Hitler e a Alemanha Nazista Sob o Enfoque do Realismo Fantástico

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SOBRE O LIVRO:

Antes de mais nada devo esclarecer que não sou neonazista, não pretendo justificar as atrocidades cometidas por Hitler nem elevar sua figura em qualquer sentido. O leitor que me acompanhar no texto verá claramente o quanto a cosmogonia de Horbiger é impossível no nosso universo, representando somente a imagem da prepotência e da loucura de um homem delirante. Ainda que as outras teorias que ele utilizou para embasar a sua, como a dos homens gigantes, realmente tem incomodado os historiadores com relatos os mais diversos espalhados pelo mundo afora. Escrevi esse texto por achar extraordinário que um pensamento tão primitivo, tão de dentro do homem tenha emergido de maneira tão catastrófica após séculos de cultura racional. Talvez, para seguir a linha de pensamento de Jung, tenha sido justamente esse pensamento que possibilitou o florescimento de uma coisa tão horripilante na Alemanha do século passado. Mas, é verdade também que sempre tive um interesse pelo mal, e como nos diz Joachim Fest sobre Hitler, “sua figura se presta ao arquétipo de tudo o que de obscuro e horripilante jamais existiu na face da Terra.”

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Os méritos do texto, obviamente, não devem ser atribuídos a mim. A vasta pesquisa aqui condensada deve-se a um livro chamado O Despertar dos Mágicos, com o qual tive o primeiro contato aos quatorze anos de idade.

Eram quase oito da noite do dia primeiro de novembro de 2000 quando meu pai chegou do trabalho, trazendo-me uma caixa lotada de livros que uma freguesa estava prestes a doar para a biblioteca. Dentre aquele monte de maravilhas, que eu folheava ávido e excitado, a capa sem graça de O Despertar dos Mágicos não me chamou a atenção, mas o título incomodava alguma coisa dentro de mim. Depois que a euforia passou, li o resumo nas orelhas mas a linguagem escapou à minha cultura de adolescente, e continuei sem saber do que, afinal, aquele livro se tratava. Ele ficou anos na minha estante, a lombada branca se destacando e parecendo me chamar, mas mesmo assim eu resistia. Um dia não aguentei e li o prefácio. O autor falava sobre o pai num texto lindo, contando que era um velho alfaiate que tinha na oficina uma estante com uns trinta volumes, os quais guardava com esmero, como se fossem símbolos do que havia de mais valoroso no homem: o conhecimento. Apesar de ter gostado, esse prefácio em si de nada me adiantou sobre o conteúdo do livro. Além do mais, e aqui é uma ironia, a menção do nazismo na contra-capa me fez desanimar um pouco, pois na época a Segunda Guerra era um dos assuntos que eu considerava chato, fazia-me lembrar das fotografias em preto e branco que eu me acostumara nos livros didáticos da sétima e oitava séries.

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Fui ler o livro totalmente pela primeira vez em agosto de 2005, dois meses depois de O Diário de Anne Frank. Mesmo assim, passei os olhos sobre os capítulos destinados ao nazismo sem prestar muita atenção, aparentemente ansioso por assuntos mais interessantes. Nessa primeira leitura, gostei especialmente daquele velhinho europeu que juntava recortes de jornal sobre assuntos bizarros (o que me fez querer adicionar o blog Arquivos do Insólito aos meus favoritos) e a história da máquina que escreveria todos os nomes de Deus.

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Jacques Bergier

Louis Pauwels

Louis Pauwels

Aí, em maio de 2008 reli o livro, dessa vez com olhos bem diferentes. Eu devorava as páginas, lápis e régua nas mãos pra sublinhar as melhores passagens, sacudindo dentro de um ônibus, na sala de aula, na hora do almoço no estágio, na cama de madrugada. Quando cheguei na parte destinada ao nazismo, não podia acreditar nas informações que estava absorvendo, que aquilo  fizesse realmente sentido. Tudo bem amarrado, tudo… coerente. Continuei lendo o livro, riscando freneticamente.

o despertar manchado

No início do ano, fui ver Operação Valquíria no cinema, e ai resolvi escrever essa postagem. Ficará longa e bastante cansativa para a maioria, especialmente se levo em conta que tenho que disputar a atenção do leitor num ambiente tão concorrente quanto a internet. Porém, não consegui resumir mais o assunto e prefiro acreditar, como diz Thomas Mann, que a natureza enfadonha ou cativante de um texto não depende do seu tamanho. Os apressados que me perdoem à prolixidade, tentei enxugar o texto o máximo que consegui.

QUEM É QUEM NO DELÍRIO NAZISTA:

Hitler e seu cão: "Não é verdade que eu considere o judeu um animal".

Hitler e seu cão: "Não é verdade que eu considere o judeu um animal".

“A Terra é oca. Nós habitamos o interior. Os astros são blocos de gelo. Já caíram várias luas sobre a Terra. A nossa também cairá. Toda a batalha da humanidade se explica pela luta entre gelo e fogo.

O homem não está acabado. Está à beira de uma formidável mutação que lhe dará os poderes que os antigos atribuíam aos deuses. Existem no mundo alguns exemplares do Homem Novo, vindos talvez do além das fronteiras do tempo e do espaço (…). Aqueles que tiverem um pacto modificarão por milênios a superfície da Terra e darão um sentido à aventura humana.”

Obscurecidas pela história oficial, tais crenças de um universo movido por forças mágicas constituíu-se o motivo principal que norteou a ideologia do partido nazista e várias decisões de Hitler no decorrer da guerra, pelo menos esta é a convicção de Bergier, da qual trataremos aqui.

Tais interpretações do acontecimento mais grave do século XX podem, como afirma o autor, parecer algo “extravagante e altamente suspeito”, mas O Despertar não respeita a sistemática científica contemporânea em sua busca pela verdade.

Defendendo suas idéias, apresenta-nos primeiramente o explícito sentido anti-intelectual do partido nazista, que ergueu fogueiras de livros e classificou os físicos teóricos, na vanguarda do pensamento positivista da época, em inimigos “judaico-marxistas”.

Cosmogonia Glacial, tudo repercute sobre tudo.

Cosmogonia Glacial, tudo repercute sobre tudo.

Rejeição total e aberta da ciência ocidental.

Atentando para que tipo de cosmogonia e natureza universal se apoiavam as mentes da cúpula nazi, entenderemos mais claramente porque a segunda guerra mundial pode ser classificada como um conflito espiritual.

Uma legião inteira à serviço das forças ocultas

Uma legião inteira à serviço das forças ocultas

Temos aqui a idéia das potencialidades escondidas no homem. Poderes despertos em alguns poucos privilegiados, que se “erguem da massa e a fazem parecer patética e inútil.” A chama inconfundível e ofuscante do verdadeiro espírito.

O doutor Willy Ley, perito em foguetes, fugiu da Alemanha em 1933 e contou sobre uma comunidade secreta espiritual existente naquele mundo “pré-nazi”.

Willy Ley

Willy Ley

A seita baseava-se num romance intitulado A Raça Que Nos Há de Suplantar, do escritor inglês Bulwer Lytton.

Ali há a descrição de uma raça de homens superiores, com poderes semelhantes aos dos antigos deuses, e que habitam as cavernas e os subterrâneos, reunindo forças e aumentando em número, enquanto aguardam o dia em que sairão e nos governarão.

Ley dizia, sorrindo despreocupado, que os integrantes da seita acreditavam ter segredos capazes de melhorar nossa raça. A sociedade recebia o nome de A Loja Luminosa ou Sociedade do Vril, compreendendo-se vril como energia vital, presente no homem mas utilizada somente em ínfima escala pelos não iniciados.

Aprimorar nossas faculdades é a única chance de sermos também senhores e não perecermos como escravos quando o Homem Novo chegar e nos dominar. Crescer em espírito e com ele formar uma aliança, eis a motivação principal em que a humanidade deve empenhar-se.

Bulwer Lytton, autor do romance que deu origem à seita, considerava-se um iniciado, e ao que indica escrevia suas histórias fictícias permeadas de crenças particulares. Ele só não podia imaginar que essas crenças arrastariam consigo toda uma nação e provocaria um desastre como o mundo humano nunca havia presenciado.

Bulwer Lytton trouxe à tona a velha história das mudanças que ocorreriam no globo, em especial com o homem. Primeiros reflexos de uma preocupação cada vez mais angustiante sobre onde a Revolução Industrial está nos levando?

Bulwer Lytton trouxe à tona a velha história das mudanças que ocorreriam no globo, em especial com o homem. Primeiros reflexos de uma preocupação cada vez mais angustiante sobre onde a Revolução Industrial está nos levando?

A idéia da mutação da raça vem de Darwin e Mendel; a dos “Superiores Desconhecidos”, por outro lado, espalha-se pelo mundo afora nas mais diversas culturas, desde os tempos mais remotos. São gigantes que brotam da terra ou descem das estrelas, ou seres informes e terrificantes descritos por Lovecraft.

Hitler não apenas compartilhava as crenças como parecia querer tomar contato com os Superiores.

“O objetivo de Hitler não é nem a criação de uma raça de senhores, nem a conquista do mundo; isso são apenas os meios para realizar a grande obra (…). Uma ascensão da humanidade ainda não igualada, a aparição de uma humanidade de heróis, de semideuses, de homens-deuses”, para citar O Despertar.

Foi o Outro Mundo que estarreceu o planeta através do nazismo.

Àquela época, o governador de Dantzing, Rauschning, ouvia as elucubrações de Hitler sobre as melhorias da raça. Membro do partido, ele se tornou quase um “pombo entre os gatos”, horrorizado com o rumo que as coisas tomavam.

Rauschning, ouviu o suficiente e sobreviveu para escrever um livro sobre suas conversas com Hitler

Rauschning, ouviu o suficiente e sobreviveu para escrever um livro sobre suas conversas com Hitler

Produto do clássico pensamento ocidental, Raushning tomava notas constantes do que ouvia de Hitler, entendendo seus planos como o de um criador de gado que tentava melhorar o rebanho.  Sem entrar no pensamento místico do Führer, ele tentou discutir que não poderiam fazer nada a não ser guiar as mutações num certo sentido, e esperar por uma variação nova, espontânea e ao acaso. Recebeu como resposta o que se segue:

“- O Homem Novo vive entre nós! Já chegou! Isto não lhe basta? Vou dizer-lhe um segredo. Eu vi o Homem Novo. É intrépido e cruel. Tive medo diante dele.”

Rauschning acrescenta que “ao pronunciar essas palavras, Hitler tremia num ardor extático.”

Numa outra anotação detalhada, temos o relato de uma cena estranhíssima:

“Uma pessoa da intimidade de Hitler disse-me que ele acorda durante a noite soltando uivos convulsivos. Pede socorro, sentado na beira da cama, como que paralisado. É possuído por um pânico que o faz tremer a ponto de sacudir a cama. Profere vociferações confusas e incompreensíveis. Arqueja como se estivesse a sufocar. A mesma pessoa me relatou uma dessas crises com pormenores em que me recusaria a acreditar se a fonte não fosse de tanta confiança. Hitler estava de pé no seu quarto, cambaleante, olhando em redor com o olhar desvairado. “É ele! É ele! Ele esteve aqui!”, gemia. Os lábios tremiam-lhe, o suor escorria abundantemente. De súbito pronunciou números sem o qualquer sentido, depois palavras, restos de frases. Era pavoroso. Empregava termos curiosamente reunidos, absolutamente extraordinários. Depois, novamente, voltava a ficar silencioso, mas continuava a mexer os lábios. Tinham-no então friccionado, e fizeram-no tomar uma bebida. Depois, subitamente, berrou: “Ali, ali no canto! Está ali!”. Batia o pé no chão e soltava gritos. Tranqüilizaram-no, dizendo-lhe que nada se passava de anormal, e ele acalmou-se pouco a pouco. Em seguida, dormia várias horas seguidas e voltava a ser quase normal e suportável.”

O que perambulou naqueles anos negros do século XX parece ter se esgueirado através da porta entreaberta para um mundo totalmente diferente, talvez para o Mal em sua essência mais absoluta.

Ele queria limpar o mundo para a próxima mutação da raça

Ele queria limpar o mundo da degeneração humana.

Como tal experiência possa ter sido sublimada pelos ruídos da desordem política que se seguiu, é algo que precisa ser analisado. Pessoalmente, acredito que tal fenômeno deva ser atribuído à nossa incapacidade de compreender tal mundo e à forma torta e ineficaz de procurarmos soluções racionais para tal evento.

Apesar dos avanços da ciência, as seitas secretas também pululavam pelas cidades européias, tentando equilibrar as forças conscientes na busca de um progresso acima de qualquer preço. De todas essas sociedades, a Teosófica parece ter sido a que exerceu mais influência e fascínio no início do século XX.  “Juntava à magia neopagã uma solenidade oriental e uma terminologia hindu. Ou antes, abria os caminhos do Ocidente a um certo Oriente luciferino.”

Renascimento mágico.

Em 1921, o filósofo Renê Guénon já mostrava temores de que a proliferação dessas seitas indicasse uma “ebulição” no mundo dos espíritos, provocada muitas vezes por pessoas despreparadas, incapazes de prever que conseqüências suas atividades inconseqüentes poderiam trazer.

Guénon achava que o homem estava brincando com o mundo dos espíritos, e temia uma "ebulição do sobrenatural".

Guénon achava que o homem estava brincando com o mundo dos espíritos, e temia uma "ebulição do sobrenatural".

Rudolph Steiner, extraordinário personagem que deixou extenso legado, achava que o teosofismo e as outras sociedades neopagãs abriam caminho para uma era demoníaca, e criou uma escola de magia branca. Certo ou não, Steiner e seus discípulos foram energicamente perseguidos pelos nazistas, até o exílio.

No início do século, Steiner acreditava que a europa estava diante de uma era demoníaca.

No início do século, Steiner previa o destino das nações com um ponto de vista espiritual.

O verão de 1925, cartas foram entregues nas residências dos mais importantes cientistas da Alemanha e da Áustria. O conteúdo era um ultimato:

“Agora é preciso escolher, estar conosco ou contra nós. Ao mesmo tempo que Hitler limpará a política, Hans Horbiger destruirá as falsas ciências. A doutrina do gelo eterno será o sinal da regeneração do povo alemão”.

Horbiger era um homem de sessenta e cinco anos e com fama de profeta. Exibindo uma vasta barba branca, era uma figura imponente. A sua doutrina do gelo eterno esbarrava na astronomia clássica, por outro lado ia de encontro a mitos antiqüíssimos que ele gostava de usar como argumentos à suas idéias. Apesar de místico declarava-se um cientista, estava apenas na vanguarda de uma série que o acompanharia ditando os novos rumos do método científico. “A ciência objetiva é uma invenção perniciosa, um totem de decadência.”

Hanns Horbiger acreditava no poder da intuição inspiradora: "a ciência objetiva é um totem de decadência."

Hanns Horbiger acreditava no poder da intuição inspiradora: "a ciência objetiva é um totem de decadência."

Não estava sozinho.

Horbiger, por sua vez, dedicava-se a popularizar suas obras, nem que por meio da força. Logo as conferências de ciência tradicional foram tumultuadas por seguidores fanáticos que gritavam: “Fora os cientistas ortodoxos! Sigam Horbiger!”.

Confusões nas ruas, ameaças a professores universitários, o explosivo Horbiger não admitia ser contrariado. Obrigou empresários a recolherem declarações de seus empregados que escreviam “Juro ter confiança no gelo eterno.” Três volumes foram publicados, ganhando milhares de novos adeptos.

A resistência ao novo ensinamento diminuiu depois da subida de Hitler, ainda que ele não tenha obrigado a abolir a astronomia ortodoxa do currículo das faculdades.

Hitler protegia Horbiger e acreditava nele. Os dois se encontravam constantemente e o temido chefe nazi parecia nutrir um profundo respeito pelo velho profeta excêntrico. Horbiger não suportava ser interrompido por quem quer que fosse enquanto discursava, o que incluía o próprio Hitler. Temos relatos de que ele o mandava “calar a boca” durante as conversas. Vários cientistas de renome passaram a acreditar no profeta ensandecido, como Leonard, co-inventor do raio-x, para ficarmos em um só exemplo.

Com paixão e eloqüência, afirmava categoricamente que o divino povo alemão estava sendo infectado pela ciência ocidental, separando corpo de alma. Suas histórias de civilizações de gigantes, castigos divinos e dilúvios casavam bem com a teoria ariana.

“As origens fabulosas da raça ariana, que descera das montanhas habitadas pelos Super-Homens de outra era, destinada a mandar no planeta e nas estrelas estava estabelecida.”

No evento psicológico que Jung chamaria de “libido do sem-razão”, o socialismo mágico espalhou-se nas mentes de milhares de pessoas, enfraquecidas e humilhadas desde o fim da Primeira Guerra.

Mas, afinal, do que tratava tal ideologia?

A FANTÁSTICA COSMOGONIA DE HORBIGER:

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Foi em 1913 que as idéias de Horbiger entraram para a história da literatura. Philipp Fauth, famoso astrônomo da época (uma das crateras lunares recebe hoje seu nome), publicou um grosso e pretensioso volume intitulado A Cosmogonia Glacial de Horbiger.

Horbiger havia trabalhado como projetista numa fábrica de máquinas a vapor, onde se apaixonou pelo fenômeno das mudanças de fases da água. Com isso pretendeu explicar toda a cosmogonia e toda a astrofísica. Achava-se guiado pelo divino, e em surtos de inspiração concebeu toda a história do cosmos, não apenas o que já aconteceu desde o início mas também o que havia por vir.

Basicamente, tudo se resume à luta perpétua entre fogo e gelo e forças de gravitação que atraem ou repelem os corpos. Tais leis eram extensíveis aos seres da Terra, inclusive os humanos.

Em conformidade com a ciência do renascimento, ainda permeada de fatores medievais, o Universo volta a ser, na Alemanha nazista, um organismo vivo, muito além de Gaia, onde tudo repercute sobre tudo e a aventura dos homens está ligada à aventura dos astros.

O movimento dos astros influencia no movimento dos seres humanos.

O movimento dos astros influencia no movimento dos seres humanos.

A ciência admitida no Ocidente é uma conspiração nociva que precisa perecer.

“-Há uma ciência nórdica e nacional-socialista que se opõe à ciência judaico-liberal.” – diz o próprio Hitler.

“É uma conspiração contra o sentido da epopéia e do mágico que reside no coração do homem forte, uma vasta conspiração que fecha para a humanidade as portas do passado e do futuro para além do curto espaço das civilizações recenseadas, que a despoja de suas origens e do seu destino fabuloso e que a priva do diálogo com seus deuses.”

É portanto em surtos de inspiração que vem a verdadeira Eureka. Por exemplo, certo dia, quando observava metal derretido em contato com a neve, Horbiger compreendeu como se deu a origem do sistema solar.

Havia no espaço, em tempos imemoriais, um corpo de massa milhões de vezes superior ao do nosso sol. Um errante planeta gelado colidiu com sua superfície quente e foi absorvido. Nada aconteceu por milhões de anos. Depois, o vapor d’água fez explodir tudo. Os fragmentos remanescentes originaram os planetas.

Desastres gavritacionais

Desastres gravitacionais...

A via láctea, fotografada pelos astrônomos é uma ilusão. Na verdade é um anel de gelo residual que se conserva nas imediações de Netuno. As manchas solares, naturalmente, são precipitações de gelo desprendido de Júpiter.

O delírio não para por ai, na verdade vai muito além.

Há quatro eras geológicas, pois houve quatro luas. Estamos no quaternário. No período em que o satélite se aproxima, observa-se um gigantismo nas espécies.

No Primário temos os vegetais e os insetos imensos.

No final do Secundário os dinossauros e a primeira raça de gigantes, ambos desaparecidos com a queda da segunda lua.

Quando a lua terciária é capturada pela gravidade da Terra já existiam homens vulgares, nossos antepassados, mas ainda dominados pelos gigantes remanescentes.

A idéia de que o homem evoluiu lentamente é recente, um mito imposto nas consciências. Outrora o homem sabia descender dos deuses, uma verdade que ainda reside em muitas tradições.

“A lua terciária, cuja espiral se estreita, reaproxima-se da Terra. As águas sobem aspiradas pela gravitação do satélite, e os homens (…) sobem para os mais altos cumes montanhosos com os gigantes, seus reis.”

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Gigantes no passado remoto...

Uma sociedade marítima mundial é fundada, Atlântida. Não no meio do Atlântico como se pensa, mas no alto dos Andes. Sedimentos marinhos fósseis encontrados nos picos das montanhas latinas provam o antigo nível dos mares. Em Tiahuanaco as construções de gigantes permanecem até hoje, as vezes num grau de estilização tão alto que chega a constranger nossas mentes modernas. Os calendários astronômicos são de tais modos precisos que alguns pesquisadores chegam a pensar que seus construtores tinham cultura equivalente ou mesmo superior à nossa. Os discípulos de Horbiger vêem na cidade suspensa a quatro mil metros do mar vestígios de portos e cais, de onde os atlantes partiam para visitar os outros grandes centros de civilização: México, Nova Guiné, Abissínia, Tibete.

Porta da Lua, em Tiahuanaco. Horbiger estava certo de que tais construções só poderiam ter sido arquitetadas por uma mente superior.

Construções suprahumanas. Aqui, a Porta da Lua, em Tiahuanaco. Horbiger estava certo de que tais construções só poderiam ter sido arquitetadas por uma mente superior.

Cientes do cataclismo iminente provocado pela queda da terceira lua, esses povos evoluídos concentram suas energias psíquicas no retardamento do desastre, mas sem evitar que ele aconteça. Com o desabamento, os mares recuam drasticamente, o ar se torna mais rarefeito, e as civilizações marítimas agonizam sem oxigênio nos cumes das montanhas.

No México, os toltecas residuais deixam textos sagrados que batem com a teoria de Horbiger.

Na Nova Guiné, os sobreviventes, já despertencializados de sua nobreza antepassada, continuam a erigir esculturas imensas e adorar a Lua como criadora do gênero humano.

Da Abissínia os gigantes teriam descido após a hecatombe, passando a viver por um tempo entre os povos do mediterrâneo.

O Tibete, por fim, continua até hoje como lugar fonte de conhecimentos milenares sobre o psiquismo.

Já depois do fim da guerra, em 1957 , surgiu um livro na Europa intitulado Le Troisième Oeil (O Terceiro Olho) escrito por um suposto mestre lama que atingiu o último grau de iniciação chamado Lobsang Rampa.

O Terceiro Olho.

O Terceiro Olho.

Descreve, com fascínio, sua descida a uma cripta de Lassa, acompanhado por três outros mestres:

“Vi três túmulos de pedra negra decorados com gravuras e inscrições curiosas. Não estavam fechados. Ao olhar para o interior, perdi o fôlego.

-Olha, meu filho – disse-me o decano dos abades – Eles viviam como deuses no nosso país, na época em que não havia montanhas (…).

Obedeci, e sentia-me a um tempo fascinado e aterrado. Três corpos nus, cobertos de outro, estavam estendidos sob meus olhos. Cada uma de suas feições era fielmente reproduzida pelo ouro. Mas eram imensos! A mulher media mais de três metros e o maior dos homens não menos que cinco. Tinham cabeças grandes, ligeiramente cônicas na parte superior, boca pequena e lábios finos (…). Examinei a tampa de um dos túmulos. “Um mapa dos céus, com estrelas muito estranhas, estava ali estampado.”

Em 1925, a National Geographical publicou um mapa do céu encontrado no Tibete muito diferente do nosso. Os especialistas concluíram que as estrelas haviam estado naquela conformação há aproximadamente 13.000 anos.

Himalaia, terra dos Superiores Desconhecidos

Himalaia, terra dos Superiores Desconhecidos

Se as antigas civilizações tivessem atingido um grau de perfeição social e técnica, defende Bergier, podiam volatizar-se num ápice, e desaparecerem sem deixar vestígios desse avanço. Alguns cientistas defendem (e mesmo sem ser cientista, estou de acordo com eles) que uma civilização se torna mais frágil na mesma proporção em que se desenvolve. Nossos equipamentos diminuem a cada ano, se tornam mais simples e vulneráveis. Hoje a internet lança uma teia sobre tudo, e cada vez mais. Em pouco tempo não apenas os computadores e celulares, mas também os carros, as casas, as geladeiras e cafeteiras estarão online. “Até o dia em que bastará um acidente no manancial para que tudo se volatize ao mesmo tempo sobre a imensa cadeia desses difusores (…). São as mais perfeitas civilizações que desaparecem de um dia para o outro, sem nada transmitirem (…). Pode-se supor que as centrais e difusores de energia psíquica, que estavam talvez na base da civilização do terciário, explodem de uma só vez, enquanto descampados de lodo cercam esses cumes agora esfriados e onde a atmosfera torna-se irrespirável.”

Os homens descem das montanhas e tornam-se outra vez selvagens na escuridão das noites sem lua que se seguem. Horbiger calcula um período de 138.000 anos sem satélite, onde os últimos gigantes fundam as grandes civilizações que hoje conhecemos,inclusive uma segunda Atlântida, essa sim no meio do Atlântico, muito menos e menos desenvolvida, da qual nos fala Platão.

Há 12.000 anos a Terra captou outro satélite, nossa Lua atual. O globo abaúla-se nos trópicos, a segunda Atlântida submerge no oceano que se ergue em maré, num evento conhecido por nós como o Dilúvio profetizado por Noé.

Os gigantes degeneram, tornam-se monstros que os homens passam a combater. São os ogros das lendas. É a morte dos deuses, o início dos cultos à Lua. “Não deixamos de sentir, ao contemplá-la, qualquer coisa que se agita no fundo de nossa memória, mais vasta que nós mesmos.”

No fim, todos os planetas desabarão sobre o sol, levando à nova explosão.

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A lua desabará sobre a Terra. Durante milênios, a sutil espiral de translação fechar-se-á, até atingir o ponto crítico. A força de gravitação que o satélite exerce aumentará. As águas aumentarão de volume, cobrindo partes secas numa maré permanente. Os seres vivos se sentirão mais leves, e aumentarão de tamanho. Os raios cósmicos se intensificarão e provocarão mutações. Novas raças de animais, plantas e homens.

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Girando cada vez mais rapidamente, a Lua explodirá transformando-se num anel de detritos que, após algum tempo, acabará também por cair. É o Apocalipse. Se alguns homens sobreviverem, se forem fortes e preparados o bastante, então lhes restará o espetáculo final.

Após milênios sem seu último satélite, em que as raças se misturarão, Marte resvalará também sobre nosso planeta, atraído inevitavelmente pela gravitação do Sol. Passará rente à órbita da Terra, arrastando consigo nossa atmosfera. Os oceanos entrarão num último maremoto, o mais terrível de todos; a crosta estalará e engolirá a vida. A Terra será transformada num globo de gelo que, após sucessivas orbitações, também será engolfado pelo Sol, levando a outra explosão.

Tal é a tese de Horbiger.

AS ATITUDES DO FÜHRER:

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Dietrich Eckardt, fundador da sociedade mística de Tule foi uma espécie de tutor de Hitler nos anos 20. Ensinou-lhe em mão dupla, a doutrina da propaganda e a doutrina “secreta”. Em 1923, no leito de morte, disse: “Sigam Hitler. Ele há de dança, mas a música foi escrita por mim. Nós lhe concedemos os meios de se comunicar com Eles… Não me lamentem, terei influenciado a história mais que qualquer outro alemão.”

Eckardt: "Terei influenciado a história mais que qualquer outro alemão".

Eckardt: "Terei influenciado a história mais que qualquer outro alemão".

Talvez influenciados pelo clima espiritual criado por Kardec, muitos viam em Hitler uma manifestação mediúnica, “forças quase demoníacas das quais a personagem chamada Hitler não é mais que a vestimenta momentânea”, escreve Rauschning. A verdade é que ele vem de uma cidade com grande índice de médiuns.

Enquanto ouvia-lhe as palestras, Bouchez “examinava-lhe os olhos, uns olhos que se tinham tornado mediúnicos… Por vezes qualquer coisa que se passava, semelhante a um fenômeno de ectoplasma: qualquer coisa parecia habitar o orador. Emanava um fluido… Depois voltava a ser pequeno, medíocre, até vulgar.

Histeria? Transe? Poderes mediúnicos?

Histeria? Transe? Poderes mediúnicos?

Rauschning, sempre em primeira mão, ouvia: “Não sabem nada de mim, (…) não fazem a menos idéia dos sonhos que faço (…). Haverá uma alteração do planeta que vós, os não-iniciados, sois incapazes de compreender.”

“Vou confiar-lhe um segredo, disse-lhe o Führer de outra vez, estou fundando uma ordem. É de lá [ dos Burgs, onde haverá o primeiro ritual] que sairá a segunda categoria, a do homem medida e centro do mundo, do homem-deus. O homem-deus, a figura esplêndida do Ser, será como uma imagem do culto…Mas existem outras categorias de que não me é permitido falar.”

Prestes a se iniciarem os testes com as bombas V-2, os engenheiros alemães receberam ordens de seus superiores nazistas para aguardarem instruções. O relatório técnico do general Walter Dornberger seria analisado por uma cúpula pseudo-científica que avaliaria as probabilidades de que a penetração de um objeto feito pelo homem nas esferas celestes provocasse uma seqüência de desastres sobre a Terra.

(Abro aqui um parênteses para perguntar: Não será a hipertrofia desse pensamento nossos recentes temores quanto ao Aquecimento Global? A suposição de que fomos longe demais em nosso progresso tecnológico provocando a fúria dos elementos da natureza?)

Em suas memórias, Dornberger conta que os trabalhos foram suspensos uma segunda vez, pois Hitler sonhara com uma grande vingança dos céus.

“Para além da Alemanha científica e organizadora, o espírito das mais antigas magias estava alerta.”

Temos aqui, na modernidade, a idéia milenar de um cosmos interligado, onde tudo repercute sobre tudo. Hitler, insuflado por um misticismo psicótico, julga-se o elemento de transição para uma nova era, um messias além dos limites da política e do patriotismo. “A idéia de nação, tive que me servir dela por razões de oportunidade, mas já sabia que não podia ter mais que um valor provisório (…). O que haverá no mundo será uma confraria universal de mestres e senhores.”

Para a humanidade, reserva-se um destino que a massa não tem capacidade de conceber, a política é apenas um meio mais prático e momentâneo para se obter uma visão religiosa das leis que regem a Terra e o Cosmos.

“A política, diz Hitler, é simplesmente a forma prática e fragmentária desse destino.”

A política era a catalizadora de algo muitíssimo mais complexo que viria depois.

A política era a catalizadora de algo muitíssimo mais complexo que viria depois.

Hitler encoraja o avanço de uma pseudociência estagnada desde o Iluminismo, segundo a qual o movimento dos astros no firmamento e o dos homens na Terra estão intimamente correlacionados. Algo muito além da astrologia pura. A luta entre gelo e fogo, perpetrada nas mortes e nascimentos planetários tinham também seu lugar no espírito humano.

Segundo as palavras de Rauschning: “Só se pode compreender os planos políticos de Hitler conhecendo seus pensamentos dissimulados e a sua convicção de que o homem está em relação mágica com o universo.”

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Horbiger, com sua vasta cosmogonia, ajuda no alavancamento do novíssimo “esoterismo técnico”.

Nos círculos intelectuais nazi, reimpressões frescas de Enéadas, escrita por Plotino, são vivamente discutidas. Ali, o autor discute todas as relações naturais das várias hierarquias do universo: “Este universo é um animal único que contém em si todos os animais (…). Mesmo sem estar em contato, as coisas agem e tem necessariamente uma ação à distância.”

Enéada fazia parte das discussões "científicas" nos círculos nazistas

Enéada fazia parte das discussões "científicas" nos círculos nazistas

É o Homem Total de Jung, a “reversibilidade do infimamente pequeno no infinitamente grande”.

“O que nós desejamos fazer compreender, diz Bergier com cautela, é que uma civilização totalmente diferente da nossa apareceu na Alemanha e se manteve durante alguns anos.”

Socialismo mágico.

Hitler e seus seguidores são messias. Preparam o terreno para o próximo salto evolutivo do homem, uma mutação que criará seres conscientes dessa relação mágica há muito esquecida; homens-deuses.

Horbiger imagina nosso destino. Nossa lua torna-se cada vez mais baixa, atraída inapelavelmente pela gravidade da Terra. Enquanto se aproxima, as gravidades dos dois corpos, por assim dizer, se anulam, todos os seres aumentam de tamanho, inclusive o homem, que se tornará mais uma vez gigante. Isso aconteceu na Terra nada menos que três vezes. Nossa lua é a última de um quarteto original. Por fim desabará sobre a Terra, como fizeram suas irmãs, destruindo as civilizações supra-humanas que elas próprias haviam proporcionado.

Haverá um último dia perfeito...

Haverá um último dia perfeito...

É portanto quando o satélite ameaça desabar-se que as civilizações alcançam seu auge. Caberá ao homem-deus supremo, através das canalizações das forças psíquicas, adiar a catástrofe. Esta energia participa, modera, compõe e mantém a ordem no Sistema Solar.

O grande calendário de Tiahuanaco, elaborado durante uma das extintas civilizações de gigantes, não foi construído para registrar os movimentos dos astros, mas para manter esses movimentos.

O homem é portador de um órgão especial destinado a ligá-lo ao cosmos, aquilo a que chamamos alma. Todas as nossas religiões seriam recordações degeneradas de um tempo em que os homens tinham consciência dessa função.

Na luta eterna entre gelo e fogo, chave da vida universal, existem ciclos sobre a Terra.

Rauschning, um humanista perdido em meio aos magos nazistas, limita-se a ouvir e anotar as frases e conversas incompreensíveis de Hitler.

O Führer falava sobre a “curva decisiva do mundo”.

A busca pela visão mágica devia constituir todos os esforços humanos. Ele mesmo estaria a um passo desse saber mágico.  De Horbiger, que não conhece pessoalmente, Rauschning anota: “Um professor (…) escrevera, além de certo número de obras científicas, alguns ensaios bastante estranhos sobre o mundo primitivo, a formação das lendas, a interpretação dos sonhos entre os povos das primeiras épocas, sobre (…) uma espécie de poder transcendente que teriam exercido para modificar as leis da natureza. Havia também referência, no meio dessa batalha, ao olho do Ciclope, o olho frontal que em seguida se atrofia para formar a glândula pineal. Tais idéias fascinavam Hitler. Gostava de aprofundá-las. Não sabia explicar a maravilha de seu próprio destino senão pela ação de forças ocultas.”

“A espécie humana, dizia ele, fazia desde a origem uma prodigiosa experiência cíclica. Era submetida a provas de aperfeiçoamento de um milênio a outro. O período solar do homem [isto é, aqueles de lua alta] atingia seu termo: já se podiam vislumbrar as primeiras amostras do super-homem.”

Consciente de que Rauschning era um homem racional, Hitler buscava expor suas idéias em termos concretos:

“A criação não está terminada. O homem atinge nitidamente uma fase de metamorfose. A antiga espécie humana já entrou no estágio de deperecimento e da sobrevivência. A humanidade transpõe um escalão todos os setecentos anos, e o motivo da luta, que só se realizará muito mais tarde, é o advento dos filhos de Deus. Toda a força criadora se concentrará numa nova espécie. As duas variedades evoluirão rapidamente em discordância. Uma desaparecerá e outra se desenvolverá. Ultrapassará infinitamente o homem atual… Compreende agora o sentido profundo de nosso sentimento nacional-socialista? Aquele que só compreende o nacional-socialismo como um movimento político pouco sabe”.

A Criação não está terminada

Hitler discursa para a multidão. A Criação não está terminada

O homem não é uno. Nesse período que antecede uma nova mutação, várias espécies, degenerados sobreviventes dos cataclismos anteriores coexistem. Há uma humanidade verdadeira, destinada a transfigurar-se no próximo ciclo. E há outra humanidade, que nem merece esse nome. Não são descendentes dos gigantes, como nenhum homem o é, mas surgiram logo depois deles, após o evento de extinção que varreu a Terra. Surgiram num mundo arrasado, onde os vermes e insetos e outras formas de vida rastejantes lutavam por uma sobrevivência miserável. Os ciganos, os judeus e os negros não são homens no verdadeiro sentido da palavra. Nascidos após o desmoronamento da lua terciária, essas criaturas imitam o homem e invejam-no, mas não pertencem à espécie.

“Não é verdade, disse Hitler, que eu considere o judeu um animal. Ele está muito mais afastado dos animais do que nós. (…) É um ser estranho à ordem natural.”

Matá-lo não pode constituir um crime contra a humanidade, pois ele não pertence à humanidade.

Rauschning fica horrorizado com as palavras de Hitler, percebendo que ele possui uma visão muito mais louca do que as pregadas pelos teóricos racistas, principalmente os darwinistas sociais, que chegavam a se tornar quase ingênuos diante do líder nazista.

É por isso que certas sessões nos tribunais de Nuremberg eram totalmente desprovidas de sentido. Eram ali dois mundos totalmente diferentes.

Uma civilização diferente de tudo o que conhecemos se ergueu na Alemanha em pouquíssimos anos, sem que o mundo a percebesse claramente senão através de um véu de incompreensão.

Os juízes de Nuremberg tentavam agir como se não esbarrasse com essa pavorosa realidade. Tratava-se de esconder essa realidade obscura, incógnita, varrê-la para debaixo do tapete e tentar trazer à força seus integrantes para o nosso mundo.

Não se pretende discutir os benefícios dos julgamentos de Nuremberg, detalha Bergier, apenas apontar que o fantástico começava ali a ser enterrado.

A Segunda Guerra foi o embate de duas forças essenciais que vivem no homem, a magia versus o nacionalismo,o gelo e o fogo. Era necessário que uma das duas forças vencesse, pois não havia coexistência possível.

“A formidável novidade da Alemanha nazi foi que o pensamento mágico se uniu à ciência e à técnica. O espírito de magia se apossou das alavancas do progresso material”.

Quando a humanidade cessa de ser terráquea para se tornar cósmica, há uma recompensa imediata sobre o planeta. É um arquétipo do pensamento humano: a dominação do fogo possibilitará uma eterna primavera sobre a Terra. Os elementos já não oprimem o homem. O gelo, sinal da ignorância e da morte é vencido por um calor agradável que envolverá todo o globo.

O frio recuaria diante da clareza mística dos nazistas, com a promessa de uma primavera eterna sobre o globo depois de sua missão divina de purificação da humanidade. À assimilação do fogo é a potencialização da energia espiritual.

Hitler estava mesmo muito convicto de que onde ele avançasse o frio recuaria, o que explica em parte sua atitude obstinada na Rússia.

Os horbigerianos, capazes de prever o tempo com anos de antecedência, previram um inverno ameno nas planícies asiáticas. E Hitler estava convicto de que as forças do frio não lhe imporiam empecilhos, pois ele era o guardião da chama mágica, liderava a vanguarda de um novo ciclo do fogo. “O inverno cederia perante suas legiões portadoras da chama.”

Os vermelhos avançaram para o golpe de misericórdia.

A agonizante campanha russa.

Depois de receber uma noticia de que os homens estavam morrendo como moscas no frio russo, ele exclamou:

“Quanto ao frio, o assunto é comigo. Ataquem!”

Os soldados haviam avançado pelas planícies com um vestuário totalmente inapropriado. Em dezembro de 1941 os termômetros desceram quarenta graus negativos. As armas automáticas travavam com o óleo congelado em seu interior, a gasolina sintética separava-se em dois elementos distintos e inúteis, as locomotivas travavam, os homens abaixavam as calças para fazerem suas necessidades básicas e caíam mortos pelo frio intenso.

Cena comum onde os russos passavam

Cena comum onde os russos passavam

As previsões eram falsas, os elementos insurgiram-se; as estrelas cessaram de trabalhar para o homem justo.  Num primeiro momento, Hitler recusou-se a admitir que o frio dizimava suas tropas.

No ano seguinte, depois de invadirem o Cáucaso, houve uma estranha cerimônia. Três alpinistas escalaram o Elbrus, montanha sagrada para os arianos, local mágico de antigas civilizações, vértice importante para os “Amigos de Lúcifer.”

Elburz

Elbrus, a montanha mais alta da Europa

Lá eles fincaram uma bandeira, que marcava o início de uma nova era, na qual o gelo não teria chance.

APOCALIPSE:

Em Stalingrado, a religião de Hitler desmorona. Não é apenas uma derrota militar e política. “Reparai bem, diz Goebbels, é todo um pensamento, toda uma concepção do universo que sofre uma derrota. As forças espirituais vão ser destruídas, a hora do julgamento aproxima-se!”

“É a nossa civilização humanista que faz para o desenvolvimento de outra civilização, luciferina, mágica, não feita para o homem mas para “qualquer coisa acima do homem”.”

Era um mundo inteiro contra a Alemanha. Um mundo que acreditava na justiça, na igualdade e na ciência.

Alemães prisioneiros

Alemães prisioneiros

“É o pequeno homem do “mundo livre” (…), desprovido de sentido metafísico, sem apetite para o fantástico, aquele que Zaratustra classifica como um homem fingido, uma caricatura, é esse pequeno homem (…) que irá destruir o grande exército destinado a abrir o caminho ao super-homem, ao homem-deus, senhor dos elementos, dos climas e das estrelas.”

Mas, se Hitler e seus discípulos não estiveram à altura da missão que lhes foi confiada, restava a eles esperar pela justa cólera divina que se abateria sobre a humanidade. Quando tudo já estava perdido, eles ainda acreditavam num dilúvio que afogaria os aliados e toda a corja degenerada que impedia o progresso.

Hitler quer arrastar o máximo consigo, “as perdas nunca parecem bastante elevadas”, diz ele. Incitou o povo alemão a destruir cada prédio do país numa espécie de sacrifício tresloucado em nome do crepúsculo dos deuses. Oferece um sacrifício à água mandando inundar o metropolitano de Berlim, onde morrem 300.000 refugiados. O mesmo numero de Hiroshima e Nagasaki. “É um ato de magia iniciática, esse gesto provocará movimentos de apocalipse no céu e na Terra.”

O drama da derrota nazi, pelo menos para eles, não se representa na escala planetária, mas cósmica. “O nosso fim será o fim de todo o universo.”

“Não são os inimigos da Alemanha que ganham, afirma Hitler, são as forças universais que se preparam para destruir a Terra, punir a humanidade, porque a humanidade preferiu o gelo ao fogo, as potências da morte às potências da vida e da ressurreição. O céu vai vingar-se”.

Olhando para o infinito, morreram como ratos no subterrâneo. Venceriam o gelo, e seus soldados desabaram congelados a poucos quilômetros de Moscou. Esperavam grandes mutações, nutriam uma visão fantástica da evolução, mas as últimas notícias foram dadas por um guarda do zoo, empoleirado como um símio em cima duma árvore enquanto telefonava para o Bunker.

Vejam que mítica imagem. Os vermelhos asteiam uma bandeira no centro arrasado de Berlim. Diga-se de passagem, a importância dos soldados russos foi diminuída no Ocidente nos anos subsequentes.

Vejam que mítica imagem. Os vermelhos asteiam uma bandeira no centro arrasado de Berlim. Diga-se de passagem, a importância dos soldados russos foi diminuída no Ocidente nos anos subsequentes.

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12 Comentários

  1. O Senhor deveria considerar a hipótese de escrever pra alguma revista…
    Manda o link do seu blog pra alguma, quem sabe pelo menos não financiem o seu blog ou te chamem pra trabalhar com eles!!!
    Muito bom, viu!!! Beijo, moço

    • Ah…Thalitinha, acho que vc é um pouco suspeita viu, mas mesmo assim muito obrigado pelo elogio, valeu mesmo.

  2. bom mas pode melhora

  3. […] Livro excelente também, pra quem quiser saber mais sobre as minhas opiniões sobre ele, leia a introdução do meu post Hitler e a Alemanha Nazista Sob o Enfoque do Realismo Fantástico. […]

  4. Olha…gostei muito da sua forma de expor esses fatos. com clareza, nitidez e sem paixões…sendo direto e sem ser enfadonho num texto desse tamanho. parabéns!
    li esse ano o prefácio desse livro, e em seguida o li todo, e pesquisando sobre várias outras coisas encontrei esse seu espaço.
    é dificil encontrar um resumo, se assim pode ser chamado, inteligente e agradável de ler como este.
    gostaria de manter contato contigo via msn…para falarmos de outros assuntos. meu msn é gjr832@hotmail.com

    um abraço

  5. Adorei e ótimo Por acaso nunca tinha lido um livro sobre ele…
    Fica bem…abraço.

  6. O envolvimento do Nazismo com o misticismo e o irracionalismo não pode ser negado. Muito da sua ideologia tem suas raízes em nomes como Guido von List e Jörg Lanz von Liebenfels, homens que mesclaram o nacionalismo e o racismo ao Ocultismo da Teosofia de Helena Petrovna Blavatsky. Não existem fontes históricas suficientes que liguem Hitler de forma contundente a algum grupo ocultista, a não ser a leitura de uma revista chamada Ostara editada por Liebenfels no período em que o futuro ditador ainda vivia em Viena. Heinrich Himmler com certza teve relação forte com o misticismo e foi um apoiador da teoria do mundo de gelo de Horbiger. Porém, muito do que se fala sobre a relação do Nazismo e o Ocultismo é fonte de uma literatura sensacionalista que teve impulso com o livro O Despertar dos Mágicos. Uma grande mitologia surgiu em torno desse assunto. Quando travei contato pela primeira vez com o tema fiquei impressionado, mas não me ative somente a isso. Iinvestigando conheci os trabalhos do historiador NICHOLAS GODRICK-CLARKE: RAÍZES OCULTISTAS DO NAZISMO E SOL NEGRO. O enfoque dado pelo autor ao tema é bem sóbrio e nos ajuda a elucidar bastante as origens dassa mitologia moderna nazista. Seu blog está de parabéns pela maneira didática como expôs o assunto, mesmo se baseando em um livro altamente especulativo. Esse comentário visa chamar atenção para esse ponto.

    • Não sei se foi em O Despertar que li, mas há uma frase que sempre gosto de lembrar: “acreditar em tudo e não acreditar em nada são atitudes extremas que nada valem.” Particularmente eu acho que, como disse Mulder a Scully um dia, os céticos fazem com que os crentes permaneçam honestos. Obviamente, também não acredito em tudo o que o livro fala, e muito menos que essa teoria do gelo e do fogo tenha algum fundamento. Muito obrigado por esse comentário tão sóbrio Felipe, é bom que todos estejam atentos mesmo.

  7. Também senti a mesma sensação de euforia ao ler o Despertar dos Mágicos e apesar das teorias serem bastante exóticas, não deixam de ter coerência, principalmente no que se refere ao nosso passado ancestral.

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    • Olha, muito obrigado, mas não, inclusive estou mudando de endereço! abraço

  9. Em primeiro lugar brilhante seu trabalho. Nota Dez.
    Mas amigo tenho, para mim que a cosmogonia glacial, tem fundamento sim, devido o nosso cosmo ter 90% de hidrogênio. Vamos aos cometas gelo LUA GELO. Ele estava certo.


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