma motivação a estudar o tema mais aprofundadamente.

O estudo da peste negra na Europa medieval foi algo que me absorveu quase à beira da obsessão quando tive que fazer um trabalho parecido para a faculdade, e tomei conhecimento do tema. Não sei quanto a vocês, mas nunca havia estudado isso na escola. É incrível o quanto nossos livros didáticos do ensino fundamental e médio dão pouca importância a um dos maiores eventos formadores do pensamento ocidental.

HISTÓRICO:

Sabemos hoje que a peste foi quase certamente disseminada pelos mongóis, que criaram um grande império no final do século XIII. Avançando por imensos territórios, levaram consigo também os vetores da doença. Teriam sido eles que, após a sua conquista do território chinês, foram infectados ao sul das montanhas Himalaias, já que essa região alberga até os dias atuais um dos mais antigos reservatórios de roedores infectados endemicamente.

Na Ásia, os animais de transporte e as roupas (muitas vezes feitas com couro de animais felpudos) serviam de abrigo para as pulgas infectadas. Nos veículos marítimos, os ratos eram os principais disseminadores. O intercâmbio comercial entre o Ocidente e o Oriente, reavivado a partir do século XII, explica a chegada da doença na Europa.

Em 1334 a peste já t inha causado 5.000.000 de mortes na Mongólia e no norte da China. A mortandade avançou para Mesopotâmia e Síria, cujas estradas ficaram juncadas de cadáveres dos que fugiam das cidades. No Cairo os mortos eram atirados em valas comuns e em Alexandria os cadáveres eram tantos que ficaram insepultos.

Calcula-se em 24 milhões o número de mortos nos países do Oriente.

BIOLOGIA DA MORTE:

Descoberta em 1894, o bacilo Pasturella pestis se manifesta de três formas: a pneumônica, que ataca os pulmões; a septicêmica, que infecta a corrente sangüínea; e a bubônica, a mais comum.

Em sua variação bubônica, a bactéria cai na corrente sangüínea, ataca o sistema linfático, provoca a morte de diversas células e cria dolorosos inchaços nas axilas e virilha. Com o passar do tempo, esses inchaços, conhecidos como bubões, se espalham por todo corpo.

Quando ataca o sistema circulatório, em sua variação septicêmica, o infectado tinha uma expectativa de vida de aproximadamente uma semana.

A doença também podia atingir o homem pelas vias aéreas atacando diretamente o sistema respiratório. Essa terceira versão, conhecida como peste pneumônica, tem um efeito ainda mais devastador e encurtava a vida do doente em um ou dois dias.

Yersina pestis, o vilão invisível do homem medieval

Yersina pestis, o vilão invisível do homem medieval

Os vetores do bacilo podem ser vários tipos de insetos hematófagos. O mais comum é a pulga Xenopsylla cheopis, que na época parasitava tanto o pequeno rato preto que vinha com os navios, Rattus rattus, como o rato marrom, dos esgotos. O bacilo vive alternadamente no estômago da pulga e no sangue do rato.

Xenopsylla cheopis, o hospedeiro da bactéria fatal: O grande vilão do homem medieval permaneceu invisível o tempo todo.

O excesso de bactérias pode entupir o tubo digestivo da pulga, o que causa problemas em sua alimentação. Esfomeada, ela busca novas fontes de alimento (como cães, gatos e humanos). Após o esforço da picada, ela relaxa seu tubo digestivo e libera as bactérias na corrente sangüínea de seus hospedeiros.

COTIDIANO MEDIEVAL:

Durante a Baixa Idade Média (séculos XI a XIV) as condições de vida dos homens, fossem eles camponeses ou nobres, permaneceram basicamente as mesmas em todo o continente. Geralmente a configuração das casas obedecia a um mesmo padrão, que consistia num grande recinto sem muitas subdivisões.

O piso era de terra batida, às vezes forrado com palha ou junco. O aquecimento vinha de uma fogueira, quase sempre acesa no meio da habitação. A fumaça saía por um buraco no teto, por onde entrava também a água da chuva, o que apodrecia a palha no chão. Muitas vezes havia uma única cama, onde dormiam a família toda. Os pais, no momento íntimo, preservavam sua intimidade com uma cortina de pano. Num mesmo cômodo podiam morar de 8 a 12 pessoas.

Os ambientes úmidos e enfumaçados, a falta de privacidade e a promiscuidade facilitavam sobremaneira a transmissão de inúmeras doenças. Quando um membro do grupo adoecia, era praticamente impossível evitar o contágio.

A arquitetura urbana seguia basicamente os mesmos padrões, com a diferença de que as residências de dois andares eram mais comuns. Às vezes havia um segundo piso na casa do artesão, que usava o térreo como oficina e loja. Isso implicava necessariamente em melhorias nos padrões da casa, como diminuição da umidade, separação física dos animais, lareiras e saídas laterais para a fumaça.

Entretanto, as cidades medievais eram apinhadas de gente, com esgotos a céu aberto, o que as tornava muito mais insalubres que as casas camponesas.  Todo tipo de desejo produzido numa residência era simplesmente atirado pela janela, muitas vezes na cabeça do transeunte que tivesse a infelicidade de estar no lugar e na hora errados. Conseguir água limpa para beber ou cozinhar era praticamente impossível pois o conteúdo das fossas se infiltrava no solo e contaminava os poços e lençóis. Os rios eram poluídos com todo tipo de resíduos indesejados, principalmente os oriundos de curtumes e matadouros.

Apesar da opulência, os nobres não viviam em condições melhores. Os castelos eram úmidos e infestados de ratos e baratas, mesmo reis e príncipes não possuíam educação nem costumes higiênicos, raramente tomando banho ou comendo com talheres. Essa displicência com as casas se deve ao fato de que o homem medieval passava pouco tempo dentro delas. Os camponeses trabalhavam o dia todo no campo e os nobres viajavam a maior parte do tempo. Para essas pessoas, uma casa servia  para dormir e se proteger da chuva ou frio.

O banho, acreditem ou não, era considerado prejudicial se tomado em excesso. E “em excesso” significava duas ou três vezes por ano. Na Abadia de Cluny, a mais opulenta da Europa, os monges se banhavam antes da Páscoa e no Natal. A igreja principalmente não o recomendava, pois a visão de um corpo nu, mesmo que fosse o seu próprio, levava invariavelmente a pensamentos pecaminosos. Havia ainda a incrível crença de que um corpo limpo seria mais vulnerável a doenças.

Devido ao custo do sabão, as roupas eram lavadas duas ou três vezes por ano, por isso viviam infestadas de pulgas, percevejos, piolhos e traças. O costume hoje de usarmos casacos de pele vem dessa época, em que os pêlos do lado de fora das vestimentas serviam para atrair as pulgas e piolhos e tornar sua presença pelo corpo menos incômoda. Catar piolhos era uma forma de lazer.

Os recém-nascidos levavam grande desvantagem, já que as mulheres forravam a cama com lençóis sujos e velhos para dar a luz, pois assim não estragavam os bons. Entre 1/4 e 1/3 das crianças morriam antes de 1 ano de idade, e apenas 50% alcançavam a idade adulta. A dieta era imprópria e mal balanceada, composta principalmente de pão. Vinhos, carnes, leite, legumes eram acompanhamentos.

TRATAMENTOS:

As causas das doenças eram totalmente ignoradas.

Atribuía-se quase tudo a influência dos astros e os médicos em geral eram também astrólogos. Para os pobres a resposta era simples: todos os males eram castigos de Deus. O tratamento se limitava, na melhor das hipóteses, ao isolamento e quarentena. Para quase tudo receitava-se sangria, além de infusões herbais e misturas estranhas.  A ignorância sobre as causas da doença tornavam a prevenção e o tratamento impossíveis. Quando a peste começou, falou-se em terremotos, enchentes, tempestades e “pés-de-vento-malignos”, mas as teorias mais aceitáveis eram a conjunção planetária e castigo divino.

Imgem de uma bíblia de 1411, onde um sacerdote reza por dois doentes

Imgem de uma bíblia de 1411, onde um sacerdote reza por dois doentes

O historiador Robert Muchembled nos informa que “era o ar envenenado, as miasmas e as névoas, provocadas por todo o tipo de agentes, desde um lago estagnado até a conjunção dos astros, que espalhavam a doença e a morte entre os homens”. Fogueiras imensas foram queimadas em toda a Europa, na esperança de deixar o ar mais limpo.

Como proteção, os médicos iniciaram seu célebre costume de usar uma máscara de bico longo cheia de aromas protetores. Os cheiros agradáveis, vindos de ervas e plantas medicinais “criados pela glória de Deus” impediriam o contágio com os odores pestilentos trazido ao mundo das profundezas do inferno. Assim, eles vestiam-se com trajes totalmente fechados, protegidos pelo aroma das substâncias. Alguns chegavam a obstruir todas as aberturas corporais, colocando um dente de alho na boca, incenso nas orelhas, arruda no nariz…

Trajes médicos da época

Trajes médicos da época

Alguns pensavam diferente e aconselhavam expulsar o mal com o mal, queimando chifres para curar um doente ou mantendo um bode na habitação, pois o “vapor” deste animal fedorento “impede que o ar pestífero aí encontre lugar”.

Viver na época medieval não era nada fácil, e além das dificuldades cotidianas, havia ainda temores crescentes de ordem religiosa.

PROGRESSÃO DA PRAGA:

As seguintes palavras foram extraídas do livro Decamerão, escritas pelo italiano Giovanni Boccaccio, contemporâneo da pandemia:

“Afirmo, portanto, que tínhamos atingido já o ano bem farto da Encarnação do Filho de Deus, de 1348, quando, na mui excelsa cidade de Florença, cuja beleza supera a de qualquer outra da Itália, sobreveio a mortífera pestilência. Por iniciativa dos corpos superiores, ou em razão de nossas iniqüidades, a peste, atirada sobre os homens por justa cólera divina e para nossa exemplificação, tivera início nas regiões orientais, há alguns anos. Tal praga ceifara, naquelas plagas, uma enorme quantidade de pessoas vivas. Incansável, fôra de um lugar para outro; e estendera-se, de forma miserável, para o Ocidente.”

Terremotos, secas, boatos de inundações na Ásia, a grande onda de calor do século XIII, mudanças no clima, fome por toda a parte. As pessoas daquela época sentiam que Deus as havia abandonado.

Em 1348 a peste chegou ao centro e ao norte da Itália e dali se irradiou como um câncer por toda a Europa. Em sua caminhada devastadora, semeou a desolação e a morte nos campos e nas cidades.

Progressão da peste na Europa. Manchas verdes indicam áreas pouco afetadas.

Progressão da peste na Europa. Manchas verdes indicam áreas pouco afetadas.

Ao chegar em uma cidade, a doença provocava mortandade durante quatro a seis meses, depois decrescia.

Após de ceifar diversas vidas, os centros urbanos ficavam praticamente abandonados. Os que por sorte sobreviviam à doença tinham que enfrentar a falta de alimentos e a crise sócio-econômica instalada no local.

Boccaccio nos deixou um relato de tanta desordem social:

Entre tanta aflição e tanta miséria de nossa cidade, a autoridade das leis, quer divinas quer humanas desmoronaram e dissolveram-se. Ministros e executores das leis, tanto quanto outros homens, todos estavam mortos, ou doentes, ou haviam perdido os seus familiares e assim não podiam exercer nenhuma função. Em conseqüência de tal situação permitia-se a todos fazer aquilo que melhor lhes aprouvesse“.

Por isso, muitas cidades tentavam se precaver da epidemia criando locais de quarentena para os infectados, impedindo a chegada de transeuntes e dificultando o acesso aos perímetros urbanos. Sem muitas opções de tratamento, os doentes se apegavam às orações e rituais místicos.

Um padre abençoa doentes em procissão

Um padre abençoa doentes em procissão

Em Siena mais da metade da população morreu. Outras regiões, como Bearn, na França ou o noroeste da Europa escaparam incólumes, num fenômeno que é de difícil explicação até hoje.

Mortes em massa

Mortes em massa

Uma de nossas certezas é a de que a  doença era absolutamente aterrorizante. Os bubões purgavam pus e sangue, e eram acompanhados por manchas escuras, resultantes de hemorragias internas. As dores eram fortes e os doentes em geral morriam cinco dias após os primeiros sintomas.

Na forma pneumônica, o doente tinha febre alta e constante, tosse forte, suores abundantes e escarro sanguinolento, e morriam em três dias ou menos. Em qualquer das variações, tudo o que saía do corpo – hálito, suor, sangue dos bubões e pulmões, urina sanguinolenta e excrementos enegrecidos pelo sangue – tudo isso cheirava extremamente mal.

A depressão e o desespero acompanhavam os sintomas físicos, um cronista disse que “a morte se estampava no rosto dos condenados”. Pra piorar,  a presença simultânea das três formas tornava o contágio extremamente rápido. Contavam-se casos de pessoas que dormiam com saúde e morriam antes de acordar.

No imaginário medieval, a morte ganhou fama de uma vilã insaciável

No imaginário medieval, a morte ganhou fama de uma vilã insaciável

Séculos antes de Hitler, judeus foram perseguidos e massacrados na Alemanha, acusados de disseminar a doença.

Guy de Chauliac, médico do papa e que sobreviveu à doença, nos informa que “a grande mortandade teve início em Avignon em janeiro de 1348. (…) Era tão contagiosa que se propagava rapidamente de uma pessoa a outra; o pai não ia ver seu filho nem o filho a seu pai; a caridade desaparecera por completo“. E continua num relato impressionante: “Não se sabia qual a causa desta grande mortandade. Em alguns lugares pensava-se que os judeus haviam envenenado o mundo e por isso os mataram“.

De modo geral, as perseguições às minorias aumentaram drasticamente. O fato de a maioria dos médicos judeus pouco poder fazer, junto com o fanatismo religioso que se apossou das populações aterrorizadas, contribuiram para a acusação e perseguição a essa minoria. Além disso, os judeus tornaram-se suspeitos quando, devido às suas leis de higiene (cumpridas rigorosamente), suas vítimas foram em menor número que as das comunidades cristãs. Houve mais de 150 massacres e dezenas de comunidades judaicas menores foram exterminadas pelos motins católicos, facilmente incitados pelos priores locais, apesar das condenações pelos altos clérigos. Calcula-se que em Borgonha, na França, 50.000 judeus foram assassinados.

Em 1348, Filipe VI pediu a faculdade de medicina da Universidade de Paris um relatório. Os doutores se reuniram e chegaram à conclusão de que a doença se devia a uma tríplice conjunção de Saturno, Júpiter e Marte no 40° de Aquário, ocorrida em 20 de março de 1345. Finalizaram dizendo que deveria haver algum outro motivo, que “estavam ocultos até mesmo dos intelectos mais altamente formados.”

Diante do avanço inexorável da praga, muitos fugiram para os campos. O fato de ser mortal não incitava solidariedade, apenas um desejo de escapar ao mesmo destino.

A peste em Tournai, na Bélgica

A peste em Tournai, na Bélgica

Os corpos se avolumavam nas casas abandonadas e não lhes era dada nem mesmo a possibilidade de um enterro cristão. O resultado da epidemia era tão devastador que Boccaccio chegou a dizer que as vítimas freqüentemente “almoçavam com os amigos e jantavam com seus ancestrais, no paraíso”.

A situação ficou tão desesperadora que muitos pais estavam deixando para trás seus filhos. Religiosos que ficavam encarregados de cuidar dos enfermos também abandonavam seus postos largando os moribundos a sua própria sorte. Outros, invocando a proteção de santos, desafiavam a doença e permaneciam junto aos moribundos. Frades capuchinhos e jesuítas cuidaram dos pestosos em Marselha, correndo todos os riscos. Dessa época surge a corajosa Confraria dos Loucos que, sob o apadrinhamento de São Sebastião Mosteiros, pedia alívio diante do terror da morte. Abadias e conventos eram abandonados depois do surgimento dos primeiros sinais de que também eles, representantes de Deus na Terra estavam com a peste. Advogados, responsáveis pela criação de testamentos dos doentes, não se atreviam a permanecer por perto para realizar o trabalho que deles era esperado.

Em meio à histeria, o movimento dos flagelantes ofereciam o sacrifício do próprio corpo a um Deus enfurecido com a humanidade

Em meio à histeria, o movimento dos flagelantes ofereciam o sacrifício do próprio corpo a um Deus enfurecido com a humanidade

Magistrados e notários se recusavam a fazerem testamentos, padres fugiam da extrema unção e até os médicos recusavam-se a atender seus pacientes. Os que ficavam receitavam poções exóticas: picadinho de serpente, pílulas de galhos de gamo triturados, mirra, açafrão e até pó de ouro.

Os tratamentos variavam entre a sangria, a cauterização dos bulbões, laxantes ou a aplicação de emplastros quentes. Até mesmo pérolas e esmeraldas moídas deram esperanças aos mais ricos, que se agarravam à crença de que a qualidade do tratamento era proporcional ao seu custo.

Perfurção de um bubão para aliviar a dor

Perfurção de um bubão para aliviar a dor

O chão devia ser varrido freqüentemente e salpicado com água. Mãos, boca e narinas lavadas com vinagre e água de rosas. Recomendava-se dietas leves, abstinência de excitação e irritação, exercícios moderados e distância de pântanos e outras fontes de ar viciado.

Havia também a curiosa crença de que os zeladores dos banheiros públicos estavam imunizados, e muitas pessoas iam até lá, supondo eficazes seus maus odores.

Depois de apenas 5 anos, calcula-se que aproximadamente 25 milhões de pessoas haviam perecido. Isso equivalia, à época, a um terço da população européia. A morte de contingente tão grandioso de pessoas provocou conseqüências sérias que mudaram a história do Ocidente. Por exemplo, faltavam trabalhadores para a realização da labuta no campo. Isso motivou os camponeses a exigir de seus senhores a diminuição dos encargos feudais e um aumento de seus ganhos. A recusa dos proprietários das terras em aceitar essas exigências levou os servos a violentas revoltas que aconteceram em vários países, como a Itália, a França, a Inglaterra e os Países Baixos.

Em alguns lugares, enquanto o mal persistia, medidas preventivas foram tomadas pelos governantes. Em Milão, os representantes do poder público muravam casas com famílias inteiras dentro assim que surgia o menor sinal da doença, tentando assim evitar o contato das mesmas com pessoas saudáveis. Dessa forma pretendiam que o contágio da enfermidade não acontecesse. Em Veneza foram adotadas medidas como a quarentena e o isolamento das embarcações que chegavam à cidade em uma ilha para evitar que novos focos da peste bubônica pudessem surgir.

Em Nuremberg, instituiu-se um programa de limpeza das ruas. A higiene pessoal foi estimulada, alguns trabalhadores receberam um bônus no salário destinado ao banho. Apesar de não conseguirem evitar as mortes em seus municípios, tais medidas tornaram a quantidade de vítimas inferior ao de outras cidades da Europa que não haviam tomado qualquer providência para combater a doença.

A devastação da peste diminuiu após 1350. Sua marcha mortal pela Europa deixou seqüelas permanentes, transformou as relações entre as pessoas, abalou a imagem do clero, reforçou a fé pessoal e aumentou os cultos místicos. Na arte, mudou a forma da morte, doravante como um monstro horrível que levava nas costas os cadáveres mutilados.

A Donzela e a Morte

A Donzela e a Morte, de H. B. Grien

Como eu disse no início, não se pode estudar um fenômeno histórico com a percepção de nossa era. É preciso mergulhar no contexto. Não fossem as péssimas condições de higiene e moradia, mais ou menos iguais em todo o continente, a doença não teria alcançado tal patamar. A Europa começava a se abrir para o mundo, mas ainda vivia num ambiente concebido para o isolamento e a auto-sustentação, frágil diante da vastidão selvagem do estrangeiro, e às suas mazelas. O aspecto primitivo da praga foi o impulso na direção de uma melhoria considerável das cidades, das moradias e da medicina.

Anúncios