Joãozinho, Maria e o Ritual de Iniciação

Pois é, minha mãe também lia João e Maria pra mim na cama, enquanto eu arregalava os olhos de medo da bruxa que vivia na floresta. Nem a leitora nem o ouvinte, porém, podiam fazer idéia de que aquela história tão popular mexesse com algo tão profundo na psique humana.

Na época, eu achava que a bruxa era apenas uma velha má que gostava de comer crianças.

Na época, eu achava que a bruxa era apenas uma velha má que gostava de comer crianças.

João e Maria é uma história de origem européia transmitida oralmente e coletada pelos irmãos Grim. Ela apresenta algumas variações. Sinceramente, não sei qual é a original nem me preocupei muito em saber já que mesmo as diferenças se enquadram em um ou outro modelo previsto por Propp em seu livro As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso, do qual falarei em mais detalhes num post futuro sobre a figura do dragão.

Além disso, as diferenças concentram-se na maior parte no início da história.

Em uma delas, as duas crianças vivem com um pobre camponês numa casinha simples, mas tem uma madrasta malvada que quer se ver livre delas e convence o pai a largar as crianças. Em outra versão, a mãe das crianças as pede para irem até a floresta buscarem lenha, mas as alerta de que não devem ir muito longe pois podem se perder. Uma das crianças, porém, tem a idéia de ir jogando pedaços de pão pelo caminho, fazendo uma trilha que os levaria de volta pra casa em segurança. Distraídos, eles acabam penetrando fundo pela mata e ao escurecer, quando tentam regressar, percebem que os pássaros comeram as migalhas de pão.

A partir desse ponto as histórias seguem mais ou menos o mesmo caminho.

Vagando pela floresta, João e Maria encontram uma cabana toda feita de doces. Com frio e fome aproximam-se e começam a comer as paredes.

A dona da casa, uma malvada bruxa, aproxima-se fingindo-se de boa, e os convence a entrarem, onde lhes fornecerá abrigo e todo tipo de alimento maravilhoso.

As versões espalham-se mundo afora.

As versões espalham-se mundo afora.

Quando tem as crianças sob seu poder, ela revela sua real natureza. Obriga Maria e ajudar-lhe nas tarefas e prende João numa gaiola ou no porão, onde pretende engordá-lo até que ele esteja no “ponto de corte.”

Todos os dias a bruxa desce até o porão e pede a João que lhe dê um dedo, o qual ela segura para certificar-se de que ele ainda não engordou o suficiente para comê-lo. Porém, devido à idade avançada ou por no porão ser escuro, ela não enxerga com suficiente clareza, e João aproveita-se dessa deficiência para enganá-la. Guardando um pedaço de osso de galinha que ele havia comido no primeiro dia, ele a estende para a bruxa quando ela lhe pede o dedo. Apalpando o magro osso, dia após dia, ela não percebe que ele está engordando e o acha sempre magro.

Um dia, porém, irritando-se, diz a Maria que comerá João estando ele gordo ou magro, e obriga a menina a limpar e preparar-lhe o forno onde pretende cozinhá-lo. Maria pergunta como se faz para entrar no forno, a bruxa irritada enfia a cabeça dentro e diz:

-É assim.

Maria a empurra para dentro e fecha a porta. A bruxa queima até o último osso.

Maria liberta o irmão. Ambos exploram a cabana, encontrando ouro e pedras preciosas, que ajudarão os pais a deixarem a miséria.

Encontram o caminho de casa através da floresta. Na versão em que existe a madrasta ruim, ela já está morta quando eles retornam.

ANÁLISE:

Como se origina o conto? João e Maria era uma história de tradição oral até ser coletada pelos irmãos Grim na Europa mas de onde surgiu?

Se concordarmos com Propp, temos três estágios de evolução que levam ao conto.

Primeiramente existem os ritos, ou seja, cerimônias de cunho sagrado realizadas por povos em estágio tribal de sociedade. No nosso caso particular, o rito original era o de iniciação, quando o jovem era submetido a uma série de provas que se destinavam a impregnar-lhe de poderes mágicos que o possibilitariam tornar-se um bom caçador. Para isso, o neófito deveria ser devorado por um monstro terrível, sofrer uma morte temporária, descer ao mundo dos mortos e depois retornar, trazendo consigo seus conhecimentos mágicos e renascendo como um novo homem. Tribos do mundo inteiro encenaram e continuam a encenar esse ritual de uma maneira toda especial que veremos em maiores detalhes.

Enquanto o rito é realizado, constituí-se num segredo improferível, conhecido apenas pelos que o sofreram ou pelos sábios da tribo que aos poucos passam seus conhecimentos. Mulheres e crianças ficam de fora. Mas, a medida em que o rito perde seu significado, seja por evolução natural ou invasão por culturas novas , o cunho sagrado se perde e o rito, aos poucos, transforma-se em mito.

Não é difícil perceber que, através dos séculos de tradição oral, o mito ganha contornos e floreios cada vez mais rebuscados, até se transformar em conto.

O que Propp nos propõe é traçar o caminho inverso através dos tempos e das narrativas, buscando significados rituais para particularidades que compõe o conto, mais especificamente o conto maravilhoso, ou conto de fadas.

Assim, a história de João e Maria pode ser desmembrada em diversos fragmentos que, analisados separadamente, nos darão informações sobre a forma arquetípica do pensamento tribal.

1. O Afastamento.

Nas sociedades tribais, a floresta era a porta para o outro mundo.

Nas sociedades tribais, a inserção na floresta era a passagem para o outro mundo.

Propp inicia seu estudo informando que o afastamento de crianças ou mesmo dos adultos é o primeiro indício de que alguma desgraça se abaterá. Esse afastamento é descrito logo nas primeiras linhas do conto. Em geral, os pais tentam proteger os filhos do perigo que ronda o exterior da casa proibindo-os expressamente de se aventurarem para além da soleira da porta.

Naturalmente a previsível desobediência acarreta o problema central da história que envolverá o herói.

No nosso caso, temos primeiramente a mãe que pede aos filhos para buscarem lenha, mas os alerta para que não se afastem muito pois poderão se perderem na floresta. Na outra versão, a madrasta malvada planeja o afastamento. Quanto a isso, veremos a razão mais adiante.

Temos, pois, o afastamento como ato de desencadeamento da desgraça, em nosso exemplo, a perdição na floresta e posterior encontro com a bruxa.

2. O Rito de Iniciação.

A iniciação ainda ocorre em povos do mundo inteiro.

A iniciação ainda ocorre em povos do mundo inteiro.

Como se processava o ritual?

Vimos que durante o rito acreditava-se que o jovem morria e ressuscitava como novo homem, plenamente investido de poderes mágicos que o possibilitariam se tornar um grande guerreiro.

“A morte e a ressurreição eram provocadas por ações que representavam a deglutição da criança por um animal monstruoso que a devorava.”

Ocorriam despedidas como se realmente a criança fosse morrer. Ela era enfeitada, penteada e vestida como num funeral, às vezes toda pintada de branco, a cor dos mortos e do Além. Aliás, diga-se de passagem, em nossas representações mais infantis, os fantasmas são brancos por isso: É a cor do outro mundo, da invisibilidade, da incorporalidade.

Mas, como encenavam essa morte temporária?

Para a realização desse rito escolhia-se um ponto afastado da aldeia ou a região mais densa da mata e construía-se uma cabana em forma de animal. O neófito era conduzido através de uma porta em forma de boca escancarada, e dentro da cabana era realizada a circuncisão, a parte mais importante do ritual, ainda que nem de longe fosse a única.

Dentro dessa cabana, ocorriam torturas inimagináveis.

O rapaz era simbolicamente cortado, cozido, esquartejado e depois ressuscitado. Infringiam-lhe torturas terríveis como amputação de dedos, extração de dentes, cortes e espancamento. As vezes passavam-se cordas sob a pele das costas ou do peito, a fim de suspender os meninos.

Temos relatos de talhes profundos que iam do pescoço até o fim das costas; retiradas de nacos de pele, queimaduras e esfolamentos. Nossos ascendentes indígenas sul-americanos eram especialmente cruéis nisso, aplicando pimenta aos ferimentos.

A morte temporária, em alguns lugares, era obtida com a abertura do corpo ou seu despedaçamento e posterior recomposição.

“Casos tardios mostram a substituição do iniciado por um outro homem ou por um animal. Existem vestígios de execução efetiva de um prisioneiro de guerra ou um escravo. Em certos casos, a decapitação das vítimas era feita em imagens. (…) Existem matérias mostrando que se exibiam para os iniciados cadáveres mutilados, que esses corpos eram colocados sobre um menino ou que este passava por cima ou se arrastava por baixo deles. Evidentemente, isso significava a morte do próprio iniciado (…). É fora de dúvida que no rito em questão existiu o canibalismo.”

Em alguns lugares, uma cova era aberta no solo e o iniciado era estirado ali, em meio a excrementos e urina de seus algozes, pois deveria superar o nojo nessa fase do rito.

Naturalmente, os traços violentos tendem a desaparecer.

Naturalmente, os traços violentos tendem a desaparecer.

Todo esse terror possivelmente tinha como finalidade provocar insanidade temporária. Prolongando-se interminavelmente, às vezes por semanas, acompanhadas por fome, sede, escuridão e medo, elas traumatizavam o suficiente para provocar uma espécie de esquecimento quanto à individualidade. Isso era especialmente importante para que o iniciado realmente acreditasse que havia morrido e ressuscitado do mundo dos mortos. Bebidas estranhas e alucinógenos de diversos tipos certamente facilitavam a passagem para esse estado.

Depois de esquecer quem era, sua origem ou família, o rapaz recebia um novo nome e eram-lhe transmitidas informações sobre o funcionamento da tribo e seu lugar nela, bem como técnicas de caça e conhecimentos sagrados.

Apesar de muito temido por jovens e mães, o rito era considerado necessário, pois nele o jovem “recebia o que poderíamos chamar de poder mágico sobre os animais.”

3. A Floresta.

Lugar sobrenatural, a floresta era o lar dos antepassados da tribo.

Lugar sobrenatural, a floresta era o lar dos antepassados da tribo.

A floresta no conto, nos informa Propp, nunca é bem descrita. Sabemos apenas que é escura, bastante ameaçadora e com ar sobrenatural. A relação dessa floresta com aquela em que se realizava o rito não podia ser mais explícita.

Do mesmo modo, a floresta sempre possui um caráter de empecilho, de impenetrabilidade e total hostilidade para com o herói.

Mas porque esses rituais tinham lugar numa floresta? Propp analisa que, além de fornecer a privacidade necessária para a realização da cerimônia, a floresta reveste-se nos mitos dos povos tribais com uma aura de limite entre o outro mundo, como barreira além da qual existe o país dos mortos.

Escuro, denso, povoado por espíritos ancestrais, esse tipo de ambiente foi impregnado pelos narradores tardios por uma aura de malignidade.

Escuro, denso, povoado por espíritos ancestrais, esse tipo de ambiente foi impregnado pelos narradores tardios por uma aura de malignidade.

As crianças eram levadas até a floresta pelo pai ou irmão, já que as mulheres eram proibidas de se aproximarem do local onde ocorria o rito sob pena de morte. Ou então as crianças eram largadas à sorte e deveriam encontrar a cabana por conta própria.

Interessante notar que, na versão onde a madrasta trama a morte dos enteados, ela faz com que o pai das crianças os abandonem, em lugar dela mesma o fazer. Temos aqui um indício de uma verdade histórica. A madrasta não os abandona porque as mulheres eram proibidas de levarem as crianças até o local sagrado.

“Com esses materiais, podemos chegar a uma conclusão, (…):  a floresta do conto reflete a lembrança da floresta como local do rito e como entrada para o reino dos mortos. As duas concepções estão estreitamente relacionadas.”

4. A Cabana Feita de Doces

A construção toda feita de doces é uma hipertrofia da necessidade que o herói tem de consumir um alimento especial para sua jornada pelo país dos mortos.

A construção toda feita de doces é uma hipertrofia da necessidade que o herói tem de consumir um alimento especial para sua jornada pelo país dos mortos.

Ao encontrarem a cabana, e mesmo antes do contato com a bruxa, a primeira coisa que João e Maria fazem é comer. Estão famintos, e as paredes e o teto erguidos com as mais deliciosas guloseimas são irresistíveis. A bruxa então percebe que algo se passa no exterior, porém trata os intrusos gulosos com estranha simpatia.

— Não tenham medo, crianças. Vejo que têm fome, a ponto
de quase destruir a casa. Entrem, vou preparar uma jantinha.
O jantar foi delicioso, e a velha senhora ajeitou gostosas
caminhas macias para João e Maria, que adormeceram felizes.

Curiosamente, temos essa primeira fase “boazinha” da bruxa em materiais de mundo inteiro. Ainda mais especificamente, tempos o primeiro contato dos personagens com farta refeição para o herói. Por que isso?

Cachinhos Dourados também encontra uma bela refeição quando entra na casa dos ursos, depois da qual parte para um sono reconciliador em cama alheia. Alimento e sono são pré-requisitos básicos para penetrar no mundo subterrâneo.

Cachinhos Dourados também encontra uma bela refeição quando entra na casa dos ursos, depois da qual parte para um sono reconciliador em cama alheia. Alimento e sono são pré-requisitos básicos para penetrar no mundo subterrâneo.

Propp exemplifica dizendo que em alguns casos o herói entra na casa e não encontra ninguém, entretanto alimenta-se fartamente com o que ali encontra. Apesar de não citar a história de João e Maria, afirma que em diversos contos infantis a própria casa é comestível.

Acontece que o alimento tem um valor especial. Acreditar que o herói tem fome por ter passado longo tempo em jejum perdido na floresta é apenas uma explicação racional tardia que em nada explica a compaixão de bruxa nesse primeiro momento.

Em algumas culturas, para se penetrar no mundo dos mortos deve-se consumir um alimento especial. Não acabamos de ver que a floresta é a fronteira para esse reino, que a cabana representa o próprio animal devorador? Aliás, no nosso conto esse aspecto zoomórfico da casa desapareceu por completo, mas na versão russa em que a bruxa é conhecida como Baba-Yagá, sua cabana ainda conserva um traço animalesco, pois se apóia em patas de galinha.

As patas de galinha são o último resquício de um tempo em que a cabana inteira representava um animal totêmico. Divindades também passaram por esse processo de idealização, do animal para o humano e, mais tarde ainda, para o conceito.

As patas de galinha são o último resquício de um tempo em que a cabana inteira representava um animal totêmico. Divindades também passaram por esse processo de idealização, do animal para o humano e, mais tarde ainda, para o conceito.

Uma vez dentro, tanto lá como aqui inicia-se o processo da morte temporária com o consumo de uma comida especial para isso.

5. A cegueira da bruxa

Um processo de transferência vingativo portou a bruxa, e não o herói, com a incapacidade de enxergar.

Um processo de transferência vingativo portou a bruxa, e não o herói, com a incapacidade de enxergar.

Revelando sua real natureza, a bruxa trancafia Joãozinho no porão, a fim de engordá-lo, enquanto Maria fica responsável pela ajuda nas tarefas domésticas. Parece perfeitamente claro o desinteresse da bruxa quanto à hipotética devoração de Maria, uma vez que as garotas não passavam pelo ritual de iniciação, não pela maneira e pelos motivos aqui estudados por nós, isto é, aquisição de poderes mágicos a fim de se tornar um bom caçador. Apenas João pode ser devorado porque apenas os meninos passavam pela experiência da cabana.

Entretanto, estando Joãozinho num porão ou encerrado dento de uma gaiola, a bruxa não consegue enxergá-lo muito bem, e ordena que ele lhe estenda o dedo para que ela verifique se está gordo o suficiente.

A explicação racional de que a bruxa não o enxerga por conta da escuridão reinante no porão é tardia e artificial. Vemos que em todas as variações desse personagem, inclusive em Baba-Yagá,  ocorre a cegueira.

Sabemos que ao entrar na cabana-monstro, o neófito era submetido a uma cegueira simbólica, Propp ilustra seu livro com essa descrição trazida por Frobenius:

“O neófito, com os olhos vendados, é introduzido na cabana. Em uma cova foi preparada uma papa espessa. Um dos iniciados agarra o neófito e lhe emplasta os olhos com essa mistura, a qual foi acrescentado pimenta. Ergue-se um uivo terrível e ao ouvi-lo, os espectadores, que ficaram do lado de fora da cabana, batem palmas e entoam um canto em louvor ao espírito.”

Entretanto, enquanto no rito é cegado o jovem, no conto temos a cegueira da bruxa. Como ocorreu tal inversão?

“Com o aperfeiçoamento das armas, a passagem para a agricultura e o advento de um novo regime social, os antigos ritos cruéis passaram a ser vistos como inúteis e malditos, e sua carga recaiu sobre seus executantes.”

Propp nos informa que a cegueira da bruxa é uma forma de protesto.

6. A amputação do dedo.

A amputação dos dedos foi um fenômeno relativamente comum nas sociedades tribais. Era um complemento às marcas que o neófito levava como prova de que estivera no país dos mortos, como também um novo nome, cicatrizes e tatuagens.

A amputação dos dedos foi um fenômeno relativamente comum nas sociedades tribais. Era um complemento às marcas que o neófito levava como prova de que estivera no país dos mortos, como também um novo nome, cicatrizes e tatuagens.

A bruxa apalpa o dedo de Joãozinho para ver se ele está gordo. Com tantas partes no corpo humano, não é esquisito que ela escolha justamente o dedo para analisar a quantidade de tecido adiposo acumulado? Porque não as bochechas, o braço ou, melhor ainda, uma cutucada na barriga?

Dentro da cabana, após a circuncisão, ocorria a amputação de um dedo, geralmente o mindinho da mão esquerda. As vezes o iniciado oferecia o indicador da mesma mão num sacrifício suplementar. Em alguns contos, esse tipo de mutilação foi conservado em variadas formas, as vezes com a extração para se observar se o menino havia engordado ou uma amputação acidental enquanto o herói vasculha o interior da cabana. No nosso caso ela não ocorre, mas a idéia latente está lá, a bruxa apalpa o dedo.

7. O forno da bruxa

Nos ritos, o neófito era simbolicamente despedaçado, cozinhado e queimado.

Nos ritos, o neófito era simbolicamente despedaçado, cozinhado e queimado.

As bruxas de forma geral possuem um caldeirão ou um forno onde pretendem cozinhar suas vítimas.

Sabemos que no rito o neófito atravessava a prova do fogo. Na Austrália, isso era feito da seguinte maneira: uma cova era aberta no solo onde o neófito se deitava. Dois homens ajoelhavam-se, um aos pés e outro na cabeça, e fingiam estar jogando molhos e temperos sobre o iniciado. Um outro homem se aproximava, farejando o ar como se sentisse cheiro de carne assada.

Obviamente, nem todas as culturas se contentavam com tal grau de estilização. Na Oceania, os neófitos sentam-se ao redor de uma grande fogueira, sem nada suspeitar, até que os homens responsáveis pela cerimônia os agarram e os aproximam do fogo até que todos os pêlos de seu corpo queimassem.

Comumente cinzas, brasas ou água fervente eram jogadas sobre o iniciado.

“Sabemos que na iniciação era como se o jovem adquirisse uma alma nova e se tornasse um novo homem. Temos aqui a concepção da força purificadora e rejuvenescedora do fogo – concepção que se prolongará até o purgatório cristão.”

O mesmo fenômeno da inversão observado na cegueira da bruxa é aqui repetido. Antes, quando o rito era algo vivo, a incineração era necessária ao neófito, porém o conto, representando uma narrativa posterior a esse estágio, repudia tal idéia, e faz com que o responsável pelo rito queime “até o último osso”, em lugar da criança.

8. Por que uma bruxa?

O antigo poder matriarcal ainda se inseria com força numa sociedade que lentamente mostrava sinais de mudança.

O antigo poder matriarcal ainda se inseria com força numa sociedade que lentamente mostrava sinais de mudança.

Até aqui, parece que conseguimos decompor de forma satisfatória, ainda que bastante superficial, as partes principais que compõe o conto, e dar-lhes um significado histórico. Resta-nos uma resposta, relativa à natureza do algoz. Em nenhum momento imaginamos que o iniciado comparecia diante de uma velha no rito, chegamos mesmo a dizer que as mulheres eram proibidas de participarem de tal cerimônia, como então explicar que a vilã de nossa história, a responsável pela tentativa (fracassada) de aplicar a iniciação a Joãozinho seja uma mulher, uma velha?

Ainda que Propp não apresente relatos de que os dirigentes da cerimônia fossem mulheres, caçadores e viajantes descreveram os chefes como homens vestidos de mulher.

“É possível ver na natureza feminina desses seres (…) o reflexo de antigas relações matriarcais. Tais relações entram em conflito com o poder masculino historicamente elaborado. (…) existem várias saídas para esse conflito. Uma delas: o mestre do rito travestir-se de mulher. Ele é homem-mulher.”

Sem entrar em mais detalhes, Propp salienta que a idade avançada da bruxa pode ser uma maneira de comunicar sua frigidez sexual.  Em muitas culturas seus órgãos reprodutivos são hipertrofiados, porém ela não tem marido nem vida sexual. “É sempre uma velha, e uma velha sem marido. (…) Representa o estágio em que a fecundidade era considerada obra feminina, independente da participação masculina. A hipertrofia de seus órgãos reprodutivos não corresponde a nenhuma função conjugal. Talvez por isso seja sempre velha. Personificação de seu sexo, ela não tem vida sexual.”

CONCLUSÃO:

Não é interessante como uma simples história pode se revestir de uma interpretação tão profunda? Os elementos arquetípicos contidos em João e Maria podem ser encontrados em todas as antigas culturas humanas, pois estão de tal modo enraizadas na mente que acabam florescendo independentemente do meio. Do mesmo modo, é por isso que histórias dessa natureza mexem tanto com a gente e são tão populares.

Obs.: E para quem quiser saber quais são os mais impressionantes rituais de iniciação pelo mundo afora, acesse o link: http://hypescience.com/25866-10-bizarros-ritos-de-passagem-de-todo-o-mundo/comment-page-1/#comment-25574

Pterossauros do Brasil: Sítios Paleontológicos, Panorama das Pesquisas & Breve Histórico dos Achados.

Gosto muito de paleontologia. No quinto período do curso de biologia que estou cursando tivemos que escrever um artigo e resolvi fazer sobre pterossauros. Agora vou colocá-lo aqui, talvez seja útil pra pesquisa de alguém.

RESUMO: Os Pterossauros eram répteis voadores que dominaram os céus durante  140 milhões de anos e desapareceram durante a extinção do Cretáceo. O Brasil é particularmente rico em fósseis de pterossauros, ainda que seus ossos estejam entre os de mais difícil fossilização. O primeiro fragmento encontrado no início do século XX ocorreu na formação Gramame, mas permaneceu como único achado oficial daquela região até hoje. A Bacia do Araripe, entretanto, é mundialmente conhecida por seus belos e numerosos exemplares desse grupo. Atualmente, novos achados e tecnologias tem possibilitado inferências sobre a anatomia e ecologia desses seres voadores.

Palavras-Chave: pterossauros do Brasil, bacia do Araripe, cretáceo brasileiro, histórico pterossauros.

1- INTRODUÇÃO:

O Brasil, mais especificamente na região nordeste, desponta no cenário mundial como país onde mais se encontraram restos de pterossauros. São duas as formações nacionais onde são encontrados esses animais: a formação Gramame, na Bacia Pernanbuco-Paraíba e a formação Santana, na Bacia do Araripe. Essa última destaca-se pela quantidade e qualidade dos achados, não apenas de pterossauros mas de diversos outros grupos biológicos extintos. (KELLNER, 1989).

Os primeiros pterossauros surgiram depois do evento de extinção em massa que marcou o fim do Triássico, juntamente com ictiossauros, plesiossauros, crocodilomorfos e outras formas de vida que passaram a ocupar nichos vagos nos ecossistemas em recuperação (CÂMARA, 2007). Existiram quase no mesmo intervalo que os dinossauros, dominando os céus em boa parte do Mesozóico, através de 140 milhões de anos. No Cretáceo superior, o surgimento de novas formas avianas e a provável queda do asteróide pode ter contribuído para sua extinção (CARVALHO, 2004). Desde que foram descobertos, cientistas buscam respostas para a ecologia e funcionamento anatômico desses animais, uma área de estudo que cresceu nas últimas décadas com avanço de tecnologia especializada e novos achados (POUGH, 2003).

2- REVISÃO DE LITERATURA:

2.1- História evolutiva e adaptações anatômicas do grupo

Os pterossauros eram seres de constituição leve (STORER, 1976), com corpos pequenos quando comparados à envergadura das asas (MOODY, 1975).

Crê-se que seu ancestrais do Triássico desenvolveram o hábito arborícola.  Formou-se uma membrana através do alongamento do quarto dedo que ajudava a planar até o solo ou até outra árvore. Posteriormente, essa membrana teria se transformado em asa (CARVALHO, 2004). Pensa-se que mesmo os pterossauros mais derivados continuaram usando suas asas para plainar e pairar, talvez depois de arremessarem-se do alto de rochedos (MOODY, 1975). A superfície dessa asa membranosa era fina e vascularizada, como mostra alguns fósseis em excelente estado de conservação do Araripe (CARVALHO, 2004).  O quarto dedo era alongado e sustentava uma membrana de pele fixa às laterais do corpo e talvez aos membros pelvinos, pelo menos em algumas espécies. Um pequeno osso em forma de tala conectava-se à margem distal do carpo e provavelmente sustentava uma segunda membrana que se ligava ao pescoço (POUGH, 2003).

À semelhança das aves, possuíam ossos pneumáticos para diminuir o peso (MENDES, 1965), tornando seus ossos frágeis e as possibilidades de fossilização um evento ainda mais específico (KELLNER, 1989).

Um Tapejara imperator em vôo.

Um Tapejara imperator em vôo.

O esterno e os ossos do peito eram relativamente grandes, servindo de local para a inserção de músculos poderosos relacionados com o bater das asas (MOODY, 1975). A cauda, comumente longa e com uma expansão na ponta, era presente nas formas primitivas, mas foi diminuindo ao longo da evolução do grupo. O cérebro era similar ao das aves, com tamanho superior ao de um réptil (CARVALHO, 2004) e o cerebelo, uma estrutura que envolve equilíbrio e locomoção também era maior proporcionalmente do que em outras espécies. Os olhos eram grandes, bem como a região do encéfalo destinada à visão (POUGH, 2003).

O tamanho dos animais aumentou a partir de Jurássico Superior, alcançando o limite estabelecido para um vertebrado voador. O atrito com o ar, a alusão à pelos que alguns achados sugerem e o alto suprimento de energia que deveriam manter para um vôo nos leva a pensar que fossem endotérmicos. (CARVALHO, 2004). Quanto à dentição, alguns seguiram um caminho anatômico convergente ao das aves, ficando apenas com um bico córneo (POUGH, 2003).

No século XIX os pterossauros foram primeiramente classificados como seres aquáticos. Posteriormente, quando sua natureza voadora ficou clara, os primeiros cientistas julgaram que eram seres desajeitados e de vôo pouco elegante. Depois que ficou demonstrado claramente que eram exímios voadores, restaram as discussões sobre como esse animais se locomoviam em terra. A esse respeito, trabalhos defendendo teorias contraditórias (apostando na postura ereta como a das aves ou quadrúpede) seguiram-se por várias décadas, sem chegar a nenhum acordo (MORAES, 2005).

O problema central residia que os ossos dos pés encontrados não possuíam tridimensionalidade suficiente para definir com clareza de que modo eles interagiam, dando larga possibilidade para discussões. Os cientistas concordavam que eles deveriam ser bons escaladores de árvores ou penhascos, mas não muito bons em caminhadas por lugares planos, mas somente nisso residia o consenso. Apenas em 1998 a teoria que defendia a postura quadrúpede semi-ereta ganhou fôlego de forma mais definitiva, com o achado de um fóssil tridimensional (MORAES, 2005).

O modo quadrúpede semi-ereto é hoje o mais bem aceito na comunidade científica para esses animais.

O modo quadrúpede semi-ereto é hoje o mais bem aceito na comunidade científica para esses animais.

Estudos ainda mais recentes quanto à neuroanatomia desses animais, bem como pegadas fósseis descobertas no México e estudos de anatomia comparada e biofísica parecem ter encerrado as discussões a esse respeito, refutando a teoria bípede (Fig. 1) (MORAES, 2005). Paralelamente, novos achados demonstram que isso podia variar de acordo com a espécie. Um fóssil de Pterodactylus mostra que a asa estava ligada, pelo menos, até o meio da coxa. Outro de Sordes pilosos exibe claramente membros pelvinos totalmente envolvidos pela membrana, inclusive com ligação entre os membros (como nos morcegos), o que impediria totalmente um andar ereto como o das aves (POUGH, 2003).

2.2-Sítios paleontológicos brasileiros que contém pterossauros

2.2.1 – Bacia Pernambuco-Paraíba

Esta bacia constitui-se numa faixa de sedimentos que se alonga no sentido norte-sul entre Recife e João Pessoa. Três formações a constituem: Beberibe, com arenitos e siltitos cinzentos depositados durante o Santoniano-Campaniano; Gramame, de calcários com calcarenitos litorâneos de idade Mastrichtiano e Maria Farinha, formada por calcários litorâneos de idade Paleoceno. (KELLNER, 1989).

2.2.2- Bacia do Araripe

Estendendo-se em sentido leste-oeste por 160 km, situa-se nos limites dos estados do Ceará, Piauí e Pernambuco, com largura variando entre 70 e 50 km e altitude entre 700 e 900 metros. (KELLNER, 1989). É delimitada ao norte pelo lineamento de Patos e ao sul pela falha de Farias Brito (SAYÃO, SD).

A Bacia do Araripe foi datada geologicamente pela primeira vez em 1838, por George Gardner (KELLNER, 1989). Os estratos geológicos que a compõe são bastante horizontais, com leve inclinação nas bordas. (KELLNER, 1989). A lenta separação dos continentes americano e africano influenciou na sedimentação não apenas dessa, mas também de outras bacias do nordeste brasileiro. (KELLNER, SD).

Dentre todas as unidades estratigráficas que a compõe (Cariri, Missão Velha, Brejo Santo, Santana e Exu) é sem dúvida alguma a formação Santana que se destaca pelo exuberante registro fossilífero que exibe, tendo sido apontada como de grande importância científica desde o século XIX. Localiza-se acima da Formação Missão Velha e abaixo da Formação Exu (KELLNER, 1989).

Divide-se em três membros: Crato, Ipubi e Romualdo. (KELLNER, 1989).

Confirmando as teorias de Silva (1947 apud VIANNA, SD), o membro Crato, na base da formação, guarda sedimentos de uma época em que ali havia um ambiente de água doce, tendo abundante registro de insetos. (KELLNER, 1989). É formado predominantemente por carbonato, distribuído por seis pacotes estratigráficos. Geralmente, os folhelhos estão visíveis em depressões do solo causadas por erosão hídrica ou em escarpas que margeiam a Bacia (VIANA, SD).

Os exemplares fósseis do membro Crato datam de 110 milhões de anos, do Cretáceo (CARVALHO, 2005), num período de deposição abarcando um tempo de aproximadamente 50 milhões de anos (SARAIVA, 2007). Acima estão as camadas de gipsita que compõe o membro Ipubi (BRITO, SD).

O membro Ipubi constitui-se de uma lâmina espessa de gesso desprovida de fósseis (KELLENER, SD).

Já o membro Romualdo, constituído de rochas depositadas no Cretáceo Inferior, no topo da formação Santana é formado principalmente de calcário, constituindo-se na unidade mais rica em fósseis de toda a chapada do Araripe, sendo que o grupo fóssil que mais se destaca é o dos pterossauros (KELLNER, SD).

2.3 – Histórico das pesquisas

Infelizmente, os primeiros relatos de pterossauros encontrados no Brasil são confusos, desencontrados e pouco confiáveis (KELLNER, 1989).

A primeira descrição foi feita por Joseph Mawson ainda no século XIX em Pedra Furada, na Bahia. Ele relatou dois ossos quadrados muito parecidos com o pterossauro da espécie Rhamphorchynchus manseli. Mais tarde foram encontrados mais três ossos, ainda maiores que os primeiros, o que o levou a pensar que era o maior representante da ordem Rhamphorhynchoidea.  Anos depois, Woodward descobriu que os ossos maiores eram na verdade de um peixe celacantídeo, Mawsonia gigas. Porém, ele manteve os primeiros ossos como sendo de pterossauro e ainda descreveu mais um dente descoberto no estado. Já no século XX, em publicação em revista cientifica, os ossos reaparecem no mundo científico, dessa vez classificados com Pterodactyloidea. Aparentemente esse material foi guardado no Museu de História Natural de Londres, mas uma busca nos fins dos anos oitenta por Kellner não teve sucesso no objetivo de recuperá-lo (KELLNER, 1989).

Em 1892 Rodrigues cita também superficialmente a presença de pterossauros e plesiossauros nos sedimentos cretáceos do Amazonas, mas como outros achados nunca foram feitos, Price, em trabalho publicado em 1953, supõe que sua identificação tenha sido precipitada (KELLNER, 1989).

O primeiro pterossauro oficialmente encontrado no Brasil é, ironicamente, até hoje o único descoberto na Formação Gramame. Trata-se da parte de um úmero esquerdo, dividido em dois pedaços. Price, em 1953, o classificou como Nyctosauros lamegoi. (KELLNER, 1989).

Reprodução de um pterossauro do gênero Nuctosauros.

Reprodução de um pterossauro do gênero Nyctosauros.

Por outro lado, a biodiversidade encontrada no registro fóssil da Bacia do Araripe mostra um evento biológico singular com acentuado índice de macro evolução, representada pelo surgimento de novos gêneros entre as populações principalmente de insetos, peixes e répteis. No caso dos pterossauros, surgiram até mesmo novas famílias. Havia um ambiente bastante favorável à vida, que associado às condições especiais pós-morte, possibilitou a preservação excepcional dos fósseis (CARVALHO, 2005).

Pra se ter uma idéia do grau de preservação, foram feitos diversos relatos de partes moles das asas dos pterossauros, inclusive com indícios de linhas epidérmicas (KELLNER, 1989).

Martill & Unwin (1989) fotografaram tecido mole da cintura escapular (KELLNER, 1996). Em 1984, Campos notificou a preservação de uma membrana alar de pterossauro (MARTILL, 1988; 1989 apud CARVALHO, 2005).

Os primeiros fósseis descobertos da Bacia do Araripe também estão envolvidos em discussões a respeito de que espécie pertencem. Em 1985, Wellnhofer descobriu um crânio, uma mandíbula e fragmentos do membro anterior direito que foram atribuídos ao mesmo gênero (Araripesauros). O espécime foi denominado Araripesauros santanae. As dúvidas surgiram em razão do caráter diagnóstico usado pelo pesquisador para a identificação do gênero. Wellnhofer atribuiu uma fraca fusão de ossos que compõe o crânio na região carpal como indicativo para sua classificação. Entretanto, existem controvérsias quanto à confiabilidade de tais características, que, segundo alguns pesquisadores, podem ter variação ontogênica. Por isso, Kellner sugere que mais estudos sejam feitos e aponta ainda uma pequena elevação óssea do crânio que dá idéia de uma crista, sugerindo que o “Araripesauros” santanae seja reclassificado dentro do gênero Anhanguera (KELLNER, 1989).

Anhanguera Santanae, dentro da posterior classificação de Kellner que sugeriu retirá-lo do gênero Araripessauro. Disponível em: <http://www.geocities.com/artursantana/>

Anhanguera Santanae, dentro da posterior classificação de Kellner que sugeriu retirá-lo do gênero Araripessauro. Disponível em:

Em 1980 Buisonjé descreveu fragmentos de úmero e escápula de um espécime denominado Santanadactylus brasiliensis (KELLNER, 1989).

Em 1983, Wellnhofer, Buffetaut e Gigase descreveram uma espécie encontrada na coleção particular do Dr. Paul Gigase que foi classificada também como Santanadactylus brasiliensis (KELLNER, 1989).

Em 1985, Wellnhofer classificou Santanadactylus dentro da família Ornithocheiridae (KELLNER, 1989).

Kellner foi responsável pelo achado da primeira mandíbula de pterossauro da Bacia. Analisando um alargamento na parte distal da mandíbula, onde estão os dentes maiores e a ausência de crista na parte ventral, ele a classificou como pertencente a um Brasileodactylus araripensis (KELLNER, 1989).

Já o primeiro crânio pertence a um Anhanguera blittersdorffi, com a primeira referência feita por Campos em 1983 e descrição completa feita por Campos & Kellner em 1985.

Crânio de Anhanguera bisterdoffi. Disponível em: <http://www.geocities.com/artursantana>

Crânio de Anhanguera bisterdoffi. Disponível em:

Posteriormente foi encontrado um segundo crânio dessa espécie, com mandíbula presente e completa. Kellner salienta que a principal característica é a crista sagitada na parte anterior do crânio (KELLNER, 1989).

Wellnhofer (1987), com base em um crânio e mandíbula e uma segunda mandíbula determinou as formas Tropeognatus mesembrinus e Tropeognatus robustus, dentro da família Criorhynchidae. (KELLNER, 1989).

Tropeognathus mesembrinus

Tropeognathus mesembrinus

Curiosamente, essa família possui como particularidades os dentes bastante verticalizados e a parte anterior do crânio muito alta e maciça (KELLNER, 1989). Estranhamente, nenhum fóssil da Bacia parece conter tais características. A família Anhangueridae, por outro lado, se caracteriza por uma crista na parte anterior do crânio e por dentes especializados na parte distal do rosto, próprio de uma alimentação piscívora. Deste modo, Kellner alega ter evidências suficientes para considerar Tropeognatus sinônimo de Anhanguera. (KELLNER, 1989).

Outro crânio encontrado na bacia foi estudado por Leonardi & Borgomanero (1983, 1985). Kellner constatou a necessidade de uma melhor preparação do material para estudo, já que a menção de um espaço vazio na pré-maxila indica classificação do raro Cearadactylus atrox (KELLNER, 1989).

Cearadactylus atrox

Cearadactylus atrox

Kellner e Campos (1987) estudaram ainda o primeiro pterossauro sem dentes da América do Sul. (KELLNER, 1989).

No início do século XXI, novos espécimes foram encontrados, como Thalassodromeus sethi, Tapejara navigans, Ludodactylus sibbicki e Anhanguera spielbergi (Kellner & Campos, 2002; Frey, Martill & Buchy, 2003; Frey, Martill & Buchy, 2003; Veldmeijer, 2003 apud SAYÃO, SD).

Crânio de Tapejara

Crânio de Tapejara

3 – CONCLUSÃO

Pterossauros eram répteis alados que surgiram no planeta como ocupantes de nichos ecológicos abertos após a grande extinção do Triássico. Dominaram os céus por boa parte do Mesozóico, vindo a desaparecer no final do período Cretáceo, juntamente com vários outros grupos, inclusive o dos dinossauros.

Novos estudos e achados tem possibilitado cada vez mais descobertas importantes sobre o modo de vida desses animais, trazendo alguns dados inéditos sobre anatomia, fisiologia e comportamento.  Até mesmo o problema central de como se locomoviam em terra parece ter sido resolvido nos últimos anos, com ajuda de modelos artificiais e novos achados ao redor do mundo.

Apesar dos fósseis de Pterossauros brasileiros se concentrarem na região nordeste, o país mostra uma exuberância de espécimes e espécies que o faz despontar no cenário mundial. Apesar disso, o histórico dos achados nacionais mostra-se bastante confuso e pouco confiável até o início do século XX, com muitos dados não comprovados. Hoje, as discussões continuam, principalmente as que envolvem escolhas de caráteres diagnósticos para famílias e ordens. Mas novas espécies continuam a ser encontradas com freqüência, enriquecendo o patrimônio fossilífero do país.

4 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARVALHO, M. S. S.; SANTOS, M. E. C. M. Histórico das Pesquisas Paleontológicas na Bacia do Araripe, Nordeste do Brasil. Anuário do Instituto de Geociências – UFRJ, Vol. 28-1 / 2005

MORAES, M. L. Locomoção Terrestre em Pterossauros – Uma Breve Revisão da Literatura. Anuário do Instituto de Geociências – UFRJ, Vol. 28-1 / 2005

VIANA, M. S. S.; NEUMANN, V. H. L. Membro Crato da Formação Santana, Chapada do Araripe, CE. Universidade Federal de Pernambuco – Centro de Ciências e Tecnologia – Departamento de Geologia, SD.

SAYÃO, J. M.; KELLNER, A. W. A. Novo Esqueleto Parcial de Pterossauro do Membro Crato, Formação Santana, Nordeste do Brasil. Universidade Federal de Pernambuco, Estudos Geológicos, v. 16, 2006

BRITO, I. M. A Formação Santana na Chapada do Araripe. Instituto de Geociências, UFRJ, SD

KELLNER, A. W. A. Os Répteis Voadores do Cretáceo Brasileiro. Instituto de Geociências da UFRJ, SD.

KELLNER, A. W. A.; SCHOBBENHAUS, C.; CAMPOS, D.A.; QUEIROZ, E.T.; WINGE, M.; BERBERT-BORN, M. Membro Romualdo da Formação Santana, Chapada do Araripe, CE. Museu Nacional/UFRJ – Departamento de Geologia e Paleontologia, S.D.

SARAIVA, A. A. F.; HESSEL, M. H.; GUERRA, N. C.; FARA, E. Concreções Calcárias da Formação Santana: Uma Proposta de Classificação. Departamento de Ciências Biológicas, URCA. Estudos Geológicos, v. 17, 2007

CARVALHO, I. S. Paleontologia. Rio de Janeiro: Interciência, 2004.

MENDES,  Josué Camargo. Introdução À Paleontologia. 2ª edição, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1965.

POUGH, F. Harvey; Heiser, John B. ; Janis, Christine M. A Vida dos Vertebrados. Terceira Edição, São Paulo: Athenheu Editora, 2003

MOODY, Paul Amos. Introdução À Evolução. 3ª edição, Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora, 1975.

STORER, T. I.; LUISINGER, R. L. Zoologia Geral. 2ª edição, São Paulo: Companhia Editorial Nacional, 1976.

CÂMARA, I. G. Extinção e o Registro Fóssil. Anuário do Instituto de Geociências – UFRJ, V. 30, 2007.


[1] – Graduando de Ciências Biológicas – Centro de ensino Superior de Juiz de Fora – CES/JF, Juiz de Fora, MG. 5° período. E-mail: ricardoborges13@gmail.com