Joãozinho, Maria e o Ritual de Iniciação

Pois é, minha mãe também lia João e Maria pra mim na cama, enquanto eu arregalava os olhos de medo da bruxa que vivia na floresta. Nem a leitora nem o ouvinte, porém, podiam fazer idéia de que aquela história tão popular mexesse com algo tão profundo na psique humana.

Na época, eu achava que a bruxa era apenas uma velha má que gostava de comer crianças.

Na época, eu achava que a bruxa era apenas uma velha má que gostava de comer crianças.

João e Maria é uma história de origem européia transmitida oralmente e coletada pelos irmãos Grim. Ela apresenta algumas variações. Sinceramente, não sei qual é a original nem me preocupei muito em saber já que mesmo as diferenças se enquadram em um ou outro modelo previsto por Propp em seu livro As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso, do qual falarei em mais detalhes num post futuro sobre a figura do dragão.

Além disso, as diferenças concentram-se na maior parte no início da história.

Em uma delas, as duas crianças vivem com um pobre camponês numa casinha simples, mas tem uma madrasta malvada que quer se ver livre delas e convence o pai a largar as crianças. Em outra versão, a mãe das crianças as pede para irem até a floresta buscarem lenha, mas as alerta de que não devem ir muito longe pois podem se perder. Uma das crianças, porém, tem a idéia de ir jogando pedaços de pão pelo caminho, fazendo uma trilha que os levaria de volta pra casa em segurança. Distraídos, eles acabam penetrando fundo pela mata e ao escurecer, quando tentam regressar, percebem que os pássaros comeram as migalhas de pão.

A partir desse ponto as histórias seguem mais ou menos o mesmo caminho.

Vagando pela floresta, João e Maria encontram uma cabana toda feita de doces. Com frio e fome aproximam-se e começam a comer as paredes.

A dona da casa, uma malvada bruxa, aproxima-se fingindo-se de boa, e os convence a entrarem, onde lhes fornecerá abrigo e todo tipo de alimento maravilhoso.

As versões espalham-se mundo afora.

As versões espalham-se mundo afora.

Quando tem as crianças sob seu poder, ela revela sua real natureza. Obriga Maria e ajudar-lhe nas tarefas e prende João numa gaiola ou no porão, onde pretende engordá-lo até que ele esteja no “ponto de corte.”

Todos os dias a bruxa desce até o porão e pede a João que lhe dê um dedo, o qual ela segura para certificar-se de que ele ainda não engordou o suficiente para comê-lo. Porém, devido à idade avançada ou por no porão ser escuro, ela não enxerga com suficiente clareza, e João aproveita-se dessa deficiência para enganá-la. Guardando um pedaço de osso de galinha que ele havia comido no primeiro dia, ele a estende para a bruxa quando ela lhe pede o dedo. Apalpando o magro osso, dia após dia, ela não percebe que ele está engordando e o acha sempre magro.

Um dia, porém, irritando-se, diz a Maria que comerá João estando ele gordo ou magro, e obriga a menina a limpar e preparar-lhe o forno onde pretende cozinhá-lo. Maria pergunta como se faz para entrar no forno, a bruxa irritada enfia a cabeça dentro e diz:

-É assim.

Maria a empurra para dentro e fecha a porta. A bruxa queima até o último osso.

Maria liberta o irmão. Ambos exploram a cabana, encontrando ouro e pedras preciosas, que ajudarão os pais a deixarem a miséria.

Encontram o caminho de casa através da floresta. Na versão em que existe a madrasta ruim, ela já está morta quando eles retornam.

ANÁLISE:

Como se origina o conto? João e Maria era uma história de tradição oral até ser coletada pelos irmãos Grim na Europa mas de onde surgiu?

Se concordarmos com Propp, temos três estágios de evolução que levam ao conto.

Primeiramente existem os ritos, ou seja, cerimônias de cunho sagrado realizadas por povos em estágio tribal de sociedade. No nosso caso particular, o rito original era o de iniciação, quando o jovem era submetido a uma série de provas que se destinavam a impregnar-lhe de poderes mágicos que o possibilitariam tornar-se um bom caçador. Para isso, o neófito deveria ser devorado por um monstro terrível, sofrer uma morte temporária, descer ao mundo dos mortos e depois retornar, trazendo consigo seus conhecimentos mágicos e renascendo como um novo homem. Tribos do mundo inteiro encenaram e continuam a encenar esse ritual de uma maneira toda especial que veremos em maiores detalhes.

Enquanto o rito é realizado, constituí-se num segredo improferível, conhecido apenas pelos que o sofreram ou pelos sábios da tribo que aos poucos passam seus conhecimentos. Mulheres e crianças ficam de fora. Mas, a medida em que o rito perde seu significado, seja por evolução natural ou invasão por culturas novas , o cunho sagrado se perde e o rito, aos poucos, transforma-se em mito.

Não é difícil perceber que, através dos séculos de tradição oral, o mito ganha contornos e floreios cada vez mais rebuscados, até se transformar em conto.

O que Propp nos propõe é traçar o caminho inverso através dos tempos e das narrativas, buscando significados rituais para particularidades que compõe o conto, mais especificamente o conto maravilhoso, ou conto de fadas.

Assim, a história de João e Maria pode ser desmembrada em diversos fragmentos que, analisados separadamente, nos darão informações sobre a forma arquetípica do pensamento tribal.

1. O Afastamento.

Nas sociedades tribais, a floresta era a porta para o outro mundo.

Nas sociedades tribais, a inserção na floresta era a passagem para o outro mundo.

Propp inicia seu estudo informando que o afastamento de crianças ou mesmo dos adultos é o primeiro indício de que alguma desgraça se abaterá. Esse afastamento é descrito logo nas primeiras linhas do conto. Em geral, os pais tentam proteger os filhos do perigo que ronda o exterior da casa proibindo-os expressamente de se aventurarem para além da soleira da porta.

Naturalmente a previsível desobediência acarreta o problema central da história que envolverá o herói.

No nosso caso, temos primeiramente a mãe que pede aos filhos para buscarem lenha, mas os alerta para que não se afastem muito pois poderão se perderem na floresta. Na outra versão, a madrasta malvada planeja o afastamento. Quanto a isso, veremos a razão mais adiante.

Temos, pois, o afastamento como ato de desencadeamento da desgraça, em nosso exemplo, a perdição na floresta e posterior encontro com a bruxa.

2. O Rito de Iniciação.

A iniciação ainda ocorre em povos do mundo inteiro.

A iniciação ainda ocorre em povos do mundo inteiro.

Como se processava o ritual?

Vimos que durante o rito acreditava-se que o jovem morria e ressuscitava como novo homem, plenamente investido de poderes mágicos que o possibilitariam se tornar um grande guerreiro.

“A morte e a ressurreição eram provocadas por ações que representavam a deglutição da criança por um animal monstruoso que a devorava.”

Ocorriam despedidas como se realmente a criança fosse morrer. Ela era enfeitada, penteada e vestida como num funeral, às vezes toda pintada de branco, a cor dos mortos e do Além. Aliás, diga-se de passagem, em nossas representações mais infantis, os fantasmas são brancos por isso: É a cor do outro mundo, da invisibilidade, da incorporalidade.

Mas, como encenavam essa morte temporária?

Para a realização desse rito escolhia-se um ponto afastado da aldeia ou a região mais densa da mata e construía-se uma cabana em forma de animal. O neófito era conduzido através de uma porta em forma de boca escancarada, e dentro da cabana era realizada a circuncisão, a parte mais importante do ritual, ainda que nem de longe fosse a única.

Dentro dessa cabana, ocorriam torturas inimagináveis.

O rapaz era simbolicamente cortado, cozido, esquartejado e depois ressuscitado. Infringiam-lhe torturas terríveis como amputação de dedos, extração de dentes, cortes e espancamento. As vezes passavam-se cordas sob a pele das costas ou do peito, a fim de suspender os meninos.

Temos relatos de talhes profundos que iam do pescoço até o fim das costas; retiradas de nacos de pele, queimaduras e esfolamentos. Nossos ascendentes indígenas sul-americanos eram especialmente cruéis nisso, aplicando pimenta aos ferimentos.

A morte temporária, em alguns lugares, era obtida com a abertura do corpo ou seu despedaçamento e posterior recomposição.

“Casos tardios mostram a substituição do iniciado por um outro homem ou por um animal. Existem vestígios de execução efetiva de um prisioneiro de guerra ou um escravo. Em certos casos, a decapitação das vítimas era feita em imagens. (…) Existem matérias mostrando que se exibiam para os iniciados cadáveres mutilados, que esses corpos eram colocados sobre um menino ou que este passava por cima ou se arrastava por baixo deles. Evidentemente, isso significava a morte do próprio iniciado (…). É fora de dúvida que no rito em questão existiu o canibalismo.”

Em alguns lugares, uma cova era aberta no solo e o iniciado era estirado ali, em meio a excrementos e urina de seus algozes, pois deveria superar o nojo nessa fase do rito.

Naturalmente, os traços violentos tendem a desaparecer.

Naturalmente, os traços violentos tendem a desaparecer.

Todo esse terror possivelmente tinha como finalidade provocar insanidade temporária. Prolongando-se interminavelmente, às vezes por semanas, acompanhadas por fome, sede, escuridão e medo, elas traumatizavam o suficiente para provocar uma espécie de esquecimento quanto à individualidade. Isso era especialmente importante para que o iniciado realmente acreditasse que havia morrido e ressuscitado do mundo dos mortos. Bebidas estranhas e alucinógenos de diversos tipos certamente facilitavam a passagem para esse estado.

Depois de esquecer quem era, sua origem ou família, o rapaz recebia um novo nome e eram-lhe transmitidas informações sobre o funcionamento da tribo e seu lugar nela, bem como técnicas de caça e conhecimentos sagrados.

Apesar de muito temido por jovens e mães, o rito era considerado necessário, pois nele o jovem “recebia o que poderíamos chamar de poder mágico sobre os animais.”

3. A Floresta.

Lugar sobrenatural, a floresta era o lar dos antepassados da tribo.

Lugar sobrenatural, a floresta era o lar dos antepassados da tribo.

A floresta no conto, nos informa Propp, nunca é bem descrita. Sabemos apenas que é escura, bastante ameaçadora e com ar sobrenatural. A relação dessa floresta com aquela em que se realizava o rito não podia ser mais explícita.

Do mesmo modo, a floresta sempre possui um caráter de empecilho, de impenetrabilidade e total hostilidade para com o herói.

Mas porque esses rituais tinham lugar numa floresta? Propp analisa que, além de fornecer a privacidade necessária para a realização da cerimônia, a floresta reveste-se nos mitos dos povos tribais com uma aura de limite entre o outro mundo, como barreira além da qual existe o país dos mortos.

Escuro, denso, povoado por espíritos ancestrais, esse tipo de ambiente foi impregnado pelos narradores tardios por uma aura de malignidade.

Escuro, denso, povoado por espíritos ancestrais, esse tipo de ambiente foi impregnado pelos narradores tardios por uma aura de malignidade.

As crianças eram levadas até a floresta pelo pai ou irmão, já que as mulheres eram proibidas de se aproximarem do local onde ocorria o rito sob pena de morte. Ou então as crianças eram largadas à sorte e deveriam encontrar a cabana por conta própria.

Interessante notar que, na versão onde a madrasta trama a morte dos enteados, ela faz com que o pai das crianças os abandonem, em lugar dela mesma o fazer. Temos aqui um indício de uma verdade histórica. A madrasta não os abandona porque as mulheres eram proibidas de levarem as crianças até o local sagrado.

“Com esses materiais, podemos chegar a uma conclusão, (…):  a floresta do conto reflete a lembrança da floresta como local do rito e como entrada para o reino dos mortos. As duas concepções estão estreitamente relacionadas.”

4. A Cabana Feita de Doces

A construção toda feita de doces é uma hipertrofia da necessidade que o herói tem de consumir um alimento especial para sua jornada pelo país dos mortos.

A construção toda feita de doces é uma hipertrofia da necessidade que o herói tem de consumir um alimento especial para sua jornada pelo país dos mortos.

Ao encontrarem a cabana, e mesmo antes do contato com a bruxa, a primeira coisa que João e Maria fazem é comer. Estão famintos, e as paredes e o teto erguidos com as mais deliciosas guloseimas são irresistíveis. A bruxa então percebe que algo se passa no exterior, porém trata os intrusos gulosos com estranha simpatia.

— Não tenham medo, crianças. Vejo que têm fome, a ponto
de quase destruir a casa. Entrem, vou preparar uma jantinha.
O jantar foi delicioso, e a velha senhora ajeitou gostosas
caminhas macias para João e Maria, que adormeceram felizes.

Curiosamente, temos essa primeira fase “boazinha” da bruxa em materiais de mundo inteiro. Ainda mais especificamente, tempos o primeiro contato dos personagens com farta refeição para o herói. Por que isso?

Cachinhos Dourados também encontra uma bela refeição quando entra na casa dos ursos, depois da qual parte para um sono reconciliador em cama alheia. Alimento e sono são pré-requisitos básicos para penetrar no mundo subterrâneo.

Cachinhos Dourados também encontra uma bela refeição quando entra na casa dos ursos, depois da qual parte para um sono reconciliador em cama alheia. Alimento e sono são pré-requisitos básicos para penetrar no mundo subterrâneo.

Propp exemplifica dizendo que em alguns casos o herói entra na casa e não encontra ninguém, entretanto alimenta-se fartamente com o que ali encontra. Apesar de não citar a história de João e Maria, afirma que em diversos contos infantis a própria casa é comestível.

Acontece que o alimento tem um valor especial. Acreditar que o herói tem fome por ter passado longo tempo em jejum perdido na floresta é apenas uma explicação racional tardia que em nada explica a compaixão de bruxa nesse primeiro momento.

Em algumas culturas, para se penetrar no mundo dos mortos deve-se consumir um alimento especial. Não acabamos de ver que a floresta é a fronteira para esse reino, que a cabana representa o próprio animal devorador? Aliás, no nosso conto esse aspecto zoomórfico da casa desapareceu por completo, mas na versão russa em que a bruxa é conhecida como Baba-Yagá, sua cabana ainda conserva um traço animalesco, pois se apóia em patas de galinha.

As patas de galinha são o último resquício de um tempo em que a cabana inteira representava um animal totêmico. Divindades também passaram por esse processo de idealização, do animal para o humano e, mais tarde ainda, para o conceito.

As patas de galinha são o último resquício de um tempo em que a cabana inteira representava um animal totêmico. Divindades também passaram por esse processo de idealização, do animal para o humano e, mais tarde ainda, para o conceito.

Uma vez dentro, tanto lá como aqui inicia-se o processo da morte temporária com o consumo de uma comida especial para isso.

5. A cegueira da bruxa

Um processo de transferência vingativo portou a bruxa, e não o herói, com a incapacidade de enxergar.

Um processo de transferência vingativo portou a bruxa, e não o herói, com a incapacidade de enxergar.

Revelando sua real natureza, a bruxa trancafia Joãozinho no porão, a fim de engordá-lo, enquanto Maria fica responsável pela ajuda nas tarefas domésticas. Parece perfeitamente claro o desinteresse da bruxa quanto à hipotética devoração de Maria, uma vez que as garotas não passavam pelo ritual de iniciação, não pela maneira e pelos motivos aqui estudados por nós, isto é, aquisição de poderes mágicos a fim de se tornar um bom caçador. Apenas João pode ser devorado porque apenas os meninos passavam pela experiência da cabana.

Entretanto, estando Joãozinho num porão ou encerrado dento de uma gaiola, a bruxa não consegue enxergá-lo muito bem, e ordena que ele lhe estenda o dedo para que ela verifique se está gordo o suficiente.

A explicação racional de que a bruxa não o enxerga por conta da escuridão reinante no porão é tardia e artificial. Vemos que em todas as variações desse personagem, inclusive em Baba-Yagá,  ocorre a cegueira.

Sabemos que ao entrar na cabana-monstro, o neófito era submetido a uma cegueira simbólica, Propp ilustra seu livro com essa descrição trazida por Frobenius:

“O neófito, com os olhos vendados, é introduzido na cabana. Em uma cova foi preparada uma papa espessa. Um dos iniciados agarra o neófito e lhe emplasta os olhos com essa mistura, a qual foi acrescentado pimenta. Ergue-se um uivo terrível e ao ouvi-lo, os espectadores, que ficaram do lado de fora da cabana, batem palmas e entoam um canto em louvor ao espírito.”

Entretanto, enquanto no rito é cegado o jovem, no conto temos a cegueira da bruxa. Como ocorreu tal inversão?

“Com o aperfeiçoamento das armas, a passagem para a agricultura e o advento de um novo regime social, os antigos ritos cruéis passaram a ser vistos como inúteis e malditos, e sua carga recaiu sobre seus executantes.”

Propp nos informa que a cegueira da bruxa é uma forma de protesto.

6. A amputação do dedo.

A amputação dos dedos foi um fenômeno relativamente comum nas sociedades tribais. Era um complemento às marcas que o neófito levava como prova de que estivera no país dos mortos, como também um novo nome, cicatrizes e tatuagens.

A amputação dos dedos foi um fenômeno relativamente comum nas sociedades tribais. Era um complemento às marcas que o neófito levava como prova de que estivera no país dos mortos, como também um novo nome, cicatrizes e tatuagens.

A bruxa apalpa o dedo de Joãozinho para ver se ele está gordo. Com tantas partes no corpo humano, não é esquisito que ela escolha justamente o dedo para analisar a quantidade de tecido adiposo acumulado? Porque não as bochechas, o braço ou, melhor ainda, uma cutucada na barriga?

Dentro da cabana, após a circuncisão, ocorria a amputação de um dedo, geralmente o mindinho da mão esquerda. As vezes o iniciado oferecia o indicador da mesma mão num sacrifício suplementar. Em alguns contos, esse tipo de mutilação foi conservado em variadas formas, as vezes com a extração para se observar se o menino havia engordado ou uma amputação acidental enquanto o herói vasculha o interior da cabana. No nosso caso ela não ocorre, mas a idéia latente está lá, a bruxa apalpa o dedo.

7. O forno da bruxa

Nos ritos, o neófito era simbolicamente despedaçado, cozinhado e queimado.

Nos ritos, o neófito era simbolicamente despedaçado, cozinhado e queimado.

As bruxas de forma geral possuem um caldeirão ou um forno onde pretendem cozinhar suas vítimas.

Sabemos que no rito o neófito atravessava a prova do fogo. Na Austrália, isso era feito da seguinte maneira: uma cova era aberta no solo onde o neófito se deitava. Dois homens ajoelhavam-se, um aos pés e outro na cabeça, e fingiam estar jogando molhos e temperos sobre o iniciado. Um outro homem se aproximava, farejando o ar como se sentisse cheiro de carne assada.

Obviamente, nem todas as culturas se contentavam com tal grau de estilização. Na Oceania, os neófitos sentam-se ao redor de uma grande fogueira, sem nada suspeitar, até que os homens responsáveis pela cerimônia os agarram e os aproximam do fogo até que todos os pêlos de seu corpo queimassem.

Comumente cinzas, brasas ou água fervente eram jogadas sobre o iniciado.

“Sabemos que na iniciação era como se o jovem adquirisse uma alma nova e se tornasse um novo homem. Temos aqui a concepção da força purificadora e rejuvenescedora do fogo – concepção que se prolongará até o purgatório cristão.”

O mesmo fenômeno da inversão observado na cegueira da bruxa é aqui repetido. Antes, quando o rito era algo vivo, a incineração era necessária ao neófito, porém o conto, representando uma narrativa posterior a esse estágio, repudia tal idéia, e faz com que o responsável pelo rito queime “até o último osso”, em lugar da criança.

8. Por que uma bruxa?

O antigo poder matriarcal ainda se inseria com força numa sociedade que lentamente mostrava sinais de mudança.

O antigo poder matriarcal ainda se inseria com força numa sociedade que lentamente mostrava sinais de mudança.

Até aqui, parece que conseguimos decompor de forma satisfatória, ainda que bastante superficial, as partes principais que compõe o conto, e dar-lhes um significado histórico. Resta-nos uma resposta, relativa à natureza do algoz. Em nenhum momento imaginamos que o iniciado comparecia diante de uma velha no rito, chegamos mesmo a dizer que as mulheres eram proibidas de participarem de tal cerimônia, como então explicar que a vilã de nossa história, a responsável pela tentativa (fracassada) de aplicar a iniciação a Joãozinho seja uma mulher, uma velha?

Ainda que Propp não apresente relatos de que os dirigentes da cerimônia fossem mulheres, caçadores e viajantes descreveram os chefes como homens vestidos de mulher.

“É possível ver na natureza feminina desses seres (…) o reflexo de antigas relações matriarcais. Tais relações entram em conflito com o poder masculino historicamente elaborado. (…) existem várias saídas para esse conflito. Uma delas: o mestre do rito travestir-se de mulher. Ele é homem-mulher.”

Sem entrar em mais detalhes, Propp salienta que a idade avançada da bruxa pode ser uma maneira de comunicar sua frigidez sexual.  Em muitas culturas seus órgãos reprodutivos são hipertrofiados, porém ela não tem marido nem vida sexual. “É sempre uma velha, e uma velha sem marido. (…) Representa o estágio em que a fecundidade era considerada obra feminina, independente da participação masculina. A hipertrofia de seus órgãos reprodutivos não corresponde a nenhuma função conjugal. Talvez por isso seja sempre velha. Personificação de seu sexo, ela não tem vida sexual.”

CONCLUSÃO:

Não é interessante como uma simples história pode se revestir de uma interpretação tão profunda? Os elementos arquetípicos contidos em João e Maria podem ser encontrados em todas as antigas culturas humanas, pois estão de tal modo enraizadas na mente que acabam florescendo independentemente do meio. Do mesmo modo, é por isso que histórias dessa natureza mexem tanto com a gente e são tão populares.

Obs.: E para quem quiser saber quais são os mais impressionantes rituais de iniciação pelo mundo afora, acesse o link: http://hypescience.com/25866-10-bizarros-ritos-de-passagem-de-todo-o-mundo/comment-page-1/#comment-25574

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12 Comentários

  1. É estranho a gente pensar que esses jovens que passam por esses terríveis rituais de iniciação ainda mantêm uma ligação forte com suas tribos, enquntos os “nossos” jovens que não sofrem nada tão forte se afastam tanto da sociedade…
    Lógico que o “nosso” ritual de iniciação é severo mais no sentido psicológico do que físico (tribal); nossos jovens sofrem discriminações desde pequenos por pessoas normalmente da mesma idade, mas revoltam-se contra os adultos…

    Como sempre, não tem como não ler e não elogiar um post seu, Ricardíssimo!!!
    Eu insisto: você escreve bem demais!!! Adoro toda essa pesquisa que você faz antes de escrever e todo esse trabalho visual do blog também, as imagens são muito interligadas ao texto!!!
    Com certeza eu nunca pensei que uma história que me parecia tão boba, podia “esconder” tanta coisa, só você mesmo pra revelar isso pra gente! Assim como faz também com os filmes!!!
    Eu tô fazendo super propaganda do seu blog já!
    Você mesmo poderia lançar um livro de contos =P

    • Thalita! Muito obrigado, vc sempre me incentivando. O que comentou sobre o ritual realmente faz muito sentido, eu não havia pensado dessa maneira ainda; portanto pode continuar comentando porque suas idéias são pertinentes e enriquecem o blog.
      Perceba que os rituais de iniciação estão desmembrados atualmente, e perderam o significado original: batizado, casamento, os trotes que a gente leva pra entrar na faculdade…Não estou dizendo que nossa sociedade seja melhor ou pior que qualquer outra, de muitos modos ela me parece bastante civilizada até, porém gosto de traçar esses paralelos.
      Por exemplo, aí em cima no texto eu disse que o neófito poderia passar por uma superação do nojo, não é bacana ver que a mesma coisa acontece com os calouros universitários durante o trote? Minha professora de história costumava dizer que tudo tem um porquê, e realmente tenho percebido isso cada vez mais. Às vezes (na maioria das vezes) não percebemos esses porquês por estarmos já muito afastados da fonte. Os rituais vão se modificando, ganhando novos contornos e a forma original, apesar de estar ali, perde a significação. Se perguntássemos a um veterano o porque daquele pé de frango amarrado no pescoço teríamos alguma chance de receber uma explicação histórica?
      Veremos aqui mesmo no blog todo o dinamismo dessa evolução nos posts que estou preparando sobre a figura do dragão! Eu sei que você vai gostar, talvez demore um pouco ainda porque o assunto é complexo, mas estou me dedicando.
      Um beijo minha querida, sabe que te adoro, e obrigado pelos elogios e pela propaganda!

  2. Belo texto, Ricardo. Bem escrito, dinâmico e muito bem embasado.Parece bom o tal de Propp. Gosto da aura em torno dos contos de Grim e me lembro nitidamente do imaginário que eu criava com João e Maria (essas imagens nunca mudam na cabeça). Parece que o ritual de iniciação ocorre em nossa sociedade, na medida em que se precisa marcar a inclusão de uma nova pessoa em qualquer círculo. Reforço a discussão desencadeada.

    Um abraço

    • Edmon, valeu pelo comentário, eu também gosto muito desse clima de contos de fadas e acho que por isso li e reli As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso com tanta paixão. Os ritos de iniciação continuam aí mesmo, porém agora desmembrados e racionalizados.

  3. Mto boa essa postagem. E eu acabei de ler “O homem e seus simbolos” hoje, rss, não resisti, logo em seguida eu li esse post. Mto esclaracedor e consciente o que vc escreve (e escreve mto bem).
    Eu gostei “e eu lí tudo”, viu. hauhaauahauaha…

    Abração Ricardo

    • Haha, valeu Matheus, espero que tenha gostado também de O Homem e Seus Símbolos, é um livro que quero reler em breve também.

  4. O livro “O homem e seus símbolos” é ótimo e um dos mais completos qu eu já lí. Até de física quântica, um tema que eu adoro e conheço pouco (…mas também, quem, realmente, sabe alguma coisa sobre isso? Só Deus.), a obra comenta.
    Os símbolos são, como você demonstrou na postagem acima, muito mais influentes e integrantes em nossas vidas e nossas almas que o consiente pode perceber.

    Releia-o. E poste uma crítica, com a natural lucidez que lhe é peculiar, sobre esse livro.
    Desde já, aguardo, curioso, e agradeço.

    Abraço

    • Nossa, eu to com muita vontade de reler esse livro mesmo, já deve ter mais de um ano que o peguei. Realmente, física quântica é tão interessante quanto complicado. De qualquer maneira, esse é o tipo de livro que devemos reler sempre. Vamos ver, talvez eu escreva algo, mas ainda acho que vcs estão vendo em mim muito além do que sou… Abraço, e continue atualizando Meu Nome É Bond Matheus!

  5. […] encontramos a regurgitação de um indivíduo? Já vimos aqui no blog que no ritual de iniciação o indivíduo era simbolicamente devorado e regurgitado. Ao atravessar a […]

  6. Adorei a versão João e Maria com toda a simbologia aqui colocada.

    • Obrigado Selma, espero que o conteúdo do blog resulte em leituras sempre agradáveis e úteis para você e para outros, pelo menos eu me esforço para isso. Comentários assim sempre nos incentivam.

  7. […] não somos ingênuos e percebemos claramente a semelhança desse padrão básico com os ritos de iniciação que ocorrem em diferentes culturas espalhadas pelo mundo, o que leva alguns estudiosos a creditarem […]


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