Terra dos Homens

É muito interessante como algumas coisas nos tocam. Difícil de explicar. Não é querer passar por um de sensível, pelo contrário, às vezes gostaria de não sentir o que sinto em certas ocasiões. É como diz Arnaldo Jabor em Amor é Prosa Sexo é Poesia:

“Vemos um gesto frágil, um cabelo molhado, um rosto dormindo, e isso desperta em nós uma espécie de “compaixão” pelo nosso próprio desamparo, entrevisto no outro.”

Pode até parecer um pouco piegas, mas expor as imagens que estão aqui pra mim é coisa muito séria. Não consigo decidir se é ético ou não. Embora tenha certeza de que D. Luisinha, a simpatissíssima senhora que mora totalmente sozinha nesse casarão ficaria muito feliz em saber que a casa dela está na internet, disponível para que o mundo inteiro possa visitar esse recanto de tão dentro do nosso Brasil, a questão de se isso é moralmente certo de minha parte está presente em minha cabeça com uma obstinação cega. Eu tenho esse direito? Essas questões me afloraram num congresso de psicologia onde passaram o extraordinário documentário  Estamira, do qual ainda pretendo falar nesse blog. Conta a história de uma mulher impressionante, que mergulhou no mundo da loucura após vários desastres em sua vida e hoje vive em um lixão de São Paulo. O documentário é simplesmente fantástico. O que eu não gostei foi da mesa redonda que houve depois. Sei lá, ouvir aqueles caras pomposos falando sobre o modo como Estamira via o mundo me deixou com um engasgo e certo constrangimento. Só não deixei o anfiteatro porque haveria um sorteio de brindes depois (dos quais eu não ganhei nenhum). Sinto a mesma coisa quando vejo os repórteres vestindo coletes de safari quando fazem reportagens em alguma cidade pequena do nordeste. O que isso significa?

De qualquer maneira, mesmo com tantos entraves neuróticos, não posso deixar de compartilhar com vocês da beleza que vi num domingo desses, em que fui com alguns familiares até uma roça nos arredores de minha pequena cidade. Andamos a pé por uma estrada de chão por aproximadamente uma hora até chegarmos numa velha e pitoresca casa. Fiquei encantando com os objetos, com a comida e com a simpatia da moradora (embora ela adore tirar fotos e tenha se mostrado entusiasmada com nossa visita e com o interesse de um jovem, não achei certo expor sua imagem aqui). Tirei fotos de várias coisas e as melhores selecionei para o blog, muitas estão condenadas a extinção, isso é certo. Mais um motivo para compartilhá-las com vocês.

Eram três, mas dois foram rápidos demais para meu gatilho.

Caminho da roça!

Pra não dizerem que eu não falei das flores.

Bem, não posso deixar de me lembrar de um dos melhores livros que já li, Terra dos Homens, de Saint Exupery, talvez meu escritor favorito. Comprei o exemplar num velho sebo de Juiz de Fora e o estado envelhecido do livro combinou de forma incrível com a poesia que existe em suas páginas. O autor de O Pequeno Príncipe narra uma série de episódios que viveu enquanto piloto de guerra, cada qual mais repleto de seu espírito. Ele descreve assim uma casa onde, com seu companheiro, passou uma noite:

“Que estranha casa! Grossa, maciça, quase uma cidadela. Um castelo de lenda que oferecia, uma vez passado o portal, um abrigo tão pacífico, tão seguro, tão protegido como um mosteiro (…). Ali tudo estava descuidado, adoravelmente em ruínas qual uma velha árvore coberta de musgo que a velhice alquebrou. Como um banco de madeira em que os pares amorosos vão se sentar através das gerações. O madeiramento apodrecido, os batentes ruídos, as cadeiras cambaias. Mas tudo limpo, limpo com uma espécie de fervor. Tudo asseado, encerado, brilhante. A sala de visitas tinha uma fisionomia extraordinariamente intensa, como a de uma velha cheia de rugas. Rachas das paredes, rasgões do forro, tudo isso eu admirava, e, acima de tudo, o assoalho que afundava aqui e oscilava mais adiante, como ponte mal segura, mas sempre envernizado, polido, lustroso. Estranha casa que não sugeria nenhum negligência, nenhuma displicência e sim um respeito extraordinário. Cada ano juntava, sem dúvida, alguma coisa ao seu encanto, à complexidade de sua fisionomia (…). Como deveriam ser os porões se a sala de visitas já continha as riquezas de um porão! Quando já se adivinhava ali que bastava abrir um armário para que aparecessem maços de cartas amareladas, maços de recibos do bisavô, e chaves em maior número que todas as fechaduras da casa, chaves das quais nem uma, com certeza, serviria em fechadura nenhuma… Chaves maravilhosamente inúteis que perturbam a razão, que fazem sonhar com subterrâneos, cofres ocultos e moedas de ouro…”

Ainda funciona.

Fé.

Isso, acreditem, é uma presa de porco, que D. Luisinha guarda há muitos anos e mostra como curiosidade. Minhas indiretas para ganhar um presente exótico foram inúteis...

Outra relíquia guardada a sete chaves, uma prova que o irmão já falecido realizou em 1944.

"Não há palavras pra explicar o que eu sinto."

Ainda funciona.

Uma lamparina, hoje aposentada.

Voltando pra casa...

Entrada para a casa de um vizinho. Tentador avançar pela alameda e descobrir o que existe depois da curva.

Tansville a vista!