06 – O Dragão e o Reino dos Mortos

O dragão guarda a fronteira para o outro mundo, onde o herói tenta penetrar

O dragão guarda a fronteira para o outro mundo, onde o herói tenta penetrar

– O dragão-guardião

Vimos repetidamente que a crença fundamental quanto ao rito de iniciação é que enquanto ele se processava o neófito descia ao reino dos mortos, de onde voltava com poderes mágicos. Quando essa idéia perdeu-se no tempo, a descida ao mundo dos mortos virou sinônimo da descida ao inferno e a viagem que o neófito fazia continua como pré-requisito para sua heroificação.

Por vezes, antes do combate há um diálogo entre dragão e herói, frequentemente caracterizado por torca de ofensas.

Por vezes, antes do combate há um diálogo entre dragão e herói, frequentemente caracterizado por troca de ofensas.

Entendemos mais claramente também porque o dragão vive sempre perto de um reservatório de água, porque ele a vigia. É que com a concepção de um mundo dos mortos no horizonte além mar nascida com os povos marítimos, a água virou sinônimo de passagem para esse outro mundo. O dragão, que anteriormente era um ser benfazejo que carregava no estômago o neófito, transformou-se agora em inimigo da humanidade, e como tal impede a passagem do herói em seu processo de aquisição de poder. Posteriormente, em conformidade com a própria evolução social, veremos que água guardada pelo monstro torna-se lava fervente.

Subterrâneo e ao mesmo tempo ígneo,  naturezas aparentemente distintas se fundem na figura híbrida do dragão.

Subterrâneo e ao mesmo tempo ígneo, naturezas aparentemente distintas se fundem na figura híbrida do dragão.

Mesmo o dragão da montanha não está ligado à montanha e sim às cavernas, onde sempre existe um reservatório de água. Isso é bem explicito no filme A Lenda de Beowulf. Ali um dragão dourado, solar, mas que habita uma caverna onde há um reservatório de água. Existem ainda elementos ainda mais específicos que enriquecem sua interpretação como, por exemplo, o parentesco entre o dragão e o herói (a criatura é filha do antigo rei) e a mãe do dragão, representada pela versão digital de Angelina Jolie. Reparando-se bem, dá pra perceber que a caverna onde os vilões moram é o interior de algum tipo de criatura, pois estão claramente visíveis no teto e nas paredes vértebras e costelas. Sem falar nas riquezas materiais do mundo dos mortos espalhadas pelo chão e na água.

Em outro momento, temos ainda serpentes marinhas que atacam o herói, tudo enfim em conformidade com o que estamos analisando aqui.

Então, temos aqui uma bifurcação na imagem do dragão: ele pode tanto tornar-se um ser celeste, que vive no alto de montanhas ou, pelo contrário, adentrar a terra e se tornar o guardião de um reino subterrâneo, o dragão ctoniano.

Com a expansão da noção de espaço, o Reino do Além deixa de ter lugar na floresta e se torna mais inacessível, no mundo subterrâneo

Com a expansão da noção de espaço, o Reino do Além deixa de ter lugar na floresta e se torna mais inacessível, no mundo subterrâneo

No primeiro filme da consagrada trilogia O Senhor dos Anéis, a Sociedade do Um Anel esbarra com uma terrível criatura nas profundezas cavadas pelos anões.

Pernas pra que te quero! Gandalf e sua trupe dão o que tem pra fugir do temível Balrog nos pátios das Minas de Moria.

Pernas pra que te quero! Gandalf e sua trupe dão o que tem pra fugir do temível Balrog nos pátios das Minas de Moria.

Nesse caso, temos uma fusão mais na morfologia do dragão, que apresenta-se não apenas como um ser das profundezas mas, igualmente, como criatura ígnea, solar.

Balrog em sua magestade ígnea.

Balrog em sua magestade ígnea.

Propp estabelece uma seqüência simplificada da evolução de nosso personagem central:

1) O engolidor permanece no mesmo lugar na floresta - entre povos isolados e que vivem em círculos fechados.

1) O engolidor permanece no mesmo lugar na floresta - entre povos isolados e que vivem em círculos fechados.

 2) O engolidor atravesse grandes extensões aquáticas (entre povos que atingiram níveis de cultura mais elevado, que conhecem os transportes e não vivem apenas da caça).

2) O engolidor atravesse grandes extensões aquáticas (entre povos que atingiram níveis culturais mais elevados, que conhecem os transportes e não vivem apenas da caça).

3) O engolidor vive sob a terra (agricultura primitiva).

3) O engolidor vive sob a terra (agricultura primitiva).

4) O engolidor vive no céu (agricultura desenvolvida, formação do Estado).

4) O engolidor vive no céu (agricultura desenvolvida, formação do Estado).

-Cérbero

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A idéia do reservatório de água, seja rio ou lago ou mar, como passagem para o reino dos mortos conservou-se bastante sólida na Grécia, lar de Cérbero. O cão monstruoso, com três cabeças, vive na desembocadura do Aqueronte. De suas bocas pinga uma saliva envenenada, ele tem um dardo na ponta da cauda, os pêlos das costas são serpentes. Para atravessar a passagem, um enviado dos deuses que faz o papel sempre importante de auxiliar mágico do herói (nesse caso Heracles), atira-lhe um bolo com soporífero, que o faz dormir.

Smegal, exemplo de auxiliar mágico, sempre presente no conto maravilhoso e que acaba por ter papel fundamental no desfecho da trama. Em Senhor dos Anéis, é ele o responsável indireto pela destruição do anel.

Smegal, exemplo do coadjuvante auxiliar mágico, sempre presente no conto maravilhoso e que acaba por ter papel fundamental no desfecho da trama. Em Senhor dos Anéis, é ele um dos responsáveis diretos pela destruição do anel.

Com o mito grego, percebemos que não mais é preciso atravessar a garganta do monstro, mas apenas atirar-lhe algo. “Deve-se ver nisso um ato de substituição.” Do mesmo modo, a semelhança com o cão é uma licença poética dos gregos para reforçar sua função de guardião.

A forma canina enfatiza o papel de guardião, enquanto a multiplicidade de cabeças revela sua natureza engolidora.

A forma canina assinala o papel de guardião, enquanto a multiplicidade de cabeças enfatiza sua natureza engolidora.

-A transferência do dragão para o céu

Aqui, o artista foi um pouco mais longe, talvez inspirado pela cultura celta dotou o dragão com asas de fada.

Aqui, o artista foi um pouco mais longe e talvez inspirado pela cultura celta dotou o dragão com asas de fada.

Apesar da dificuldade em se estabelecer um momento preciso em que o engolidor é transferido para a montanha ou para o céu, Propp nos diz que “os povos que conhecem o dragão solar são sempre mais cultos que os povos que o ignoram.”

O Egito Antigo nos fornece os materiais mais exuberantes nessa matéria.

Com as cores do fogo, o dragão montanhês, solar.

Com as cores do fogo, o dragão montanhês, solar.

Na mitologia egípcia o engolido dé o próprio sol e o combate visa agora retomar nossa estrela mais próxima e fazê-la brilhar novamente. Em outros lugares, o próprio dragão se torna o sol. De gestor das águas terrestres ele passa a ser gestor das águas celestes. É quem comanda as monções indianas, por exemplo. Como terceira conseqüência, ele passa a guardar o portão para o reino dos mortos nos países em que essa concepção está bem desenvolvida. E, finalmente, tudo o que cerca o dragão, e até mesmo a própria criatura, toma a cor e a natureza do fogo. Também o reservatório de água que ele guarda passa a se tornar flamejante.

Comumente, o próprio dragão é feito de fogo.

Comumente, o próprio dragão é feito de fogo.

– Psicostasia (pesagem da alma)

O engolimento não apenas se tornou algo terrível, também foi usado como forma de punição para os pecados.

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A partir da VI dinastia egípcia surge a pesagem do coração como forma de condenar ou não a alma do morto. Numa balança era colocada uma pena ou uma estatueta de um deus. O devorador era representado como um ser híbrido com cabeça de crocodilo, corpo de leão e traseiro de hipopótamo, ou simplesmente como um cão.

No Antigo Egito, a pesagemd da alma servia como forma de averiguar inocência ou inculpação do morto.

No Antigo Egito, a pesagem da alma servia como forma de averiguar inocência ou inculpação do morto.

-A relação do dragão com o nascimento

Ainda que originalmente ligado à morte, o dragão liga-se também ao herói pelo nascimento. Apesar de nunca se encontrarem antes do combate, o dragão sabe da existência do herói, sabe ate mesmo que morrerá por ele.

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Propp nos lembra que sair do ventre do animal era considerado um segundo nascimento, o nascimento do homem feito forjado no mundo dos mortos com dádivas mágicas.

-A morte do dragão pelo dragão

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Casos de combates entre dragões são interessantes e peculiares, de regiões onde o dragão se tornou uma criatura má, mas sua natureza benfazeja não foi completamente esquecida. Evidentemente, a contradição das naturezas cria o combate.

Reminescências do dragão benfazejo criam condições propícias para o surgimento desse tipo de combate.

Reminescências do dragão benfazejo criam condições propícias para o surgimento desse tipo de combate.

“O benfazejo dragão engolidor, mais arcaico, e o apavorante dragão engolidor, mais tardio, encontram-se aqui frente a frente, como inimigos.”

Dragões chineses, serpentiformes, muito ligados ao reino aquático.

Dragões chineses, serpentiformes, muito ligados ao reino aquático lutam entre si.

Na coroa do faraó figurava uma serpente, que o protegeria da criatura mítica em sua jornada pelo mundo dos mortos. Moisés mandou que se exibissem dragões de cobre para afastar os verdadeiros que rodeavam seu povo no céu.

Minha estatueta egípcia, que comprei recentemente, traz serpentes na coroa: amuleto da sorte.

Ao que parece, no Egito o dragão benfazejo resistiu no folclore popular, apesar da religião oficial tê-lo rejeitado totalmente. Depois, quando o governo entrou em decadência, a antiga idéia voltou a se incorporar no seio da religião do alto clero.

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9 Comentários

  1. Não me parece correcto dizer que um balrog é um dragão. Tolkien tem verdadeiros dragões ao longo da sua extensa obra, aos quais ele chama realmente dragão. Os livros em poderá encontrar alguns desses exemplos são o Hobbit, os Contos Inacabados e também no Silmarillion. Neste último Tolkien explica o que eram os balrogs – basicamente anjos “caídos” – ou seja, um tipo de entidade essencialmente espiritual. Já os dragões de Tolkien são uma das criaturas realmente físicas criadas por Melkor/Morgoth, a entidade divina mais negra daquele universo.

    • Obrigado pelo comentário Gonçalo, tenho certeza de que os fãns de Tolkien (e eu me incluo nessa lista) concordam plenamente com você. De fato, apesar de não ter o conhecimento que você nos passou, recordo-me que Balrog era sempre referido como um demônio, e não um dragão. Porém, se você acompanhar as sete postagens sobre a figura do dragão aqui expostas, perceberá que, do ponto de vista folclórico, a definição não pode ser tão estreita. De fato, não apenas a entidade infernal que habita as Minas de Mória pode aqui ser englobada como outras criaturas míticas como o minotauro, cérbero, os deuses do panteão egípcio, entre outros.

      • Na verdade Gonçalo, você tem razão, eu é que demorei a entender o que havia dito. No texto, me referi a Balrog como um dragão o que, como foi especificado, ele de fato não é no contexto da história. Texto corrigido e valeu pela correçao. 🙂

  2. […] inacessível à outras pessoas, o Reino Dourado, a morada dos mortos da qual já falamos em nossa história do dragão. A linguagem ufológica, impregnada com menções à naves ou vôos, pode ser comparada a linguagem […]

  3. MUITO LOKO …. GOSTEI XD

  4. Posso colocar esse texto no nosso blogue com links e devidos créditos é claro?

    • Claro Márcia, fique à vontade, não custa nada colocar um link para o meu blog, mas lembre-se que os verdadeiros créditos são de Vladímir Propp. Grande abraço.

  5. gostei
    de onde vc tirou as imagens?
    elas são muito dahora

    • Olá David,

      Já recebi algumas críticas por não postar os autores das imagens, mas muitas vezes tiro de sites onde eles não estão indicados. O jeito é ir buscando no google mesmo, com palavras relacionadas, tipo “dragão solar”, “dragão ígneo”, “dragão subterrâneo”, “monstro marinho”, etc. Mas valeu pelo comentário.


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