Planeta dos Macacos – A Origem (das neuroses)

A primeira vez que me deparei com um primata não-humano de grande porte foi em setembro de 2007, quando visitei o zoológico de Belo Horizonte. Entrei pelo portão II, vi os elefantes e as girafas e em seguida caminhei para a parte central, onde ficam os primatas. A bem da verdade eles nunca me interessaram muito, acho que sua semelhança conosco me perturbava e irritava, como se fossem criaturas que ameaçavam nossa identidade. Mesmo assim meu coração palpitou quando caminhei para o cercado do gorila, aguardando forte impressão. Mas Id não queria papo e manteve as costas voltadas para o público o tempo todo, enfurnado no interior de sua caverna artificial praticamente sem se mover. Nada distingui além do contorno ovalado de seu ombro direito. Id foi assim batizado numa clara referência à expressão freudiana para as pulsões e instintos inconscientes, mas naquele momento, observando tal letargia, pensei que o nome caía muito impróprio. E com tristeza me lembrei de um filme que assisti anos antes, Instinto, numa cena memorável onde o personagem interpretado por Anthony Hopkins abre a cela de um gorila e, ao vê-lo letárgico ao fundo, afirma que os animais de zôos não são verdadeiros, mas sim meras sombras do que um dia foram.

Quatro anos após esse primeiro contato, numa terça-feira, dia 6 de setembro, fui com minha namorada ao cinema assistir ao último filme famosa franquia Planeta dos Macacos. Fui um pouco reticente, não queria criar falsas expectativas, principalmente porque havia achado o filme anterior legal, e nada mais. E, sinceramente, procuro sempre cultivar essa reserva quando vou assistir a um filme que me interessa, já que é horrível criar expectativas em torno de uma porcaria, seja no que for. E acredito que seja o melhor método, já que é ótimo quando a história ultrapassa suas expectativas. Foi o que aconteceu com V de Vingança, O Labirinto do Fauno, Presságio, O Show de Truman e alguns outros.

César manipula o gás que aumenta a inteligência dos símios.

O Planeta dos Macacos – A Origem, me deixou impressionado. Possivelmente eu sou suspeito para dizer isso, uma vez que acabo de me formar em biologia; mas em defesa de minha pretensa imparcialidade (isso existe?) devo reafirmar que nunca nutri interesse por comportamento de primatas, pelo menos até agora. Digo isso com a consciência de que o que vi ali foi uma ficção-científica, logicamente. Mesmo assim fiquei fascinado. Com o risco de parecer esnobe, sempre gostei de boas histórias que falam sobre inteligência. Digo isso porque tenho fresca na memória um outro filme que assisti recentemente, Sem Limites. Curiosamente, tanto ele quando O Planeta tratam do aumento da inteligência provocado por drogas, aliás um tema recorrente pelo menos desde a psicodélica década de 1970, provavelmente até antes. Jacques Bergier e Louis Pauwels tratam desse assunto em seu livro O Planeta das Possibilidades Impossíveis, aparentemente inspirados em algumas idéias de Aldous Huxley, com as quais não estou bastante informado para escrever aqui.

No filme, é praticamente perfeita a maneira como eles tratam o comportamento dos macacos modificados, através dos gestos mas principalmente do olhar, esse meio de comunicação tão caracteristicamente humano, o que torna tudo ainda mais perturbador, é claro. É muito interessante a cena onde César recebe os outros macacos na área de recreação, após tratá-los com o gás. Os personagens são digitais, mas deixaram no chinelo muito ator de carne e osso. Os olhares trocados entre César e cada símio que sai do túnel chega a dar arrepios.

Em seu livro Comunhão, Whitley Strieber pondera sobre seu encontro com uma criatura extraterrestre afirmando que “é incrivelmente perturbador ver algo claramente não-humano andando e agindo com inteligência. Há algo de inconfundível sobre a precisão do movimento conscientemente dirigido que é profundamente aterrorizante quando visto em tal forma alienígena”. Para meu espanto, percebi ao assistir ao filme que a criatura nem precisa ser alienígena para provocar tal desconforto. É claro que o enredo tem todo um clima que favorece essa visão das coisas, mas não seria justamente seu realismo que torna tudo mais soturno? Não há nada de aterrorizante nos alienígenas de O Quinto Elemento porque, embora o filme seja excelente, elas são vistas num contexto cotidiano, banal, como se tratasse de um fato corriqueiro. Mas veja os alienígenas de Fogo no Céu ou o Fauno do Labirinto que você vai entender o que estou querendo dizer.

Para os que não se sentiram tão impressionados com os olhares cúmplices da macacada, existe a parte em que ocorre a vocalização. Houve ali o efeito surpresa, tanto para expectadores quanto para personagens. O espanto e o medo na face dos outros macacos, principalmente do gorila, ficaram extraordinários. Aquilo também foi de arrepiar. Junto com o “NÃO!” de César, muita gente na sala expressou sua surpresa com interjeições apropriadas, inclusive minha namorada e eu.

Não vou falar mais do enredo para não estragar a surpresa de quem ainda não viu.

Resta-nos, é claro, a boa, velha e despretensiosa interpretação psicológica. Dessa vez ela fala da escalada humana em busca da perfeição, que não faz mais que preparar a distância para um tombo proporcional à altura. No filme, temos o ambiente asséptico, branco e sóbrio dos laboratórios contrastando com a pelagem negra e caninos longos dos primatas até então sob controle. Planeta dos Macacos fala sobre o preço cobrado pelo inconsciente diante da unilateridade da vida moderna, esquecida de suas raízes e desejosa de varrer para baixo do tapete tudo o que pareça feio ou asqueroso. O resultado é o que se vê no filme: Invasão da Sombra, esfacelamento, doença e morte.

Em O Nome da Rosa, o bibliotecário Jorge de Burgos, com toda sua vilania, adverte contra o riso, que além de ser um gesto emocional espontâneo e licencioso, torna a face humana parecida com a de um macaco. Talvez esta seja uma boa ilustração para mostrar por que em todos os filmes da franquia os macacos tenham tanto ódio por nós: Por causa de nosso desprezo, nossa ingratidão, nossa soberba.

Vozes isoladas já nos tem alertado sobre essa atitude tão obtusa, dizendo que trocamos nossos deuses antigos por carros velozes, sapatos e dinheiro.

Ainda no século XIX, Nietzsche já nos alertava sobre a importância de aceitar nossos instintos (mesmo que, aparentemente ele tenha aberto as comportas excessivamente e sucumbido diante das forças descontroladas). O filósofo afirmava que o fato de termos que reprimi-los era a constatação de que vivíamos numa sociedade doente. Sua única única obra de ficção, Assim Falou Zaratrusta, é uma metáfora sobre a humanidade nos estertores da civilização moderna.

Para muitos o filósofo Nietzsche sucumbiu diante das forças avassaladoras do inconsciente, embora há quem defenda que sua loucura teve origem na sífilis.

Até Freud, tão racional e cético, convivia com seu lado irracional através de uma vasta coleção de arte antiga, seus “deuses velhos e encardidos” que ele juntava maniacamente, abarrotando seu consultório a ponto de um paciente achá-lo mais parecido com um depósito arqueológico. (Para quem se interessar em saber mais sobre isso, Janine Burke lançou Deuses de Freud – A coleção de arte do pai da psicanálise; eu comprei, li e posso garantir que é um livro maravilhoso, inclusive rebatendo os estereótipos que Freud ganhou através das décadas).

Ao longo de 40 anos Freud juntou mais de 2,5 mil peças de arte; suas preferidas ficavam na mesa, próximo o suficiente para tocá-las enquanto escrevia.

Por coincidência (ou sincronicidade), comprei e estou lendo Além do Princípio de Prazer, onde Freud discorre sobre essa natureza melindrosa e escorregadia dos elementos do irracional. Como não podia deixar de ser, ele encontrou um fator positivo na repressão instintual que ocorre em nossa sociedade. Ele acreditava que em algumas pessoas os instintos reprimidos podiam se revolver e voltar na forma de uma potência criativa. Em suas palavras:

“Aquilo que, numa minoria de indivíduos humanos, parece ser um impulso incansável no sentido de maior perfeição, pode ser facilmente compreendido como resultado da repressão instintual em que se baseia tudo o que é mais precioso na civilização humana. O instinto reprimido nunca deixa de se esforçar na busca da satisfação completa, que consistiria na repetição de uma experiência primária de satisfação. (…) a diferença de quantidade entre o prazer da satisfação que é exigida e a que realmente é conseguida, é que fornece o fator impulsionador que não permite qualquer parada em nenhuma das posições alcançadas, mas, nas palavras do poeta, “pressiona sempre para frente, indomado.”

Freud alertou que a repressão de instintos pode causar uma emersão posterior bem mais desagradável, o que caracteriza uma neurose

Mas no mesmo livro ele também alertou para os elementos que voltam à tona de modo desagradável caso sejam desprezados:

“Acontece repetidas vezes que instintos individuais ou parte de instintos se mostrem incompatíveis (…)” com as exigências do Ego.  Então são, “pelo processo de repressão, mantidos em níveis inferiores de desenvolvimento psíquico, e afastados, de início, da possibilidade de satisfação. Se subseqüentemente alcançam êxito – como tão facilmente acontece com os instintos sexuais reprimidos – em conseguir chegar por caminhos indiretos a uma satisfação direta ou substitutiva, esse acontecimento, que em outros casos seria uma oportunidade de prazer, é sentida pelo ego como desprazer”.

Desnecessário dizer que Jung bateu nessa tecla várias vezes, embora quase tenha tido o mesmo destino de Nietzsche, como está registrado no capítulo VI de sua autobiografia. Ele insistiu que a negação de conteúdos reprimidos pode acarretar graves distúrbios no indivíduo, chegando à morte por doença psicossomática ou mesmo “acidentes” claramente provocados de maneira inconsciente.

O grande Jung, construtor de uma psicologia complexa e fascinante, insistia na importância de se ouvir a voz do inconsciente.

Querem um bom filme que aborda esse tema? O Cisne Negro, com Natalie Portman, narra o drama vivido por uma bailarina para alcançar a perfeição. A protagonista Nina parece ter uma resistência instintiva contra as forças de seu interior, mas a pressão profissional acaba fazendo-a ceder e se entregar. Tanto ela quanto sua predecessora no palco sofreram os reveses da destrutividade cega que advêm da Sombra. O resultado é o sucesso mas, com ele, a dissolução do ego e conseqüente psicose.  As cenas de automutilação me fizeram remexer na cadeira de tanto nervoso.

A propósito, não teriam sido as mesmas forças descontroladas que puseram fim a vida de Heat Ledger após sua incorporação do personagem Coringa de Cavaleiro das Trevas?

Existe um livro sobre imaginação ativa chamado A Velha Sábia, cuja autora é a analista junguiana Rix Weaver. Nele ela nos explica de forma extremamente compreensível como a psicologia humana pode ser vista refletida nos caracteres anatômicos do cérebro. Diz-nos que ao longo de sua evolução, o cérebro incorporou suas novas aquisições sobrepondo-as às antigas, de modo que eu sua estrutura podemos “ler” uma história que vai desde a “pequena anêmona do mar, até o desenvolvimento de um “novo” cérebro – o córtex – que tem a ver com o mundo externo”. Essa área recente tem uma função social, uma vez que refreia os impulsos.

O que acontece na espécie ocorre também em cada indivíduo. Durante a gestação, o cérebro passa por todas essas fases evolutivas como numa recapitulação. Presumivelmente podemos dizer que o mesmo acontece no plano psicológico. Ou seja, existe uma coincidência biológica atuando no plano da psique. Eis aí não apenas a explicação para os arquétipos, mas para todo o inconsciente coletivo, isto é, vozes de nossos ancestrais reverberando forte em nossos neurônios.

A anatomia cerebral e o estudo de sua evolução permitem enxergar um paralelo na natureza do inconsciente humano.

Portanto o cérebro antigo está aí há muito mais tempo e ocupa uma área muito maior do sistema nervoso, o que explica porque ele não é facilmente renegado. É até aconselhável que não seja. Jung alertava que ao lidar com o Inconsciente não estávamos nos relacionando com uma coisa propriamente humana, já que ele é muito mais antigo, e sim com uma força estranha a nós mesmos, um “sopro da natureza”.

Não há dúvida de que muitos humanistas e religiosos defenderam e seguiram uma vida pautada na Razão, essa preciosidade a que tanto valorizamos. Mas é inocência acreditar que podemos desprezar todas as nossas pulsões como se fossem artimanhas do diabo, simplesmente porque elas estão presentes muito antes de termos desenvolvido qualquer noção moral ou ética.

Até mesmo o altamente inteligente, racional e céptico Carl Sagan dedicou um livro inteiro na defesa dessa idéia tão junguiana. Em Os Dragões do Éden ele explica que a mente inconsciente, representada no plano biológico pelo cérebro “reptiliano”, foi demonizada pelo consciente, de tal modo que o Mal é muitas vezes representado na forma de monstros escamosos e rastejantes, serpentes e dragões. Para ajudar em sua tese Sagan apresenta o escritor Arthur Koestler e o neurocientista Paul MacLean. Para eles, o cérebro reptiliano desligou-se dos processos mais recentes, tornou-se estranho. Esse conflito entre os dois pólos da mente caracteriza as neuroses.

Por representar o irracional no homem, o inconsciente foi representado na forma animal em muitas culturas. No Ocidente, ele passou por um processo de demonização.

Seguindo a mesma linha, Michael Grosso utiliza o Livro do Apocalipse como ilustração para esse embate. Em O Mito do Milênio, ele escreve que “o Ego neocortical assume uma pose, adota um ar superior e se recusa a bater papo com o id reptiliano – com o monstro que João chamou de ophos archaicos, a velha serpente, que, para todos os paranóicos do futuro, ele denominou Sua Satânica Majestade.”

O ego, portanto, assume uma postura altamente tendenciosa, rotulando de mau aquilo que desconhece. Mas o inconsciente não pode ser taxado de bom ou mau, ele apenas desconhece as regras de conduta da civilização, essa frágil extensão de nossa consciência. Como dizia minha professora de História da Psicologia, o inconsciente é amoral. Na espécie humana, a mente tende a estacionar numa zona de equilíbrio e, embora o inconsciente seja ignorado pela maioria das pessoas, sabemos que pode reagir violentamente quando oprimido. Por isso mesmo não podemos considerá-lo uma mera velharia incômoda.

A união com os elementos instintivos, segundo os psicólogos, é a chave para a boa saúde psíquica.

E afinal de contas, é nele também que encontramos uma série de características que consideramos nitidamente humanos. De lá, do reino escuro do irracional, vem nossa fé, coragem, intuição, inspiração, expressão artística, nossa música, nossos sonhos, enfim, coisas que dispensam nossa razão fria e calculista.

Agora, com tudo isso, como não ser apaixonado por cinema?

BiosRéplicas – Para Profissionais e Apaixonados

Se eu posso ter a pretensão de imaginar que havia alguns visitantes regulares do blog, com certeza eles devem ter se dispersado depois desse lapso de mais de um ano sem publicar qualquer coisa. Ocorre que no segundo semestre de 2010 eu estava no último período da faculdade e a monografia (que eu pretendo publicar aqui), me consumiu todo o tempo. Logo depois eu fiquei sem computador e só retornei ao mundo da internet agora. Espero poder continuar com meu ritmo antigo, porque realmente gosto de estar aqui e receber os comentários de todos vocês.
Mas, quero aproveitar essa nota para falar de outra coisa.
Há cerca de um ano eu estava vagando pela internet quando encontrei um produto à venda que me deixou maravilhado. Era uma réplica de um crânio de Smilodon fatalis, mais conhecido como tigre-dente-de-sabre. A empresa é de Belo Horizonte mas eles negociam com o Brasil inteiro.

O nome do site é Biosréplicas e você pode procurar no google ou na minha lista (Lugares Bacanudos), aqui mesmo no blog. Sou testemunha de que o trabalho deles é sério e que são muito atenciosos no caso de qualquer dúvida. E não são apenas réplicas fósseis, mas também modelos muito didáticos de esqueletos, vertebrados, invertebrados, células, etc. Pra quem gosta, vale a pena conferir. Eu comprei o meu para deixar no meu quarto mas tenho certeza de que qualquer sala de aula iria vibrar com algumas peças que estão lá à venda. Grande abraço a todos, é bom estar de volta.