Uma História do Dragão – Introdução

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Quando estudava no infantil e pré,   rabiscava com freqüência nos meus cadernos figuras de dragões vermelhos soltando fogo pelas narinas e provocando pânico numa população de homenzinhos rabiscados de qualquer maneira entre as tarefas que a professora passava. Na minha inocência, acreditava piamente que tais seres realmente haviam existido numa época indeterminada, onde haviam cavaleiros e castelos. Hoje, desconfio seriamente que foi através desse primeiro fascínio que nasceu minha paixão pelos dinossauros. Acho que, após saber que os dragões não passavam de lenda, transferi meu interesse por seres mais palpaveis, ainda que estejam bem mortos desde a era Mesozóica. Deixei de desenhar dragões.

Muitos anos depois, no único período que cursei na psicologia,  redescobri a magia das histórias surreais dos contos de fadas, e então, mais tarde ainda, o dragão de repente surgiu de novo, nas páginas empolgantes de um livro.

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Lembro-me perfeitamente da tarde modorrenta em que eu assistia Mulheres Apaixonadas em Vale a Pena Ver de Novo (sic), entediado e  com vontade de ler alguma coisa mais específica e profunda, aquele tipo de livro denso e talvez até difícil em que as vezes sentimos necessidade de mergulhar. Fui até a biblioteca municipal da minha cidade e vasculhei as prateleiras, até que na mais baixa delas, bem escondido, estavam dois exemplares de As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso, de Vládimir Propp.

Vladímir Propp, o escritor russo que tanto me influenciou nos últimos tempos.

Vladímir Propp, o escritor russo que tanto me influenciou nos últimos tempos.

É realmente difícil falarmos daquilo que gostamos muito, sempre parece faltar um pouco, sempre parece que não passaremos a idéia exata daquilo que sentimos. Raízes Históricas foi com certeza um dos melhores livros que já li na vida, e o segundo que peguei pra reler com mais rapidez.

Olha ai o exemplar que eu usei. (o pé não era pra ter saído)

Olha ai o exemplar que eu usei. (o pé não era pra ter saído)

Não há muito o que dizer sobre a estrutura do livro, o nome já diz tudo. Resumidamente, Propp nos mostra como os antigos ritos das sociedades primitivas, principalmente da pré-história, trouxeram elementos do inconsciente que acabaram por moldar nossas histórias de contos de fadas. Pra dar um gostinho, vejam os principais capítulos:

Cap. 1 – Premissas

Cap. 2 – O início do Conto

Cap. 3 – A Floresta Encantada

Cap. 4 – A Casa Grande

Cap. 5 – As Dádivas Mágicas

Cap. 6 – A travessia

Cap. 7 – À beira do Rio de Fogo

I – O dragão no conto

II – O dragão engolidor

III – O herói no tonel

IV – O Dragão raptor

V – O dragão e o reino dos mortos

Cap. 8 – Além das Terras dos Confins

Cap. 9 – A Noiva

Cap. 10 – O conto Como Um Todo

Naturalmente, gostei muitíssimo da parte em que ele fala sobre o dragão, já que essa criatura mexe com a minha cabeça desde que me entendo por gente.

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Por razões de comodidade, dividi os capítulos dessa postagem de acordo com os subcapítulos de Propp e cheguei a criar uma categoria só para eles, tal a profusão do tema e o tamanho total do texto.

Tudo explicado,ouçamos o que Propp tem a nos dizer:

01 – O Dragão Engolidor

– O engolimento e a regurgitação rituais

Talvez a função principal do dragão seja o combate que este tem com o herói. Os materiais indicam que o motivo do combate se originou do motivo do engolimento, e se sobrepôs a ele de modo natural. Cabe-nos, portanto, analisar a forma arcaica do dragão, o dragão engolidor.

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Onde encontramos a regurgitação de um indivíduo? Já vimos aqui no blog que no ritual de iniciação o indivíduo era simbolicamente devorado e regurgitado. Ao atravessar a garganta do animal totêmico, ele penetrava do mundo do além e adquiria poderes mágicos.

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-Significado e bases históricas desse rito

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Propp observa que o estudo do rito em si nada ajuda para sua compreensão. “A chave é dada pelos mitos que o acompanham.” Já observamos os motivos desse tipo de ritual, e esses motivos nos trazem também informações sobre a base sócio-econômica das sociedades que o utilizavam.

Tornar-se um bom caçador é importante em uma tribo que ainda não conhece a agricultura. “A base intelectiva é pré-histórica. Funda-se que o alimento proporciona a comunhão em essência com o animal totêmico, para transformar-se nele e assim entrar no clã totêmico, é preciso ser comido por esse animal.”

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O mito e o rito não são perfeitamente complementares. Quando o mito surge, o rito já perdeu pelo menos parte de seu significado. O mito possuiu elementos tardios de incompreensão ou modificação.

A medida em que a sociedade evolui, as dádivas concedidas pelo animal totêmico (o dragão) mudam. Numa sociedade agrária, tornar-se um bom caçador já não é assim tão importante. As dádivas lentamente transferem-se para duas capacidades mágicas muito específicas mas que surgem de maneira insistente em várias culturas: “a faculdade de curar e a de entender a linguagem dos animais.” Similarmente, com a evolução da agricultura, no interior do dragão passam a ser encontrados legumes e cereais importantes na alimentação.

Em alguns casos, o engolimento pelo animal passou a ser substituído pelo engolimento pela água. Porém, indícios de que a passagem para o mundo subterrâneo ainda estava lá revelam-se na presença de vermes e répteis dentro do rio ou lago, seres comumente relacionados ao outro mundo.

Os mitos enfatizam a relação entre herói e dragão criando relações de parentesco entre eles, ou interligando-os num destino fatal. O grande caçador passa a ser descendente de linhagens draconianas, assim como o grande xamã ou feiticeiro.

Percebam que até aqui, o dragão é representado como um ser benfazejo, doador. Na verdade, esse é o primeiro estágio do dragão.

-A linguagem dos pássaros

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Não sabemos exatamente se durante o rito podia-se, ao mesmo tempo em que se era devorado pelo animal totêmico, também comer um pedaço desse animal. Enquanto a sociedade evoluía, esvaí-se o cunho mágico de certas artes, mas permaneciam para aquelas que o homem ainda não tinha domínio. Ele continua a adquirir o poder de entender não apenas os pássaros, que possuem um significado mais sagrado em todas as culturas, mas também a dos peixes, das serpentes, dos lagartos e de praticamente todos os animais da floresta.

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-Os diamantes

É bastante comum o herói encontrar diamantes e pedras preciosas incrustadas na cabeça do dragão ou sob seu poder. Pedras que muitas vezes o monstro dá de presente ao herói.

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O fascínio que as cores vivas ou o formato geométrico dos cristais exercia sobre a mente dos povos primitivos lhes impregnou de um caráter mágico. O dourado do ouro ou o brilho dos diamantes passaram a figurar como lugar comum no mundo do além, na terra do dragão. No meu post aqui no blog chamado Joãozinho, Maria e o Ritual de Iniciação vimos rapidamente que um tesouro é encontrado na casa da bruxa. A sociedade capitalista que viria depois imprimiu a esse acontecimento um caráter mais racional, já que as riquezas ajudaram o pobre camponês a sair da miséria.

O dragão passou a guardar os tesouros incalculáveis que esperavam pelo herói no outro

O dragão passou a guardar os tesouros incalculáveis que esperavam pelo herói no outro mundo.

No rito de iniciação, simulava-se que cristais e diamantes eram introduzidos no corpo do iniciado. Do mesmo modo, Propp coloca em ligação com isso outros fenômenos típicos dos contos de fada: o túmulo de vidro que guarda a Bela Adormecida e outros personagens, a montanha ou o palácio de cristal habitados pelo dragão, etc…

02 – O Engolidor-transportador

03 - transportador

Depois de engolido pelo dragão, o herói é transportado em seu ventre para outro país, onde é regurgitado ou sai por suas próprias forças. Nesse estágio vemos o início do combate com o dragão, pois o monstro é por vezes morto pelo herói.

Com a perda do sentido benéfico do engolimento, o dragão torna-se algoz.

Com a perda do sentido benéfico do engolimento, o dragão torna-se algoz.

Muitas vezes, percebemos que o motivo do engolimento foi apenas levemente distorcido, o dragão não mais carrega o herói em seu ventre, mas nas costas. Nesses casos, percebemos ainda a grande carga persistente do dragão benfazejo.

Porém, traços do antigo dragão benfazejo ainda persistem.

Traços do antigo dragão benfazejo ainda persistem.

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Propp salienta que o mito se desenvolveu quando houve, paralelamente, um avanço nas noções de espaço, em culturas que começavam a se comunicar umas com as outras e que, pelo intercâmbio, estreavam as rotas comerciais.

É uma bela imagem...

É uma bela imagem...

O país dos mortos deixou de ter uma entrada na floresta que circundava a tribo e passou a ser um lugar além das montanhas, ou do mar. Esse tipo de mito passou a surgir principalmente entre os povos costeiros, que criaram histórias sobre homens transportados para alto mar nas entranhas de peixes.

“A floresta – explica Propp – foi substituída pelo mar. Isso significa que a caça das florestas deixou de representar a única fonte de subsistência e que os ritos correspondentes perderam o sentido.”

Começa-se a desvanecer a idéia de que o ventre do engolidor portava o engolido de qualidades mágicas. O engolimento, por conseqüência, deixava de representar algo bom para se tornar seu oposto, e o dragão doador transforma-se em vilão, a quem o herói tenta matar de todas as formas. Como dissemos, é o início do combate.

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-A luta com o peixe como primeira etapa do combate com o dragão

Leviatã: forma arcaica do dragão

Leviatã: forma arcaica do dragão

Os primeiros navegantes perdiam o sono ao imaginar que tipo de criaturas hostis o mar guardava.

Os primeiros navegantes perdiam o sono ao imaginar que tipo de criaturas hostis o mar guardava.


Ilustrando, temos Jonas e a Baleia. Nesse caso, a utilização de uma baleia para representar o animal totêmico deve-se ao seu tamanho excessivo, uma maneira de comunicar seu poder de engolir.

O profeta Jonas exemplifica nossa primeira fase.

O profeta Jonas exemplifica nossa primeira fase de ruptura.

Não teria sido por sua permanência no interior da baleia que Jonas adquiriu seus poderes proféticos?

Ainda que a forma arcaica remeta a um período mais primitivo, o comportamento predatório indica o início do combate.

Ainda que a forma arcaica remeta a um período mais primitivo, o comportamento predatório indica o início do combate.

A regurgitação voluntária por parte do dragão desaparece aos poucos, mas o engolimento persiste. Naturalmente, isso significa que o herói passa a ter que lutar bravamente para deixar as entranhas do engolidor. Comumente ele faz isso tentando provocar dor no animal.

Muitas vezes, narra-se a perda de cabelo do herói ao deixar as entranhas do monstro, atribuindo isso ao calor imenso que fazia lá dentro. Interessante lembrarmos que, também durante o rito, não apenas o cozimento mas também o corte dos cabelos eram provocados no iniciado.

O mar é a entrada para o outro mundo, o peixe a comunicação.

O mar é a entrada para o outro mundo, o peixe a comunicação.

Nos povos marítimos então, que estrearam essa nova visão do mundo do além, temos a concepção do engolidor-transportador como um ser aquático, e essa é uma atribuição que impregnará a imagem do dragão até os dias atuais, ainda que a forma mude constantemente.

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O herói não é mais aquele que é engolido, mas o que mata o engolidor. Num primeiro estágio, é preciso ainda penetrar no ventre do inimigo para ferir-lhe mortalmente, mas logo isso se torna desnecessário. Entretanto, por longo tempo ainda notamos os resquícios do engolimento por outras formas de luta que, mesmo assim, objetivam acertar o monstro na boca, sue ponto fraco. “Esse é um passo a mais na evolução do assunto. (…) Para vencer o dragão, ainda é preciso lançar alguma coisa em sua goela, porém não mais obrigatoriamente um indivíduo. Agora são jogadas pedras quentes (…) E finalmente resta apenas o combate com o dragão (…) nas formas que nos são conhecidas.”

Alguém se lembra da história de David e Golias?

Pedras são as armas de David, que deve acertá-las no crânio do gigante.

Pedras são as armas de David, que deve acertá-las no crânio do gigante.

Tudo bem, a imagem é um das minhas preferidas, mas o herói ali de sunga verde não está a cara do Carl Sagan?

Tudo bem, a imagem é um das minhas preferidas, mas o herói ali de sunga verde não está a cara do Carl Sagan?

Com as rotas comerciais em ascensão, introduz-se um novo momento: o transporte do engolido no estômago do engolidor. Surgem motivações utilitárias de fator racional: os órgãos do engolidor passam a servir de alimento. Os mitos tornam-se mais rebuscados com motivos heróicos que acabam tendo sentido inverso ao original: o herói penetra no ventre do engolidor não para servir-se do que lá encontra, mas para matar esse engolidor e livrar seu povo da tirania draconiana.

Ao se tornar vilão, o dragão serve ao lado negro das histórias.

Ao se tornar vilão, o dragão serve ao lado negro das histórias.

Posteriormente, o engolidor é morto por objetos mágicos que, quando atirados em sua boca, o fazem morrer por dentro.

No filme Reino de Fogo, o protagonista atira flechas flamejantes na garganta do dragão para exterminá-lo.

No filme Reino de Fogo, o protagonista atira flechas flamejantes na garganta do dragão para exterminá-lo.

Aqui, claro, devo abrir um parênteses ao relacionar esse motivo àquele do filme também já tratado no blog, O Labirinto do Fauno, quando Ofélia, para matar um sapo monstruosos que vivia no subterrâneo de uma velha figueira, dá-lhe de comer três pedras mágicas, que o levam a morte.

03 – O Herói no Tonel

     Pica-pau desce as Cataratas do Niágara num barril: A estilização crescente e a perda de contato com o rito fez com que o dragão ganhasse sua primeira forma "não-animal."

Pica-pau desce as Cataratas do Niágara num barril: A estilização crescente e a perda de contato com o rito fez com que o dragão ganhasse sua primeira forma "não-animal."

-O barco usado para o transporte

O motivo do herói no tonel provém do motivo do herói dentro do peixe. Poderíamos generalizar as histórias com esse tipo de motivo com as seguintes características: um rei, por algum motivo qualquer manda executar um recém-nascido a quem, por compaixão do carrasco, é colocado dentro de um cesto ou bote e lançado ao mar. Mesmo correndo todos os riscos, ele sobrevive e é educado no exílio, de onde retorna mais tarde para cumprir seu destino.

Sem medo de parecer teórico demais, Propp diz que o tonel, por ser de madeira, remete ao culto das árvores. Sabemos que o motivo do engolimento e da regurgitação relacionava-se a animais totêmicos, mas também as árvores o podiam ser. O que interessa nesse caso seria mais a madeira de que é feito o barco do que o próprio meio de transporte utilizado.

Baobá, árvore sagrada para muitos africanos.

Baobá, árvore sagrada para muitos africanos.

Propp nos diz que provavelmente essa é a origem da lenda de Noé, que subiu num gigantesco navio de madeira e de onde saiu como ancestral da humanidade.

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Ao que parece, a permanência obrigatória (e diga-se de passagem já não voluntária) dentro desse nicho é condição essencial para amadurecimento e poder.

Aqui, faço uma nova pausa para analisarmos dois filmes interessantes onde temos esse motivo.

Um deles, uma superprodução da Disney, é O Príncipe do Egito, que conta a história de Moisés em sua luta para libertar o povo hebreu.

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No filme, temos logo no início a sequência de cenas que mostram o pequeno bebê predestinado abandonado no Nilo dentro de um cesto, que vai parar nas mãos da família real.

Moisés, que passou pela provação do cesto flutuante ainda bebê.

Moisés, o futuro profeta que passou pela provação do cesto flutuante ainda bebê.

Outro filme, bastante diferente, é Madagascar 2. Também no início, nos é mostrada a origem do personagem Alex, encerrado dentro de um caixote de madeira que, caindo no mar, o leva até os Estados Unidos.

O tonel leva o herói: arquétipo pré-histórico presente em filme da Disney.

O tonel leva o herói: arquétipo pré-histórico presente em filme da Dreanworks..

O confinamento e a travessia do mar como condição para se tornar herói.

O confinamento e a travessia do mar como condição para se tornar herói.

Esse filme é bastante interessante por um detalhe: Alex chega lá comendo um peixe.

Propp já nos disse que não se sabe se o neófito comia um pedaço do animal totêmico enquanto estava no interior desse animal, porém o jovem Alex estava segurando um peixe quando foi descoberto no Novo Mundo, dando a entender que se alimentou disso durante a travessia.

Imagens inocentes detentoras de forte carga numinosa.

Imagens inocentes detentoras de forte carga numinosa.

A pergunta é: Se os produtores do filme tem todas as probabilidades de nunca terem ouvido falar de Vladímir Propp e se Alex comendo um peixe foi uma idéia que emergiu do inconsciente de alguém da produção, é possível tratar esse motivo como sendo mesmo arquetípico e, ao mesmo tempo, defender e endossar a tese de que o neófito comia sim um pedaço do animal totêmico durante o rito de iniciação? Não sou nenhum profissional, longe disso, mas para mim, a emerção de um conteúdo arquetípico contemporâneo é forte indício de que tal conteúdo era extravasado e praticado em sociedades que se guiavam pelo inconsciente.

04 – O Dragão Raptor

02 - morfologia

– O aspecto externo do dragão

Até aqui, ouvimos muito sobre o dragão mas percebemos que ele ainda não tem a forma com a qual estamos acostumados. Isso se deve ao fato de sua morfologia ser bem tardia, num momento da história humana em que o contato íntimo com os animais e com a natureza de forma geral começou a se perder. Nos povos realmente primitivos ele não existe. “O dragão é uma junção mecânica de vários animais (…), aparece ao mesmo tempo em que os deuses antropomórficos.”

O ingresso na era da artificialidade pouco a pouco afastou o homem da natureza, enquanto sua visão dos deuses tornava-se progressivamente antropomórfica.

O ingresso na era da artificialidade pouco a pouco afastou o homem da natureza, enquanto sua visão dos deuses tornava-se progressivamente antropomórfica.

Primitivamente, quando alguém morria, transformava-se em serpente, lagarto ou pássaro, mas a perda de contato com esses seres faz com que a crença degenere. Da mesma forma que os animais lentamente se transformam em humano, como no caso dos deuses antropomórficos do panteão egípcio, os animais começam também a se transformarem e a se fundirem. Surgem criaturas híbridas de aspecto fantástico, entre elas o dragão.

Esfinge, a terrível criatura híbrida que testava os homens com enigmas impossíveis.

Esfinge, a terrível criatura híbrida que testava os homens com enigmas impossíveis.

Minotauro, outro ser híbrido que parece ter um gosto especial por carne humana.

Minotauro, outro ser híbrido que parece ter um gosto especial por carne humana.

Basicamente, vemos nele traços de serpente e pássaro, os dois animais mais usados para representar a alma.

Os arquétipos da psiquê humana dotaram o dragão com aspectos outrora sagrados.

Os arquétipos da psiquê humana dotaram o dragão com aspectos outrora sagrados.

No inicio, o morto podia transformar-se em qualquer animal, mas com o advento das noções de espaço, que levam o país dos mortos a transferir-se para além do horizonte, ou, num evento semelhante, para debaixo da terra, ocorre uma limitação no tipo de animal que o morto pode transformar-se. Pássaro para as culturas marítimas que viam o Mundo do Além pra lá do horizonte, serpentes ou outros répteis para os que acreditavam que a terra dos mortos ficava no subsolo.

Réptil e ave fundem-se na figura do dragão.

Na América Central pré-colombiana a junção entre ave e réptil não podia ser mais explícita do que a representada na serpente emplumada.

Quetzalcoatl, deus asteca na América Central pré-colombiana nos mostra junção entre ave e réptil na forma de uma serpente emplumada. Os astecas acreditavam que a alma dos mortos transformavam-se num belo pássaro que voava para o sol, reino dos mortos, o que está em conformidade com a condição social que eles alcançaram.

A multiplicidade das cabeças é outra coisa interessante.

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Ela é uma representação da capacidade de engolir, quanto mais cabeças mais terrível e poderoso. Nas palavras de Propp, esses povos “expressavam qualidade através de quantidade”, similarmente ao que pretendiam ao enfatizar o tamanho gigantesco do peixe engolidor.

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O dragão raptor surgiu através da crença de que o morto, transformado em animal, perambulava pelo mundo dos vivos atrás de vítimas que carregaria consigo para o país dos mortos. Essas crenças, que nos podem parecer estranhas, foram mais comuns do que pensamos. Em muitas culturas, ver um determinado tipo de animal em determinadas situações (como durante uma gravidez) é mau presságio.

– O dragão e a princesa

Com a agricultura enchendo o estômago, a fome sexual passa a primeiro plano.

Com a agricultura enchendo o estômago, a fome sexual passa a primeiro plano.


Aos mortos, de qualquer forma, eram atribuídos alguns instintos bem conhecidos dos vivos: a fome e o instinto sexual.

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No início, quando conseguir alimento era prioridade, a fome exerceu um papel essencial na representação dos mortos, e como motivo principal para seus atos nefastos. Porém, com o avanço das sociedades e com a diminuição progressiva da preocupação com alimento, a fome sexual passou também para primeiro plano. Temos aí o surgimento do dragão raptor, que seqüestra a princesa e a leva para seu castelo. Em muitos contos ele não a devora, mas pretende sim desposá-la: “O dragão apoderou-se da princesa e levou-a para seu covil, mas não a devorou. Como era muito bela, tornou-se sua mulher.”

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Em alguns casos, o próprio dragão se transforma em príncipe e desposa a princesa, como no conto A Bela e a Fera.

Ainda que eu não seja fã, a série de filmes Sherek pode nos mostrar isso de forma divertida. O dragão, nesse caso benfazejo por razões humorísticas, se apaixona e se casa com o Burro, com o qual tem filhos híbridos. Quando o dragão é mostrado pela primeira vez, temos não apenas o rio de fogo mas também a posse de tesouros, tudo relacionado com o mundo do além, como estamos vendo.

05 – O Dragão Aquático

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– A natureza aquática do dragão

A arcaica função de guardião das águas está ligada primeiramente à serpente e depois ao dragão. Esse tipo de mitologia está presente nas culturas mais primitivas, como os aborígenes da Austrália. Ainda que, logicamente, tal idéia possua sua pré-história, Propp confessa que não existem materiais a esse respeito. Apenas é possível inferir com segurança que a serpente detentora das águas e o dragão engolidor fundem-se na mesma criatura.

O dragão serpentiforme, detentor das águas, aqui claramente delineado (talvez inconscientemente) pelas mãos do artista.

O dragão serpentiforme, detentor das águas, aqui claramente delineado (talvez inconscientemente) pelas mãos do artista.

Como vimos, primeiramente esse tipo de ser era benfazejo, nas culturas agrícolas ele passa a ser o deus da fertilidade da terra e até mesmo do homem. Mas, quando surge a estratificação social características do Estado, com seus deuses antropomórficos, sedentarismo e pecuária regular, as coisas mudam para o dragão. Os novos deuses passam a persegui-lo.

A forma serpentiforme é mais explícita nas criaturas marinhas, pois é a serpente que detem o elemento água.

A forma enguiliforme é mais explícita nas criaturas marinhas, pois é a serpente que detem o elemento água.

Aqui, minha namorada contempla versões gregas do dragão aquático, em dois afrescos expostos no Museu Nacional do Rio de Janeiro.

 

Na China, o dragão também é um ser fundamentalmente aquático, ele mora num palácio de cristal que pode ser visto em determinadas condições climáticas, nos arredores de Pequim.

Na China temos os exemplares mais bem definidos desse tipo de dragão.

Na China temos os exemplares mais bem definidos desse tipo de dragão.

Como desculpa para o início do combate, temos um abuso por parte dessa criatura mágica que guarda as águas. Por capricho, ele causa secas ou inundações.

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-Os tributos ao dragão

Nas histórias, nossas belas e frágeis mocinhas tem sofrido desde o início do tempos.

Nas histórias, nossas belas e frágeis mocinhas tem sofrido desde o início do tempos ou, pelo menos, desde que o dragão se tornou mau.


Já falamos sobre o instinto sexual do dragão, sua capacidade de controlar a água e a agricultura incipiente que o homem dominava num estágio posterior ao tribal. É interessante como essas coisas se relacionaram no imaginário humano, dando origem aos muito comuns rituais de oferendas e sacrifícios à água e aos deuses que habitavam nela.

No filme Madagascar 2 temos outra cena muito interessante, quando eles oferecem à girafa em sacrifício à divindade de um vulcão para que o lago seco voltasse a encher.

Liderados pelo fanático rei Julian, a comunidade de animais se prepara para lançar à lava ums dos personagens principais.

Liderados pelo fanático rei Julian, a comunidade de animais se prepara para lançar à lava um dos personagens principais.

Enquanto assistia ao filme, e nessa cena em particular, minha prima observou uma coisa e disse: Engraçado, a girafa está parecendo uma noiva.

A girafa macho Melman, vestida de maneira apropriada e cômica.

A girafa macho Melman, vestida de maneira apropriada e cômica.

Naquele momento tive um estalo e me lembrei da parte do livro em que Propp fala sobre esses tipos de sacrifícios, em geral envolvendo uma jovem:

“Vestiam uma jovem de noiva, enfeitavam-na com flores, friccionavam seu corpo com ungüentos aromáticos e levavam-na até a margem, onde a deixavam sobre um rochedo ou pedra sagrada, e então um crocodilo a carregava para as águas do rio e o povo ficava plenamente convicto de que ela se tornara efetivamente a mulher do crocodilo, considerando que, se não fosse virgem, o crocodilo a devolveria.”

Os maias também enfeitavam belas jovens e as atiravam em um lago, para que a colheita de milho fosse farta. Na América Central, até hoje os índios acreditam que a seca só termina se alguém morrer afogado.

Sacrifício maia em adoração ao sol.

Sacrifício maia em adoração ao sol.

No entanto, cabe dizer que as sociedades em que ocorriam tais sacrifícios estavam ainda num nível muito primitivo de técnica agrícola. À medida que essa se aperfeiçoava, os laços familiares, a religião e a organização social se intensificavam, criando forte empatia com os sacrificados, principalmente com os parentes mais próximos. Aos poucos, a atenção foi desviada para as vítimas, e os executores ganharam aura de vilões.

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Por isso, no conto, geralmente o herói é aquele que salva a vítima do sacrifício. Na época em que o rito era vivo, seria provavelmente linchado por tal ato, mas como sabemos, o conto representa uma narrativa tardia e desligada às crenças originais.

Em geral, as histórias desse tipo seguem as mesmas linhas básicas, como no filme Coração de Cavaleiro: uma jovem é oferecida em sacrifício para o dragão que ameaça a aldeia, mas eis que surge um príncipe à cavalo, liberta a jovem, mata a besta fera e se casa com a princesa. Nesses casos, o dragão é sempre um ser aquático. Nesse filme, no momento do sacrifício, o dragão (falsamente) agonizante desaba num lago, de onde ressurge tranquilamente depois. É um filme divertido, bem feito e legal de se ver, com várias características contidas no livro de Propp.

Cena de Coração de Cavaleiro, onde temos o típico dragão aquático.

Cena de Coração de Cavaleiro, onde temos o típico dragão aquático.

06 – O Dragão e o Reino dos Mortos

O dragão guarda a fronteira para o outro mundo, onde o herói tenta penetrar

O dragão guarda a fronteira para o outro mundo, onde o herói tenta penetrar

– O dragão-guardião

Vimos repetidamente que a crença fundamental quanto ao rito de iniciação é que enquanto ele se processava o neófito descia ao reino dos mortos, de onde voltava com poderes mágicos. Quando essa idéia perdeu-se no tempo, a descida ao mundo dos mortos virou sinônimo da descida ao inferno e a viagem que o neófito fazia continua como pré-requisito para sua heroificação.

Por vezes, antes do combate há um diálogo entre dragão e herói, frequentemente caracterizado por torca de ofensas.

Por vezes, antes do combate há um diálogo entre dragão e herói, frequentemente caracterizado por troca de ofensas.

Entendemos mais claramente também porque o dragão vive sempre perto de um reservatório de água, porque ele a vigia. É que com a concepção de um mundo dos mortos no horizonte além mar nascida com os povos marítimos, a água virou sinônimo de passagem para esse outro mundo. O dragão, que anteriormente era um ser benfazejo que carregava no estômago o neófito, transformou-se agora em inimigo da humanidade, e como tal impede a passagem do herói em seu processo de aquisição de poder. Posteriormente, em conformidade com a própria evolução social, veremos que água guardada pelo monstro torna-se lava fervente.

Subterrâneo e ao mesmo tempo ígneo,  naturezas aparentemente distintas se fundem na figura híbrida do dragão.

Subterrâneo e ao mesmo tempo ígneo, naturezas aparentemente distintas se fundem na figura híbrida do dragão.

Mesmo o dragão da montanha não está ligado à montanha e sim às cavernas, onde sempre existe um reservatório de água. Isso é bem explicito no filme A Lenda de Beowulf. Ali um dragão dourado, solar, mas que habita uma caverna onde há um reservatório de água. Existem ainda elementos ainda mais específicos que enriquecem sua interpretação como, por exemplo, o parentesco entre o dragão e o herói (a criatura é filha do antigo rei) e a mãe do dragão, representada pela versão digital de Angelina Jolie. Reparando-se bem, dá pra perceber que a caverna onde os vilões moram é o interior de algum tipo de criatura, pois estão claramente visíveis no teto e nas paredes vértebras e costelas. Sem falar nas riquezas materiais do mundo dos mortos espalhadas pelo chão e na água.

Em outro momento, temos ainda serpentes marinhas que atacam o herói, tudo enfim em conformidade com o que estamos analisando aqui.

Então, temos aqui uma bifurcação na imagem do dragão: ele pode tanto tornar-se um ser celeste, que vive no alto de montanhas ou, pelo contrário, adentrar a terra e se tornar o guardião de um reino subterrâneo, o dragão ctoniano.

Com a expansão da noção de espaço, o Reino do Além deixa de ter lugar na floresta e se torna mais inacessível, no mundo subterrâneo

Com a expansão da noção de espaço, o Reino do Além deixa de ter lugar na floresta e se torna mais inacessível, no mundo subterrâneo

No primeiro filme da consagrada trilogia O Senhor dos Anéis, a Sociedade do Um Anel esbarra com uma terrível criatura nas profundezas cavadas pelos anões.

Pernas pra que te quero! Gandalf e sua trupe dão o que tem pra fugir do temível Balrog nos pátios das Minas de Moria.

Pernas pra que te quero! Gandalf e sua trupe dão o que tem pra fugir do temível Balrog nos pátios das Minas de Moria.

Nesse caso, temos uma fusão mais na morfologia do dragão, que apresenta-se não apenas como um ser das profundezas mas, igualmente, como criatura ígnea, solar.

Balrog em sua magestade ígnea.

Balrog em sua magestade ígnea.

Propp estabelece uma seqüência simplificada da evolução de nosso personagem central:

1) O engolidor permanece no mesmo lugar na floresta - entre povos isolados e que vivem em círculos fechados.

1) O engolidor permanece no mesmo lugar na floresta - entre povos isolados e que vivem em círculos fechados.

 2) O engolidor atravesse grandes extensões aquáticas (entre povos que atingiram níveis de cultura mais elevado, que conhecem os transportes e não vivem apenas da caça).

2) O engolidor atravesse grandes extensões aquáticas (entre povos que atingiram níveis culturais mais elevados, que conhecem os transportes e não vivem apenas da caça).

3) O engolidor vive sob a terra (agricultura primitiva).

3) O engolidor vive sob a terra (agricultura primitiva).

4) O engolidor vive no céu (agricultura desenvolvida, formação do Estado).

4) O engolidor vive no céu (agricultura desenvolvida, formação do Estado).

-Cérbero

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A idéia do reservatório de água, seja rio ou lago ou mar, como passagem para o reino dos mortos conservou-se bastante sólida na Grécia, lar de Cérbero. O cão monstruoso, com três cabeças, vive na desembocadura do Aqueronte. De suas bocas pinga uma saliva envenenada, ele tem um dardo na ponta da cauda, os pêlos das costas são serpentes. Para atravessar a passagem, um enviado dos deuses que faz o papel sempre importante de auxiliar mágico do herói (nesse caso Heracles), atira-lhe um bolo com soporífero, que o faz dormir.

Smegal, exemplo de auxiliar mágico, sempre presente no conto maravilhoso e que acaba por ter papel fundamental no desfecho da trama. Em Senhor dos Anéis, é ele o responsável indireto pela destruição do anel.

Smegal, exemplo do coadjuvante auxiliar mágico, sempre presente no conto maravilhoso e que acaba por ter papel fundamental no desfecho da trama. Em Senhor dos Anéis, é ele um dos responsáveis diretos pela destruição do anel.

Com o mito grego, percebemos que não mais é preciso atravessar a garganta do monstro, mas apenas atirar-lhe algo. “Deve-se ver nisso um ato de substituição.” Do mesmo modo, a semelhança com o cão é uma licença poética dos gregos para reforçar sua função de guardião.

A forma canina enfatiza o papel de guardião, enquanto a multiplicidade de cabeças revela sua natureza engolidora.

A forma canina assinala o papel de guardião, enquanto a multiplicidade de cabeças enfatiza sua natureza engolidora.

-A transferência do dragão para o céu

Aqui, o artista foi um pouco mais longe, talvez inspirado pela cultura celta dotou o dragão com asas de fada.

Aqui, o artista foi um pouco mais longe e talvez inspirado pela cultura celta dotou o dragão com asas de fada.

Apesar da dificuldade em se estabelecer um momento preciso em que o engolidor é transferido para a montanha ou para o céu, Propp nos diz que “os povos que conhecem o dragão solar são sempre mais cultos que os povos que o ignoram.”

O Egito Antigo nos fornece os materiais mais exuberantes nessa matéria.

Com as cores do fogo, o dragão montanhês, solar.

Com as cores do fogo, o dragão montanhês, solar.

Na mitologia egípcia o engolido dé o próprio sol e o combate visa agora retomar nossa estrela mais próxima e fazê-la brilhar novamente. Em outros lugares, o próprio dragão se torna o sol. De gestor das águas terrestres ele passa a ser gestor das águas celestes. É quem comanda as monções indianas, por exemplo. Como terceira conseqüência, ele passa a guardar o portão para o reino dos mortos nos países em que essa concepção está bem desenvolvida. E, finalmente, tudo o que cerca o dragão, e até mesmo a própria criatura, toma a cor e a natureza do fogo. Também o reservatório de água que ele guarda passa a se tornar flamejante.

Comumente, o próprio dragão é feito de fogo.

Comumente, o próprio dragão é feito de fogo.

– Psicostasia (pesagem da alma)

O engolimento não apenas se tornou algo terrível, também foi usado como forma de punição para os pecados.

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A partir da VI dinastia egípcia surge a pesagem do coração como forma de condenar ou não a alma do morto. Numa balança era colocada uma pena ou uma estatueta de um deus. O devorador era representado como um ser híbrido com cabeça de crocodilo, corpo de leão e traseiro de hipopótamo, ou simplesmente como um cão.

No Antigo Egito, a pesagemd da alma servia como forma de averiguar inocência ou inculpação do morto.

No Antigo Egito, a pesagem da alma servia como forma de averiguar inocência ou inculpação do morto.

-A relação do dragão com o nascimento

Ainda que originalmente ligado à morte, o dragão liga-se também ao herói pelo nascimento. Apesar de nunca se encontrarem antes do combate, o dragão sabe da existência do herói, sabe ate mesmo que morrerá por ele.

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Propp nos lembra que sair do ventre do animal era considerado um segundo nascimento, o nascimento do homem feito forjado no mundo dos mortos com dádivas mágicas.

-A morte do dragão pelo dragão

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Casos de combates entre dragões são interessantes e peculiares, de regiões onde o dragão se tornou uma criatura má, mas sua natureza benfazeja não foi completamente esquecida. Evidentemente, a contradição das naturezas cria o combate.

Reminescências do dragão benfazejo criam condições propícias para o surgimento desse tipo de combate.

Reminescências do dragão benfazejo criam condições propícias para o surgimento desse tipo de combate.

“O benfazejo dragão engolidor, mais arcaico, e o apavorante dragão engolidor, mais tardio, encontram-se aqui frente a frente, como inimigos.”

Dragões chineses, serpentiformes, muito ligados ao reino aquático.

Dragões chineses, serpentiformes, muito ligados ao reino aquático lutam entre si.

Na coroa do faraó figurava uma serpente, que o protegeria da criatura mítica em sua jornada pelo mundo dos mortos. Moisés mandou que se exibissem dragões de cobre para afastar os verdadeiros que rodeavam seu povo no céu.

Minha estatueta egípcia, que comprei recentemente, traz serpentes na coroa: amuleto da sorte.

Ao que parece, no Egito o dragão benfazejo resistiu no folclore popular, apesar da religião oficial tê-lo rejeitado totalmente. Depois, quando o governo entrou em decadência, a antiga idéia voltou a se incorporar no seio da religião do alto clero.