07 – Conclusão

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O motivo do combate com o dragão surgiu do motivo do engolimento. Nas sociedades tribais primitivas o engolimento era simulado pois acreditava-se que isso conferia ao jovem iniciado poderes mágicos que lhe permitiriam se tornar um grande caçador e prover a tribo. No conto, temos reflexos longínquos dessas concepções esquecidas nas pedras preciosas encontradas junto ao dragão, ou mesmo constituindo seu corpo, e no entendimento da linguagem dos pássaros.

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Com as rotas comerciais em ascensão, introduz-se um novo momento: o transporte do engolido no estômago do engolidor. Surgem motivações utilitárias de fator racional: os órgãos do engolidor passam a servir de alimento. Os mitos tornam-se mais rebuscados com motivos heróicos que acabam tendo sentido inverso ao original: o herói penetra no ventre do engolidor não para servir-se do que lá encontra, mas para matar esse engolidor e livrar seu povo de sua tirania.

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Posteriormente, o engolidor é morto por objetos mágicos que, quando atirados em sua boca, o fazem morrer por dentro.

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“O centro de gravidade passa do engolimento para a execução do engolidor. A forma e os utensílios mudam em função dos utensílios utilizados pelo povo.” A Idade Média, por exemplo, reveste cavalo e cavaleiro com armaduras típicas da época.

A Idade Média reveste cavalo e cavaleiro com armaduras para o combate.

A Idade Média reveste cavalo e cavaleiro com armaduras para o combate.

O dragão é um fenômeno tão complexo e polifacético que qualquer tentativa de enquadrá-lo num determinado padrão reducionista destina-se ao fracasso, pelo menos essas são as palavras de Vladímir.

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“A conclusão geral sempre reduz a diversidade à unidade e assim deforma a essência do fenômeno.” Tal fenômeno, defende Propp, deve ser estudado “em seu movimento”.

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O folclore não é um fenômeno cultural desvinculado de outros setores da sociedade como economia ou sistema social.

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Percebemos como a mudança provocada pelo conhecimento crescente, pelas novas rotas comerciais e expansões do território foram moldando a figura do dragão, que de criatura benfazeja da floresta ele se tornou o engolidor aquático, subterrâneo e finalmente celeste a quem se ansiava matar. Em culturas do tipo Estado, como Índia e Egito, ele foi perseguido e massacrado pelas divindades meio homens, meio animais, surgidas lentamente com a sociedade de classes.

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“Mais uma vez o conto se mostrou ser uma fonte muito valiosa, um repositório inestimável de fenômenos culturais há muitos desaparecidos de nossa consciência.”

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6 Comentários

  1. Como sempre, o que dizer senão elogiar?! Amei as imagens, amei as “ligações externas” que só você sabe sabe, inclusive as ligações com os outros posts… Como sempre amei o texto, adoro sua forma de escrever! continuo tua fã =D

    • Obrigado menina, valeu mesmo 😀

  2. Parabéns amigão!

    Tá demais este seu espaço onde você pode expressar todo o seu talento e toda a sua vontade de escrever, ensinar, encantar e trocar.

    As fotos dos insetos, a história do dragão e toda a imensa variedade de assuntos que por aqui já foram palmeados são frutos desta incandescente maneira de brilhar e atingir a tudo e a todos ao seu redor, tirando de tudo experiências que uma vez modeladas por uma mente ávida são devolvidas ao meio em forma quase poética.

    Eu me inspiro na tua forma de escrever e já até modifiquei muitas das coisas que escrevo e escrevi justamente para adequa-las a uma forma mais simples e palpável, uma forma mais aquiniana de expressar e passar aquilo que penso.

    Abraço.

    • Caro Bruno, eu gostaria muito de ser 50% da pessoa que você vê, mas mesmo assim fiquei emocionado com o seu comentário de hoje. Apesar de críticas negativas também serem bem vindas, é muito prazeroso quando sentimos esse tipo de incentivo, que nos impulsiona a escrever cada vez mais. Tenho, acima de tudo, um profundo respeito pelos visitantes do blog, sejam eles esporádicos ou, como você, já tenham uma certa intimidade. Esse respeito faz com que eu seja extremamente exigente sobre o que posto aqui, e por isso as postagens não são tão constantes quanto eu gostaria. Grande abraço, de novo obrigado pelos elogios, e saiba que é recíproco.

  3. Olá. estou lendo esse livro também. Eu gosto dele, mas as referências pra mim são muito confusas. Há um momento por exemplo, que ele cita uma versão de Barba Azul dos irmãos Grimm, e após fechar a aspa a referência é simplesmente (Grimm, 46). E aí às vezes fico querendo ir atrás do texto inteiro pra ler, mas fico muito perdida sem saber como usar o sistema de referências do Propp! Você conseguiu resolver esse tipo de dificuldade?

    • Olá! Olha, peguei a minha edição (1º edição da Martins Fontes, 1997) pra ver e achei a referências bem satisfatórias. Dificilmente haverá diferença entre quaisquer edições quanto a isso (pelo menos é o que espero), mas caso o seu livro também seja esse, me passe o número da página em que você viu a referência de Grim que eu comparo aqui. Se for outro, pode me dizer o capítulo em que se encontra e fazemos uma comparação. E obrigado pelo comentário!


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