04 – O Dragão Raptor

02 - morfologia

– O aspecto externo do dragão

Até aqui, ouvimos muito sobre o dragão mas percebemos que ele ainda não tem a forma com a qual estamos acostumados. Isso se deve ao fato de sua morfologia ser bem tardia, num momento da história humana em que o contato íntimo com os animais e com a natureza de forma geral começou a se perder. Nos povos realmente primitivos ele não existe. “O dragão é uma junção mecânica de vários animais (…), aparece ao mesmo tempo em que os deuses antropomórficos.”

O ingresso na era da artificialidade pouco a pouco afastou o homem da natureza, enquanto sua visão dos deuses tornava-se progressivamente antropomórfica.

O ingresso na era da artificialidade pouco a pouco afastou o homem da natureza, enquanto sua visão dos deuses tornava-se progressivamente antropomórfica.

Primitivamente, quando alguém morria, transformava-se em serpente, lagarto ou pássaro, mas a perda de contato com esses seres faz com que a crença degenere. Da mesma forma que os animais lentamente se transformam em humano, como no caso dos deuses antropomórficos do panteão egípcio, os animais começam também a se transformarem e a se fundirem. Surgem criaturas híbridas de aspecto fantástico, entre elas o dragão.

Esfinge, a terrível criatura híbrida que testava os homens com enigmas impossíveis.

Esfinge, a terrível criatura híbrida que testava os homens com enigmas impossíveis.

Minotauro, outro ser híbrido que parece ter um gosto especial por carne humana.

Minotauro, outro ser híbrido que parece ter um gosto especial por carne humana.

Basicamente, vemos nele traços de serpente e pássaro, os dois animais mais usados para representar a alma.

Os arquétipos da psiquê humana dotaram o dragão com aspectos outrora sagrados.

Os arquétipos da psiquê humana dotaram o dragão com aspectos outrora sagrados.

No inicio, o morto podia transformar-se em qualquer animal, mas com o advento das noções de espaço, que levam o país dos mortos a transferir-se para além do horizonte, ou, num evento semelhante, para debaixo da terra, ocorre uma limitação no tipo de animal que o morto pode transformar-se. Pássaro para as culturas marítimas que viam o Mundo do Além pra lá do horizonte, serpentes ou outros répteis para os que acreditavam que a terra dos mortos ficava no subsolo.

Réptil e ave fundem-se na figura do dragão.

Na América Central pré-colombiana a junção entre ave e réptil não podia ser mais explícita do que a representada na serpente emplumada.

Quetzalcoatl, deus asteca na América Central pré-colombiana nos mostra junção entre ave e réptil na forma de uma serpente emplumada. Os astecas acreditavam que a alma dos mortos transformavam-se num belo pássaro que voava para o sol, reino dos mortos, o que está em conformidade com a condição social que eles alcançaram.

A multiplicidade das cabeças é outra coisa interessante.

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Ela é uma representação da capacidade de engolir, quanto mais cabeças mais terrível e poderoso. Nas palavras de Propp, esses povos “expressavam qualidade através de quantidade”, similarmente ao que pretendiam ao enfatizar o tamanho gigantesco do peixe engolidor.

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O dragão raptor surgiu através da crença de que o morto, transformado em animal, perambulava pelo mundo dos vivos atrás de vítimas que carregaria consigo para o país dos mortos. Essas crenças, que nos podem parecer estranhas, foram mais comuns do que pensamos. Em muitas culturas, ver um determinado tipo de animal em determinadas situações (como durante uma gravidez) é mau presságio.

– O dragão e a princesa

Com a agricultura enchendo o estômago, a fome sexual passa a primeiro plano.

Com a agricultura enchendo o estômago, a fome sexual passa a primeiro plano.


Aos mortos, de qualquer forma, eram atribuídos alguns instintos bem conhecidos dos vivos: a fome e o instinto sexual.

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No início, quando conseguir alimento era prioridade, a fome exerceu um papel essencial na representação dos mortos, e como motivo principal para seus atos nefastos. Porém, com o avanço das sociedades e com a diminuição progressiva da preocupação com alimento, a fome sexual passou também para primeiro plano. Temos aí o surgimento do dragão raptor, que seqüestra a princesa e a leva para seu castelo. Em muitos contos ele não a devora, mas pretende sim desposá-la: “O dragão apoderou-se da princesa e levou-a para seu covil, mas não a devorou. Como era muito bela, tornou-se sua mulher.”

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Em alguns casos, o próprio dragão se transforma em príncipe e desposa a princesa, como no conto A Bela e a Fera.

Ainda que eu não seja fã, a série de filmes Sherek pode nos mostrar isso de forma divertida. O dragão, nesse caso benfazejo por razões humorísticas, se apaixona e se casa com o Burro, com o qual tem filhos híbridos. Quando o dragão é mostrado pela primeira vez, temos não apenas o rio de fogo mas também a posse de tesouros, tudo relacionado com o mundo do além, como estamos vendo.

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5 Comentários

  1. Ah já que é pra falar de dragão, me sinto no direito de falar do meu favorito também…

    O dragão desempenha um papel significativo na cultura chinesa. Os antigos acreditavam ser o dragão um descendente dos céus, com poder para governar o cosmo em sua totalidade céu e terra.
    Segundo as lendas, os dragões são feitos de diferentes tipos de animais como a cobra, a carpa, o camelo, cervo, coelho, touro, iguana, sapo, tigre e águia. As 9 características que identificam o dragão chinês são facilmente observáveis cabeça semelhante à de um camelo, chifres de cervo, olhos de coelho, orelhas de touro, barriga de sapo, escamas de carpa, patas de tigre e garras de águia. Ele possui, ainda, um par de dentes caninos longos, feitos para tatear o fundo dos lagos que freqüenta.
    Os dragões da tradição oriental possuem 117 escamas, 81 de polaridade yang e 36 de polaridade yin; isso determina seu caráter; Além disso,
    o número de garras é determinante das tradições de onde eles são oriundos:
    dragões com cinco garras são chineses, com quatro são coreanos ou indonésios e com três, japoneses. Os dragões de cinco garras simbolizam o poder e, na China, recebem o nome de dragões imperiais.
    Normalmente os dragões chineses são representados com uma pérola junto à boca, entre as garras ou sob o queixo. Aparentemente, a pérola é o elemento que lhe dá força, permitindo que eles subam aos céus.
    O dragão também está intimamente ligado ao Yin Yang, sendo uma figura masculina relacionada com a água e tendo como oposto a Fênix, a ave (feminina) que resurge das cinzas, do fogo…

    • Nossa, deu um show hein?! Caramba, sabia que gostava do dragão chinês, aliás só não falei mais deles em sua homanagem porque o livro realmente não os aborda em profundidade e não ousei ir tirando as conclusões de qualquer maneira. Mas você enriqueceu bastante a postagem com esse parágrafo tão detalhado, valeu mesmo.

  2. show,comentário perfeito

  3. Cara, nos poddemos pensar em seres hibridos como deuses pois os antigos povos acreditavam que a melhor representação de um deus era um ser hibrido pois os egipicios tinham seus proprios:Anubis ,Iris ,seth,etc… mas a verdadeira razão para criar esses deuses,dragões,harpias,minotauro e o proprio Quetzalcóatl (serpente emplumada dos mais,astecas e olmecas) são frutos imarinarios. Mas ninguem dispensaria uma chance para estar vendo um dragão em carne,osso e glândolas de fogo!!!!

  4. mas não posso negar que thalita deu um show!!!!


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