A JORNEY TO INDIAN – Karunesh

Quero falar de uma melodia indiana de autoria de Karunesh, por favor que souber onde consigo baixar a discografia completa me avise, até agora conheço apenas um álbum, e já virei fã.

Para mim, enquanto a maioria das drogas psicodélicas continua proibida por lei, o jeito é experimentar outras formas de se alcançar estados alterados de consciência. Uma dessas formas é através da música. Não qualquer música, não de qualquer maneira. É preciso estilo e ritual. Os humanos sabem disso há milhares de anos, e até hoje existem tribos onde os xamãs caem em transe após escutarem e dançarem ao redor de alguma fogueira, rodeados por um círculo de pessoas que cantam e batem ritmamente em tambores.

Nas grandes cidades esse tipo de experiência pode ser facilmente provocado, principalmente sob efeito contínuo das músicas eletrônicas que tocam nas casas noturnas. Pergunte a qualquer jovem freqüentador desse ambiente se já não se sentiu impelido a mover o corpo exatamente como se estivesse fora se si, em transe, absolutamente “levado”. Nesses casos o som pode ou não seguir a repetição monótona dos mantras ou cantos indígenas, mas é alto o suficiente para que o indivíduo tenha toda sua atenção concentrada nele.

Portanto, minhas impressões aqui relatadas seguem padrões de concentração que precisam ser seguidos caso alguma outra pessoa tenha a curiosidade de tentar algo do gênero. Não adianta botar a música pra tocar dentro de um ônibus barulhento ou enquanto outras pessoas falam. O ideal é que ela seja executada em mp4 ou algo do gênero, assim a mente fica mais livre de interferências externas e o som fica mais íntimo com as sensações internas, muitas vezes se tornando indiscerníveis destas. Faça isso à noite, com as luzes do quarto apagadas. Deite na cama, livre a cabeça de qualquer pensamento e deixe que os sons falem por si. Você vai perceber um efeito incrível ocorrendo, como se milhares de vozes se levantassem, subitamente despertas.

Aos que entendem de música, peço desculpas e paciência por minha ignorância absoluta no que diz respeito aos instrumentos que ouço, esta é uma descrição dos sons e das minhas impressões, nada técnico. Em muitas ocasiões terei que usar comparações esquisitas ou risíveis para descrever o som, já que não posso nem imaginar que tipo de instrumento o produza.

Além disso, estou superficialmente familiarizado com as técnicas de imaginação ativa da psicologia junguiana, e descobri que a música pode ser um excelente canal para que o inconsciente conte suas histórias sobre quem nós somos.

Disto isto, comecemos.

Muito bem, A Jorney to Indian começa com um som farfalhante, que lembra o som daquelas partículas mágicas que se desprendem cada vez que um mágico de desenho animado utiliza sua varinha de condão, ou quando Tinker Bell aparece no filme com sua característica chuva de partículas mágicas. É um som que me lembra estrelas cadentes (embora eu nunca tenha ouvido nenhuma); começa tímido e termina numa cascata suave e relaxante.

Então vem um som profundo, que me lembra um gongo tibetano soando lá no alto do Himalaia, isolado nas alturas, rodeado por um mar de floresta nativa. É um som que contrasta com a chuva de estrelas do início e provoca um efeito que atrai totalmente a atenção, como se a hipnose ou o transe tivesse tido início. Ao mesmo tempo, existe um som que vem de baixo, parecido com uma vocalização gótica, porém mais suave e ao mesmo tempo mais estilizada, de modo que não tenho certeza de se é feita por voz humana ou não. Logo em seguida tem início outro som contínuo, que parece provocado por um violoncelo ou coisa parecida, mas é difícil explicar.

Penso numa floresta indiana, Nagarole, e vejo a mata sombria diante de mim aproximando-se em câmara lenta, naquele efeito incrível do filme Apocalypto. De trás de uma samambaia que cresce sobre a raiz protuberante de uma árvore cheia de musgo, vejo um tigre surgir, silencioso e sensual como só os felinos sabem fazer. Percebo que não é um tigre real, mas uma criação simbólica para qualquer outra coisa inescrutável, parece-se mais com um desenho a nanquim, excessivamente simétrico e perfeito. Ora, isso acaba me lembrando um verso de William Blake: Tigre! Tigre! Ardendo em chamas nas florestas da noite…

Um matraquear de madeira toma conta da música, como se fosse asas de pássaros mágicos, e eu os vejo em revoada na beira de algum rio indiano.

Enquanto os pássaros se afastam, o violoncelo toma a dominância e realiza diversos sons muito belos, indo e voltando, como se o instrumento fizesse no ar movimentos redundantes, imitando o símbolo do infinito, deixando um rastro de cores e nuances. Ao fundo, as vozes humanas se tornam mais discerníveis e é possível perceber que vem de uma ou mais mulheres. Nesse momento sinto que a música já modificou minhas ondas cerebrais totalmente e começo uma viajem em outro plano. O violoncelo torna-se mais forte, com tons que variam de forma mais rápida, a chuva de estrelas volta por poucos segundos e então vem o som de um sino, muito agudo e rápido, como se para preparar para a segunda parte.

Percebemos agora um instrumento de corda, talvez um violão ou algo bem parecido. O som parece mais aberto e mais grave, o que dá mais dinâmica a música, embora o estilo transcendental continue o mesmo, porém ainda mais contagiante.

Nesse estágio, todos os instrumentos estão juntos, o que confere um ar muito misterioso e envolvente. Sinto-me rodeado pelo clima de mistério.

Então, cortante como uma navalha, entra o vocal feminino. A mulher canta de tal maneira que me sinto enlevado, como se já não houvesse outra coisa no mundo a não ser minha mente. E não é apenas o som, é também o idioma e a forma como as palavras são ditas, intercaladas por outros sons indiscerníveis e com o pano de fundo do qual já falei.

Então a música sofre uma pausa, mas mesmo da primeira vez dá pra perceber que não foi um fim abrupto, e sim o hiato necessário para que um novo elemento se fizesse presente.

Vem então um instrumento de sopro que recheia nossos ouvidos de uma maneira que eu só posso classificar como divina, sem exagero. Na minha cabeça, me vem uma imagem desconexa, apenas parcialmente explicável. Há um ano comprei um xadrez peruano onde, no lugar do bispo, existe um sacerdote inca com uma flauta na boca.

Talvez por isso, imagino um indígena pré-colombiano tocando tal instrumento, flutuando sobre uma floresta tropical, parado no ar acima de um vale onde corre um rio escondido pelas árvores. Observo seus olhos, e são tão expressivos. Entendo que não é um ser humano de verdade, mas outra coisa qualquer, um “sopro da natureza” como dizia Jung, e sinto que ele não detém nossa linguagem cotidiana, por isso se esforça para me dizer algo através das notas de sua flauta. Quase consigo compreender, mas é sutil demais para a mente desperta.

Nos dias em que estou mais inspirado, a sensação é a de que estou me desprendendo do corpo, flutuando para qualquer lugar na eternidade onde só exista esse enlevo, essa imersão. O Paraíso bem podia ser assim, mente e música, nada mais.

Recentemente li um artigo de Ricardo Costa (Ramon Llull (1232-1316) e a beleza, boa forma natural da ordenação divina. Sofia – Filosofia Medieval, vol. XI, ns. 15-16, Vitória, 2006, p. 333-348), onde ele cita um autor medieval, cujas palavras parecem apropriadas para trasncrevê-las aqui:

“Quando, de vez em quando a dileção pelas cores da casa do Senhor ou o esplendor multicolorido das pedras preciosas me distanciam, pelo prazer que produzem, de minhas próprias preocupações, e quando a honesta meditação me convida a refletir sobre a diversidade das santas virtudes, transferindo-me das coisas materiais para as imateriais, parece que resido em uma estranha região do orbe celeste, que não chega a estar completamente na superfície da terra nem na pureza do céu, e que, pela graça de Deus, posso transferir-me de um lugar inferior para outro superior de um modo anagógico” – Suger de Saint Denis,De rebus in administratione sua gestis, XXXIII, 198-199.

A mulher retorna e canta mais algumas palavras, que se dissolvem no som dos gongos e da chuva de estrelas cadentes.

Transcendental. Palmas para Karunesh

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