02 – O Engolidor-transportador

03 - transportador

Depois de engolido pelo dragão, o herói é transportado em seu ventre para outro país, onde é regurgitado ou sai por suas próprias forças. Nesse estágio vemos o início do combate com o dragão, pois o monstro é por vezes morto pelo herói.

Com a perda do sentido benéfico do engolimento, o dragão torna-se algoz.

Com a perda do sentido benéfico do engolimento, o dragão torna-se algoz.

Muitas vezes, percebemos que o motivo do engolimento foi apenas levemente distorcido, o dragão não mais carrega o herói em seu ventre, mas nas costas. Nesses casos, percebemos ainda a grande carga persistente do dragão benfazejo.

Porém, traços do antigo dragão benfazejo ainda persistem.

Traços do antigo dragão benfazejo ainda persistem.

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Propp salienta que o mito se desenvolveu quando houve, paralelamente, um avanço nas noções de espaço, em culturas que começavam a se comunicar umas com as outras e que, pelo intercâmbio, estreavam as rotas comerciais.

É uma bela imagem...

É uma bela imagem...

O país dos mortos deixou de ter uma entrada na floresta que circundava a tribo e passou a ser um lugar além das montanhas, ou do mar. Esse tipo de mito passou a surgir principalmente entre os povos costeiros, que criaram histórias sobre homens transportados para alto mar nas entranhas de peixes.

“A floresta – explica Propp – foi substituída pelo mar. Isso significa que a caça das florestas deixou de representar a única fonte de subsistência e que os ritos correspondentes perderam o sentido.”

Começa-se a desvanecer a idéia de que o ventre do engolidor portava o engolido de qualidades mágicas. O engolimento, por conseqüência, deixava de representar algo bom para se tornar seu oposto, e o dragão doador transforma-se em vilão, a quem o herói tenta matar de todas as formas. Como dissemos, é o início do combate.

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-A luta com o peixe como primeira etapa do combate com o dragão

Leviatã: forma arcaica do dragão

Leviatã: forma arcaica do dragão

Os primeiros navegantes perdiam o sono ao imaginar que tipo de criaturas hostis o mar guardava.

Os primeiros navegantes perdiam o sono ao imaginar que tipo de criaturas hostis o mar guardava.


Ilustrando, temos Jonas e a Baleia. Nesse caso, a utilização de uma baleia para representar o animal totêmico deve-se ao seu tamanho excessivo, uma maneira de comunicar seu poder de engolir.

O profeta Jonas exemplifica nossa primeira fase.

O profeta Jonas exemplifica nossa primeira fase de ruptura.

Não teria sido por sua permanência no interior da baleia que Jonas adquiriu seus poderes proféticos?

Ainda que a forma arcaica remeta a um período mais primitivo, o comportamento predatório indica o início do combate.

Ainda que a forma arcaica remeta a um período mais primitivo, o comportamento predatório indica o início do combate.

A regurgitação voluntária por parte do dragão desaparece aos poucos, mas o engolimento persiste. Naturalmente, isso significa que o herói passa a ter que lutar bravamente para deixar as entranhas do engolidor. Comumente ele faz isso tentando provocar dor no animal.

Muitas vezes, narra-se a perda de cabelo do herói ao deixar as entranhas do monstro, atribuindo isso ao calor imenso que fazia lá dentro. Interessante lembrarmos que, também durante o rito, não apenas o cozimento mas também o corte dos cabelos eram provocados no iniciado.

O mar é a entrada para o outro mundo, o peixe a comunicação.

O mar é a entrada para o outro mundo, o peixe a comunicação.

Nos povos marítimos então, que estrearam essa nova visão do mundo do além, temos a concepção do engolidor-transportador como um ser aquático, e essa é uma atribuição que impregnará a imagem do dragão até os dias atuais, ainda que a forma mude constantemente.

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O herói não é mais aquele que é engolido, mas o que mata o engolidor. Num primeiro estágio, é preciso ainda penetrar no ventre do inimigo para ferir-lhe mortalmente, mas logo isso se torna desnecessário. Entretanto, por longo tempo ainda notamos os resquícios do engolimento por outras formas de luta que, mesmo assim, objetivam acertar o monstro na boca, sue ponto fraco. “Esse é um passo a mais na evolução do assunto. (…) Para vencer o dragão, ainda é preciso lançar alguma coisa em sua goela, porém não mais obrigatoriamente um indivíduo. Agora são jogadas pedras quentes (…) E finalmente resta apenas o combate com o dragão (…) nas formas que nos são conhecidas.”

Alguém se lembra da história de David e Golias?

Pedras são as armas de David, que deve acertá-las no crânio do gigante.

Pedras são as armas de David, que deve acertá-las no crânio do gigante.

Tudo bem, a imagem é um das minhas preferidas, mas o herói ali de sunga verde não está a cara do Carl Sagan?

Tudo bem, a imagem é um das minhas preferidas, mas o herói ali de sunga verde não está a cara do Carl Sagan?

Com as rotas comerciais em ascensão, introduz-se um novo momento: o transporte do engolido no estômago do engolidor. Surgem motivações utilitárias de fator racional: os órgãos do engolidor passam a servir de alimento. Os mitos tornam-se mais rebuscados com motivos heróicos que acabam tendo sentido inverso ao original: o herói penetra no ventre do engolidor não para servir-se do que lá encontra, mas para matar esse engolidor e livrar seu povo da tirania draconiana.

Ao se tornar vilão, o dragão serve ao lado negro das histórias.

Ao se tornar vilão, o dragão serve ao lado negro das histórias.

Posteriormente, o engolidor é morto por objetos mágicos que, quando atirados em sua boca, o fazem morrer por dentro.

No filme Reino de Fogo, o protagonista atira flechas flamejantes na garganta do dragão para exterminá-lo.

No filme Reino de Fogo, o protagonista atira flechas flamejantes na garganta do dragão para exterminá-lo.

Aqui, claro, devo abrir um parênteses ao relacionar esse motivo àquele do filme também já tratado no blog, O Labirinto do Fauno, quando Ofélia, para matar um sapo monstruosos que vivia no subterrâneo de uma velha figueira, dá-lhe de comer três pedras mágicas, que o levam a morte.

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4 Comentários

  1. Muito bom, como sempre.

    Sempre que quero leituras interessantes e não estou a folhear um livro ganho um pouco de tempo aqui. rs

  2. moço teu blog é dez só que de nada adiante ter um blog bonito com imagens de pessoas desenhos feitos por outros artista sem respeitar nem se quer sua asinatura favor colocar nos desenhos o nome da verdadeira artista fabiana dwtte Gardner agradecida

    • Cara Fabiana, obrigado por identificar a autora dessas imagens belíssimas. Acredite ou não, o site de onde as tirei na internet não trazia a autoria dos desenhos, portanto eu não tinha condições de fazê-lo. Grande abraço.

  3. Essas imagens, tirando as mais mitológicas que são uma ou duas, são TODAS do Boris Vallejo e Julie Bell, sua esposa. Eles são artistas que trabalham com desenhos fantásticos (de fantasia) tendo, inclusive, ilustrações nos livros de D&D. =) O blog está ótimo, a próposito! parabéns! =D

    ah, aproveitando, eu tenho tatuado nas costas um desenho do Boris Vallejo, se chama Fire Witch. existem sites que listam os desenhos dele, vale a pena dar uma procurada e confeir 😉


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